Um Novo Mundo
4 Mangtas
Eu fiquei sem palavras, perplexa. Meus olhos começaram a arder e meu rosto a queimar.
–Um... Um Mangtas?!-eu disse, incrédula, com lágrimas nos olhos.
–Sim, Gui. Um Mangtas.-Ele se virou para Chorão e conversou em um português totalmente arrastado e falado ao pé da letra.-Alex, você está me entendendo?
–S-sim, eu acho.-Disse Chorão, meio que sorrindo. Ele era muito otimista. Sabia que tinha sido atacado por um Mangtas, mas ainda assim nunca deixou de sorrir. Havia lágrimas em seus olhos também. Reparei que Quíron estava se segurando. Chorão e Quíron continuaram a conversar, ora em português, ora em grego antigo. Mas quando Annie, Ada, Bruce, Bryan, Louis, Carlos, Marry e Pedro (ufa...!) chegaram, eles começaram a conversar somente em português, pois assim eles não entenderiam completamente. Eu, sim, apesar de desejar não ter escutado nenhuma palavra do que eles estavam conversando. Tinha vontade de sair correndo e me esconder no fundo de uma caverna escura e úmida, até morrer esquecida lá dentro. Mas eu não podia. Tinha de encarar a realidade. Meu maior ídolo estava morrendo aos poucos.
Mangtas é o pior monstro que existe. Ele surgiu da mistura de todos os monstros do Tártaro, que fugiram durante a Guerra contra Gaia, segundo Quíron. A aparência dele é a mais esquisita de todas. Consegue tomar a forma que quiser, onde quiser, quando quiser. O seu efeito é ainda pior. Consegue manipular as pessoas e outros seres que estão à sua volta. E, na Guerra contra Gaia, Quíron descobriu, da pior forma, que um Mangtas pode atravessar os limites mágicos do AMS. Estremeci ao ouvir Quíron dizendo à Chorão que temia que isso acontecesse novamente. Me afastei dos dois, dando privacidade à eles, e fui me juntar ao nosso grupo. Olhei de longe para meus amigos. Oito campistas. Será que eu deveria contá-los? Ou deveria esperar até o jantar para Quíron anunciar? Não, pensei. Quíron não diria que Chorão foi atacado por um Mangtas em público. Ou diria? Ainda estava em choque pela notícia, não dava pra acreditar. Um Mangtas raramente atacava alguém. Ele gosta de torturar a pessoa, de vê-la seguir seus comandos. Tem prazer em ver as pessoas sentirem dor. Se Chorão foi atacado por um Mangtas, é porque ele realmente fez uma coisa que o deixou bastante perturbado.
Existem dois tipos de Mangtas, apenas. O Briesmones mangtá e o Smerte mirium. Quíron nos contou uma vez sobre a segunda espécie. É a fêmea. Grosseira, muito grosseira. Costuma referir a si mesma na 3ª pessoa. Parece estar possuída pela Samara quando abaixa um pouco a cabeça. É rabugenta. Geralmente, se disfarça de uma mulher baixa e branca, dos cabelos longos, cacheados e presos num rabo de cavalo incrivelmente alto. Sua face, ossuda. Depois de nos descrever ela, Quíron nos mostrou uma fotografia. A reconheci na mesma hora. Era minha ex-professora de geografia. Depois daquela noite sempre tinha pesadelos com aquilo, como se minha professora dissesse: "Você não fez meu dever, vou te manipular, Trotseer!". Ou ainda: "Trotseer, você está colando na minha prova?! Vou perfurar seu peito com os meus dentes!". Me aproximei dos meus amigos.
–E aí, Gui, o que aconteceu com o Chorão?-Pedro perguntou.
–Bem, não sei se devo contar isso à vocês. Nem sei se Quíron sabe que eu sei.
–Como?-Interrogaram Carlos e Marry em uníssono. Os outros soltaram uma sonora gargalhada, mas eu continuei aflita e com as mãos fechadas e inquietas.
–Que foi, Gui? Por que você tá com essa cara?-Perguntou Ada, tentando parar de rir.
–O que aconteceu com o Chorão foi realmente muito sério.-Os outros viram minha expressão. Calaram e se voltaram para mim imediatamente.-Mas vocês tem que prometer... Não, jurar que não vão dizer à Quíron que lhes contei. Não sei qual seria a reação dele. Jurem pelo Estige.
Todos, um a um, juraram pelo Rio Estige que não contariam a Quíron o que iria lhes dizer. Quando Pedro jurou, eu me sentei à beira do Lago, suspirando, arrancando algumas gramas rasteiras que o rodeavam. Ao jogá-las de volta no chão, encarei minha própria imagem refletida na água. Meus olhos se encheram d'água.
–Não tem jeito fácil de dizer isso-Comecei, sem saber por onde.-Chorão foi atacado por um Mangtas.
Annie caiu no chão. Louis (é claro) correu até ela primeiro, e em seguida Carlos a ajudou a se levantar. Louis permaneceu ao seu lado, segurando-a pela cintura e segurando sua mão. Estariam namorando e Annie não me contou? Balancei a cabeça. Não era hora de pensar nisso. Annie estava chorando.
–Um Mangtas?-Ela perguntou numa voz arrastada e fungando.
–É, Annie. Um Mangtas.-Comecei a chorar também. Levantei-me abruptamente da beira do Lago e enxuguei as lágrimas com meu braço. O Sol, quase se pondo, castigava meu rosto e minhas canelas. Fui até ela e Louis, percebendo minha intenção, se afastou. Abracei-a com força, tentando consolá-la. Não era fácil. Soltei ela, pensando estar sufocando a coitada. Como se não bastasse ela ter um dos seus ídolos morrendo, ainda tinha que morrer asfixiada. Assim que me distanciei, vi que Ada, Marry e até Bryan tinham lágrimas nos olhos. As de Ada já escorriam. Na mesma hora me arrependi de tê-los contado.
–Eu não deveria ter contado à vocês.-Disse, chorando ainda mais.-Não poderia ter compartilhado algo ruim assim.
–Tá tudo bem, Gui.-Disse Bryan, me abraçando. Bryan tinha os braços firmes. Me senti segura. Só então me lembrei de uma coisa.
–Gente, espera aí.-Falei, me afastando de Bryan.- Tentem disfarçar. Me esqueci que Quíron está logo ali, na Casa Grande.
Todos rapidamente disfarçaram.
–Façam o seguinte: vão se dispersando, pouco a pouco, e depois do jantar nos encontraremos na Praia.
–Mas... Isso é proibido, não? Sair depois do jantar.-Disse Marry, parecendo ainda mais fofa, se é que isso é possível.
–É, mas infelizmente temos de fazer alguma coisa. Quero dizer, se no jantar Quíron disser alguma coisa sobre Chorão, esqueçam tudo. Mas, se ele não disser nada, quero todos lá vinte minutos depois. Tomem cuidado.
Guardei minha espada, Thárros, em seu lugar e caminhei rapidamente até o Chalé 6. Ao chegar, empurrei a porta. todos os meus quatro irmãos mais novos estavam lendo, estudando ou conversando. Eram todos homens. Na parede do fundo, havia a foto de uma garota de cabelos louros e encaracolados dos olhos acinzentados. Em baixo, gravado em uma plaquinha dourada, estava escrito: "Annabeth Chase, obrigado por seus serviços prestados ao Acampamento, ao Olimpo e ao mundo. Sua lembrança será para sempre em nossos corações". Caminhei até minha cama, toda bagunçada, e deixei minhas coisas lá em cima. Peguei o laptop de Dédalo, que sempre pertencia ao Conselheiro do Chalé 6, e o abri. Enquanto ele se iniciava, meu irmão Brad, que tinha onze anos, se sentou ao meu lado.
–Oi.-Ele disse, fitando os pés.
–Oi.-Respondi, esfregando os olhos e tentando me livrar da vermelhidão que tomava conta deles.
–Tá tudo bem?-Ele se voltou para mim.
–O que você quer, Brad?-Disse, fungando.
–Nada. Você só não parece bem.-Ele voltou a olhar para os pés.
–Eu estou bem, tá legal? Agora, por favor, com licença, preciso ver uma coisa particular.
Ele se levantou, passando as mãos pelos cabelos espetados e castanhos. Senti pena dele, ele só queria me ajudar. Mas não tinha como. Não queria contar para mais pessoas o que estava acontecendo. Assim que o laptop se iniciou, pesquisei: "Ataque de Mangtas". Corri os olhos pela página, buscando algo interessante, e realmente encontrei. Um arrepio percorreu todo meu corpo. Deixei a pesquisa ali e o fechei levemente, olhando as horas. 17:48. Estava na hora de ir para o Pavilhão. Me levantei e disse:
–Corujos, está na hora de irmos para o Pavilhão jantar. Marquem a página em que pararam e formem uma fila única, por favor. Temos dois minutos para chegar lá.
Eles obedeceram. Nem olharam para mim. Provavelmente, pensavam que eu era a Irmã-Chata-Que-Odeia-Seus-Irmãos-Mais-Novos. Ao sair, Steven, o mais novo (Nove anos) e último da fila, apagou as luzes e fechou a porta. Caminhamos até o Pavilhão e conduzi-os até a nossa mesa, que era muito grande para apenas cinco campistas, e nos sentamos. Quíron, Sr. D., Chorão, e uma garota de cabelos ruivos já estavam presentes. Olhei em volta. Apenas nós, o Chalé 12 e o Chalé 10 estavam presentes. O jantar começava às 18:00, mas gostava de chegar lá mais cedo. Era ruim se atrasar. As filhas de Afrodite davam risadinhas olhando para Chorão, e ele, se divertindo, dava piscadelas para elas, que se derretiam feito manteiga.
Às 18:00 em ponto todos os chalés estavam presentes. Quíron se levantou e um silêncio tomou conta do lugar.
-Boa noite, campistas. Hoje quero falar sobre algo importante. Uma coisa realmente séria.-Eu e meus amigos trocamos olhares.-Este é Chorão-ele disse, indicando Chorão com a cabeça, que deu um leve aceno.-, e ele não está aqui à toa.-Fez uma pausa.-Creio que todos conheçam um Mangtas, com exceção de Louis. Estou certo, Louis?-Todos se voltaram para a mesa do Chalé 11, que era onde ele estava. Estava sentado ao lado de Annie. Quíron parecia estar adivinhando que contei à ele.
-Sim, senhor. Não sei o que é um Nangtas.-Disse Louis, firmemente, e soltei um suspiro, aliviada. Ele sabia mentir.
-Um Mangtas, garoto.-Corrigiu o Sr. D.- Pelos deuses, não há mais gente inteligente neste Acampamento com exceção de mim?-Eu e meus irmãos olhamos incrédulos para ele.-Que foi?
-Enfim,-disse Quíron, retomando o assunto.-é disso que quero falar hoje. Chorão foi atacado por um Mangtas.-Ninguém conseguiu expressar nada. Houve um silêncio tão longo que parecia uma eternidade.-Como já é de seu conhecimento, não há cura para este tipo de ataque... Pode falar, Gui.
Eu havia levantado a minha mão. Todos olhavam absortos para mim.
-Na verdade, Quíron... Há sim uma cura para o ataque de um Mangtas.
Fale com o autor