Um Novo Dia

6 Capítulo 6 - Amigos são para essas coisas


Enquanto eu procurava a pá no bagageiro do Jeep, me peguei pensando que diabos era aquilo. Eu Bill McGray.....um jovem homem, terminando a universidade, popular, bonito... O que eu estava fazendo ali? No meio de um lugar deserto, herdeiro de uma quitanda, tentando acreditar em uma história absurda de uma ampulheta, uma árvore, uma cruz... Achei a pá! Só o Angelis mesmo pra carregar uma pá em seu porta malas!

Os pensamentos passaram rápido, achava que tudo aquilo era coisa de maluco, mas tenho um amigo que acredita nisso e acredita em mim, então tenho que ajudá-lo mesmo que fosse para saltar de um bungee jumping sem cordas.

Atravessei o armazém correndo. Cheguei ao pátio da casa.

_ Angelis, trouxe a pá. Onde vamos cavar? Angelis?

Olhei para todos os lados e nada, a sombra da cruz já havia passado pela árvore.

_Angelis, onde você está?

O sol batia forte naquela hora do dia, me surpreendi quando vi que todas as pêras que estavam na árvore há minutos atrás, agora estavam no chão.

_ Ok meu caro anjo, chega de brincadeira. Onde você está? Agora entendi o porquê de tantas tortas nessa casa. Se você acha que além de quitandeiro vou ser quituteiro está muito enganado.... Angelis, chega! Apareça.

Comecei a me preocupar, liguei para o celular de Angelis e como imaginava estava fora de área. Aonde esse menino teria se enfiado? Será que havia sido sequestrado? Morto? Será que tem um serial killer nesse lugar?

_Para Bill! Não pense essas coisas! _ Disse pra mim mesmo.

Esperei um tempo ali, me sentei, cantarolei, pensei, pensei. Isso tudo só poderia ser uma loucura mesmo. Aqueles pensamentos horríveis estavam voltando.

Resolvi esperar no Jeep. Angelis não deveria ter ido tão longe, com certeza voltaria logo.

Quanto sai pela porta do armazém um morador me parou:

_Boa tarde! O senhor deve ser o novo dono do armazém?

Na hora fiquei surpreso com aquela pergunta, mas respondi.

_Sim, sou eu! Percebo que as noticias correm rápido por aqui.

_As vezes! _ Sorriu_ Veja que maravilha! E quando o armazém abrirá novamente?

_Vamos entrar em reforma. Ainda não temos previsão.

_ Percebo que você já começou._ Disse o senhor olhando para a pá na minha mão.

_ Na verdade não, eu só estava tentando enterrar um fuxiqueiro que passou aqui há pouco. _Eu disse em tom de deboche.

_Ah Sim_ Disse ele e sorriu_ Passar bem Sr. McGray! Mande lembranças minhas ao Angelis.

O senhor abusado foi saindo.

Me encostei no Jeep na esperança de que Angelis chegasse a qualquer momento, ao menos esperava que isso acontecesse.

Já se passava das 15h e eu já estava cansado de esperar, me restava uma ponta de esperança de que Angelis tivesse voltado pra casa. Sabia que não, mas tentava me enganar. Minha preocupação já estava me deixando nervoso. Onde teria ido?

Entrei novamente, lembrei que Angelis sempre me contava que ele e seu avô voltavam do armazém com pêras. Recolhi algumas e coloquei em um saco, peguei mais algumas coisas pra comer e fechei o armazém.

Subi no Jeep e fui em direção ao sítio, não pude deixar de olhar a cruz na torre da igreja enquanto passava por ali. Decidi que voltaria na manhã seguinte para tentar descobrir o que estava havendo.

Assim que passei pela igreja o telefone tocou, um alívio tomou conta do meu corpo, era Angelis. Estacionei o Jeep na beira da estrada, e quando fui atender quase xingando ele, vi que no identificador de chamada dizia “Angelis Mãe”. Meu alivio naquele instante se transformou em pânico. A mãe de Angelis é uma mistura de Jane Fonda em A Sogra com Mãe Alien, se algo acontecer a seu filho, é hora de correr, ou melhor, de sumir!

_ Oi Sra. Ospita, como est..._ Nem consegui terminar a frase_ Sim ele está bem!_ afastei o telefone do rosto e ainda conseguia escutá-la dizendo que estava tentando ligar a horas pra Angelis e o celular estava fora de área.

_ Sr. Ospita, é que Angelis deixou o carregador no sítio e acabou a bateria_ Senti do outro lado um suspiro de alivio, mas mesmo assim ela queria falar com ele, nessa hora um bom improviso sempre conta.

_ Ele foi até o armazém pegar umas pêras, e volta em seguida, se não tomar um chá de sumiço é claro!_ Tive que conter o riso_ Não se preocupe, assim que ele chegar peço pra ligar para a Sra.... Sim estou bem! Me sentido um pouco só e perdido, mas espero que ele chegue em seguida! Um abraço para a senhora também!

Desliguei o celular e não consegui saber se ria ou chorava. Como eu ia explicar para mãe de Angelis que ele simplesmente sumiu em segundos como em um passe de mágica? Mas isso era uma coisa pra se pensar depois, afinal Angelis ia estar no sítio assim que eu chegasse, não sei como, mas ele vai estar lá!Tem que estar!

Liguei o rádio para tentar não pensar nisso, para minha surpresa tocava Fix You do Coldplay, lembrei naquele momento de quando ficamos horas na fila do show deles, abaixo de chuva e Angelis estava com um gripão, mas como eu não queria ir sozinho ele foi assim mesmo.

_ Amigos em todas as horas certo?_ Disse ele_ Sempre vou com você onde você precisar, Bill!

O show foi incrível, e mais incrível foi ficar ouvindo a mãe dele me repreendendo uma semana por ele ter piorado da gripe.

Cheguei na porteira do sítio, desci para a abrir-la, foi quando avistei Bob vindo em direção do Jeep. Naquele momento percebi que Angelis não estava ali. E eu não sabia onde ele estava ou como estava.

Estacionei o Jeep na frente da casa, ainda era cedo, o sol refletia forte no lago. Me sentei no portal da varanda e Bob veio para meu lado.

_ Pois é meu amigo_ Disse para o cachorro_ Acho que por enquanto será só nós dois.

Bob se afastou de mim, ai me dei conta que já estava perdendo os sentidos mesmo, já estava conversando com cães!

Fiquei um tempo ali sentado até começar o entardecer, pensei em muitas coisas, mas tudo era tão absurdo, tão sem sentido, nada se encaixava. Mas eu não poderia mais ficar ali parado.

Me levantei e adentrei a casa. Tinha que ter alguma pista ali. Olhei por todos os cantos da cozinha. Percebi a louça da janta estava na pia ainda. Ri, lembrando da piada que tínhamos sobre quem iria lavar a louça.

Abri todas as portas que tinham na sala, achei até uns discos de vinil que eu pediria assim que ele voltasse.

Subi. Entrei no quarto de Angelis, mexi em tudo, sai dali e fui para o quarto do avô de Angelis. Achei interessante, havia alguns porta retratos com fotos de todos da família. Uma das fotos, acredito que fosse a avó de Angelis, uma senhora com um rosto bem simpático.

No criado mudo ao lado da cama, havia uma foto de Angelis e seu avô, deveria ter sido em algum dos verões passados, pois os dois seguravam um peixe e o sol que estava na foto indicava isso.

Vendo aquela foto percebi o quanto os dois se gostavam e eram amigos. Ali entendi o quanto Angelis deve ter sofrido com a partida de seu avô. Fiquei olhando aquela foto por uns instantes, os dois ali no píer do lago. Fiquei imaginando como teria sido aquela cena. Quando percebi que algo tinha naquela foto.

Olhando bem, percebi que em cima dos mourões da ponta do píer, haviam símbolos, um em cada mourão. Era o mesmo símbolo do papel que Angelis havia me mostrado.

_ Claro!_ pensei em voz alta.

Desci correndo as escadas, atravessei a varanda. Percebi que Bob levantou a cabeça quando passei. Desci até o píer.

Era um píer simples, a primeira vista, como todos os píeres que a maioria dos lagos têm, de madeira rústica com uns três metros de comprimento. Fui chegando até a ponta onde estavam os dois últimos calços. Pude ver a gravura com mais nitidez, e sim, eram os símbolos da cruz celta. Tateei o da esquerda, tendo a certeza que aquilo ali queria dizer alguma coisa, mesmo ainda não sabendo o que.

Fui para o lado da direita, o que parecia estar mais apodrecido pela ação do tempo e da água.

Na parte de cima, parecia que o círculo em torno do símbolo era mais profundo. Bati algumas vezes no tronco. Fui até o da esquerda e bati novamente. Tive a certeza que o da direita era oco.

Corri de volta a casa. Peguei uma faca na gaveta da cozinha e voltei para o píer. Comecei a empurrar a faca na volta do círculo. Não demorou muito e, eu saquei a tampa do mourão.

Me senti um super investigador, como eu era definitivamente.

Olhei pra dentro e não consegui ver nada, o cheiro que saia dali não era dos mais agradáveis, algo como mofo. Tinha que colocar meu braço ali dentro para saber se havia algo, mas só de pensar o que poderia ter ali dentro (eu não estaria vendo) me dava arrepios.

Tomei coragem, contei até três e enfiei a mão naquele buraco, tinha umas coisas moles, nojentas e era molhado também. Fui me aprofundando mais até que meu braço todo estava dentro do tronco de madeira.

Se alguém visse aquilo iria pensar que eu estava sendo engolido pelo píer, ou que estava desenvolvendo uma nova modalidade de pescaria.

Fui tateando aquelas coisas nojentas ali dentro até senti que toquei algo quadrado. Não exitei em pegar o objeto e puxar. Quando tirei meu braço, deu pra ouvir o barulho do vácuo.

Larguei o objeto no chão do píer, e olhei meu braço. Estava coberto por uma espécie de lama de madeira podre, que cheirava muito mal. Tive um tremor de nojo daquilo, enfiei meu braço no mesmo momento dentro da água. Fiquei esfregando aquilo, enquanto me arrepiava de nojo.

Quando me limpei bem, olhei e vi que tinha retirado de dentro do píer uma pequena caixa, e o pior ia ter que limpá-la também. Não pensei duas vezes, peguei aquela caixa e enfiei dentro da água.

Bob me observava sentado na ponta oposta do píer.

Tenho a certeza que ele estava pensando: “ De onde saiu esse cara tão doido!”

Percebi que a caixa era igual a que Angelis tinha me mostrado com a chave na viagem. Não acreditei! Abri a caixa sabendo que a chave estaria dentro dela. E lá estava ela estava ela, intacta.

“Será que ele havia colocado a chave dele ali no píer?”_ Pensei.

Para ter a certeza fui até o Jeep para conferir se a chave ainda estava no porta-luvas. Ao abri-lo percebi que a caixa ainda estava ali dentro, tirei e a abri. A chave de Angelis não estava dentro da caixa.

Me dei conta de que Angelis tinha colocado o cordão de couro com a chave no pescoço desde o dia que seu avô tinha falecido.

Então a outra chave era uma cópia. A minha cópia.

Perfeito! Agora já tinha a minha chave, mas pra que? Se não havia ampulheta, nenhum lugar em que eu pudesse usá-la. Todo meu euforismo havia passado. Me senti um inútil.

_ Voltamos a estaca zero!_ disse para Bob enquanto voltava pra casa.

Quando percebi já era noite, fui pra cozinha fazer algo pra comer, não que estivesse com fome, na verdade não sentir fome estava sendo um milagre. Me assustei quando o telefone tocou e fui ver era a mãe de Angelis, deixei tocar.Naquela hora era tudo que eu não precisava escutar. Tocou uma, duas, na terceira tentativa tive que atender.

_ Oi Sra. Ospita, como tem passad..._ sempre me interrompendo_ Sim dei seu recado pra ele, agora ele está no banho... Ah sim! Não atendi porque estávamos lá em cima conversando. Ele agorinha ainda acabou de dizer que estava com saudades e que ia ligar! ...Pois é acho que ele deve ter enterra..quero dizer esquecido o celular no armazém, pode deixar assim que ele chegar aqui peço pra ligar para a senhora. Boa noite!

Odeio mentiras, mas não menti totalmente. Assim que ele chegasse, eu daria o recado e ele ligaria de volta. Só não sei ainda quando ele vai chegar! Resolvi desligar o celular, pra não correr mais riscos.

Fiz dois sanduíches, um pra mim e outro para o Bob, enquanto comíamos, eu a mesa e ele no chão, admirava aquela chave na minha mão. Pensei em várias maneiras de usá-la, mas nenhuma com uma real utilidade.

Em meio aos meus devaneios mentais, me peguei olhando para o chaveiro que ficava na parede da cozinha. Ali descansavam vários molhos de chaves, mas uma me chamou atenção, uma chave com um chaveiro onde estava escrito “Sótão”.

Como não havia pensado nisso antes? Claro, sempre há algo interessante no sótão, ao menos é o que sempre assisti em filmes.

Peguei a chave e subi para verificar o que havia lá. Subindo as escadas, depois de passar pelos quartos, no final do corredor lá estava ela, a porta que ia me dar a resposta que eu precisava. Coloquei a chave na fechadura, e girei, quando senti que a porta havia destravado, a sensação que eu tinha era que estava em um filme de suspense, ou era personagem de uma história de um livro de terror. Subi uns dez degraus e procurei o disjuntor da luz. Ascendi.

Pra mim que estudava arte aquilo era o paraíso, parecia mais um museu, havia ali muitas peças antigas.Tive a sensação que aquilo estava ali há gerações. Percebi que um lado era dedicado as coisas do Angelis: Brinquedos antigos, álbuns de figurinhas, bolas, livros, etc etc.

Andando mais a frente avistei uma estante com vários livros, livros de todos os assuntos, mas um em questão me chamou a atenção. Não parecia ser um livro antigo. Tirei-o da prateleira e percebi que ao lado tinha outro semelhante, e outro e mais um, parecia volumes de uma enciclopédia , quando abri percebi que se tratava de um diário, era todo escrito a mão, o mais interessante é que o folhando, percebi que não havia datas, somente escritas.

Em uma delas dizia:

“Hoje recebi o Rei. Há muito não nos víamos. Nossa felicidade era mútua. Ele trazia duas noticias e eu tinha uma.”

Achei aquilo estranho e sem sentido, dei mais umas folhadas:

“ A iniciação acontecerá hoje. Ainda não tive coragem de fazer o mesmo. Ainda não temos o Backup”.

Ali tive a certeza do que se tratava, ou melhor, mais ou menos. Mas a maior certeza é que ali estavam os diários do avô do Angelis.

Comecei a pegar todos e ler, muita coisa não conseguia entender, pareciam poemas, ou qualquer outra coisa, pois escondiam os verdadeiros fatos.

Em um deles, havia o desenho de uma árvore com uma cruz em cima. Entendi que se tratava da árvore do armazém, mas ali nada estava escrito.

E assim dei uma olhada em todos os diários que ali estavam, percebi que já era tarde, desci para a cozinha, e como mania, dei uma olhada no meu celular para ver se havia uma chamada, foi quando me dei por conta que tinha desligado algumas horas antes.

Decidi que assim que amanhecesse eu iria para o armazém e esperar o horário que a sombra da cruz tocasse a árvore, para eu poder cavar. Imaginei até dançar, mas alguma coisa iria acontecer.

Peguei uma das pêras que havia trazido do armazém e fui me sentar na sala para degustá-la. Enquanto pensava em tudo o que havia lido, em muitos trechos citava a visita do rei. Mas como? Como ele chegava até aqui.

Foi quando fiz essa pergunta olhando para a pêra que segurava em frente ao meu rosto, que obtive a resposta.

Segundo o boletim de ocorrência da policia, quando o avô de Angelis morreu, o porão não tinha sinais de arrombamento, e a explosão se deu lá dentro, como se viesse de um lugar que eles não sabem de onde.

É claro! A passagem do rei era pelo porão!

Peguei o molho de chaves no chaveiro, umas lanternas na gaveta da cozinha. Dei a volta na casa e cheguei até a porta do porão.

De inicio fiquei meio com medo, afinal ali tinha morrido uma pessoa e desde então ninguém havia voltado lá, tanto que nem a instalação elétrica havia sido feita.

Quando dei por conta Bob estava ao meu lado. Confesso que senti um pouco menos medo. Descemos.

A luz da lanterna era bem boa até. Tudo ainda estava no lugar desde o acidente. Muitos entulhos, pó, o cheiro de umidade abafada era forte.

Fui adentrando até que vi o lugar onde ficava a ampulheta. Isso eu deduzi.

Uma mesa de pedra bruta, parecia bem antiga mesmo. Tateei para ver se encontrava algo, mas sem sucesso.

Fui iluminando todos os cantos para ver se conseguia achar algo me desse uma pista.

Ao me afastar e focar a luz para o lugar onde supostamente descansava a ampulheta, percebi que na parede de trás havia uma espécie de arco feito com as mesmas pedras que o alicerce da casa foi construída.

Me aproximei e comecei a tatear parede, colocava a lanterna bem próxima para ver se eu conseguia achar algo. Quando comecei analisar o arco , vi que em cada pedra havia um pequenino símbolo, como se fosse uma escrita. Se tratavam de símbolos antigos, cada um representava um deus nórdico.

No topo do arco havia o símbolo da cruz celta, achei que ali estava a resposta, logo abaixo do símbolo, um orifício em forma triangular que parecia perfeito para encaixar a chave que eu tinha.

Coloquei a chave no orifício na certeza de algo aconteceria, mas nada aconteceu.

Já estava ficando cansado de tudo aquilo, me afastei.

Foi quando deixei a pêra que carregava na mão cair, a chutei de raiva.

Foi quando a pêra sumiu dentro do arco, como se tivesse atravessado a parede.

Não acreditei no que tinha visto. Fui me aproximando e tentei tocar a parede de dentro do arco. Foi quando minha mão passou por ela. Tirei rapidamente. Tinha conseguido! Mas e agora? Passava por ali? Aonde ia parar?

Respirei fundo! Contei até três e com medo de bater com a cabeça na parede, atravessei.