Um Mundo Assombrado Pelos Demônios
17 Esperança
Notas iniciais
Kiku podia ouvir a chuva forte do lado de fora, se sentia enjoado com o jeito que o barco balançava sem parar, mas sabia que para eles, não era nada mais do que eles mereciam. Apenas não sabia para onde estava indo, nem mesmo há quanto tempo estava naquele porão, era escuro e tinha apenas alguns buracos em cima para o oxigênio, nada mais e mesmo aquilo não emitia luz, de forma que nem mesmo tinha ideia se era dia ou noite.
Tudo que sabia é que estava cansado daquilo. Passou meses vivendo em um lugar que mais parecia uma prisão mascarado de hospício, alguma coisa assim. Havia vários psiquiatras lá, mas eles não se empenhavam em curar os doentes, estavam ali apenas de fachada. Quando chegou lá, achou que pelo menos iria se encontrar com seu irmão, porém não foi possível, lá não havia chineses apenas japoneses e italianos.
O governo tratava todos os japoneses como uma ameaça em potencial, fizeram-no várias perguntas, suspeitaram até que ele guardava bombas consigo. Como ele poderia fazer isso? Não tinha mais nada do que trapos e uma dignidade ferida.
A única coisa que o manteve vivo esse tempo todo foi as lembranças de Alfred. Passava horas se perguntando onde o amado estaria, se ele estaria bem. A última lembrança que teve dele foi a imagem dele chorando como um bebê, depois ainda viu seu rosto ser golpeado diversas vezes por aquele que seria seu algoz. Uma imagem chocante e extremamente triste que o fazia querer chorar o tempo inteiro, entretanto ele lutava para pensar em horas antes quando fez amor com o americano. Também se limitava a imaginar os dois juntos sempre que podia, ele nunca deixou de amar Alfred.
Ele estava tirando —aquilo que parecia mais próximo de— um cochilo quando sentiu o barco atracar em algum lugar. Era fácil saber quando isso acontecia, pois o porão dava um tranco tremendo que fazia seu corpo ir para frente e bater no chão, assim como o grito das pessoas quando isso acontecia. Pelo menos estavam em família, o que amortecia a queda. Ele não tinha ninguém.
Quando retornou ao seu lugar, não ousou mover um músculo, se limitando apenas em puxar suas pernas para o seu corpo e encostar o queixo em seus joelhos. Sentia medo com o que estava por vir, não sabia exatamente se aquela era a parada definitiva, pois já houve muitas outras. Apenas sabia que em qualquer caso devia se manter quieto e encolhido no canto, foi a única ordem que a tripulação fez quando enfiou todo mundo naquele porão. Aliás, apenas sabia que tinha pessoas comandando aquele barco pelo fato dele ainda estar inteiro, pois podia jurar que foram deixados a esmo, já que ninguém falava nada. Nem mesmo na hora de comer era possível ver alguém, porque ela vinha através de uma roldana e balde.
Curiosamente naquela vez as portas do porão se abriram e apareceu a silhueta de uma pessoa. Pela primeira vez pôde saber em que período do dia estava e aquilo era como um alívio para Kiku, talvez como uma certeza de que ele não estaria morto. Em seguida desceu um rapaz, ele era ocidental e parecia bastante desgovernado, olhando de um lado para o outro como se estivesse procurando alguma coisa, seus olhos estavam arregalados e ele estava branco como neve.
—Solo un momento... —Sussurrou o rapaz em voz tão desesperada quanto sua aparência. Ele olhou para trás onde estava o alçapão e tentou subir de volta, mas foi pego de surpresa com a porta fechando próximo ao seu rosto, fazendo-o apertar os olhos e lacrimejar com a poeira que voou neles. —Mio fratello. Per favore. —Ele balbuciava socando a porta na esperança de que alguém abrisse e falava entre pausas como se tivesse com algo entalado na garganta.
Kiku olhava constantemente para o rapaz, em seguida para todas as outras pessoas no lugar que pareciam nem ligar para a existência do novo companheiro de cela. Essa era o comportamento mais prudente naquele tipo de situação, mas ainda sim era cruel e egoísta. Kiku não conseguia ser assim. Então ele se levantou, lutando contra a tontura e foi até onde o italiano estava, colocando a mão em seu ombro.
—Ei, você fala inglês? —Perguntou o japonês em um tom calmo sem querer assustar o rapaz, porém viu que nem isso foi possível, pois o outro virou tão rápido sua cabeça em direção a Kiku e começou a tremer.
—Sì. —Respondeu em um tom assustado, encolhendo os ombros e o pescoço. —Mio fratello... Mio... Mio... Irmão... —Sua voz começava a vacilar conforme a frase era formada como se tivesse procurando as palavras corretas, mas justo na última palavra sua voz morreu lentamente e Kiku viu seus olhos cheios d’água.
—Eu também perdi um irmão. —Confessou Kiku na tentativa de ganhar a confiança do italiano. O que pareceu deu certo, pois o mesmo relaxou um pouco, embora continuasse tremendo. —Sente-se comigo e me conte o que aconteceu, podemos ficar juntos, é o melhor nessa situação.
O rapaz pareceu hesitante por um momento, porém balançou a cabeça levemente para cima e para baixo em sinal de positividade e Kiku o levou para um espaço que sobrou perto de onde ele sentava. O italiano abraçou seus próprios baixos e seguiu o japonês com a cabeça baixa, havia muito pesar em seus olhos como se carregasse uma culpa enorme.
—Primeiro, como é o seu nome? —Perguntou Kiku calmamente.
—Feliciano. —Respondeu carregando no sotaque italiano.
—Meu nome é Kiku. —Falou dando um pequeno sorriso para seu novo amigo, se pode dizer assim. —Me diga, o que aconteceu com você?
Feliciano engoliu em seco por alguns segundos, se perguntando se devia mesmo contar sua história para um desconhecido. Não é como se tivesse mais alguma coisa a perder, ele já não tinha mais nada além das roupas do corpo, até mesmo seu irmão gêmeo, a única pessoa que lhe restava foi separado dele agora mesmo. Sentia-se triste, desamparado, sem esperança, já passou por tanta coisa nessa guerra que imaginava que nada mais pudesse o atingir. Infelizmente, ele sabia que estava errado.
—Bem, faz dois anos que eu e o meu irmão estávamos vivendo em uma cabana no sul da América com outros italianos. Disseram que iriam nos realocar, mas eu não sei o que queriam dizer com isso, não sabia que iam me separar do meu irmão... —Sua voz foi vacilando conforme ele contava, sendo que no final ele parou com um soluço e começou a chorar, escondendo seu rosto sobre as mãos. —Eu não posso ficar longe dele, ele é tudo que me resta. Não quero voltar para a Itália, lá não é o meu lar mais. —Disse desesperadamente, soluçando cada vez mais forte como se estivesse sufocando nas próprias lágrimas.
Kiku em um ato de compaixão, passou seus braços ao redor do novo companheiro e o puxou para si em um abraço, deixando que o italiano me apoiasse em seu corpo para chorar. Sabia o quanto isso era importante, ele mesmo já passou diversas noites chorando por todas as pessoas que perdeu. Feliciano se segurou em Kiku de tal maneira como uma criança em sua mãe, escondeu o rosto em seu ombro e ficou soluçando lá por diversos minutos, até deixar o ombro do japonês completamente molhado.
—Por que isso está acontecendo comigo? —Lamentou-se Feliciano ainda agarrado ao mais novo amigo.
—Está acontecendo com todos nessa guerra. —Consolou Kiku sem saber ao certo como fazer isso, já que não havia palavras de conforto o suficiente para aquela situação deplorável.
—Eu odeio guerras, elas tiram aqueles que são mais importes de mim.
O japonês entendia que não era apenas o irmão que ele havia perdido em uma guerra, mas também não queria entrar em detalhes com o outro, pois parecia ser um assunto bastante sério. Feliciano estava realmente acabado, havia manchas roxas e arranhões pelos seus braços descobertos e ele estava bastante molhado, provavelmente por ter enfrentado a chuva que até agora assustava. Aquilo tudo era um inferno sem fim.
—Então, onde estávamos agora? —Perguntou Kiku querendo desviar o assunto triste e ao mesmo tempo saciar uma curiosidade, já que não tinha a mínima noção de tempo e espaço há muito tempo.
—Canadá. —Respondeu Feliciano agora com a voz mais calma, mas ainda possuía resquícios de choro por conta do seu tom nasalado.
Kiku ficou bem pensativo com a resposta do italiano, ele ficava se perguntando por que estava no Canadá e onde era o seu destino final. Se pudesse chutar alguma coisa, seria a morte, algo que não era muito difícil de acontecer pelo modo como estavam o tratando nos últimos meses. Não era raro ver alguém doente naquele porão e alguma dessas doenças podiam se espalhar, ninguém se importaria se ele morresse. Ninguém sentiria a sua falta.
A única coisa que manteve Kiku vivo todo esse tempo foi Alfred, pois sem ele não havia mais motivos para viver. Eles se separaram sem ao menos se despedir um do outro, deixando uma lacuna enorme entre eles, algo que ele queria fechar, mesmo se tivesse o pensamento de que nunca veria o amado novamente. Alfred era um herói, foi a primeira coisa que disse para ele e heróis não costumavam morrer, por isso Kiku sempre sonhava que um dia o americano o salvaria de toda aquela tortura. É uma pena que essa é a vida real.
Não soube contar quanto tempo demorou a atracarem pela última vez. O tempo não parecia passar e a única noção que Kiku tinha dele foi por causa de seu cansaço cedendo cada vez mais, mas não tinha certeza se isso acontecia na parte da manhã ou da noite, pois aquele calabouço era sempre escuro. Feliciano também teve uma grande importância para distraí-lo, as coisas não pareciam demorar desde que descobriu que seu amigo italiano tinha o dom da fala e assim que se tornaram mais próximos, ele falava o tempo todo. Claro que houve momentos tristes na viagem, lembra-se de um em que um senhor japonês morreu e a família se desesperou quando via o cadáver sendo puxado por um guindaste. Não se sabe que fim deu ao corpo, mas não era difícil de adivinhar. Estavam em alto mar e sem previsão de atracar, só que era triste, até mesmo nojento pensar nessa possibilidade.
Momentos depois do barco atracar, um senhor desceu até o porão e começou a acorrentar todos juntos e falava com um almirante mais jovem em uma língua que Kiku não conhecia. Ela era robusta e pesada, o jeito daqueles homens o assustava mais do que os policiais americanos. Eles pareciam bem mais perigosos e sádicos.
Quando chegaram em Kiku, o japonês se encolheu um pouco com as sobrancelhas franzidas do mais velho, em seguida sendo acorrentado por pesadas algemas de ferro que parecia estar oxidado. Eram tão pesadas que machucavam o pulso de Kiku e ele sentia que não era capaz de levantar o braço, ficar naquela posição era ainda mais desconfortável. Ele foi empurrado pelo almirante para fora do barco e assim que saiu finalmente daquele lugar horrível pode sentir o vento gelado bater no seu corpo. Apesar de toda situação caótica, era simplesmente lindo poder ver a luz depois de tanto tempo, parecia a primeira vez que a via na vida. Sentir o vento batendo em seu rosto, então, era um alívio duplo que o faziam lembrar que ele estava vivo. Tudo aquilo era tão encantador que Kiku quase se esqueceu de onde estava e o que estava fazendo lá.
Quase.
Assim que todos estavam enfileirados de lado, Kiku moveu sua cabeça para ver onde estava Feliciano, que infelizmente estava longe dele, na outra ponta. As algemas foram conectadas por uma corrente forte de modo que ninguém poderia correr sem arrastar o outro. O senhor e o almirante ficaram de frente aos prisioneiros e o mais velho começou a falar em outra língua.
—Atenção. —Chamou o almirante mais jovem, ele tinha uma voz calma e não remetia tanto medo quanto o seu superior, mas só o fato dele estar naquela farda já era assustador. —Não haverá água até atravessar e não paramos para prisioneiros feridos ou doentes. —Ele olhava constantemente para o maior, em seguida falava diretamente para os prisioneiros, traduzindo o recado terrível.
Os dois se viraram e começaram a andar, o primeiro da outra ponta também andou atrás dele, puxando todos que estavam atrás. Pelo menos uns cinco guardas estavam por trás na última ponta, todos eles com riffles prontos para atirar no primeiro que quisessem, eles tinham uma presença muito ameaçadora.
Assim que saíram do porto, Kiku pode perceber o quanto ele estava vulnerável. O frio era intenso e horroroso, ele podia sentir que iria congelar a qualquer momento. Havia muita neve na América, se lembrava de vários invernos frios, mas nada não chegava nem perto do que sentia agora. Olhava no horizonte e tudo que podia ver era gelo, não era atoa que os militares estavam com casacos de pele grossos. Sabia que poucos iriam chegar ao destino final, ele mesmo não sabia se poderia escapar daquele frio intenso com pouca roupa, mesmo assim ninguém parecia não estar nem ai, muito pelo contrário, se divertiam com os rostos dolorosos que os prisioneiros faziam.
Foi a caminhada mais longa da sua vida. Não tinha certeza se era porque suas pernas estavam fracas depois de tanto tempo sem serem usadas ou se era por causa dos ventos e da neve que o empurravam constantemente —talvez os dois. Dois morreram, conforme sua previsão e os militares sequer pararam para prestar socorro, os prisioneiros eram obrigados a arrastar as carcaças sem vida dos pobres coitados. Era algo tão surreal que Kiku pensa que nem na vida animal aquele tipo de coisa acontecia.
Perto do final, percebeu que era um forte grande de aço que ficava ao lado de uma mina no topo de uma montanha. Quando chegaram, o superior foi finalmente até as pessoas mortas e as tiraram de lá, jogando seus corpos sem nenhum cuidado sobre uma vala de gelo e não demorou muito para que quatro urubus fossem até lá comer as carniças.
Aquela cena foi de arrepiar, Kiku podia sentir o asco subindo até ele derramar tudo em forma de vômito. Faz tempo que o japonês não comia algo, então não tinha nada para sair de seu estômago além de ácido e aquilo doeu o caminho inteiro do estômago para a sua garganta, parecia uma úlcera de tão forte que foi. Só não foi mais doloroso com que a pancada que um dos militares deu na cabeça e começou a gritar coisas em outra língua.
—Continue andando, escória japonesa. —Falou a única frase que Kiku entendeu e mesmo assim foi difícil, pois o soldado falava inglês muito mal. Ele não teve outra opção do que obedecer o homem, talvez por causa do seu revolver ameaçador em uma das mãos.
Somente na entrada da prisão que Kiku foi solto dos demais prisioneiros e levado para uma cela no andar de cima. Era uma coisa bem mais precária do que a prisão nos Estados Unidos, era tudo feito de aço que com o clima, ficavam gelados, inclusive a cama cujo colchão era tão fino que parecia pano. Não havia cobertores e nem travesseiros, ninguém conseguiria dormir naquelas condições, mas talvez seja essa a intenção das pessoas que fizeram aquele lugar. Uma janelinha minúscula situada perto do teto mal dava para os raios solares, tornando aquele lugar uma geladeira escura e sombria, era tão isolado que mal dava para ouvir os sons do exterior, era como uma solitária.
Kiku achou o seu cantinho para ficar e se encolheu ali, trazendo seus joelhos para o peito e começou a chorar. Sempre foi uma pessoa religiosa, mas agora não sabia mais se seu deus poderia salvá-lo daquela barbárie, já que nada foi fácil nesses últimos meses. Situações precárias, violência por parte dos superiores, ele se perguntava como foi mesmo que ele conseguiu sobreviver a tudo isso por tanto tempo.
Mas está tudo acabado agora. Sempre disseram que a esperança é a última que morre, pois ela acabou de morrer dentro do japonês e, de fato, era o único sentimento ainda vivo. Agora se sentia como uma casca vazia, quando buscava dentro de si o significado de sua existência não encontrava nada do que um imenso vazio.
Talvez ele seja feito para perecer naquele lugar, sem nunca mais encontrar o seu irmão ou a pessoa que ele mais ama. Talvez não haja mais motivos para viver.
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