Um Lugar para Nós

3 Um Lugar Onde Zoey é Aceita


Notas iniciais
Estou arrumando essa bagaça pq eu coloquei os caps na sequencia errada... Então, boa leitura.

A criança de sete anos de idade continha em mãos uma arma perigosa. Naquela época, era ainda mais perigosa que uma arma de fogo.

-Wesley, esse é o último teste.

E com a arma apontada para o pescoço, protegido pelo vidro da janela, de onde seus parentes olhavam assustados para a cena, ele apertou o gatilho. A luz azul entrando em seu corpo, transformando seus olhos já brilhantes em azuis felinos. De repente, uma pequena bolinha de pêlos cinza e olhos como o céu apareceu.

Wesley imediatamente pulou pela janela e abraçou o filhote.

-Daremos continuidade ao projeto. Faremos o possível para que volte.

-Ele voltará. – Anunciou um homem de óculos com a mulher ao lado, que correu para abraçar o filho. – Ele não é um hospedeiro compatível, só precisamos que ele tenha consciência própria para voltar ao normal.

Em sete minutos o gato perdeu pêlos e características felinas para ganhar humanas.

-Sabe que foi imprudente o que fez, não é? – Perguntou o pai, bravo.

-É seguro. – Confirmou o menino.

-Bem, acho que agora você pode ser considerado um deles. E acho que eles precisam de um lugar onde sejam bem-vindos. A maioria ainda é criança, montaremos uma creche especial para os transformados.

-Mas as pessoas irão caçá-los se souberem onde encontrá-los, não podemos simplesmente abrir uma creche e anunciar.

-Não se preocupe, Elliot. Eu consegui uma lista com endereços atuais de todos os transformados.

-Como fez isso?

-Um detetive não deve contar seus meios de descobertas!

O pequeno emburrou-se, mas garantiu descobrir o que ele havia feito. À tarde, tomou normalmente seu chá em família, como se nada de mais estivesse acontecendo no mundo.

-“Olá Sr. E Sra. Hanson,

Sabemos que sua filha nasceu genética e naturalmente modificada, assim como outras crianças. Por esse motivo, a família Grant está criando uma creche, onde apenas crianças transformadas poderão ficar, disfarçadamente, é claro.

Pedimos que não tenham medo e entrem em contato. Nossa creche ficará nos Estados Unidos, e estaremos passando mais informações pelo telefone.” – Leu a senhora Hanson. – O que você acha? Será que é alguma armação?

-Bem, por que não ligamos? – E ouvindo o número foi discando. – Alô, aqui é o senhor Hanson. Minha mulher acabou de receber um e-mail falando sobre uma creche para as crianças diferentes. Sim, atualmente estamos nos EUA, estamos fugindo dos cientistas. Certo, veremos o que vamos fazer e amanhã te damos uma resposta. Obrigado.

-O que disseram?

-O homem que me atendeu, acho que é Wesley, disse que muitas famílias precisaram se esconder e por isso eles criaram a creche. Pediu que fossemos visitar o lugar amanhã.

-Você acha que é uma boa idéia? Quantos pais será que já aceitaram?

-Não sei, mas podíamos ao menos tentar. De uma forma ou de outra ela precisa de amigos, e que amigos melhores se não os iguais a ela?

-Tem razão, mas é perigoso levá-la junto e não podemos deixá-la com uma babá.

-Vamos ter que dar um jeito de esconder a cauda e as orelhas dela...

-Posso tentar passar uma fita prendendo no corpo dela. – Sugeriu a moça.

-Mami, eu tava com fome e peguei alguma coisa pra comer, ta?

Na porta uma Zoey com um peixe frito inteiro preso nos dentes.

-Zoey, amanhã nós vamos num lugar, e você não pode fazer essas coisa, ta? – Perguntou a mãe agachando-se perto da filha.

-Isso o que?

-Comer as coisas assim, sem usar talher, se comportar como um gato. Nós vamos até precisar esconder isso.

-Pra onde nós vamos?

-Tem uma creche onde apenas crianças como você ficam. Mas como não temos certeza se é verdade, precisamos esconder suas orelhas e sua cauda.

-Mas como você vai fazer isso, Mami?

-Sua mãe vai enrolar uma fita no seu corpo prendendo a cauda.

-E na cabeça eu posso colocar uma touca, ta frio mesmo.

-Ta bom, mas que horas saí o almoço?

-Vamos, já deve estar pronto. Querido, amanhã precisamos ligar para pegar o endereço.

Foram para a cozinha e almoçaram calmamente. Ichigo tinha um pouco de dificuldade para usar talheres, como a grande maioria das crianças de quatro anos. A mãe deixou o peixe picado no prato dela, mas mesmo com a colher era difícil.

-Por que eu não posso usar garfo e faca igual vocês? – Perguntou emburrada.

-Porque você poderia se machucar.

-E se eu prometer que não me machuco?

-Zoey, nós já conversamos sobre isso, você não pode usar os mesmos talheres que a gente. – Disse seu pai carinhosamente. – Mas quando for mais velha, prometo que te ensino a usar eles, ok?

-Ta bom.

No dia seguinte, os pais de Zoey acordaram cedo. Depois do café da manhã, o pai foi ligar para Wesley para pegar o endereço da creche, e a mãe foi arrumar a filha.

Zoey usava uma meia calça branca grossa, um saia até o joelho rodada azul, uma blusinha rosa choque e sapatos de boneca pretos.

-A blusa tá marcando a sua cauda. Acho melhor colocarmos uma jaqueta.

Ao final, a jaqueta jeans ficou perfeita com a boina rosa.

-Vocês estão prontas? Eu já tenho o endereço.

-Então vamos.

Passaram em média quarenta minutos dentro do carro procurando o lugar. Até que encontraram uma placa escrita com letras bonitas “Creche Petit Mew”

-Deve ser aqui. Vamos entrar.

Abriram o portão e bateram na porta.

-Bom dia, em que posso ajudá-los? – Perguntou um adolescente de cabelos e olhos castanhos.

-Por acaso Wesley trabalha aqui?

-Sou eu. Os senhores devem ser os Hanson. E esta é a filha de vocês? Nossa como você é bonita!

-Obrigada. – Agradeceu Zoey dando uma risadinha.

Os pais estranharam, mesmo com eles a filha evitava rir.

-Venham conhecer o local, por favor. – Disse dando espaço para passarem.

-Será que poderia nos explicar o que exatamente é esse lugar? – Pediu a mãe.

-Bem, após meus senhores verem como as pessoas olham para essas crianças, decidiram que elas precisavam de um lugar estável que não fosse o lar. Precisariam fazer amizades com crianças como elas. Atualmente, todas as crianças transformadas já estão em nossa creche, Zoey foi a última a chegar. Mandamos o e-mail um mês atrás, vocês não costumam olhá-los, não?

-Não, nós temos medo de que qualquer coisa que façamos dê aos cientistas uma forma de nos encontrar. Mas o que vocês querem dizer com transformadas?

-Sr. Hanson, essas crianças possuem DNA de diversos animais em extinção, não se sabe o motivo. Crianças assim foram chamadas de Genética e Naturalmente Modificadas, ou GNM, mas achamos esse nome uma ofensa. É certo que são diferentes, mas não modificadas, seu DNA ainda é humano, assim como a grande maioria das características, por isso chamamos de Transformadas, porque apenas criaram membros a mais, transformaram o corpo. Espero que minha explicação não os esteja ofendendo.

-De maneira alguma.

-Bem, aqui podem ver as algumas crianças transformadas brincando. O lugar é cercado por arvores, impossibilitando que as pessoas do lado de fora vejam o que acontece aqui dentro e as crianças que aqui ficam, sem falar que as mantém em contato direto com a natureza. Seus filhos aprendem sobre a natureza, o animal que contém em seu DNA e de seus amigos, e nós os ajudamos a lidar com o “problema” que têm. Nós ensinamos a eles que não importa como as pessoas lá fora os vejam, eles sempre devem se preocupar com como eles se vêm.

Estavam em um quintal enorme com vários brinquedos e caixa da de areia.

-Vou deixá-los apreciando a paisagem e conversando, se precisarem de mim, estarei na primeira sala à direita.

-O que você achou do lugar?

-Parece bom, e veja: as crianças estão bem à vontade entre si e com o que são. Não parece ter problemas aqui, nem ser armação.

Era verdade. Uma garotinha de cabelos roxos estava fazendo poses para uma menor de cabelos azuis. Uma de cabelo verde batia palmas com uma loirinha com rabo de macaco.

Dois garotos com orelhas pontudas estavam brincando de pega-pega, enquanto um moreno fazia carinho em um cachorro e um loiro estava emburrado para o moreno.

-O que você achou do lugar, Zoey? – Perguntou a mãe.

-Elas também têm orelhas de animais, olha! Eu também quero brincar de pega-pega, deixa?

Os pais se entreolharam.

-Quem sabe amanhã. Primeiro temos que falar com o Wesley. Amanhã nós voltamos aqui, ta?

-Ta!

Zoey foi toda feliz ao lado dos pais para a sala onde Wesley estava.

-Então, gostaram do lugar? – Perguntou sorridente.

-Nossa filha quer brincar com as crianças, e ela nunca quer brincar com ninguém. Quando ela pode começar a ficar aqui?

-Bem, precisamos fazer a matricula e arrumar um uniforme para ela. Sr Hanson, pode me passar os dados de sua família? E Sra. Hanson, por favor, vá até a última sala do corredor, lá estará minha patroa. Ela vai tirar as medidas de sua filha para o uniforme.

Mãe e filha seguiram juntas para a última sala, onde uma mulher lia um livro.

-Com licença? – Perguntou a mãe batendo na porta entreaberta.

-Oh, entre. Prazer, sou a Sra. Grant. Meu marido e eu cuidamos deste lugar junto com nosso assistente, Wesley. Qual seu nome?

-Sou Sakura Hanson. Minha filha veio tirar as medidas para o uniforme.

-Então ficará conosco, linda? Isso é muito bom, tenho certeza que vai adorar o lugar.

-Eu vou poder brincar com as crianças lá fora todos os dias?

-Sim, e nós temos brincadeiras muito legais, sem falar do karaokê, dos desfiles e dos jogos.

-Oba, então eu gostei, sim!

Sakura estranhava o comportamento da filha, nunca a tinha visto tão sociável com outras pessoas.

-Então, você e seu marido têm filhos?

-Sim, temos um, Elliot.

-Ele também é assim?

-O que, um transformado? Não exatamente. Meu marido é cientista e estava estudando porque isso aconteceu, como a maioria dos cientistas por aí. Ele descobriu que dava para injetar o DNA por vontade própria, criou uma arma com o DNA dentro e deixou no laboratório. Meu filho é muito inteligente e ajudou meu marido, mesmo sendo só uma criança. Ele queria saber se não era perigoso injetar aquilo nas pessoas e testou em si mesmo, enquanto nos preparávamos para o chá. Pode se dizer que ele é um transformado, mas não naturalmente.

-Como deixam uma criança por perto quando estão fazendo essas coisas? – Sakura se mostrava indignada.

-Bem, foi um erro, mas meu filho não pareceu se importar com o que fez. Ele até gostou muito, só não criou as características. Foi por causa desse erro que decidimos criar este lugar, Elliot se tornou como essas crianças, e todas precisariam de um lugar para ficar sem que fossem discriminados, e deveriam se conhecer já que são tão parecidas. – Contou enquanto via o número do calçado da ruivinha. – Bem, nós já terminamos, amanhã você terá uniformes novinhos para ficar aqui.

-Sakura? Podemos entrar?

-Shintaro, nós já terminamos aqui.

-Será que os senhores podem me acompanhar? – Perguntou Wesley docemente. – Precisamos ir à sala do meu patrão.

-O que vamos fazer? – Perguntou o marido enquanto mãe e filha se despediam da nova amiga.

-Precisamos coletar sangue da sua filha para saber com qual animal o DNA dela está misturado.

-Coletar sangue? – Perguntou o pai, já nervoso. – Ninguém falou sobre isso antes.

-Senhor, não é obrigatório, é opcional. No entanto, se não soubermos qual é o animal de sua filha, não poderemos ensinar sobre ele.

-Pai, eu quero saber do meu animal. Ele está sendo tão bonzinho com a gente, para de ser chato!

A filha havia dado uma bronca nele? Só para defender um desconhecido?

-Parece que a Zoey gostou mesmo das pessoas daqui. Nunca vi ela sorrir tanto em um dia.

-Ah, mais uma coisa. Caso os senhores queiram, podem deixá-la dormir aqui, pelo tempo que quiserem. Pedimos apenas que mandem roupas e objetos de higiene e pessoais.

-Afinal, quanto custa tudo isso aqui.

-Não custa.

-Não custa?!? – Perguntaram os pais em uníssono.

-Bem, esse é um projeto dos meus patrões, como eu disse antes, e eles não pretendem cobrar pelo trabalho que fazem. Quanto a dormirem aqui, não se preocupem em deixá-la conosco, essas crianças moram aqui.

-Por quê? – Perguntou Shintaro curioso.

-Bem, alguns os parentes morreram, outros não foram aceitos pela família. Alguns, os parentes nem mesmo moram no país, mas por acharem uma boa idéia, aceitaram deixá-los conosco. Mesmo durante a noite temos recreação: depois do jantar fazemos um jogo, escovamos os dentes, e na hora de dormir fazemos uma votação para uma leitura. À medida que as crianças vão crescendo começam a adquiri quartos próprios ou compartilhados. As crianças tomam banho e se trocam em quartos separados por sexos, mas dormem juntos em um grande e confortável quarto. Bem, chegamos. Este é o meu patrão, Dr. Grant.

-Uh, me chamaram? Wesley?

-Senhor, estes são Sakura e Shintaro Hanson, e sua filha Zoey.

-Hum, Zoey. – O senhor de cabelos castanhos curtos se abaixou para olhar a pequena. – Então você também é especial, Zoey?

-Sou, eu tenho orelhas, você quer ver? – Perguntou sorridente.

-Claro. – O homem sorriu de volta.

Zoey tirou o gorro rosa, mostrando orelhas pretas com fundo rosa para o Dr.

-Elas são bonitas, iguais a você!

-Obrigada.

-Então, Zoey, você sabe qual é o seu animal?

-Não, mas você sabe, você é doutor e doutores sabem tudo! – Explicou apontando para o jaleco.

-Bem, eu ainda não tenho certeza, mas se você me deixar tirar um pouquinho de sangue de você eu posso descobrir.

-Vai doer?

-Hum, só um pouquinho. – Disse mostrando o indicador e polegar perto um do outro.

-Mãe, pai, posso?

-Se você quiser.

Era a primeira vez que os pais aceitavam que alguém ficasse tão próximo de sua filha, e ainda estavam deixando-o tirar sangue. Nem mesmo a filha nunca deixou.

O homem pegou uma seringa embalada e abriu, furou o bracinho roliço de Zoey e puxou o sangue até encher o cilindro. Zoey não fez barulho algum, mas algumas lágrimas escorreram.

-Ei, mocinha linda, não chora. Toma, limpa o machucado. Wesley, ela foi muito corajosa, não foi?

-Ahn, sim, senhor. Acho até que ela merece um premio por coragem. – Disse entrando na brincadeira.

-Bem, não é muito, mas você gosta de doce?

-Adoro!

-Por que você e seus pais não tomam um café e comem bolo com o Wesley? É de chocolate.

-Oba!

-Wesley, passe os horários das atividades para os Hanson. Sr., Sra. Tenham um bom dia. Zoey, nos vemos amanhã, certo?

-Uhum!

Durante a manhã toda Wesley ficou conversando com os Hanson, enquanto Zoey comia bolo e pintava desenhos.

-Agora nós realmente precisamos ir, agradecemos pela atenção. – Disse Shintaro.

-Somos nós quem devemos agradecer pela confiança. Prometemos não desapontá-los. – Respondeu Wesley.

-Tenho que certeza de que não o farão. – Concordou Sakura.

Entraram no carro e foram embora.

Shintaro foi trabalhar pensando em uma desculpa para dar ao chefe, enquanto Sakura ficava em casa preparando produtos de higiene para Zoey levar para a creche. No jantar, quando todos se encontraram, Zoey queria conversar sobre o lugar que visitara.

-Ela passou o dia inteiro falando de como gostou da creche.

-Mãe, eu vou precisar continuar escondendo minhas orelhas?

-Eu acho que não, depende de como é o uniforme deles. – Respondeu Sakura.

-As outras meninas com orelhas não escondiam. Acho que eu também não preciso.

Depois disso, Zoey ficou pensativa e calada. Os pais aproveitaram o curto momento de silencio, já que sabiam o escândalo que a ruivinha faria na hora do banho.

-AAAHHH! Não! – Gritava Zoey se segurando no batente da porta. –Eu não vou tomar banho hoje!

-Assim como você também não ia tomar nos outros...

-O pessoal da creche têm sorte que ela nunca vai dormir lá, eles jamais conseguiriam dar banho nela.

-Ah, a água ta fria. – A menina tremeu.

-Claro, só o tempo que você correu pela casa já deu para a água esfriar! Acho bom você aprender a se comportar.

-Esse instinto de gato não gostar de banho dela está atrapalhando, né?

-Muito, desde o primeiro banho.

-Mãe, eu quero sair da água, ta fria.

-Vou começar a te dar banho no chuveiro, lá não vai esfriar.

-Por que você não para de me dar banho?

-Porque senão você vai deixar de ser gato para ser gambá, e eu definitivamente não quero criar um gambazinho dentro de casa, nem fora antes que você invente!

A menina emburrou-se novamente.

-Ah, mas gambás são fofinhos.

-Quando não estão assustados ou se defendendo, pode ter certeza. – Disse o pai.

Pelo menos para escovar os dentes Zoey não causava problemas, só reclamava um pouco pela pasta arder.

-Mãe, será que as outras crianças vão gostar de mim?

-É claro que vão, é impossível não gostar de você.

A mãe deu um beijinho na testa da filha e saiu do quarto. Por sorte Zoey não era o tipo de criança que tinha medo do escuro ou pedia para lhe contarem histórias na hora de dormir.

Notas finais
Gostou? Faça um agradinho!