De manhã, quase na hora de Zoey acordar, a pessoa se transformou de volta e deitou na cama. Meia hora depois, Zoey acordou.

-Bom dia, gatinho. Sabia que essa noite eu senti o mesmo carinho que o menino loiro fazia em mim? Era como se ele estivesse aqui. Pena que foi só um sonho! – Disse sonhadora. – Vou me arrumar para a escola.

Quando ela entrou no banheiro, o gato pulou pela janela, voltando para sua casa. Ela saiu do banho e não o viu.

“Está frio, vai ver resolveu ficar debaixo das cobertas.”

Sentou e escovou cabelos e pêlos de novo. Aquilo seria uma rotina eterna em sua vida. Enrolou a faixa no corpo , colocou o uniforme limpo, prendeu o cabelo e colocou a boina.

-Acho melhor arrumar a cama para o gato ficar mais confortável.

Quando puxou a coberta, a bolinha de pêlo cinza não estava lá. Olhou debaixo da cama, dentro do guarda-roupa, em todos os lugares. Sentiu os olhos marejarem quando não encontrou o gatinho. Ele também foi embora...

Balançou a cabeça tentando afastar tais pensamentos. Como poderia se importar que crianças de sonhos desapareceram, se era apenas um sonho? E gatos gostam de liberdade, são muito independentes. Arrumou a cama e levou a louça para baixo.

-To indo pra escola.

-Zoey, agora é uma ordem, tome seu café da manhã! – Ordenou o pai.

-Pai, eu não to com fome...

-Zoey, eu não vou falar de novo. Olha pra você, está pálida, nem come direito. Sente e coma sem pressa.

Zoey suspirou, mas fez o que o pai mandou. Não queria enfrentar a fúria de Shintaro, com certeza não! Quando chegasse da escola mais tarde poderia dar um jeito naquilo.

Quando terminou o copo de leite e comeu todo o pão, escovou os dentes de novo e saiu de casa com a mochila cinza nas costas. Foi para a escola imaginando com seria o dia.

-Certo, classe, como estamos no começo do ano e os professores ainda não passam muita lição de casa, sei que estão desocupados. Por isso mesmo, decidi que vou dar trabalho em dupla sobre as espécies de homens que já existiram na Terra para vocês. Seus nomes serão sorteados, então não podem trocar.

O professor sorteou vários nomes. Não dava para dizer que todos ficaram realmente satisfeitos com seu parceiro, mas como a maioria se conhecia, não tiveram problemas. Zoey, por outro lado, entrou em pânico ao saber que faria o trabalho com Mark. Ele teria que ir na casa dela, o que provavelmente seria um problema.

-Zoey, se importa se combinarmos quando vamos começar o trabalho?

-Não, tudo bem.

-Podemos ir falando sobre isso a caminho do meu treino, é que eu não posso me atrasar.

-Então é melhor irmos logo. – Disse sorrindo.

-Onde você prefere fazer? É que a maioria das garotas prefere na casa delas, porque não querem ficar sozinhas com garotos.

-Não tem nenhum dia em que seus pais estão em casa?

-Só fim de semana. Pode ser? Você não vai fazer nada nesse?

-Não, está ótimo pra mim!

Haviam chegado no salão de treino.

-Você vai assistir o treino? Posso conseguir um bom lugar pra você.

Novamente ele tinha o olhar pidão. Zoey cogitou a idéia de dizer não, mas desistiu na mesma hora.

-Certo, vou só ligar para os meus pais.

-Me segue, vou colocar você em um bom lugar.

Zoey tentou discar o número de casa, mas não tinha sinal. Eles foram para um canto onde Zoey poderia ver tudo.

-Vou nessa, nos vemos daqui a pouco.

-Ok, bom treino.

Era engraçado, um dos garotos mais bonitos da escola era o único que se importava com ela. Pois é, ele era um dos mais bonitos, mas o mais bonito mesmo era aquele loiro que a levou para o galho da árvore.

“Ah, finalmente consegui sinal!”

-Alô, mãe? É só pra avisar que eu vou ficar na escola. Eu to vendo o treino de kendô, e depois vou estudar um pouco. Ta, até mais tarde, beijo, tchau.

Finalizou a ligação e assistiu a luta. Realmente, Mark era o melhor! Em nenhuma vez foi golpeado, ou perdeu por qualquer erro, enquanto os outros eram eliminados rapidamente. Um bom tempo depois, a luta acabou e Mark foi conversar com ela.

-O que achou da luta?

-Achei legal, e você é muito bom mesmo! Parabéns, você é muito talentoso.

Zoey corou, não era de elogiar as pessoas, nem mesmo de falar com outros que não fossem seus pais. Mas com ele, parecia tão fácil.

-Então, a que horas vamos fazer o trabalho?

-Pode ser cedo? Quanto mais rápido começarmos, mais rápido terminamos.

-Tudo bem, já entendi que quer se livrar logo de mim.

-Não, não é isso! É que você não vai querer passar tanto tempo comigo, pode ter certeza.

-E por que não gostaria? Você é tão legal.

-Você acha?

Ele acenou positivamente e ela corou. Era o primeiro elogio que recebia em sua vida.

-Então, hoje iremos de novo ao café, você disse que iria na próxima vez.

-Eu tenho que estudar matemática, sou uma negação e as contas não entram na minha mente. Não posso deixar de estudar hoje!

-Zoey – Ele disse suspirando -, uma hora você vai ter que sair do seu casulo, vai precisar conversar com alguém, desabafar como se sente. Nos vemos amanhã?

-Ahn... Claro! – Ela respondeu surpresa com as palavras do colega de sala.

-Ah, te encontro aqui no sábado, às sete e meia, para começarmos o trabalho! – Ele gritou enquanto se juntava aos amigos.

Zoey descia para estudar quando foi barrada na escada.

-Então, Zoey! – Começou Berry com asco na voz. – Como anda a vida?

-Ótima, se melhorar estraga.

-Que estranho, eu vim aqui justamente para isso, para estragar a sua vida...

-Eu não sei se você se importa, mas eu tenho que estudar, com licença.

Zoey tentou passar pelas meninas, mas Berry a empurrou e ela caiu sentada na escada.

-Tem razão, eu não me importo nem um pouquinho... Sabe, Zoey, não gosto de quando se aproxima dos garotos dessa escola.

-Você acha que só por que é bonita, todos os garotos caem aos seus pés?

-Isso mesmo! Principalmente o Elliot!

Zoey estremeceu com aquele nome. Um garoto loiro apareceu atrás das meninas e perguntou com voz assustadora.

-Principalmente quem, Berry?

-Ahn, Elliot, você está aqui? Não ia ao café com seus amigos?

-Berry, se afasta dela. – Falou absurdamente calmo.

Zoey levantou. As meninas deram espaço para Zoey passar, mas quando a ruiva o fez, Berry a empurrou disfarçadamente. Zoey fechou os olhos esperando pela queda.

-Parece que nem sempre os gatos caem em pé. – Elliot sussurrou no ouvido da garota. Zoey viu que não caiu no chão, pois estava nos braços de Elliot.

-Obrigada. – Respondeu corando.

-Vem, te escolto até a biblioteca.

-Seus amigos devem estar te esperando, é melhor você ir.

-Eu disse que não ia hoje. Não me importo de passar algum tempo com você.

Novamente Zoey corou, mas deixou que ele a seguisse. Passou três horas em puro silencio, mas ainda não conseguia ler. A presença dele não deixava que ela se concentrasse.

-Não sabia que demorava tanto para ler.

-Uh? – Zoey levantou os olhos assustada pela quebra do silencio.

-Você não vira essa página desde que entramos na biblioteca.

-Eu... Eu não estava prestando atenção no que lia, então nem percebi que não virei a página. – Zoey torceu para que sua resposta o convencesse.

-Você não ta com fome? Já se passaram três desde a hora do almoço.

-Eu não sou de sentir fome, às vezes nem almoço ou janto.

-É por isso que está magra desse jeito.

-Não estou magra. – Respondeu surpresa.

-Não? Você não é nem metade de mim!

-Você é um garoto, garotos normalmente são maiores.

-Garotas em geral tem mais corpo, então era para você ser um pouco mais cheinha...

-Não sei se quero engordar.

-Se não se alimentar direito vai ficar doente.

-Quantas vezes eu já ouvi isso mesmo?

-Vamos comer alguma coisa, estou ficando com fome e não quero ficar sozinho.

Zoey suspirou em protesto.

-Vamos, estou te convidando, eu pago.

-Eu não vou comer nada.

-Então vamos para me fazer companhia.

-Não quero arrumar encrenca com a sua namorada.

-Berry não é minha namorada. Ela só acha que é.

-Como todas as outras garotas desse colégio! Você é o tipo pegador, né?

-Sou o tipo que se revoltou por causa de uma garota que simplesmente desapareceu.

-Sinto muito. Para ter se revoltado devia gostar muito dela.

-O estranho é que eu só tinha sete anos. Ela tinha o mesmo nome que você. Zoey, é um nome lindo, você não acha?

-Nunca pensei muito sobre o meu nome.

-Zoey significa madrugada, e a primeira letra do nome representa que a pessoa com esse nome terá problemas na vida, mesmo que não os procure. Tem bom coração, criatividade e vitalidade, gosta de privacidade e tem segredos. Muda o jeito de agir de acordo com a situação em que se encontra, por isso as pessoas não conseguem entendê-la.

-Procurou tudo isso sobre o nome Zoey só por causa de uma paixonite infantil?

-Eu era o tipo inteligente e romântico, sem falar protetor ao extremo.

-Então você provavelmente era o tipo grudento, que a maioria das meninas gosta. Foi uma mudança radical de grudento para pegador.

-Se eu encontrasse a garota de novo, ficaria só com ela. Mas vamos comer, estou mesmo com fome e não saio daqui sem você.

Que palhaçada era aquela? Uma piadinha? De repente os garotos mais bonitos da escola resolveram ficar passeando com ela pela escola?

Zoey viu que Elliot realmente não sairia dali. Bem, ela não precisava comer nada, só olhar. Recolheu o material e o seguiu até a cantina da escola.

-Quero um cheeseburguer e um suco de morango. E você, Zoey?

-Não quero nada obrigada.

-Quer saber, trás dois sucos de morango.

A moça da cantina preparou o pedido e Zoey ralhou com Elliot dizendo que era melhor ele tomar os dois sucos. Quando o pedido chegou, ele empurrou um copo para ela.

-Elliot, eu disse que não comeria nada.

-Bem, suco não é considerado comida, então você pode aceitar. E eu também sei que morango é sua fruta preferida.

-Como você sabe?

-Porque morango tem tudo a ver com você. Também é minha fruta preferida.

Zoey aceitou o suco e tomou. Estava uma delicia, há quanto tempo não tomava suco de morango?

-Você tem problemas com matemática?

-Tenho, eu não entendo nada.

-Se quiser, posso te ensinar, modéstia a parte, eu sou ótimo em matemática.

-Super modesto. Mas eu vou ter que aceitar sua oferta, sou uma negação.

Zoey se arrependeu no mesmo instante. Aceitando a oferta dele, teria que vê-lo, o que faria com que ele tivesse chance de perceber o problema dela.

-Quando podemos nos encontrar? Sábado?

-Nesse fim de semana tenho que fazer um trabalho com o Mark.

-Então pode ser na segunda? Podemos estudar no café, caso você tenha medo de ficar sozinha comigo. – Ele propôs sorrindo sedutoramente.

-Vamos estudar no café.

-Por que já não estudamos agora?

-Porque eu estou indo para casa, tchau. – Disse entregando o dinheiro do suco.

-Não precisa pagar, eu te convidei.

-Insisto que aceite o dinheiro.

-Zoey, eu faço questão de pagar.

Zoey recolheu o braço estendido e foi embora. Em casa, a mãe a obrigou a almoçar.

-Mãe, eu realmente não to com fome.

-Coma!

As colheradas eram empurradas a força para a boca, e desciam a garganta quase voltando. Quando terminou, Zoey correu para o banheiro anexado ao quarto.

-Credo, nunca me senti tão enjoada.

Forçou o vômito e tudo o que tinha comido a força foi para no vaso. Ficou sentada no chão por muito tempo, sem forças para se quer abrir os olhos. Quando melhorou um pouco, levantou, escovou os dentes e se jogou na cama. Fechou os olhos novamente e ficou pensando.

-Tomara que nem o Mark nem o Elliot descubram meu problema. Eu não tenho com o que me preocupar, vou passar pouco tempo com eles.

Estava quase dormindo quando sentiu uma pressão em seu estômago. Abriu os olhos quando uma língua áspera lambeu o seu rosto.

-Gatinho, você voltou! – Ela sorriu. – Achei que não voltaria, fiquei tão triste.

Ela abraçava o gato carinhosamente e ele continuava a lamber seu rosto.

-Aliás, você precisa de um nome, não posso ficar a vida inteira te chamando de ‘gatinho’. Mas depois eu penso nisso, agora quero contar como foi meu dia. Você se importa de ouvir?

O gato deitou olhando atentamente para Zoey.

-Às vezes acho que você me entende mesmo, isso dá medo. Acho que alguém fez uma aposta com os garotos mais bonitos da escola, porque eles ficam conversando comigo e fingindo que se importam, só que mais ninguém naquela escola fala comigo.

O gato lambeu a pata.

-Me pergunto por que a Berry me odeia tanto, nem sou eu quem começa a falar com os meninos. Eu nem posso. – Disse tirando a boina e indicando as orelhas. – Elliot foi muito fofo hoje, mas ainda continuo sem entender o objetivo deles.

O gato parou de lamber a pata e mexeu a orelha. Alguém bateu na porta.

-Zoey, precisamos conversar. – Os pais entraram no quarto.

-Pai, você chegou cedo.

-Zoey, as contas aumentaram, estamos sem dinheiro.

-Mãe, você deveria começar a trabalhar, isso ajudaria muito.

-Você sabe que não vou te deixar sozinha.

-Eu sei me cuidar.

-Filha, nós nos preocupamos com você, não temos coragem de te deixar sozinha com esses caçadores por aí. – Disse o pai.

-Certo, então eu vou arrumar um emprego.

-Nem ouse pensar nisso! Você sabe que seria descoberta.

-Acontece que se eu não começar a trabalhar, nossa situação vai piorar muito, e aí sim teremos problemas. Sem dinheiro, sem comida decente, doenças virão e eu não posso entrar em hospitais.

Querendo ou não, os pais sabiam que ela tinha razão.

-Mãe, você já está muito acostumada a ficar em casa, continue cuidando de tudo pra gente, eu arrumo um emprego e dou um jeito na situação.

-Seria mais indicado sua mãe arrumar um emprego.

-E quem manteria as aparências?

Os pais suspiraram admitindo a razão da filha.

-Depois conversamos sobre isso, por enquanto vamos evitar gastar dinheiro a toa.

Mas Zoey não esperaria, ela arrumaria um emprego e ajudaria a família. Os dois saíram do quarto e Zoey se jogou na cama e o gato se encostou nela. Logo ela adormeceu e o gato se transformou em humano de novo. Começou um carinho na orelha dela e ficou muito tempo acordado.

Notas finais
Viram? Não demorei de novo :D
Gostaram?
Beijinhos e até o próximo ~^.^~