Um Lugar Para Ficar
40 Capítulo 40 – Sonho ou Aviso
Notas iniciais
Assim que chegou à fazenda, Emmett estacionou a caminhonete ao lado do galpão onde costumava sempre estacionar durante o dia. No rádio, em som ambiente, tocava Alan Jackson — Livin' On Love.
Rosalie ainda dormia no banco do carona. O rosto virado para o lado da janela, a respiração leve, entregue a um sono de total exaustão.
Emmett desligou o motor do carro, e então se virou para olhá-la. Tirou a mão direita do volante, e, num gesto carinhoso, afastou os cabelos dourados dela do rosto.
Sentia muito pelo estado de esgotamento em que se encontrava. Mais uma vez ela tinha se mostrado uma guerreia. Uma noite inteira de preocupação, correndo no meio do mato, revirando cada canto até encontrar o filho mais velho. Ainda assim, insistiu que tinha de ir trabalhar. Não descansando em momento algum do dia. Só Deus sabe como havia conseguido.
E ele sabia que ela só se permitia cair no sono assim, ao seu lado, porque tinha total confiança. E ele jamais iria desapontá-la.
Emmett afastou a mão que acariciava o rosto dela, e desligou o rádio. Saiu do carro e deu a volta pela frente indo até o lado do carona. Ouviu Jujuba latir, e ao olhar na direção da varanda, lá estava ela, a cadela golden retriever de pelagem amarela, abanando o rabo com alegria. Emmett abriu a porta do carro e com cuidado passou um braço em volta das costas de Rosalie, outro por baixo das coxas, erguendo-a do assento com cautela. E então ela estava sendo facilmente carreada nos braços forte dele para dentro de casa.
Jujuba os encontrou ainda nos degraus da varanda, se rebolado com alegria ao abanar a cauda, enquanto Emmett a cumprimentava com palavras amigáveis.
O som de sua voz atraiu a atenção das crianças lá dentro, na sala de estar. Todas elas deixaram de olhar a tevê, esquecendo-se até da tigela de pipocas, para olhar para eles, que passavam pela porta.
Enrico e Noah saltaram de pé. A expressão em seus rostos passando de curiosidade para preocupação. Num instante, estavam os dois ao lado de Emmett. Noah tinha se embaralhado nas almofadas ao chão quando correu, isso fez com que derramasse algumas pipocas no tapete.
— Mamãe? – Enrico chamou, rondando Emmett, tentando ver o rosto de Rosalie.
Noah se agarrou ao braço do irmão, fazendo o mesmo ao tentar ver o rosto da mãe escondido no peito de Emmett. Tentando compreender o que tinha acontecido.
— O que a mãezinha tem? – pediu, ficando choroso.
Enrico olhou no rosto de Emmett, ansioso.
— O que ela tem papai? – pediu. E Emmett viu nos olhinhos dele toda sua preocupação em relação ao que poderia ter acontecido a mãe.
— A mamãe está bem – os tranquilizou.
— Mamã – Amy tinha se levantado do tapete onde brincava, e olhava para eles agora. Merci a segurou pela cintura e lhe deu um brinquedo, que facilmente foi ignorado.
— Não há nada de errado com a mamãe – Emmett tentou mais uma vez. – Ela só está cansada. Ela não dormiu nada na noite passada e ainda assim teve de ir trabalhar hoje pela manhã. Ela só precisa descansar agora.
— Foi minha culpa... – lamentou Enrico. – Foi por minha causa que a mamãe não dormiu. E aí ela ficou assim... tão cansada.
— Não foi culpa sua, Rico. Não fique pensando nisso. Agora, fiquem tranquilos. Eu vou levar a mamãe pra descansar no quarto. Vai ficar tudo bem. Quando acordar vai estar se sentindo bem melhor.
Os meninos assentiram e logo saíram da frente para ele passar. Porém, permaneceram olhando Emmett se afastar levando a mãe deles no colo. Um minuto apenas foi o tempo que os dois ficaram parados, pensando, no minuto seguinte, os seguiam pela casa.
Emmett entrou no quarto e foi deitar Rosalie na cama. Tirou-lhe os tênis, e também os jeans apertados.
Puxava o cobertor até a cintura dela, quando os meninos empurraram a porta já entreaberta, e ficaram olhando o lado dentro. Emmett os percebeu ali e lhes estendeu a mão, sorrindo para tranquilizá-los.
— Venham cá, os dois – chamou.
Noah e Enrico entraram no quarto com passos rápidos, indo para junto da cama.
— A mamãe só está dormindo – Emmett tentou mais uma vez tranquilizá-los.
— Você tirou os tênis dela – observou Noah, olhando de relance os tênis da mãe no chão, ao lado da cama.
— Assim ela dorme melhor – Emmett falou baixinho, piscando um olho para ele.
— A gente pode só dá um beijinho nela? – Enrico pediu, de pé em frente à Emmett, no lado da cama onde a mãe dormia.
— Façam isso. Só tomem cuidado para não acordá-la. Ela precisa muito desse sono agora. É importante que descanse bem.
— Uhum – murmurou Enrico. Em seguida, se curvou sobre a mãe e beijou sua bochecha, a testa e também a ponta do nariz. – Sem sonhos ruins – murmurou, repetindo o carinho que ela lhes dava.
Noah levantou o cobertor que encobria os pés da mãe e beijou seus pés calçados com meias brancas.
— O pezinho da minha mãezinha não tem chulé – esclareceu. Enrico e Emmett deram risadas. Então, Noah engatinhou no colchão, bem pertinho da mãe, e lhe beijou o queixo de leve. – Minha mãezinha. Você tá com soninho, né? – falou baixinho. – Tá bom, então dorme – e se aninhou ao lado dela. – Mas acorda logo pra me dar muito beijinhos. Eu tô com saudades.
— Por que não deixamos a mãezinha dormindo e vamos brincar ou ver desenho? – Emmett sugeriu, porque Rosalie realmente precisava daquele descanso e deixar os meninos ali não iria ajudar em nada.
Ele pegou Noah no colo com cuidado, mesmo assim, o menino arrastou o cobertor junto com ele.
— Você tirou a roupa da mãezinha – constatou. – Por quê? Ela vai chorar. Não deveria fazer isso. Ela chora. Cadê a roupinha dela? Você rasgou?
O irmão mais velho puxou o cobertor cobrindo a mãe novamente. E parecia tão preocupado quanto Noah. Rosalie se mexeu, e o menino ficou parado olhando no rosto dela.
Emmett tirou Noah de perto da cama, explicando a ele em voz baixa.
— A mãezinha não vai chorar. A calça estava apertando. Assim ela vai dormir melhor.
— Você não bateu nela? Você não é assim, do mal, né papai Emmett?
— Nunca. Eu nunca faria isso com ela.
— A mãezinha é o amor da minha vida.
— É o amor da minha vida também – Emmett concordou.
A feição do menino suavizou.
— Eu gosto de dormir de cuequinha. A roupa aperta né, papai? Só quando tá frio que eu não gosto. A mãezinha me dá um pijama bem gostosinho de quente. Que comprou, lá na cidade, onde que tem uma loja grande.
— É. O papai também prefere dormir de cueca, menos nas noites frias.
— Ahã. Você tem uma de canção – Noah deu risada e agarrou-se ao pescoço de Emmett. – Por que ela chama assim, papai?
Emmett sorriu.
— Algum dia eu te conto.
Emmett segurou na mão de Enrico e os três deixaram o quarto juntos. Encontrando com Lena no corredor.
— Está tudo bem? – ela pediu. – Abby me disse que você trouxe Rose pra dentro de casa carrega no colo. Aconteceu mais alguma coisa?
— Ela só esta muito cansada.
— Eu bem que queria falar com minha comadre para ela ficar em casa hoje. Mas ela não quis de jeito nenhum que eu fizesse isso. Deu no que deu, está acabada.
— A mãezinha não tá acabada, bisvovó. Ela tá dormindo – Noah se queixou. Não gostando de como aquela palavra soava.
— Eu também não queria que ela tivesse ido trabalhar hoje – Emmett comentou. – Mas ela quis assim. É uma escolha dela. Nós temos de respeitar.
— Não temos nada o que fazer aqui agora – acrescentou Lena. – Vamos deixá-la descansar.
— Eu vou dispensar a Merci – Emmett avisou. – Já está no horário dela. Eu cuido das crianças enquanto Rose descansa.
Lena anuiu.
— A gente pode jogar um jogo de tabuleiro? – Enrico pediu.
— Claro que sim, filho. Qual você quer?
— Desafino.
— Cara a cara – Noah discordou.
— Tudo bem. A gente brinca com o um primeiro e depois com o outro. Por que vocês não vão pegar lá no quarto dos brinquedos? – Ele pôs Noah no chão, e os dois meninos correram pelo corredor, virando à esquerda. – Espero por vocês lá na sala – ele ouviu a risadinha dos dois, enquanto se afastavam. E acompanhou a avó até a sala.
Dispensou a babá e ficou cuidando das crianças pelo tempo que Rosalie descansava.
Ainda antes de sair para buscar Rosalie na cidade, ele trouxe Caramelo para a casa grande e o instalou numa caminha ao lado da porta de vidro que dava pra varanda na lateral da casa. Assim, tanto ele quanto Enrico cuidaria do cachorro e estariam em casa por mais tempo.
As horas foram passando. Garrett também chegou do trabalho. O jantar ficou pronto e logo foi servido. A ausência de Rosalie foi sentida durante o jantar, porém, todos estavam tranquilos, pois sabiam o quanto precisava descansar.
Pouco mais tarde, Emmett ajudou as crianças a escovarem os dentes e vestirem o pijama.
Rosalie acordou confusa. Levando um tempo para lembrar que estava no carro com Emmett, voltando para casa, quando adormeceu. Não se lembrava de muita coisa depois disso. Só de ter ouvido as vozes das crianças. Mas não recordava o que tinham conversado e nem por quanto tempo isso durou.
Então se deu conta de que estava no quarto de Emmett, na cama que eles dividiam. Confortavelmente embaixo das cobertas que tinham o cheiro dos dois.
Ela levantou e vestiu a mesma calça que esteve vestida antes. Ciente de que fora Emmett a despi-la ao deixá-la na cama. Desejou que ele estivesse ao seu lado agora. Queria lhe acariciar o rosto e dizer obrigada, por tudo o que vinha fazendo.
Olhou as horas no velho relógio de pulso, esquecendo-se de que agora, também, podia olhar no celular que ganhou. Eram vinte e uma horas e quarenta minutos. Perguntou-se onde estaria Emmett e as crianças. Tinha consciência de que o jantar havia sido servido há bastante tempo. E novamente quis saber onde as crianças estavam.
Calçou chinelos de dedo. Prendeu os cabelos num rabo de cavalo mal feito. E antes de ir procurá-los passou no banheiro, escovou os dentes e lavou o rosto.
Seguiu até a sala, numa confusão mental esquisita, com a sensação de despertar de um sonho do qual não recordava.
— Oi – disse para Kate e Garrett, que assistiam tevê na sala. Olhando mais para o lado, avistou a caminha de Caramelo e ele deitado nela, se recuperando da picada da cobra. O soro estava pendurado no suporte. Jujuba dormindo em outra caminha ao lado da dele.
— Olá – disseram Kate e Garrett.
— Como se sente? – foi Kate quem perguntou. – Conseguiu descanar? Eu descansei um pouco depois que cheguei da escola. Mas, pra você foi bem pior, você estava lá fora o tempo todo.
Rosalie meneou a cabeça, afirmando.
— Como Caramelo está? – pediu, olhando de Kate para o cachorro na caminha.
— Está bem melhor. Emmett o trouxe pra cá à tarde. Assim todos nós podemos ficar pertinho dele e também ajudar com o que for preciso.
— Ele é forte – Garrett emendou. E Rosalie afirmou com a cabeça.
— Onde estão Emmett e as crianças?
— Estão todos no quarto dos meninos – Kate avisou.
— Eu vou até lá falar com eles.
— Tem janta pra você na cozinha.
— Obrigada, Kate. Eu dou um pulinho lá daqui a pouco. Antes eu preciso ver as crianças como estão. Eles devem ter ficado assustados ao me vir chegar dormindo daquele jeito. – Ela deu um passo, e então olhou para trás. – E a vovó Lena?
— Está lá dentro.
Rosalie encontrou com Lena a caminho do quarto dos meninos. Ela perguntou como estava se sentindo e lhe disse o mesmo que Kate sobre o jantar. Rosalie agradeceu e avisou sobre precisar ver as crianças primeiro.
A porta do quarto dos meninos estava entreaberta. Ela ouviu suas vozes lá dentro. Emmet lia para eles um trecho do livro Onde Vivem Os Monstros, de Maurice Sendak. Noah e Enrico estavam perguntando sobre alguma coisa cujo ela não entendeu. Amy balbuciava, alheia a história que os irmãos ouviam.
Rosalie empurrou um pouco mais a porta e então os viu. Emmett estava sentado no tapete, com Amy no colo, entre as duas caminhas de solteiro onde Enrico e Noah descasavam. O livro aberto em suas mãos, os lábios se movendo devagar, concentrado nas páginas.
As crianças a viram primeiro.
— Mamãe.
— Mãezinha. Chegou o amor da minha vida.
Os meninos pularam da cama imediatamente.
Amy se desvencilhou dos braços de Emmett, cambaleante, indo até ela, com um brinquedo na mão.
Rosalie abraçava os meninos, mas, abriu espaço para pegar a caçula no colo.
Emmett se levantou com o livro na mão. Chegou pertinho dela e a beijou brevemente nos lábios.
— Chegou o amor da minha vida – Ele imitou Noah, falando ao ouvido dela. Os dois riram. – Dormiu bem? – pediu ainda enquanto se afastava. – Conseguiu descansar?
— Eu me sinto bem melhor agora.
— Estávamos pensando em você o tempo todo.
— Eu sei.
— Mãezinha, você tava muito dormindo – comentou Noah. – Por que você ficou assim? Até parece que era a Bella Adormecida. A bisvovó disse que você tava abulada.
— Acabada – Emmett decifrou ao ver a confusão no rosto dela. Rosalie meneou a cabeça, achando graça.
— A gente sentiu sua falta – Enrico anunciou.
— Mamã. Papá – Essa era Amy com seu jeitinho de dizer que também sentiu falta. E que o papai tinha ficado com ela o tempo todo.
— Desculpe-me, a mamãe não queria preocupar vocês.
— Papai Emmett tirou sua roupinha – Noah lembrou. – Você chorou?
— Não, amor. Ele não me machucou.
Passado um instante, ela levou os meninos de volta a suas camas e ficou sentada no tapete com Amy, ao lado de Emmett. Depois que os meninos dormiram, eles levaram a caçula para cama, no quarto mais adiante. Abby já dormia na cama dela. Após darem boa-noite a caçula, Emmett levou Rosalie até a cozinha.
— Agora eu vou cuidar de você – disse. E a levou pela mão até a mesa. Gentilmente puxou a cadeira para que ela sentasse.
— Emmett... O que está fazendo?
— Vou servir o seu jantar – avisou, enquanto ela se acomodava na cadeira.
— Você não precisa fazer isso.
— Tem razão, eu não preciso. O problema é que quero muito fazer isso. Então seja boazinha e me deixe servi-la. Quero mimar o amor de minha vida.
— Você anda passando muito tempo com o Noah.
— Você precisa aceitar que é o amor de nossas vidas.
Rosalie sentiu uma felicidade gostosa desabrochando dentro dela. E o som de uma risada lhe escapou.
— Eu só te dou trabalho – disse, porém, o sorriso estava no rosto.
Emmett chegou um pouco mais perto, e, curvando-se a beijou no pescoço demoradamente.
— Você me traz muita felicidade, e isso é tudo – continuou. E para ele essa era a única verdade.
Rosalie acariciou os cabelos dele com as pontas dos dedos. Logo ele voltou a sua postura ereta e se afastou.
— Aguarde sentadinha aí, moça bonita.
— Como quiser – ela respondeu risonha.
Emmett lançou um olhar a ela ainda enquanto pegava a louça no armário para pôr sobre mesa.
— Você tem o sorriso que eu amo, sabia?!
— De tanto te ouvir dizendo isso, posso acabar acreditando.
Ele pôs a louça sobre a mesa e começou organizá-la diante dela.
— Essa é minha intenção – ele piscou um olho, e sorriu com as covinhas brincando nas bochechas.
Fez uma breve descrição do jantar, fingindo ser um chefe de cozinha, enquanto preparava tudo para levar ao micro-ondas. Depois pegou uma garrafa de vinho e serviu duas taças, entregando uma na mão dela.
— Esse é francês, da região de Borgonha – acrescentou.
Rosalie ergueu a mão, fazendo girar o líquido escuro no interior da taça. Observando seu aspecto e aroma como quem degusta de todas as técnicas. Por fim, tomou o primeiro gole.
— O que achou?
— Foi tudo encenação. Não sei nada sobre vinhos – revelou, com um sorriso nos lábios. – Só fiz aquilo que as pessoas fazem na tevê.
Emmett deu risada. Em seguida, usou de postura séria e começou a falar.
— O vinho tinto tem sabores e aromas muito mais intensos e fortes e, por conta disso, é sempre necessária uma pausa para respirar. A taça para esse tipo de vinho, por sua vez, possui um corpo grande, para que a bebida possa balançar o suficiente. Vale destacar que nunca se pode preencher uma taça inteira com vinho tinto, e sim colocar no recipiente unicamente o necessário para ocupar um terço do mesmo.
Lena tinha parado no umbral da porta, observando-os. A expressão em seu rosto escancarando seu contentamento. Nenhum dos dois tinha notado sua presença, nem ela queria que notassem.
— Você é uma caixinha de surpresas – Rosalie admitiu, se divertindo.
Emmett se inclinou, beijando com vontade os lábios dela, sentindo no beijo o sabor intenso do vinho. Em seguida sussurrou:
— De forma alguma eu poderia viver sem você ao meu lado. Eu quero cuidar e te amar, pra sempre.
O micro-ondas apitou no outro lado da cozinha, impedindo-o de continuar.
Antes que notassem sua presença, Lena se retirou.
— O seu jantar, moça bonita – ela o ouviu falar ainda enquanto se afastava.
[...]
Lena acordou no dia seguinte decidida a fazer uma visita a America. Uma ligação para a casa dos pais dela revelou que America estaria na loja de produtos agrícolas da família na parte da tarde.
Lena aproveitou o horário que Emmett estava mais ocupado para pedir a Scott que a levasse até cidade. Scott a levou acreditando que fosse mais uma ida como tantas outras. Até chegar a cidade, ele não fazia ideia de onde deveria deixá-la.
— Onde devo deixá-la, dona Lena?
Quando Lena mencionou o destino daquela ida à cidade, ele hesitou.
— Dona Lena, eu acho que o patrão não vai gostar.
Lena lembrou.
— Eu também sou sua patroa, Scott. E estou pedindo que me leve até lá.
A expressão de Scott tornou-se preocupada. Ele não queria ir contra as ordens de Emmett.
— Vamos, meu rapaz, mude essa cara de preocupado. Eu não vou matar a moça.
Scott a olhou brevemente.
— O patrão não vai gostar nada disso. E se eu perder meu emprego? Como irão ficar os meus pais?
— Não vai acontecer nada com seus pais. Eles trabalham na fazenda há anos. E se meu neto te mandar embora, eu te recontrato. Estou velha, mas ainda mando naquela fazenda. Agora deixe disso e faça o que estou mandando.
Scott seguiu viagem, embora não muito convencido.
Pouco tempo depois, ele manobrava no estacionamento da loja. Scott saltou da caminhonete, em seguida, passou pela frente para abrir a porta para Lena descer. Ele a ajudava, segurando sua mão, quando ambos perceberam vozes de crianças.
— Bisvovó, bisvovó! – As quatro crianças, Abby, Logan, Enrico e Noah gritavam por ela do carro de Kate. Kate tinha acabado de deixar a escola primária onde dava aulas e voltava para a fazenda, quando reconheceu a caminhonete vermelha e começou segui-la.
Lena ficou olhando pelo tempo que a neta levou para sair do carro estacionado a duas vagas de onde Scott deixou a caminhonete.
— Vovó, o que a senhora está fazendo aqui? – ainda distante Kate pediu.
Lena pôs as mãos nos quadris.
— É uma loja de produtos agrícolas, e por acaso sou proprietária de uma fazenda.
Kate moveu a cabeça, em descrença.
— Vovó, a senhora não é mais responsável por essas coisas há bastante tempo. É sempre meu irmão ou um dos rapazes que fazem isso. – Kate se aproximou ainda enquanto falava. – A senhora veio atrás dela, não foi?
— É isso mesmo – Lena, por fim, admitiu. – Eu preciso olhar na cara daquela sem-vergonha para entender de onde saiu tanta maldade.
— O meu irmão não sabe que a senhora está aqui, não é?
— É claro que não. – Lena refletiu por um instante. – E desde quando eu tenho de dar satisfação pro seu irmão. Eu sou uma mulher adulta.
Kate e Scott deram risadas abafadas.
— Sendo assim, vovó, digo que foi bom tê-la encontrado.
— Você estava era me seguindo, admita.
Os lábios de Kate se curvaram num amplo sorriso. Ela se voltou para Scott.
— Scott, você poderia, por favor, ficar com as crianças enquanto acompanho a vovó nessa missão?
— Com certeza.
— Se por acaso demoramos mais que o necessário, chame meu marido.
O rapaz anuiu, encostando a mão brevemente ao chapéu de couro.
Kate segurou no braço da avó e juntas seguiram em direção à entrada da loja.
America estava a ponto de deixar o local, o celular na mão, quando ambas entraram no estabelecimento.
— Não, não, não... – lamentou, desviando o olhar um breve instante. – Eu já ouvi tudo o que tinha para ouvir – se queixou.
— Tenho certeza de que meu neto foi educado o bastante. Porque assim é o garoto a quem eu vi crescer. Emmett seria incapaz de acuar ou mesmo levantar a mão para uma mulher.
— Não quero discutir com a senhora, dona Lena. Eu a tenho como uma avó – America tentou.
— Eu não sou sua avó. Meus netos não são chantagistas.
— O que a senhora quer de mim, afinal? – America levantou a voz, se estressando, de repente.
Kate deu um passo à frente.
— Não se atreva... – resmungou. E Lena a fez parar, segurando seu braço.
— Não faça isso querida. Lembre-se do que seu irmão e o seu marido disseram. – Lena, olhou no rosto de America. – Ela já está sendo punida – completou.
— Por que estão aqui? – America insistiu.
— Eu só queria olhar nos seus olhos e conseguir perceber a pessoa mau caráter que você se tornou – revelou Lena. – Como foi capaz de chantagear uma moça como a Rosalie?...
— Eu estou arrependida.
— É bom mesmo que esteja. – Kate levantou a voz. – Porque o que você fez, por pouco não causou uma tragédia.
— Eu já estou sabendo, e, acredite, eu sinto muito. – Um minuto de silêncio, ela tornou a falar: – Me desculpe.
— Não é a mim que você tem de pedir desculpas.
Lena tomou a palavra.
— Um dia eu acreditei que fosse uma boa garota. Você não é mais aquela garota que ia a fazenda para fazer trabalhos de escola com minha neta. Aquela garota era diferente. E não me venha dizer que Rose fez qualquer coisa contra você. Ela mal a conhece, você nunca deu chance pra isso acontecer. E meu neto nunca te pertenceu.
Entristecida, Kate lembrou.
— Nós éramos amigas. Íamos a vários lugares juntas, durante o Ensino Médio.
— E ainda podemos ser – America admitiu com tristeza.
Kate foi firme em sua decisão.
— Não quando você quer fazer mal ao meu irmão, afastando dele a mulher que ele ama. – Uma pequena pausa e ela continuou: – Pra ser bem sincera com você, quando soube que tudo o que passamos outra noite havia sido culpa sua, eu quis muito, e que Deus me perdoe porque essa loucura nunca tinha me ocorrido antes, vir atrás de você e encher essa sua cara de porrada. Isso só não aconteceu, porque meu irmão e meu marido me fizeram ver que não valia a pena. A verdade é que meu marido não estava muito confiante, tanto que ele me seguiu no carro do serviço dele até a porta da escola.
— Kate...
— Eu ainda não acabei – Kate prosseguiu. – Você despertou o que havia de ruim em mim, e eu não quero isso. Não, eu não quero.
— Em nome de nossa amizade... – Americaa insistiu. – Me desculpe.
Kate balançou a cabeça negativamente.
— Eu não quero pensar que um dia você possa ter me usado só para estar perto do meu irmão. Seria muito decepcionante para mim se isso fosse verdade.
Lena interferiu.
— Vamos embora, Kate. America tem agora os próprios demônios com que lidar.
— Dona Lena... – America insistiu, pondo a mão no braço dela.
— Não faça isso – Kate grunhiu. E America obedeceu. – Vamos esclarecer uma coisa aqui – continuou Kate: – Se você voltar interferir na vida de meu irmão e da Rose, ou fazer mal aquelas crianças, eu juro, America, eu virei atrás de você e pode apostar não serei nenhum pouco gentil.
Lena enxergou nos olhos da neta uma fúria que jamais esteve ali. Sua reação foi segurar firme no braço dela e guiá-la até a porta de saída.
Kate continuou olhando America sobre o ombro.
— Lembre-se de quem sou filha.
— Kate, já chega! – Lena interviu. Mas a neta continuou encarando America.
— Emmett me protegeu. Cuidou de mim a vida inteira. Agora é minha vez de garantir a felicidade dele.
Lena empurrou a neta pela porta.
— Kate, olhe para mim – pediu. Os olhos de Kate estavam enevoados pela fúria repentina, mas, bastou olhar no rosto da avó, tudo passou. – O que foi isso? – Lena voltou a pedir.
— Eu não sei... – Kate respondeu, e, então, olhou para trás. – E aposto que ela não vai querer descobrir.
— Pare com isso. Você não é como aquele homem.
— Talvez haja algo dele dentro de mim pronto para se libertar.
— Não repita isso nunca mais. – Lena a abraçou forte. – Você é minha garotinha. A menininha que nunca desgrudava do irmão mais velho com medo de que algo ruim fosse lhe acontecer na ausência dele. A garotinha que eu criei com todo amor do mundo.
— America não pode afastar Emmett de Rose e das crianças, vovó, ele morreria sem elas.
— America não vai fazer mais nada. Ela está arrependida. E agora também sabe que seu irmão nunca irá olhar para ela como deseja. Ela já aceitou.
— Mamãe! – as duas ouviram Abby chamar do estacionamento, com um sorriso no rosto, de mãos dadas com Enrico.
Kate sorriu abertamente para a filha.
Logan, Noah e Scott brincavam de pega-pega logo atrás deles.
— Agora eu entendo quando meu irmão dizia, depois de botar os rapazes pra correr, que só estava tentando me proteger. E ele não desistiu até que me casei com um bom homem.
— Seu irmão jamais permitiria que alguém a machucasse. E nem eu.
Lena segurou no braço dela e juntas foram ao encontro das crianças.
— Tia Kate, podemos visitar a mamãe na livraria? – Enrico pediu.
Kate passou a mão nos cabelos dele.
— Agora mesmo – afirmou, sorrindo para o menino.
Enrico e Abby sorriram um para o outro, animados com a resposta.
[...]
Alguns dias depois...
A rotinha seguiu sem complicações. As crianças iam à escola. Enrico seguia com suas aulas de violino na igreja duas vezes na semana. Agora disponibilizando de seu próprio violino sentia-se ainda mais motivado. Entrou para o time de baseball da escola primária, no qual Logan já fazia parte. A proximidade do primeiro jogo o estava deixando ansioso.
Noah estava muito contente com todos os amigos que fez na escola.
Rosalie vinha desempenhando seu trabalho na livraria Refúgio com muita dedicação.
Em relação a America ainda sentia-se insegura. Ela tinha parado de procurá-la no trabalho para fazer ameaças. Mesmo assim, Rosalie não confiava nela.
Embora ninguém na fazenda tenha entrado no assunto com ela, e Rosalie sabia que era para poupá-la, tinha sempre alguém de confiança rodando a sede e os locais onde as crianças costumavam brincar depois da escola.
Na cidade, assim como ela, Esme estava mais atenta aos rostos das pessoas que entravam na livraria. Ainda que grande parte dos clientes fosse de pessoas conhecidas, sempre podia aparecer alguém de fora.
No último sábado, Emmett e Garrett levaram os garotos a um jogo de baseball na cidade vizinha. O fato de terem sido somente os garotos a irem deixou Abby irritada. Ela passou horas se queixando sobre o quanto aquilo era injusto.
Quando retornaram à noite, Noah não se aguentava de felicidade por ter conseguido tirar fotos com a mascote do time. Abby fez bico, e o tio garantiu que a levaria na próxima vez. Os meninos estavam tão cansados que capotaram em suas camas logo depois do jantar. No domingo pela manhã, toda a família foi à igreja junto. Na parte da tarde estiveram o tempo todo brincando com as crianças; soltando pipas, andando de bicicleta e a cavalo.
Rosalie sentia que era finalmente feliz. A fazenda Recanto dos Ursos era o seu lar. Tinha levado um tempo, mas, finalmente, o destino, ou mão divina como queira chamar, os levou ao lugar certo.
Agora, depois de uma noite agradável com toda família reunida, conversando e dando risadas, Rosalie e Emmett dormiam nos braços um do outro. Era tarde da noite. A casa inteira estava silenciosa. Somente ruídos vindos do lado de fora; galhos de árvores farfalhando com a brisa e uma coruja a chirrear.
Rosalie sonhava com os avós, após tanto tempo.
Estava em Lakewood, cidade onde cresceu. No jardim dos fundos da casa branca de dois andares, brincando no balanço feito pelo o avô materno.
Era só uma garotinha de cinco anos de idade. Seus cabelos louros e compridos presos em duas tranças que lhe caiam aos ombros. Vestia um macaquinho jeans, camiseta cor-de-rosa e seus tênis eram coloridos.
Jogava a cabeça para trás, sentindo a brisa acariciar seu rosto. Raios de sol, numa tarde de primavera, penetravam na copa da árvore alcançando seu rosto saudável. Aos seus pés estava a grama verde e viçosa. Mais adiante, a sua frente, um rododendro florido, ao lado dele uma pequena fonte onde pássaros pousavam para beber água. Nos canteiros ao redor da casa, flores de todas as cores e tamanhos embelezando o jardim que sua avó cultivava com todo carinho, todos os anos, durante a mudança de estação.
Rosalie tinha crescido sabendo que sua mãe, Isobel, tinha brincado naquele mesmo jardim, com um balanço igual aquele. Essa, sem dúvida, era uma das coisas de que mais gostava; saber que estava cercada de todas as coisas que a mãe amou e tocou. Uma mãe que só conhecia por fotografias e histórias contadas pelos avós.
— Olha só, vovó. Eu posso voar – A Rosalie criança repetia com felicidade. Os olhinhos âmbar, brilhantes. E a avó, na varanda dos fundos da casa, com seus cabelos cor de mel ainda sem fios grisalhos, sorrindo e acenando para ela.
Jocelyn segurava um pano de prato florido numa das mãos.
— Venha, minha pequena flor do campo. Seu avô está nos esperando para almoçar.
Rosalie desceu do balanço imediatamente. E foi correndo, toda sorridente, até a varanda onde a avó a aguardava. Ela viu, pela porta aberta, o avô perto do balcão da cozinha, acenando para ela. Ele tinha covinhas nas bochechas quando sorria, exatamente como Noah era agora. Seus cabelos eram claros com um fio ou outro grisalho. Usava bigode e cavanhaque. E seus olhos eram tão azuis quanto um pedacinho do céu. Naquela época, Rosalie não podia imaginar que um dia teria um filho que herdaria a cor dos olhos e o sorriso de Zachary, seu querido avô materno.
A cena mudou.
Ela então com seis anos. Faltando poucos dias para o natal. Ela e o avô estavam embaixo da mesa da cozinha, escondidos da avó enquanto ela trabalhava em mais uma fornada de biscoitos natalinos. Jocelyn mantinha os cabelos presos no alto da cabeça. O avental verde com pequenas renas estampadas, manchado de farinha.
O aroma de biscoitos assando e açúcar mascavo estava por toda a casa.
A garotinha loura dava risadinhas, encobrindo a boca com as mãos. O avô esticava o braço para fora da toalha de mesa natalina, alcançando dois dos biscoitos na tigela ainda mornos. Ficando com um e dando o outro pra neta. A pequena Rosalie mordeu o biscoito com gosto, uma falha na arcada superior denunciava a falta de um dente.
Zachary repetiu o mesmo processo de pegar os biscoitos na tigela e dividir com a neta, até que foram descobertos.
— Não pode ser – lamentou Jocelyn, teatralmente, notando o sumiço dos biscoitos na tigela. – Os biscoitos estão sumindo. Deve ter algum ratinho escondido aqui debaixo dessa mesa. Talvez sejam dois ratinhos.
Rosalie deu uma risadinha. Seus olhos, brilhantes de alegria. Ela olhava no rosto do avô, seu cúmplice, seu amigo. Notando migalhas no cavanhaque grisalho dele, a prova da travessura.
— Achei vocês! – a avó exclamou. Rosalie deu um gritinho antes de gargalhar junto com o avô. – Então os ratinhos sumindo com meus biscoitos eram vocês dois?! Eu deveria saber disso.
— O vovô comeu mais – a pequena Rosalie denunciou. – A boca dele é maior que a minha. E a barriga, também.
— Sua danadinha – Zachary se queixou, embora sorridente. O azul de seus olhos refletindo o brilho de sua felicidade e o carinho que tinha pela única neta.
— Ela não deixa de ter razão – a avó concordou.
Zachary abraçou a neta e lhe beijou o rosto rosado. A menina gargalhou. Ela sentia o cavanhaque do avô pinicar seu rosto. Depressa rastejou de debaixo da mesa, agarrou as pernas da avó, sentindo o cheiro de biscoitos em seu avental, sujando suas bochechas com a farinha. Sorrindo abertamente.
A avó lhe acariciou os cabelos.
O rosto do avô apareceu por debaixo da toalha de mesa.
Eles tinham perdido a única filha de forma trágica, num acidente, mas ela lhes deixou o mais lindo dos presentes e também o mais valioso. Sua melhor parte. Uma garotinha chamada Rosalie. E eles a amavam tanto quanto amaram sua mãe.
A cena tornou-se outra.
Rosalie estava com oito anos, então. Estavam as duas, ela e a avó, em frente ao túmulo do avô, que morrera de repente vítima de um infarto fulminante. As duas choravam, vestidas de preto.
A cena tornou a mudar.
Rosalie não era mais uma menininha. Era uma adolescente, trajando um vestido de festa lilás, pronta para o baile da escola. A avó se posicionou com a câmera fotográfica na mão e bateu uma foto. Tão feliz quanto à neta estava. A campainha tocou. O acompanhante de Rosalie para o baile tinha acabado de chegar.
Outra mudança de cena.
Agora, com dezoito anos recém-completos, Rosalie estava no funeral da avó. A única família que lhe restava tinha acabado de partir. Rosalie chorava muito. Estava emocionalmente destruída. Sentindo-se mais sozinha do que jamais esteve.
Depois do funeral voltou para casa, tendo cuidado em evitar a vizinhança que desejava os pêsames a todo instante. Em alguns dias estaria partindo para faculdade, deixando tudo para trás, sem imaginar que não chegaria a concluir seu curso. Caminhou até o jardim dos fundos e sentou no velho balanço. Porém, tudo ao redor estava diferente. Ela não era mais a garotinha feliz.
Embora não tenha crescido com mãe e pai, Rosalie tinha tido os melhores avós do mundo. E foi muito amada por eles.
Não era primavera, nem tampouco verão. Era início do outono, folhas secas caiam no chão. O jardim estava morrendo, assim como toda sua família. A única diferença era que na próxima primavera ele voltaria a florir.
Voltou a chorar, sentada no balanço que rangia. Seus cabelos louros não estavam trançados e ela não vestia roupas coloridas. Era uma adolescente prestes a ir pra faculdade, sem família alguma para vê-la se formar.
Seus sonhos e seu futuro estavam ameaçados.
Mãos delicadas lhe tocaram os ombros. E então não era mais a adolescente solitária que estava ali. Era a mulher adulta, a mãe de três crianças, que brincava no balanço.
— Vovó? – murmurou saudosa.
— Minha pequena flor do campo – ela ouviu a voz gentil de Jocelyn.
— Finalmente voltei a ser feliz, vovó – contou.
— Ah, minha menina, eu sei. Eu sei.
A brisa suave e fria se transformou em vento levantando as folhas secas do chão.
Rosalie sentiu que Jocelyn se afastava. E seu corpo inteiro tremeu.
— Vovó?
— Ele vai voltar.
— Vovó?
— Você precisa tomar cuidado.
— Vovó! – Rosalie gritou. E não era mais apenas no sonho. Estava nos braços de Emmett. – Vovó – repetiu, apavorada. Sentindo a dor da separação mais uma vez. E o medo que aquelas palavras lhe trouxeram.
Emmett despertou no mesmo instante. Esticou o braço e acendeu a luz do abajur na mesinha de cabeceira no seu lado da cama. Estava preocupado, enxergando no rosto dela aflição.
— Vovó – Rosalie repetiu. Mas já não gritava mais. Sua voz não passava de um murmúrio sofrido.
— Você teve um pesadelo? – Emmett murmurou, com os lábios nos cabelos dela, mas Rosalie não respondeu.
Passou alguns minutos respirando no peito dele, sem dizer nada, o coração batendo forte demais. Então ela se levantou e caminhou até a janela. Estava de pés descalços e vestia um pijama de seda branca. Os cabelos lhe caiam sobre os ombros com ondulações. Puxou a cortina para enxergar através do vidro, mas estava escuro demais lá fora.
Emmett levantou da cama, usando apenas uma cueca samba-canção, e foi até ela. Parando atrás de suas costas envolvendo sua cintura fina com os braços, encostando o corpo dela ao seu.
— O quer ver lá fora? – pediu ao pé do ouvido dela.
Rosalie se recostou ainda mais a ele, sentindo o calor de seu corpo e os músculos a envolverem.
Emmett lhe beijou os cabelos. E disse num sussurro:
— Quer falar sobre isso?
Rosalie suspirou, nostálgica.
— Estava sonhando com meus avós maternos.
— Foram eles que criaram você depois que seus pais...
Rosalie anuiu.
— Há muito tempo não sonhava com eles.
— Foi um sonho ruim?
— Eu não sei... Foi estranho. A verdade é que não era apenas um sonho. Eram momentos que eu já tinha vivido antes. Foi como fazer um passeio pelo meu passado... – assim, ela fez uma breve descrição das cenas até chegar à última.
— Então sua avó disse para você tomar cuidado, por que ele iria voltar?
— Foi isso.
Emmett beijou na têmpora direita dela.
— Foi só um sonho.
— E se foi um aviso? – Emmett sentiu o corpo inteiro dela tremer quando disse isso. Ele a abraçou com mais força.
— Você tem pensado muito nessas coisas. Deve ser por isso que sonhou.
— Mas e se não for apenas um sonho? E se ele realmente estiver a caminho?
— Eu estarei aqui para protegê-la. Você tem de acreditar nisso.
Ela acariciou os braços de Emmett nas palmas das mãos.
— Eu estava dizendo a ela que tinha voltado a ser feliz. E eu tenho certeza de que ela sabia que era por sua causa. Mas então, de repente, começou a ventar e ela se afastou dizendo que...
— Shhhhh... – Ele encostou o dedo indicador nos lábios dela. – Não volte a dizer isso.
— Não?
— Não – Emmett repetiu. – Se você não voltar a repetir, o medo vai perder força. Agora venha, vamos voltar para cama. Eu vou cuidar para que não pense mais nisso.
— Como?
— Fazendo uma coisa que eu sei que você adora.
Emmett a pegou pela mão. Rosalie lhe lançou um olhar esperançoso, porém, desconfiado. Emmett beijou no canto dos lábios dela. Passou um braço por baixo das coxas dela e a carregou até a cama. Posiciono-a sobre o travesseiro. Acariciou-a no rosto e também seus cabelos dourados. Com mãos cuidadosas e gentis lhe tirou o pijama de seda.
Pelos próximos minutos dedicou-se a dar prazer a ela. Tocando-a de maneira que somente ele conseguia fazer; com cuidado, veneração e amor. Fazendo-a ir ao limite entre o prazer e a dor com apenas as pontas dos dedos e sua língua. Levando-a tapar a boca com um punhado do cobertor a fim de silenciar o grito de um orgasmo intenso.
Por fim, fazendo amor com ela de maneira lenta, desfrutando de cada sensação, cada toque, com beijos prolongados que inibiam a vontade incontrolável de deixar escapar qualquer som que pudesse chamar atenção para o quarto deles.
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