Um Lugar Para Ficar

39 Capítulo 39 – Esclarecendo as Coisas


Notas iniciais
Oi, gente. Obrigada pelos comentários no capítulo anterior. Eu amei cada um deles. E, vamos então a leitura do capítulo :)

Ainda no início daquela manhã, Rosalie gastou alguns poucos minutos no banheiro do corredor tirando a terra e o suor do corpo. As buscas por Enrico a tinha deixado com as roupas sujas de terra e suor. Seus tênis, imundos.

Somente durante o banho se deu conta de que a palma de sua mão esquerda estava com alguns aranhões. Pensou sobre isso um instante, recordando então que tinha caído logo no início das buscas. Aflita, tinha usado as mãos para apoiar-se durante a queda. Com toda adrenalina, medo e a aflição, na hora não tinha sentido nada. Só queria encontrar o menino. Agora, com tudo se acalmando, começava sentir o incomodo e a ardência.

O ferimento incomodou bastante durante o banho. Mas, não ficou se lamentando por isso. Já tinha suportado coisas piores durante os anos de casamento ao lado Royce.

Após vestir-se, pegou a caixa de primeiros socorros no armário do banheiro e tratou dos aranhões como deveria. Apertou os olhos uma ou duas vezes para ter de suportar a ardência. Quando terminou, recolheu as roupas sujas e os tênis e levou tudo para área de serviço.

Depois disso, preparou a mamadeira de Amy em silêncio. Lena não estava na cozinha, preparando o café da manhã para todos. Imaginou que porque fosse muito cedo ainda. E, talvez, tivesse aproveitado para tirar um cochilo agora que sabia que estava tudo bem com Enrico.

Durante o tempo que esteve na cozinha, trabalhou com cautela, evitando que as coisas encostassem-se à palma da mão machucada.

Quando voltou ao quarto, as quatro crianças ainda dormiam na cama que ela e Emmett dividiam todas as noites. Lena não estava mais lá, sentada na poltrona. Imaginou que tivesse ido para o próprio quarto.

Ouviu as vozes de Kate e Garrett no corredor. Notou no tom de voz da irmã de Emmett que ainda estava muito preocupada com o estado de saúde do cachorro da família. Novamente, Rosalie se viu agradecida por Caramelo ter se ariscado para salvar seu filho não só uma, mas duas vezes. Desejou muito que ficasse bem. Caramelo merecia viver. Aquelas pessoas não mereciam ficar sem seu cãozinho. Ele era também parte da família.

Ela olhou para Abby e Logan na cama, dormindo ao lado de Amy e Noah. Perguntou-se se também chorariam quando acordassem e descobrissem o que tinha acontecido a Caramelo nessa madrugada.

Emmett disse que tinha conseguido aplicar o soro a tempo. Que o corajoso cãozinho ficaria bem. Ela precisava acreditar nisso.

Deixou esses pensamentos de lado e se aproximou da cama. Pegou Amy ainda adormecida no colo, com cuidado. A menina se remexeu e soltou um gemidinho preguiçoso ao se espreguiçar. Ela não demoraria a acordar e pedir pela mamadeira. Rosalie só estava adiantando isso, antes de sair para ver como estavam Emmett, Enrico e Caramelo no consultório ao lado do galpão.

Amy abriu os olhos numa fenda, sabendo quem a pegava no colo. Rosalie beijou seus olhinhos com a mesma leveza de o pouso de uma borboleta. Amy resmungou quando lhe tirou a chupeta da boca, se aquietando ao perceber que lhe dava o bico da mamadeira. Enquanto a menina mamava, Rosalie esticou o braço alcançando a bochecha de Noah com os dedos. As bochechas do menino estavam manchadas com lágrimas secas. Ele havia chorado por horas seguidas durante a noite, quem sabe durante a madrugada, enquanto ela esteve fora procurando pelo filho mais velho.

Pediu perdão a ele, sem o uso de palavras. Estava dentro dela a culpa, assim como o pedido de perdão silencioso. Por um medo seu tinha desencadeado uma série de coisas ruins que afetou a todos.

Deixou Amy na cama, um tempo depois de ela ter terminado de mamar. Beijou seu rostinho e se retirou do quarto logo em seguida. Indo, finalmente, ver como estavam às coisas no consultório.

Deixou a casa, seguindo pelo gramado verde, alcançando o chão de terra. Sentindo a brisa leve da manhã lhe acariciar o rosto, movimentando alguns fios de seus cabelos soltos. Os pássaros começavam sua cantoria, assim como faziam em todo despertar de um novo dia. Viu dois esquilos correrem as margens da casa grande. Não ouviu latidos, e isso a fez pensar se Jujuba estaria dentro de casa, triste pelo amigo que se recuperava.

Cruzou a distância que separava o galpão da casa grande e seguiu até o outro lado, onde ficava o consultório. Abriu a porta de madeira pesada sem bater, não era necessário, afinal. Estava silencioso lá dentro. O cheiro característico do ambiente logo alcançou suas narinas.

Caramelo ainda estava deitado na mesa inox, adormecido, ligado a uma bolsa de soro, respirando levemente. Olhando no outro lado da sala, encontrou Emmett dormindo sentado no banco acolchoado. E Enrico deitado com a cabeça no colo dele. Deu alguns passos, percebendo que o menino também dormia. E estava completamente sujo. Só agora, a luz do dia, havia percebido que era bem mais sujeira do que pensava. Caminhos de lágrimas secas faziam uma trilha na terra grudada nas bochechas do menino.

Ao recordar o que passaram há poucas horas, a culpa fez seu coração apertar novamente. Precisou se esforçar para deixar de pensar que podia ser seu filho se recuperando da picada de uma cobra agora. E Deus sabe como evitava pensar no pior. Inevitavelmente, esse pensamento lhe fez escapar um gemido do fundo da garganta.

Emmett acordou com ela ajoelhada aos seus pés, olhando o menino dormir. Reconhecendo, nos olhos angustiados dela, um amor gigantesco pelo garoto. Se preocupando com ela no instante em que percebeu que chorava. Tomou a mão esquerda dela com carinho, se surpreendendo com um gemido incomodo que ela deixou escapar. Preocupado, virou a palma da mão dela para cima.

Rosalie olhava no rosto dele agora.

— Como?... – começou ele, ao perceber os aranhões.

— Foi quando saímos da casa, a procura de Enrico. Eu caí.

— Por que não me disse nada? – Ele acariciou a palma da mão dela, com a ponta dos dedos, em torno dos aranhões.

— Não tinha me dado conta até a hora que fui tomar banho.

— Tudo bem. – disse ele. – Me deixe cuidar disso agora.

— Não é necessário. Já fiz isso com o kit de primeiros socorros que encontrei no banheiro lá de casa.

Emmett olhou bem no fundo dos olhos dela, enquanto lhe beijava as costas da mão.

— Me deixe ao menos fazer um curativo. Não vai doer nada. E vai proteger.

Rosalie meneou a cabeça, aceitando.

Emmett ajeitou a cabeça do menino, com cuidado, no banco e se pôs de pé. Pegou Rosalie pela mão outra vez e os dois, juntos, se afastaram do banco.

Deixou-a um instante para poder abrir o armário de aço retirando de lá o que precisava. Voltando, aproximou-se do cachorro verificando como estava. Rosalie soube naquele momento que, fosse o que fosse Emmett tivesse visto, o cachorro ficaria bem, pois a expressão em seu rosto suavizou. Emmett fez um breve afago na cabeça de Caramelo e se afastou. Aproximando-se de Rosalie outra vez.

— Ele vai ficar bem – garantiu a ela, enquanto tomava sua mão com cuidado, notando que reparava no cachorro. Nesse momento, Rosalie percebeu Caramelo abrir os olhos numa fenda.

Emmett acompanhou com o olhar o gesto dela.

— Ele ainda vai precisar ficar aqui por mais um tempo. Tenho esperanças de que vai ficar bem. Logo estará perseguindo os pobres esquilos novamente.

Rosalie sentiu que Emmett acariciava sua mão e depois, com muito cuidado, cobriu o machucado com um curativo branco de bordas transparentes. Por fim, beijou o curativo na palma da mão dela com todo cuidado. Depois a abraçou.

— Por Deus, Raio de Sol – falou ao pé do ouvido dela, seu hálito roçando os fios dourados. – Não me faça sentir outra vez o pavor que senti ontem à noite. Achei que fosse me deixar de verdade.

— Eu... – ela murmurou, comovida.

— Eu não saberia mais viver sem você – Emmett a interrompeu. Suas palavras carregadas de sinceridade e amor. O mais puro amor.

Rosalie apenas enterrou o rosto no peito dele, enquanto ele a apertava num abraço de urso.

“Oh, Emmett, eu também não saberia mais viver sem você”, pensou em agonia. E quando estava prestes a transformar o pensamento em palavras, ele voltou a falar:

— O que aconteceu? O que te fez agir daquele jeito? Tomar tal decisão repentina? – Ele acariciou no alto da cabeça dela com a palma da mão. – Por Deus, Rose, eu já lhe garanti que está segura aqui comigo. Eu preciso saber, não poso ficar no escuro desse jeito...

Rosalie gemeu em desgosto, contra o peito dele. Era o momento da verdade, ela sabia.

— Alguém de minha família te fez sentir assim? Eu fiz algo que a magoou?

Rosalie negou com a cabeça. E, após um instante em silêncio, falou:

— Eu fui quem magoou você. Magoei a todos. Eu sempre faço tudo errado. Por medo...

— Aqui você não precisa sentir medo. – Ele acariciou de leve o rosto dela. – Eu seria incapaz de lhe fazer mal. Ou mesmo as crianças.

— Não é de você que sinto medo.

Emmett segurou nos braços dela com as mãos, afastando-a o suficiente apenas para olhar em seu rosto.

— Conte para mim, o que está te causando tanto medo? O que a levou pensar em se afastar?

— Antes de revelar os motivos que me levou a agir de tal maneira, você precisa saber que fiz pensando em proteger a todos. Eu errei feio. Quebrei o coraçãozinho dos meus filhos em mil pedaços. O meu estava partido de tal maneira... Acabei, também, magoando você. Perdoe-me, Emmett... Causei tantos transtornos essa noite. Entenda que agi por amor; a meus filhos, a você e também a sua família.

— Nossa família, Rose. Você e as crianças são parte dela agora. E eu não saberia mais como viver sem você. Não por ser um obcecado, doentio. Mas por que eu a amo, da forma mais doce e sincera, como nunca amei alguém. Você trouxe luz a minha vida. Você entende, não entende?

Rosalie afirmou, com um movimento de cabeça.

— Agora você pode...

— America – Rosalie enfim desabafou, interrompendo-o.

— America? – Emmett repetiu surpreso. Logo depois ergueu a mão, acariciando o rosto dela com delicadeza. – Isso não faz sentido. America não pode fazer nada contra você, Raio de Sol.

— Sim, ela pode.

Emmett a olhou, com confusão estampada no rosto.

— Ela já está fazendo – Rosalie declarou.

A surpresa tomou conta de Emmett por completo.

— O que America fez?

— Por culpa dela quase perdi meu filho essa noite. E Caramelo ficou ferido.

— Não entendo – Emmett mencionou.

— America me ameaçou.

Emmett não afastava os olhos dos dela. E era claro como ficava cada vez mais surpreso.

— O que ela fez exatamente? Conte tudo para mim, Rose.

— A primeira exigência, era que você não poderia ficar sabendo.

— Que eu não poderia ficar sabendo o quê?

— Que ela estava por trás de tudo.

— Como assim, por trás de tudo? O que é tudo, Rose?

— America me procurou na livraria e me fez ameaças.

— Que tipo de ameaças?

— Ela me disse para sumir de sua vida. Para deixar a fazenda o mais depressa possível ou...

Emmett recuou alguns passos.

— E você iria me deixar assim? Sem nenhuma explicação?

— Ela ameaçou dizer a Royce onde nos encontrar – Rosalie falou baixinho, sentindo-se culpada. Envergonhada. Um tremor acometeu seu corpo e ela olhou imediatamente o menino adormecido no banco encostado à parede. – Lembre-se que fiz isso pensando em protegê-los.

Emmett voltou a se aproximar, tomando-a em seus braços outra vez.

— Como é possível America saber sobre Royce? – Ele tinha o rosto apoiado no alto da cabeça dela quando fez a pergunta.

— Eu não sei... Mas, de alguma forma, ela descobriu. Descobriu meu nome de casada e o nome de Royce. Meu Deus, o jeito como falou... Ela realmente sabe sobre ele. Disse-me que eu teria de deixá-lo, só assim não diria a Royce onde nos encontrar. Ela não sabe toda a história disso eu tenho certeza. Acontece que está disposta a me afastar de você.

— Não importa o que diga, não dê ouvidos a ela. Se for verdade que sabe sobre Royce, então que diga a ele aonde nos encontrar. Estou mesmo querendo conhecê-lo já algum tempo.

Rosalie sentiu o corpo inteiro tremer. A ideia de um confronto era assustadora.

— Não quero voltar a vê-lo – admitiu. – Não quero você diante dele. Royce é perverso. Ele sente prazer em fazer o mal. Não sente remorso. Além de sua capacidade de manipulação e de conquistar facilmente a simpatia das pessoas. Quem não o conhece como eu o conheci, acha que é um exemplo de pai de família.

— Se para ter você e as crianças ao meu lado eu tenha de enfrentá-lo, então é isso que farei.

— Não... – ela soluçou no peito dele.

— Não vai acontecer nada. Acredite, você e as crianças ficarão bem.

A porta pesada de madeira foi aberta e Lena e Scott passaram por ela.

Rosalie se afastou de Emmett, olhando para o lado oposto, enquanto limpava as lágrimas no rosto com as mãos. Não queria que Lena, nem Scott, os vissem desse jeito. Já tinha causado problemas e preocupações demais em tão poucas horas. Então, deixando que conversassem, aproximou-se do banco onde Enrico dormia e se agachou ao lado dele.

Lena e Scott falavam com Emmett qualquer coisa sobre o estado de saúde do cachorro.

Rosalie começou acariciar os cabelos do menino com os dedos da mão boa. Beijou-lhe a pontinha do nariz e também a testa.

— Hora de levantar, príncipe – murmurou pertinho do rosto dele.

Emmett desviou a atenção da avó, que cariciava o pelo do cachorro, para olhar para eles no outro lado do consultório.

— Não precisa acordar ele, Rose – disse. – Eu o levo para casa.

— Ele precisa acordar, está muito sujo. Precisa de um banho antes de ir pra escola – Ela continuou acariciando o cabelo do menino. – Acorde, meu amor. Rico?

O menino abriu os olhos devagar. Ficou em silêncio como tentasse entender onde estava e o que tinha acontecido. E então lá estava ele, lembrando-se de tudo. Preocupação atingindo-o em cheio. Ele se levantou muito rápido, pronto para saltar fora do banco, quando Rosalie o segurou pelos braços impedindo-o.

— Caramelo, mamãe – disse o menino, suplicante. Esticando o pescoço para enxergar sobre os ombros da mãe o cachorro em cima da mesa inox.

— Calma – ela lhe disse, com cuidado.

Enrico olhou no rosto dela e novamente sobre seus ombros.

— Ele está vivo? Ele não morreu, não é? Ele não pode...

— Ele está vivo, sim.

Enrico quis de novo sair do banco e dessa vez Rosalie o deixou ir.

Ele caminhou apressado para junto da mesa no centro do consultório. Subiu outra vez os dois degraus ao lado da mesa e esticou a mão para acariciar a pata do animal que tinha a bandagem.

— Caramelo? Amigo – falou baixinho. Apreensivo e também preocupado.

Reconhecendo sua voz, Caramelo abanou o rabo devagar batendo na superfície da mesa. Em seguida, abriu os olhos.

— Ele está vivo – contou alegre. E se debruçou sobre o cachorro envolvendo-o num abraço cuidadoso. – Obrigado amigo – agradeceu a Caramelo. E o cachorro, ainda fraco, lambeu seu rosto. Enrico sorriu e voltou à postura ereta. – Caramelo salvou minha vida, bisvovó – contou a Lena, orgulhoso. – Por duas vezes.

Lena afagou seus cabelos castanhos. – Eu tinha certeza de que ele cuidaria de você, Rico.

— Ele foi muito corajoso, bisvovó.

— Você também foi muito corajoso.

— Eu tive medo – admitiu. – Eu chorei. Não fui corajoso.

— É claro que foi. Homens valentes também choram.

Enrico deu um fraco sorriso.

— Vem, filho – Rosalie o chamou. – Você está precisando de um banho. Daqui a pouco teremos de ir pra cidade. E olha só como estão suas roupas.

— Eu não quero ter de ir à escola hoje. Quero ficar aqui com Caramelo. Por favor, mamãe, me deixe faltar na escola hoje. Caramelo é meu amigo, ele precisa de mim.

— Ele pode ficar, Rose. Eu cuido dele.

— Você tem certeza? Não quero mais causar incômodos.

— Você também deveria ficar em casa hoje. Não dormiu a noite inteira – Lena propôs. – Eu posso telefonar pra minha comadre dizendo o que aconteceu. Tenho certeza de que ela compreenderia.

— Vovó tem razão, Raio de Sol. Com certeza deve estar muito cansada. Precisa descansar. Precisa dormir ainda que algumas poucas horas.

— Não quero faltar com Esme. Ela já tem aberto muitas exceções por mim. Não quero que pense que estou abusando da confiança e do carinho dela.

— E eu, mamãe? – Enrico quis saber. – Vou poder ficar aqui na fazenda com o papai Emmett cuidando do meu amigo Caramelo? Ele ainda precisa de mim.

Rosalie ficou calada, parecendo pensar no pedido. Então, finalmente, deu a resposta.

— Tudo bem. Você pode ficar. Depois da noite de ontem é melhor mesmo que fique em casa e descanse.

— Legal.

— Mas você vai ter de ir com a mamãe para tomar um banho, de toda forma. E comer alguma coisa.

— Eu estou mesmo com fome.

— Eu sei – ela estendeu a mão pra ele, e Enrico segurou sem reclamar. Descendo de onde estava em seguida.

— Caramelo também está com fome?

— Por enquanto o soro vai mantê-lo bem.

— Vá com eles – Lena disse pra Emmett. – Você também está precisando de um banho e de se alimentar. Scott fica aqui até você voltar. Eu vou ficar apenas um pouco, quero estar lá para tomar café da manhã com vocês.

Emmett anuiu.

— Está certo.

Rosalie ajudou Enrico a pôr os tênis de volta. Antes que eles alcançassem a porta, o menino fez um pedido.

— Cuide bem do meu amigo, Scott.

— Fique tranquilo, patrãozinho.

Enrico sorriu, encolhendo os ombros, envergonhado. Emmett piscou um olho pra ele, mostrando que estava tudo bem ele ser chamado assim.

Do lado de fora do consultório, enquanto caminhavam de volta a casa grande, Enrico ofereceu a mão livre a Emmett e os três seguiram andando de mãos dadas. A satisfação que sentia, em tê-los juntos ao seu lado, era notável no modo como se movimentava e sorria. Emmett e Rosalie tinham notado tal felicidade nos olhinhos dele com a mesma satisfação.

Logo que eles entraram na casa, Noah, Abby e Logan, ainda vestindo pijamas, correram para receber Enrico com um abraço. As quatro crianças cambalearam pra cair, mas permaneceram de pé.

Rosalie recebeu a filha caçula dos braços da irmã de Emmett, com um grato agradecimento. Não demorou, Noah estava agarrado as suas pernas querendo sua atenção.

Emmett disse que levaria Enrico para o banho e quando o menino desocupasse o banheiro, tomaria o seu.

Rosalie ficou na sala com os dois mais novos, sentados no sofá. O filho mais velho de Kate ligou a tevê no canal infantil. Cheiro de café fresco vinha da cozinha.

Kate mencionou algo sobre Neva está na cozinha ajudando no café da manhã, logo depois se retirou da sala. Estava indo se aprontar para o trabalho. Levou os dois filhos juntos; Abby no colo, cheia de preguiça, Logan, ao lado, resmungando que queria ver tevê.

Como Rosalie tinha imaginado, Noah disse que não iria pra escola se Enrico não fosse. Conhecendo o filho como conhecia, o quão dramático ele era, nem tentou convencê-lo do contrário.

Pouco mais tarde, depois do café da manhã em família, e de ter dado um breve resumo do que causou toda aquela confusão, Rosalie avisou a Emmett que iria pra cidade de carona com Kate, que assim como ela decidiu ir trabalhar mesmo depois de tudo. Como os meninos não iriam à escola, não havia necessidade de usar outro carro para deixá-la no trabalho.

Abby e Logan foram se despedir de Caramelo no consultório. Quando eles saíram, Jujuba tinha ficado lá, deitada, fazendo companhia ao amigo.

Antes de Rosalie entrar no carro de Kate, Emmett lhe devolveu o celular. E fez questão de lembrar que podia usar para falar com ele e as crianças a qualquer momento.

Garrett os seguiu de perto no carro de polícia.

Pouco antes do horário do almoço, Rosalie começou demonstrar os primeiros sinais de fadiga física e mental. Seu rendimento havia caído consideravelmente. E parte de seu horário de almoço foi usado com cochilos perturbados.

Tinha contado a Esme o que aconteceu na fazenda durante a noite se estendendo pela madrugada, logo nas primeiras horas do dia, quando ela notou seu cansaço. As olheiras que nem mesmo a maquiagem conseguiu disfarçar. Sempre compreensiva, Esme insistiu que deveria ter lhe contando antes e então teria lhe dado o dia de folga. Rosalie alegou que não queria criar mais problemas. Que aguentaria firme. Já tinha passado por coisas piores e, ainda assim, teve de se levantar, limpar a casa, fazer comida e cuidar das crianças.

As horas se arrastaram. E quando os ponteiros do relógio indicaram dezessete horas, ela soube com certeza que estava no limite. Por um instante, teve a triste sensação de estar na casa de Royce, ferida e exausta, tendo de fazer tudo o que ele pedia. Pegou-se desejando que Emmett já estivesse do lado de fora, aguardando por ela dentro do carro, mas, bastou apenas uma breve olhada, através da vitrine de livros, para saber que ele não estava lá.

Àquela altura, Kate e as duas crianças já estariam de volta à fazenda, se viu pensando. Teriam deixado à escola por volta das quinze horas e quarenta minutos. Desejou muito estar com todos eles em casa. Torceu para que Kate não tivesse cruzado com America na cidade. Não queria que se metesse em problemas por sua causa.

[...]

Emmett conseguiu deixar a fazenda a tempo de pegar Rosalie no trabalho, como vinha fazendo todos os dias. Mas, quando chegou à cidade, encontrou America caminhando ao lado de uma amiga, na calçada.

Ele diminuiu a velocidade, aproximando a caminhonete do meio-fio; abrindo o vidro da janela para falar com ela.

— America? – chamou. E então apertou a buzina. Ele notou que, no primeiro instante, ela havia se assustado. No entanto, levou apenas um segundo para sua feição mudar; sorrindo abertamente expondo o discreto aparelho dentário na arcada inferior, ao perceber que era Emmett quem chamava seu nome. – Preciso falar com você – disse. Tarde demais percebeu que isso tinha dado a ela falsas esperanças. America olhava para ele com um misto de ansiedade e alegria escancarada. Isso o fez sentir raiva, porque, essa reação dela demonstrava que acreditava que as ameaças feitas a Rosalie tinha surtido o efeito que esperava. – Eu vou estacionar. Encontro você num minuto, no café ao lado da loja de discos, pode ser?

America anuiu, sem se preocupar em esconder o sorriso.

Emmett então se afastou com a caminhonete, em busca de um lugar para estacionar que não ficasse muito longe.

America seguiu pela calçada, animada, ao lado da amiga. As duas se despediram em frente ao café.

Emmett atravessava a rua, levando a chave do carro na mão, quando percebeu America entrando no café pela porta de empurrar. Ele passou pela mesma porta uns poucos segundos depois. Olhando em volta, a encontrou sentada à mesa ao lado da parede de vidro que dava pra rua.

Caminhou até ela, percebendo que a garçonete fazia o mesmo trajeto.

America olhou pra cima e sorriu. Porém, o sorriso não foi retribuído por Emmett. Somente a partir desse momento começou se senti insegura.

Emmett puxou a cadeira de frente pra ela e sentou. A garçonete, de avental na cintura e cabelos escuros presos num rabo de cavalo, aguardou pelo pedido, com um caderninho e uma caneta em mãos. America pediu café puro, Emmett, um cappuccino bem doce.

America parecia ansiosa agora, e mexia os dedos das mãos. Emmett, cheio de pressa para resolver as coisas e ir encontrar-se com Rosalie na livraria, foi direto ao assunto.

— America, eu não vou enrolar. Vou direto ao assunto. Eu quero que você pare de ameaçar Rosalie.

America engoliu em seco. Amaldiçoando Rosalie em pensamentos por ter contado a ele.

— Olha só... – ele ia dizendo quando a garçonete se aproximou com o pedido. Ele aguardou, agradecendo quando ela se retirou. America fez o mesmo, embora não mais tão alegre quanto quando chegou.

Outra vez sozinhos à mesa, ele prosseguiu.

— Não importa o que faça, America. Você tem de entender que eu não vou deixá-la ir.

— Não sei do que está falando.

— Estou falando de você ameaçar Rosalie. De você dizer que entregaria o paradeiro dela e das crianças para você sabe quem, caso ela continuasse na fazenda. Caso continuasse comigo.

— Mas...

— Você não precisa fingir, America. Nós dois sabemos que é verdade. Sinceramente, eu não pensei que fosse esse tipo de pessoa. Você mais do que ninguém sabe que nunca te dei esperanças. Nós não somos compatíveis. Nunca daríamos certo juntos. Você é linda, não me entenda mal. Mas isso não se trata de um caso passageiro. O que eu sinto por Rosalie, e sei que ela sente o mesmo por mim, é amor e é pra vida toda. Desculpe, eu não queria ter de dizer isso pra você. Mas você não me deu escolhas. Eu não poderia ficar com você, ainda que Rose fosse embora, ainda que Rose não existisse.

Emmett percebeu que ela evitava olhar nos olhos dele agora. E que tinha os olhos acinzentados cheios de lágrimas.

— Invista em alguém que te ame. Você é uma garota linda. Não vai ser difícil encontrar alguém bacana.

— Mas não será você – ela falou tão baixo que Emmett quase não percebeu.

— Eu tenho uma mulher por quem sou apaixonado e três filhos lindos. E sinto que, pela primeira vez na vida, sou realmente feliz.

— Eles não são seus filhos de verdade.

— Sim, eles são. Ser pai é muito mais que contribuir com DNA. Pai é quem cria e quem dá amor. E eu amo aquelas três crianças profundamente. Sinto que foram destinadas a mim. E por alguma razão alguém lá em cima quis que eu as encontrasse naquela noite, há um tempo.

— Você poderia ter conseguido tudo isso de outra maneira.

— Não, America. Eu não poderia, porque foram eles que me resgataram da escuridão que era minha vida. Você me conhece há bastante tempo para saber que antes deles eu não estava feliz.

America deixou o café de lado, praticamente intocado. De repente, estava amargo demais.

— Por causa do que fez uma tragédia por pouco não aconteceu durante essa madrugada. Você sabe. Existem três crianças no centro de tudo isso, America. Três inocentes que nunca fizeram mal algum nem a você nem a qualquer outra pessoa. Você quer mesmo fazer mal a eles? Então vá em frente. Diga a Royce onde encontrá-los. Só não se esqueça de dizer que estarei esperando por ele. E você tem de saber que lutarei por eles até que dure minha última batida do coração. – após uma pequena pausa, completou: – Aquele que deveria amar e proteger foi o responsável pela maior dor de minha vida e de toda minha família. A história não vai voltar a se repetir... enquanto eu estiver respirando.

Lágrimas escorreram dos olhos de America, deslizando facilmente por suas bochechas. Ela usou o guardanapo de papel para limpar o rosto.

— Eu sei que, no fundo, você não é essa pessoa má que está aparentando ser. Você é melhor que isso.

Emmett se levantou, beijou na testa dela, e ela fechou os olhos com pesar. Ele retirou dinheiro da careteira e deixou sobre a mesa, o suficiente para pagar pelos dois cafés. E então se retirou, sem se preocupar em olhar para trás. A mulher que amava não estava ali.

Atravessou a rua com a sensação de missão cumprida. Entrou no carro. E, antes de sair do estacionamento, enviou uma mensagem à Rosalie avisando que estava a caminho.

Em poucos minutos encontrou com ela na livraria. Estava atrasado como nunca esteve antes. E, embora ela não tivesse lhe pedido explicação alguma, contou o motivo do atraso. Contou como tinha sido a conversa com America, notando que Rosalie havia tremido ao escutar. Ficando claro que seu medo persistia.

Quando o carro se pôs em movimento, Rosalie se rendeu ao cansaço de uma noite angustiante em claro e um dia corrido no trabalho, dormindo no assento do carona por todo o caminho de volta à fazenda. Vez ou outra Emmett afastava a mão do volante para lhe acariciar os cabelos. Sendo tomado pela certeza de que iria até onde fosse preciso para ficar com ela e as crianças. Para continuarem sendo uma família.

Notas finais
Nos encontramos nos comentários. Um beijo grande Sill