Um Lugar Para Ficar

33 Capítulo 33 – Sorrisos, Tranquilidade e Suspeitas


No final da tarde do dia seguinte, Emmett só conseguiu deixar a fazenda para ir buscar Rosalie no trabalho com quinze minutos de atraso. Por conta do que vinha preparando, acabou perdendo a hora.

Os móveis para o quarto das crianças foram entregues ainda naquela manhã, logo depois que Rosalie saiu. Muito depois, quando já estavam montados, Emmett e a avó Lena, com ajuda de Kate e dos sobrinhos, depois da escola, se dedicaram inteiramente a transferência dos pertences dos meninos para o quarto novo.

Como as paredes já haviam sido pintadas com antecedência, não tiveram problemas com tinta fresca.

Emmett queria que quando saísse para buscá-la na livraria, estivesse tudo pronto. Estava deixando todos malucos com sua ansiedade, olhando no relógio a cada segundo.

Os móveis de Amy foram montados no quarto de Abby, a pedido da própria sobrinha de dele dias atrás. O cômodo era espaçoso e bem arejado. Não tiveram problema algum em dividir em dois ambientes.

Era uma casa de muitos cômodos, com quartos de sobra. No entanto, como as crianças estavam acostumadas a estarem juntas, foi a melhor decisão. Os dois meninos compartilhando um quarto, e Amy com Abby. Até que cada um, quem sabe um dia, decidisse por seu quarto individual.

Quando finalmente Emmett conseguiu deixar a sede, a sobrinha, Abby, ficou dando pulos de alegria. Até se perguntou se a menina estaria achando que Amy seria sua nova boneca.

Correu até a caminhonete estacionada ao lado do galpão, depois de ter entrado depressa no escritório para pegar as chaves.

Fez uma ligação para a livraria somente para avisar que já estava a caminho. Alegando que um imprevisto na fazenda o tinha atrasado.

Rosalie pediu que fosse encontrá-la na igreja. Estava indo pra lá com Noah buscar Enrico na aula de violino.

Tinha acabado de fechar a livraria com ajuda de Esme e Alice. As mochilas dos meninos e suas lancheiras vazias se encontravam no chão junto à vitrine da loja. Noah brincava sozinho, indo de um lado a outro da calçada, com o boneco do Super-Homem fingindo que ele sobrevoava a cidade.

Esme parou, olhando pra ela.

— Tem certeza de que não quer que eu deixe vocês na porta da igreja? – perguntou. E então guardou as chaves da loja na bolsa e pegou a do carro.

Rosalie aproveitou para pegar o material escolar dos meninos. Pondo a mochila de Enrico pendurada no ombro e a de Noah no braço. As lancheiras numa só mão, segurando-as pelas alças.

— Obrigada mais uma vez pela oferta, Esme. Não é necessário, de verdade. Assim a gente aproveita pra caminhar um pouco, né filho?

— Ahã – elas ouviram Noah murmurar. Estava mais interessado na brincadeira, não reparava muito no que diziam.

Esme parecia desmotivada a fazer o que pedia, então, Rosalie insistiu.

— Faz muito tempo que não experimento essa sensação, de andar por aí sem medo. Além disso, a igreja não fica tão longe daqui. Não vai acontecer nada. Emmett vai se encontrar com a gente lá, em alguns minutos.

— Ok, você me convenceu – Esme aceitou. – Mas, olha, qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, você me liga de onde estiver e eu vou correndo te dar uma força.

— Pode deixar – Rose sorriu pra ela, afirmando sua vontade.

Esme falou com Noah, que ainda brincava sozinho na calçada.

— Ei, pequeno, cadê o meu beijo?

O menino deu uma risadinha e correu para junto dela, levando o boneco na mão.

Esme o agarrou nos braços, erguendo-o do chão enquanto o beijava estalado no rosto.

— Esse é seu – e o beijo estalou na bochecha dele. – E este outro é pro Enrico – e novamente outro estalo, na outra bochecha.

Noah sorriu quase se desmanchando de dengo. – Os dois são meus, porque você beijou foi em mim. O Rico não ganhou beijo.

— Bem, seu espertinho, o segundo era pra ele.

— Agora não é mais. Agora é meu – e ele se afastou dela, dando risadinhas.

Alice o capturou, enchendo-o de beijos por todo o rosto e pescoço. O boneco do Super-Homem caiu das mãos dele no chão. Rosalie se abaixou para pegar o boneco com um sorriso no rosto. Guardando-o na mochila de Noah.

— Você não vai tentar escapar? – Alice o questionou risonha.

— Eu não vou. Eu gosto que dê beijinho em mim – ele respondeu todo dengoso e divertido. – Beijinho é muito legal. É carinho.

Alice deu ainda mais beijos nele. E fez também cosquinhas na barriga. Noah riu tanto que quase fez xixi nas calças.

Às pressas, Rosalie o levou pra fazer xixi atrás do carro de Esme. Quando ele terminou, se virou pra ela dizendo:

— Isso foi tudo culpa de Alice.

— Ora essa! Mas eu não fiz nada – Alice se fez de santa, embora estivesse rindo.

— Fez sim! – ele se queixou, ajeitando a roupa com ajuda da mãe. – Fez coquinhas em minha barriga quando tava me dando beijinho. Ai eu fiquei com muita vontade de fazer xixi, porque eu fiquei rindo de monte.

Enquanto ele falava, Alice ria cada vez mais.

— Você vai fazer xixi aqui também, no meio da rua. Fica rindo, sua Alice. Fica. Vai ver só.

Rosalie e Esme também tiveram de rir depois dessa.

Momento depois, Rosalie entregou na mão dele a lancheira e pôs a mochila nas costas. Então, segurou sua mão pequenina.

— Tchau, vocês! – Noah gritou pra elas.

— Tchau, querido – Esme lhe respondeu, ainda meio risonha.

— Tchau, seu safadinho – Alice provocou, sem conseguir esconder o sorriso.

— Até amanhã – Rosalie disse.

— Até amanhã. E, não se esqueça, qualquer coisa me ligue – dizendo isso, Esme foi abrir a porta do carro.

— Mamãe, eu posso ir à casa do Jasper? – Alice perguntou indo até a outra porta. – É que ele saiu mais cedo hoje – se explicou. – Ele tinha consulta com o dentista. Preciso passar o conteúdo das últimas aulas pra ele.

— Tudo bem. Podemos passar lá antes de seguirmos pra casa.

— Legal! – Alice pulou, e abriu a porta do carona, no carro da mãe.

— Mas você não vai ficar lá, esteja avisada. Vai só entregar a matéria pra ele e voltar comigo.

— Mamãe... – Alice se queixou, enquanto ainda se acomodava no assento.

Rosalie e Noah, de mãos dadas, voltaram-se na direção contraria. Noah saltitou algumas vezes enquanto caminhavam pela calçada. Despreocupados. Tudo parecia bem.

— Mãezinha, a gente tá indo buscar o Rico? – ele perguntou, se esforçando para olhar no rosto dela sem ter de parar de andar.

— Isso mesmo – Rose respondeu. E os dois atravessaram a rua, depois de ela olhar nos dois lados se certificando que não vinha carro.

— E o papai Emmett, cadê? Cadê ele?

— Ele já está a caminho.

— Mas a gente já saiu do Refúgio.

— É, não estamos mais na livraria Refúgio. Mas ele sabe onde nos encontrar. A mamãe falou com ele ao telefone enquanto Alice lia pra você.

— Ahã. Aquele livro dos porquinhos era muito legal – ele saltitou outra vez, segurando na mão da mãe. – Só que não gostei do lobo. Ele era do mal.

— O papai Emmett vai encontrar com a gente na igreja.

— Por quê?

— Porque ele se atrasou com os afazeres da fazenda.

— E a gente precisa buscar o Rico senão ele chora?

— É sim, amor.

— E o que é fazeres, mãezinha?

— Afazeres, é o trabalho, as coisas que tem de fazer na fazenda. Como cuidar dos animais, consertar cercas.

— Ah. Ele tinha muitos fazeres, então. Os animaizinhos gostam dele, né mãezinha? Ele é bonzinho.

Rosalie o olhou, sorrindo. De repente, Naoh apertou sua mão e se pôs a caminhar mais rápido, puxando-a pra frente.

— Vamos logo, mãezinha! Não quero que o Rico chore. Coitadinho dele, sozinho lá na igreja.

— Tenha calma, bebê. Ainda temos tempo.

— Temos tempo?

— Unhum.

Ele diminuiu o passo.

— Então tá! Vai dar tempo de pegar o Rico – falou consigo mesmo, divertindo-se com as próprias palavras.

Poucos metros à frente, ele se deu conta de que não levava o boneco do Super-Homem.

— Mãezinha – ele disparou, parando de andar de repente, com cara de choro. – Oh, não... – os lábios tremeram com o choro que chegava. – Perdeu o Super-Homem... – Ele já estava chorando ao final da frase.

— Não, filho. Não perdeu, não. A mãezinha o guardou pra você.

Ele a encarou com olhos de dúvida, porém, cheios de lágrimas. – Guardou? – o beicinho tremeu.

— A mãezinha guardou, sim. Está dentro de sua mochila.

— Me deixa ver, então – ele pediu, fungando. Esperançoso.

Rosalie se posicionou atrás das costas dele, abrindo a mochila. Estavam ao lado de um canteiro de flores, e o cheiro delas chegou ao olfato de Rosalie com suavidade, trazendo lembranças da fazenda.

Quando entregou o boneco a ele, às covinhas voltaram a brincar em seu rosto instantaneamente.

— Obrigado, mãezinha. Eu pensava que tinha perdido pra sempre.

Rosalie fez carinho numa das bochechas dele, bem em cima da covinha que se exibia em contentamento. Depois de fechar a mochila, eles voltaram a andar de mãos dadas. Por causa do boneco, ela precisou pegar a lancheira de volta.

Levaram apenas mais cinco minutos para chegar à Igreja do Reverendo Walker.

Na grande porta de entrada, pararam de mãos dadas, olhando o interior praticamente vazio. Não demorou a ouvirem acordes de violino. A conhecida sinfonia sempre trazendo a Rosalie leveza de espírito e tranquilidade. Emoção que jamais deixaria de sentir ao ouvi-lo tocar.

Noah ergueu os olhos, encontrando os dela, exibindo as covinhas que ela amava.

— É o Rico, mãezinha? – ele pediu.

Lá na frente, no lado esquerdo, estavam os músicos que faziam parte da igreja e mais duas crianças. Um garoto de dez anos e uma menina de oito, ambos de pele negra. A menina de cabelos trançados e compridos. Já o menino tinha a cabeça quase raspada, assim como o violinista principal, o mesmo que estava dando aulas a Enrico duas vezes na semana, sempre depois da escola.

Os três eram irmãos, Rosalie tinha descoberto recentemente. O garoto tocava violão. E a menina cantava feito um rouxinol.

Porém, agora, Enrico era o único trabalhando em seu aprimoramento.

De pé em frente ao pedestal da partitura, de costas pra porta, concentrado nas notas musicais, estava Enrico. A mão pequena movendo o arco do violino criando a doce sinfonia. A melodia suave e harmoniosa que encantava a qualquer um.

Rosalie entrou com Noah na igreja, depois de sussurrar que fizesse silêncio.

O rapaz que dava aulas pra ele, Caleb, falou qualquer coisa sobre a melodia. Enrico moveu a cabeça, concordando, ainda alheio a presença dos dois.

Noah e Rosalie se sentaram na lateral direita, num dos bancos do meio. O restante do pessoal, que estava ali pra praticar, estava aglomerado lá na frente esperando Enrico terminar.

Então Noah se inclinou sobre a mãe, cochichando ao seu ouvido.

— Mãezinha, eu quero bolo.

Rosalie deu risada sem querer. E Noah, uma gargalhada por tê-la feito rir. Rose cobriu a boca dele com a mão, e, quando ele se calou, o puxou para sentar em seu colo.

— Não faça barulho – ela pediu. – Não queremos interrompê-los.

— Mas você deu uma risada – ele acusou, falando baixinho.

— Foi você quem me fez rir – ela falou igualmente baixinho. – Só que não fui tão barulhenta quanto você.

— É muito, muito chato isso de ficar falando baixinho – Noah confidenciou aos sussurros.

Rosalie se segurou para não rir. Agarrou as bochechas dele nas mãos e deu um beijo apertado. Depois disso, ficou agarradinha a ele, ouvindo Enrico tocar.

Após alguns poucos minutos, Enrico olhou para o lado e sorriu ao vê-los sentados ali. Rosalie acenou pra ele, rindo de volta. Cuidadosamente o menino abaixou o violino e também o arco.

— Agora eu já posso falar normal? – Noah se precipitou, falando alto demais. As outras duas crianças lá na frente acabaram riram do que disse.

Rosalie encostou o dedo indicador na boca dele. – Sem gritar, bebê – advertiu.

— Tá bom. Sem gritar – Noah repetiu.

Caleb pegou o violino das mãos de Erico, dizendo que podia ir falar com a mãe e o irmão.

Enrico se preparou para correr até lá, então, se lembrou de que não deveria correr dentro da igreja. Rosalie percebeu no mesmo instante que o filho havia se autocorrigido.

Noah saltou do colo dela, com o boneco do Super-Homem na mão, pronto pra falar com o irmão.

— Rico você tava tocando muito bonito esse violino.

Os irmãozinhos se abraçaram no meio da igreja, enchendo a mãe de amores. Os dois se aproximaram dela. Enrico passou os braços em volta do pescoço da mãe, e ela o abraçou, guiando-o até sentar-se em seu colo.

— Você toca a cada dia com mais perfeição, meu amor – ela murmurou pertinho do ouvido dele, terminando com um beijo estalado.

— Você gostou? – o menino pediu, olhando nos olhos dela, ansioso.

— E quando é que a mamãe não gosta. Eu amei.

Enrico voltou a abraçá-la. Um minuto depois, perguntou.

— Cadê o papai Emmett?

— Ele deve está chegando a qualquer momento. – Rosalie fez carinho no rosto de Enrico, notando o quanto ele estava mais feliz ultimamente.

Noah se distraiu no meio da igreja, pondo o boneco do Super-Homem para voar outra vez.

Rosalie ouviu a voz infantil, doce e melodiosa, e ao erguer os olhos encontrou a garotinha de cabelos trançados cantando com o microfone na mão. O irmão, tocando violão ao lado dela, sentado num banquinho.

Tornou olhar para Enrico. – Está gostando de ter aulas aqui, amor? Está feliz com isso?

— Muito, muito, muito, mamãe. Um tantão assim. – Ele abriu os braços o máximo que pôde lhe mostrando o quanto.

Rosalie voltou apertá-lo novamente nos braços. – Me perdoa filho – sussurrou. – Me perdoa por ter levado tanto tempo para nos libertar daquela vida... Por não tê-lo salvado antes.

De repente, Noah gritou.

— Papai! Papai Emmett.

Rosalie e Enrico olharam pra trás, na entrada da igreja. Emmett estava lá, parado à porta. Noah corria pros braços dele, todo feliz.

— Ei, campeão – ouviu Emmett falar quando pegou Noah no colo.

Emmett sorriu pra ela, presenteando-a com a covinhas, quando seus olhos se encontraram.

Enrico desceu do colo da mãe. Ela se pós de pé. Recolheu o material escolar das duas crianças mais uma vez. Observando Emmett abrir os braços, chamando por Enrico.

— Vem filho!

Ficou parada ali mesmo onde estava vendo o menino correr pros braços de Emmett como nunca havia corrido para os braços de outro ser humano do sexo masculino. O sorriso crescendo nos lábios à medida que se aproximava dele. Emmett o pegou num único braço, enquanto as pernas de Enrico se agitavam no ar.

— Como foi na aula hoje? – Emmett perguntou. – Na escola e também aqui. Foi tudo bem?

— Foi bem – Enrico respondeu, recebendo um beijo no rosto. – Muito legal mesmo.

Rosalie então decidiu se aproximar deles. E, caminhando devagar, viu Emmett pôr os dois garotos no chão. Enrico e Noah permaneceram ao lado dele, com expressões felizes, vendo-a chegar mais perto.

Emmett estendeu o braço pra ela. Uma vez que ela tinha se aproximado o bastante, passou o braço em volta de sua cintura trazendo-a para perto de seu corpo.

Os meninos encobriram os olhos com as mãos quando os dois se beijaram. Mas a curiosidade os venceu e eles afastaram as mãos, olhando aos dois com sorrisinhos nos lábios.

Assim que o beijo terminou, Emmett abaixou o olhar pra falar com eles. Rosalie fez o mesmo, embora não tivesse dito nada.

— O que acha de tocar um pouco de violino para o papai ouvir antes de voltarmos pra casa?

— Você quer me ouvir tocar? Mesmo?

— Sim. – E os olhos de Enrico brilharam com o que Rose soube, era orgulho e satisfação. – O papai quer muito te ouvir tocar – Emmett completou: – Você faria isso pro papai?

Enrico pulou em alegria. – Sim!

Rosalie olhou do filho radiante, pra Emmett, e, então, o beijou no canto dos lábios. Emmett esboçou um sorriso, virando o rosto para beijá-la brevemente.

Enquanto eles voltavam para sentar no banco, Enrico correu pelo meio da igreja, esquecendo-se que não deveria fazer isso. Rosalie olhava as costas dele sem conseguir deixar de rir. Ele estava tão feliz. Isso fazia sentir-se com a sensação de missão cumprida.

Enrico falou com o professor, todo orgulhoso, que o pai o queria o ouvir tocar. Caleb sorriu pra ele, lhe dizendo que sim. Que ele podia tocar à vontade. Que ficariam ainda mais tempo na igreja.

Emmett e Rosalie sentaram-se lado a lado, no mesmo banco onde ela estava antes. Noah ficou no colo de Emmett. Ele aproveitou para passar o braço sobre os ombros de Rose. E ela se deixou aconchegar ao ombro largo dele, ouvindo o filho mais velho tocar violino.

E o menino tocou com a mesma paixão de sempre, só que dessa vez com a satisfação de ter o pai ouvindo. Diante o pedestal da partitura, Enrico tocava Mozart, Alla Turca.

Por um breve instante, Enrico olhou para eles sentados todos juntos na lateral direita da igreja, num dos bancos do meio. Sorriu, quando Emmett sorriu pra ele. Tão logo Emmett virou o rosto de lado e beijou na testa de Rose, Enrico suspirou de contentamento. Voltando assim sua atenção a partitura outra vez. Sem interromper em momento algum a sinfonia.

Momentos depois, quando terminou e entregou o violino ao professor, voltou correndo pra juntos deles novamente.

Mesmo com Noah sentado em seu colo, Emmett passou o braço ao redor de Enrico.

— Você foi ótimo, filho.

Seu elogio não fez apenas o menino sorrir, como também a mãe sentada ao seu lado.

— Você gostou? – Enrico ficou ansioso, apertando as mãos pequenas uma na outra, aguardando a resposta.

— Se eu gostei? – Emmett estava empolgado e isso fez Enrico arregalar os olhos. – Eu adorei. Você é um artista. – Ele aproximou Enrico da lateral do corpo num abraço meio desajeitado. Enrico passou os braços ao redor do pescoço dele, esbarrando nos cabelos da mãe no caminho.

Rosalie meneou a cabeça, emocionada, sabendo que o filho agora tinha a imagem paterna com que sempre sonhou. Ela ergueu a mão afagando os cabelos castanhos do filho, aproveitando para afastá-los dos olhos.

Enrico ergueu o olhar encontrando o dela. O meio sorriso que trazia nos lábios se transformou num sorriso gigante.

— Irmão, você foi muito bem – disse Noah, ainda no colo de Emmett, cutucando o irmão com o boneco do Super-Homem. – Toda vez você é muito bom nisso.

Rosalie gargalhou, e não pôde conter o impulso de segurar na cabeça loura dele entre as mãos plantando um beijo.

Enrico tinha se afastado, embora continuasse ao lado do banco.

— Obrigado, Noah – disse ao irmão.

— Então, acho que já podemos ir pra casa, não é? – Rosalie foi quem comentou primeiro.

Já não era segredo que Emmett amava quando ela se referia a fazenda Recanto dos Ursos como sendo sua casa. Considerava-se sortudo por ela amá-lo como a amava. E, a cada dia, ela e as crianças se mostravam mais felizes vivendo ao lado dele.

Quando Emmett fez menção de se levantar do banco, Noah saltou de seu colo, no chão.

Os dois irmãozinhos correram até a porta de entrada, mesmo sabendo que não deveriam fazer isso. Mas, Enrico estava tão contente com tudo a sua volta e consigo mesmo que Rosalie não se atreveu a adverti-los.

Emmett e ela foram falar com o pessoal que estava na igreja, entre eles a esposa do Revendo Walker, antes de partirem.

Depois disso, se encontraram com os meninos na porta da igreja. E seguiram de mãos dadas até onde tinha ficado estacionada a caminhonete. Cada um levando na mão livre o material escolar de uma das crianças.

Os dois meninos iam à frente, animados. Rosalie e Emmett os ajudaram subir na caminhonete e afivelar os cintos de seus assentos.

[...]

Royce tinha acabado de chegar do trabalho, jogado as chaves e o telefone celular em cima do sofá bagunçado.

Vivia brigando com as crianças para que fizessem silêncio, agora parecia tão distante e incomodo. Não havia mais suas vozes enquanto brincavam, nem quando falavam uns com os outros. Não havia mais o som da tevê ligada no canal infantil. Nem mesmo as vozes sussurradas evitando chateá-lo. Até mesmo o som do violino de Enrico parecia agora fazer parte de outro mundo. Queria todos eles de volta. Mas não porque sentisse saudade ou os amasse. Sentia falta mesmo era de ter a quem dominar. Submetê-los a sua vontade. Manipulando o psicológico de cada um deles fazendo-os sentirem-se insignificantes, meros espectadores da vida. Alimentando-se de seus medos e angustias feito um espectro.

Encaminhava-se a cozinha quando ouviu a campainha tocar. Virou o rosto naquela direção, mirando a porta por onde tinha acabado de entrar, com má vontade, imaginando quem poderia ser dessa vez.

Voltou alguns passos e desviou dos móveis no caminho. Girou a maçaneta, puxando a porta de uma só vez. Tomando um susto ao dar de cara com dois policiais fardados do outro lado, com os pés no capacho que um dia Rosalie escolheu para pôs ali.

Olhando sobre os ombros de um deles, percebeu a viatura parada ao meio-fio com as luzes piscando. Assumiu uma postura tranquila e simpática, embora estivesse em alerta.

Os dois policiais tinham praticamente a mesma estatura alta. Porém, um deles estava um pouco acima do peso e usava bigode. O outro, um negro de cabelos bem aparados.

Royce imaginou se a velhinha que morava perto deles, estaria xeretando por detrás da cerca viva. E que certamente tudo isso poderia estar ligado a ela.

— Em que posso ajudá-los? – disse, sem demonstrar nervosismo. Soava natural, o mais próximo possível de um homem de bem que pôde interpretar.

O policial que usava bigode foi quem falou primeiro.

— Recebemos a denúncia de que, provavelmente, uma mulher e três crianças estariam vivendo aqui, em cárcere privado.

Royce fingiu surpresa e perplexidade quando, na verdade, desejava sumir com todos eles. Todos os enxeridos que se metiam em sua vida.

— Isso não é possível – falou, com a tranquilidade de um psicopata.

O outro policial tomou a palavra.

— É casado, senhor...?

— King – disse. – Royce King. Sim, eu sou casado.

— O senhor tem três filhos, dos quais dois deles estão em idade escolar?

— Sim. O mais velho está no segundo ano. O do meio, no jardim de infância.

Os dois policiais se entreolharam por um instante apenas, pensando que as informações batiam.

O mesmo policial tornou a falar.

— Podemos trocar uma palavrinha com sua esposa, senhor King? Não levará mais que alguns minutos.

— Isso não será possível.

O policial de bigode olhou para ele com desconfiança. – E por que não? – questionou.

— Minha esposa viajou há alguns dias para visitar um parente doente. Infelizmente, o caso parece ser muito grave. Por isso ainda não pôde voltar.

— As crianças estão com ela, presumo?

— Sim. Eles quiseram muito ir junto, a mãe não soube dizer não.

O mesmo policial balançou a cabeça devagar, concordando, porém, desconfiado.

— Podemos dar uma olhada no interior da residência? – sugeriu.

— Se tiverem um mandado – Royce bateu o martelo. A casa estava bagunçada demais para qualquer pessoa de fora entrar lá dentro. Sinais da fuga de Rosalie com as crianças ainda estavam por todos os lados. Não podia permitir que entrassem, precisava ganhar tempo.

— Não temos um mandado. E nem precisaríamos de um se o senhor nos pusesse em contato com sua esposa ainda que por telefone.

— Isso não vai acontecer.

— Nesse caso, teremos de conseguir um.

O outro policial deu uma rápida olhada de um lado a outro da casa e voltou a falar.

— Tem porão na casa?

— O que está insinuando? – Royce reagiu. – Que mantenho minha família presa no porão de nossa casa? Que seria capaz de manter as pessoas mais importantes de minha vida, minha mulher e meus três filhos, trancafiados?

— Isso é o que estamos tentando descobrir.

— Mas isso é um absurdo.

— Talvez nem tanto, senhor King. Recebemos todos os dias denúncias de coisas horríveis envolvendo pessoas da mesma família.

— Minha esposa estará de volta em alguns dias. E tudo será esclarecido.

— Excelente. Peça a ela que entre em contato com o departamento de polícia assim que chegar. Precisamos esclarecer algumas coisas. Até lá, aconselho ao senhor não sair da cidade. Se em alguns dias isso não acontecer, então, voltaremos aqui com o mandado judicial.

— Presumo que não será necessário.

— Esperamos que não.

Depois que os policiais partiram, Royce se sentou no sofá e tomou metade de uma garrafa de uísque. Alimentando a raiva que sentia de Rosalie e também das crianças por terem partido, consequentemente, atraindo a desconfiança de estranhos.

[...]

Enrico e Noah correram até à varanda, deixando os dois pra trás, de mãos dadas, transportando o material escolar.

Emmett beijou no pescoço de Rosalie, murmurando, enquanto ela se encolhia ao seu gesto de carinho. – Tenho uma surpresa... – ele afastou os lábios do pescoço dela ainda enquanto dizia: – Os móveis para o quarto das crianças foram entregues hoje cedo, depois que vocês saíram.

— Isso é ótimo! – ela se alegrou.

— Tem mais uma coisa... – disse ele.

— O que é? – ela olhou no rosto dele, esboçando um meio sorriso.

— A vovó me ajudou. E, bem, Kate e as crianças também, depois da escola.

— Isso significa que essa noite eles irão dormir no quarto novo?

— Sim. Só tem um problema.

— Qual? ­ – ela pediu.

— A Amy já viu como ficou o dela. É que ela foi uma das ajudantes. Ela espalhava as coisas quando a gente arrumava – ele e Rose riram dessa informação.

— Você é um bobo, sabia? – ela comentou um instante depois, com ele apertando ela num abraço.

— Papai – disseram os meninos simultaneamente.

— Mãezinha para disso – Noah se queixou. Fazendo com que rissem de seu modo de falar.

— Venham logo, os dois! – disseram os garotos, outra vez ao mesmo tempo.

— Já estou indo – Rosalie avisou. E ao dar dois passos à frente, Emmett a agarrou pela cintura, passando o outro braço embaixo de suas coxas. Ela deixou escapar um gritinho ao perceber que estava sendo erguida do chão, levada para a varanda nos braços dele.

Não soube como ele não deixou cair o material escolar de Enrico.

Noah se curvou, gargalhando. Enrico se tranquilizou ao perceber que o grito que a mãe tinha deixado escapar havia sido de empolgação e não de pavor e medo.

A porta de vidro foi aberta, depois a de tela. Em seguida, Lena passou para a varanda segurando na mãozinha de Amy.

— Papa. Mamã – a pequena falou, empolgada com a presença deles. Ficando inquieta no mesmo instante.

Emmett colocou Rose de volta ao chão. Lena tinha um sorriso glorioso estampado no rosto, pôr vê-los chegar daquele jeito.

Rosalie pegou Amy no colo, beijando ela todinha, enquanto a bebê se contorcia, feliz, diante seus carinhos.

Todos eles entraram na casa grande. Os meninos foram os primeiros. Rosalie e Lena logo atrás. Deixando Emmett por último. Risonho, imaginando que não poderia ser mais feliz ao lado da família que tinha. Em especial, por ser importante pra família que Royce King não soube dar valor. Porque ele, sim, sabia como amá-los. E fazê-los felizes.