Um Lugar Para Ficar

28 Capítulo 28 – O Menino Preso ao Passado


O sol se escondia atrás das montanhas quando a família retornou a sede naquele fim de tarde. Scott os aguardava na varanda. Na ausência de Emmett, um cavalo havia chagado machucado à fazenda. Ele não teve tempo para descarregar a caminhonete, deu apenas um beijo rápido em Rosalie, e seguiu o funcionário imediatamente até o local onde estava o animal ferido.

O restante do pessoal foi quem se encarregou de retirar todas as coisas de dentro do carro. Os dois cachorros descerem da carroceria e foram passear ao redor da casa grande. Prontos para perseguir esquilos e guaxinins desavisados.

Quando Emmett finalmente conseguiu voltar, todos já haviam jantado. E as crianças, todas exaltas, já dormiam em suas camas.

Embora a tevê estivesse ligada na sala, os adultos conversavam sobre o dia perfeito que tiveram. Vez por outra surgia um sorriso no rosto de alguém. Os sons de suas vozes se confundiam a das pessoas na tela da televisão.

A porta de tela foi aberta e Emmett passou por ela. Ele ainda usava as mesmas roupas de mais cedo; chinelos, bermuda e camisa sem mangas. Apenas Rosalie e Lena viraram os rostos buscando a presença dele. Kate estava distraída com qualquer coisa que Garrett contava e não reparou no irmão.

— Então – sondou Lena –, está tudo bem com o cavalo que chegou hoje?

— É uma lesão na pata dianteira esquerda. Ele estará fora das próximas competições. Precisa se recuperar antes de voltar às corridas.

Lena anuiu. – Deixei seu jantar dentro do forno – disse por fim. E ao fazer menção de se levantar, Rosalie tomou a frente.

— Pode deixar dona Lena, eu mesma cuido disso. A senhora pode ficar aqui, descansando.

O rosto bondoso, marcado pela idade, se iluminou em um sorriso satisfatório. – Ah, mas, com o maior prazer – disse Lena, risonha, sem conseguir conter sua satisfação. – Nunca fiquei tão feliz em ficar sentada, sem nada para fazer.

Emmett ofereceu a mão a Rosalie, e ela estendeu a sua, alcançando a dele, gostando de tê-lo de volta. Ele beijou no dorso de sua mão ainda enquanto falava.

— E as crianças?

— Todas dormindo. Estavam exaustas.

— Imaginei que isso fosse acontecer. Eles gastaram muita energia hoje. Foi um dia e tanto. Nos divertimos muito, não foi?!

Rosalie meneou a cabeça concordando. E então lhe contou:

— Enrico pôs o dente embaixo do travesseiro...

— Deixe comigo. Me encarregarei de fazer a troca. Essa noite eu serei O Fada do Dente e quando a manhã chegar teremos um garotinho feliz e a magia em seu coração preservada. – Rose não conseguiu impedir que a curva de um sorriso leve e singelo brotasse em seus lábios.

Na cozinha, Emmett pegou no forno do fogão o prato pronto que a avó deixou pra ele. Retirou o papel filme que protegia os alimentos. E Rosalie trouxe os talhares para a mesa.

— Gostaria de ter esperado para jantar com você. Acontece que sua avó insistiu tanto que eu jantasse com eles e a crianças que não tive como recusar.

Emmett segurou os talheres. E ela o serviu de um copo de suco de pêssego.

— Não tem problema você não ter esperado. Sente aqui comigo. Faça-me companhia enquanto janto.

Rosalie alcançou o espaldar da cadeira com as mãos a fim de puxá-la para sentar.

— Aí não, Raio de Sol – ele alertou, mantendo o garfo a caminho da boca. – Rosalie o olhou com confusão estampada no rosto. – Aqui em meu colo – disse-lhe. – Quero muito sentir seu cheiro. Vem aqui. Fique pertinho de mim.

— Mas você está comendo.

— E daí? Não tem problema. Vem – ele bateu a mão de leve na própria coxa –, senta aqui. – Rose olhou na direção da porta, pensando se deveria. Apesar de querer muito estar com ele. – Ninguém vai se importar – ele ressaltou.

Em um movimento controlado, ela fez como pediu; sentando-se de lado no colo dele. Emmett a beijou no pescoço, com um longo aspirar de seu perfume. O inconfundível aroma de maças atiçando seus instintos. Esfregado uma mão nas costas dela em um carinho lento.

— Amo você – murmurou, olhando nos olhos dela.

— Eu também o amo – ela confessou em igual murmúrio. Olho no olho. E suas mãos rasparam na fina camada de barba no rosto dele. – Parece cansado? – acrescentou. – Preocupado também.

— Um pouco das duas coisas – ele admitiu. – Mas quero você exatamente onde está.

— É por causa do cavalo que chegou enquanto estávamos fora? Vai lhe causar problemas o fato de ele não poder estar nas próximas competições?

— O proprietário não ficou muito contente. Mas isso não importa. O animal está ferido. Não pode competir.

— Ainda que esteja preocupado, você tem que comer.

— Estou comendo – ele respondeu, levando uma boa garfada de comida à boca.

— Come tudo – ela brincou.

Ele beijou na têmpora direita dela, ainda enquanto mastigava. – Está vendo, sou um garoto superobediente. – Rosalie deu risada. – Esse é um dos sons que mais gosto de ouvir; seu riso – confessou. – Por isso me esforçarei para fazê-la feliz.

— Mas não precisa muito – ela admitiu com certo prazer. – Apenas sua presença é o suficiente.

Emmett apertou o braço em torno da cintura dela, abaixando um pouco a cabeça, beijando o pedaço de pele exposta no decote da blusa que ela usava.

Rosalie estava com os dedos emaranhados entre os fios curtos do cabelo dele fazendo um a afago, quando ouviram, da porta da cozinha, alguém limpar a garganta.

— Desculpem-me – disse Kate –, não queria atrapalhá-los. Vim apenas para tomar um pouco de água.

— Você não atrapalha – Rose garantiu. – Estávamos apenas conversando.

— Desculpe, irmão – Kate pediu, dirigindo-se a geladeira no outro lado da cozinha.

— Deixe de besteira, Kate. Você pode entrar e ficar o tempo que quiser, e precisar – comentou o irmão.

— Quero apenas um pouco de água. Já estou indo me deitar. O dia foi bem divertido e tudo o mais. Mas, tudo o que quero agora é deitar em minha cama e dormir ao lado do meu marido lindo. – Ela já estava a caminho da porta, levando na mão um copo grande com água gelada, quando respondeu.

— Boa noite, então – desejou Emmett.

— Boa noite, mano. Boa noite, cunhada. – Rose observou a forma como os olhos da irmã dele festejaram a essa constatação, e sorriu.

— Boa noite, cunhada – disse Rose. E Kate saiu da cozinha dando risada. Feliz pelo irmão ter encontrado alguém. E, principalmente, por esse alguém ser Rosalie. Por ela ter vencido o próprio medo e aceitado que Emmett fizesse parte de sua vida. Que construíssem uma história juntos.

— Mas é boba essa minha irmã, não acha? – ele perguntou, em tom brincalhão, levando mais uma garfada de comida à boca.

— Gosto que ela seja assim. Gosto muito de tudo aqui. Especialmente de você.

— Que bom, porque você é a mulher que escolhi para amar. É a mulher com quem desejo acordar todas as manhãs. Juro não magoá-la, pelo menos, não intencionalmente. Nem a nossos filhos.

Rosalie repousou a cabeça no ombro dele, com a certeza de que ali era o seu lugar. Sua mão direita traçou um caminho imaginário nos músculos do peito dele sobre o tecido da camisa. E como era boa a sensação de poder tocá-lo.

— Eu só queria um lugar para ficar – ela confidenciou – e Deus, em sua magnitude, me enviou você e sua família. Não me sinto no direito de pedir mais nada a Ele.

Emmett apoiou o garfo à beirada do prato. Buscando o olhar dela ao perguntar:

— Ele se enganou?

— Não. Ele não se enganou. – Os braços dela apertaram o contorno largo do corpo dele. – Aqui é exatamente onde quero estar.

Emmett beijou nos cabelos dourados dela demoradamente. Deixando que ficasse agarrada a seu corpo pelo tempo que desejasse. Voltando a comer com a certeza de que a mulher que escolheu para amar, não o deixaria jamais. No silêncio que se seguiu apenas o som dos talheres em uso e o som distante da tevê ligada foram percebidos.

Um instante depois, a tevê na sala foi desligada. Emmett ficou imaginando quando a avó apareceria na cozinha, mas, Lena não apareceu. Imaginou que Kate tivesse dito algo a ela e, juntas, concordaram em deixá-los a sós.

Quando terminou o jantar, Rosalie cochilava em seu colo. A cabeça ainda descansando em seu ombro. A curva de um sorriso alcançou seus lábios enquanto olhava pra ela, tão entregue a seus carinhos. A respiração leve. A verdadeira imagem da garota que buscava o amor. Jamais poderia entender porque, e como, Royce pode lhe causar tanto mal. Quis como nunca ser o melhor homem para ela.

— Seu lugar é aqui comigo, Raio de Sol. Você faz dos meus dias menos sombrios. E eu a protegerei... Para sempre. Com minha vida se preciso – sussurrou, afastando uma mecha dos cabelos louros para trás da orelha dela. – Dorme... – disse, beijando na testa dela bem devagar. – Vou levá-la pra nossa cama agora. – E ele a ajeitou nos braços e se pôs de pé. Caminhando em silêncio pela casa até chegar ao quarto deles. Deitou-a na cama com cuidado. Repousou a cabeça dela ao travesseiro. Retirou-lhe os chinelos, a blusa e o short. Estava passando o cobertor sobre ela quando a ouviu falar.

— Onde você está indo?

— Volto em alguns minutos. Preciso de um banho. E também escovarei os dentes. Além disso, passarei no quarto das crianças.

— O dentinho do Enrico...

— Eu sei amor. Farei isso agora. Fique quietinha aí que eu já volto.

— Obrigada. Pode me emprestar uma camisa sua, vou tirar meu sutiã.

— Fica sem – ele pediu, permitindo as covinhas brincarem em suas bochechas. – Eu gostaria muito de encontrá-la sem.

Rosalie esboçou um sorriso preguiçoso, porém não se moveu. O cansaço a tinha vencido.

— Eu volto logo – disse ele, ainda enquanto se afastava da cama.

Antes de ir ao banheiro, passou no quarto das crianças. Tomou todo cuidado em não acordá-los. Ajeitou seus cobertores. E substituiu o dente embaixo do travesseiro de Enrico por uma nota de dez dólares. Observou o dentinho branco na palma da mão. Sentindo-se bem, imaginando a reação do pequeno pela manhã ao descobrir a visita da fada.

Mais tarde, ele estava de volta ao quarto do casal. A toalha enrolada na cintura. Gotas de água percorrendo o vale de músculos que era seu abdômen. Passou a tolha pelo corpo e a dispensou na poltrona ao lado da cama. Vestindo apenas uma cueca samba-canção escura. Desligou a luz do único abajur aceso e se deitou ao lado de Rose, suas mãos grandes buscando a cintura fina sob o lençol. Fazendo uma breve carícia à medida que subia em direção aos seios dela, tendo a confirmação de que não usava mais o sutiã. Fez um pequeno carinho nos mamilos com as pontas dos dedos sentindo-os enrijecer a seu toque. Rose se remexeu, aproximando mais o corpo do dele, ansiando o calor de seus braços e suas carícias. Ele se aninhou a ela permitindo que a noite os embalasse.

Mas, nem mesmo o conforto de ter Rosalie em seus braços foi o bastante para manter distantes os pesadelos que o atormentava desde menino. Nem mesmo seu amor por ela, foi capaz de afugentar os fantasmas do passado.

Ainda naquela noite foi sugado por memórias dolorosas. Ficando inquieto como ocorrera em tantas outras noites ao longo de sua vida. Murmúrios de dor que pareciam lhe rasgar a alma escapavam dos seus lábios vindos de algum lugar em sua garganta. A agonia que aquilo lhe trazia chegava a ser sufocante.

Rosalie exerceu o mesmo papel que vinha exercendo em noites anteriores. O desejo de confortá-lo, de fazer seu sofrimento menos penoso havia se tornado uma missão. Queria que sentisse nela toda compreensão e apoio de que precisava.

A avó e a irmã estavam evitando ir até o quarto deles nessas ocasiões a partir do momento que começaram a dividir a mesma cama. No entanto, Rose sabia que isso não as incentiva da preocupação e do desejo de vê-lo bem. Estavam apenas dando espaço para que construíssem intimidade, e, quem sabe assim, Emmett se sentisse confortável para revelar a história de sua vida.

Rosalie acendeu a luz do abajur. Gotas de suor brilhavam na testa e peito de Emmett. O corpo dele estava mais quente que o normal, levando-a acreditar que pudesse ser uma febre. Mesmo não querendo deixá-lo sozinho, saiu da cama e foi até guarda-roupa pegar uma das camisas dele pra vestir, para que pudesse ir até o banheiro buscar uma tolha de rosto, empapada em água da torneira.

Percebeu, por uma fresta na porta do quarto de Lena, a luz se acender lá dentro. Imaginou que a porta fosse se abrir e a senhora de cabelos grisalhos fosse aparecer, com feição cansada, usando seu robe floral favorito. No entanto, isso não aconteceu. Se ela desejou cuidar dos pesadelos do neto, soube controlar o instinto.

Rose, então, olhou na porta do quarto onde as crianças dormiam. Estava entreaberta e a fraca luz de um abajur se encarregava de manter longe seus medos infantis. Como aconteceu em noites anteriores, temeu que um deles pudesse acordar e ter se vir na difícil tarefa de cuidar de todos.

Depois de pegar a toalha umedecida em água fria, ela retornou ao quarto num ritmo mais acelerado.

Sofreu pelo homem que ama. Vê-lo naquele sofrimento doía nela. Ainda mais, considerando que não entendia a origem de sua dor. Ele parecia em agonia. O peito desnudo movendo-se com força, a testa molhada de suor.

Subiu na cama de joelhos, parando ao lado dele. Encostou a toalha fria na testa, e ele gemeu; um gemido diferente de qualquer outro que ouviu antes. Era carregado de dor, de tristeza, angustia e arrependimento.

Continuou pressionando a toalha úmida na testa dele, sentindo-o estremecer. Prendendo o nó na garganta e a vontade de buscar por ajuda. Queria que ele soubesse que podia fazer isso sozinha. Podia cuidá-lo e ampará-lo. Podia, quem sabe, ser sua cura.

Foi quando, de supetão, Emmett sentou na cama. Sem realmente vê-la, cego pela dor que o pesadelo lhe causava naquele momento. No susto, relembrando momentos de agressão ao lado de Royce, Rosalie se afastou, não conseguindo segurar o grito na garganta. Teve certeza de o resto da família tê-la ouvido gritar, da mesma forma como ouviam o sofrimento de Emmett a cada noite ruim.

Atormentado, começou a repetir.

— Me perdoa... Eu... Eu não... Eu não queria...

Foi doloroso para ele falar. As palavras se embaralharam. E Rose viu tanta dor nos olhos dele que lhe doeu profundamente o coração. Ela conhecia esse olhar; tinha presenciado no rosto dos próprios filhos, algumas vezes, ao longo do casamento com Royce. Então, ela soube, ali, diante de seus olhos, não estava o Emmett forte e corajoso. O neto querido, o irmão dedicado. Quem estava ali era um garotinho assustado, implorando sua ajuda.

— Por favor, Deus, deixe-me voltar no tempo... Por favor... Eu vou ficar longe da janela... Dessa vez eu ficarei longe da janela... Por favor... Só não o deixe nos encontrar...

Fosse o que fosse tivesse acontecido, aquela era uma criança presa ao passado.

Comovida, com os olhos cheios de lágrimas, Rosalie enfrentou o próprio medo voltando para junto dele, envolvendo-o em seus braços. E como era bom sentir seus corações batendo juntos, acelerados, ainda que as razões fossem diferentes.

Abraçou-o no coração, não apenas nos braços. Sentiu os braços fortes dele envolvendo-a com desespero e angustia. Tremendo. Palavras confusas, pedidos de perdão deixavam seus lábios secos pausadamente.

— Me perdoa mamãe... me perdoa... eu não queria...

— Shhhh... Vai ficar tudo bem, querido – ela sussurrou ao pé do ouvido dele, certa de que falava com uma criança fragilizada, apesar de ser um homem adulto a abraçá-la.

Assim, subitamente, o homem grande e forte desmoronou em lágrimas nos braços dela. O corpo grande tremia com soluços. E Rose chorou junto com ele, ainda tentando entender o significado das lágrimas que derramava e de toda aquela dor aprisoada dentro dele.

Nesse instante, alguém bateu à porta. Se identificando logo a seguir.

— Sou eu, a Kate. A vovó está aqui comigo. Você está bem, Rose? Ouvimos você gritar.

— Eu estou bem. Foi apenas o susto.

— Não prefere que entremos para ficar com ele? Estamos a mais tempo enfrentando toda essa situação...

— Por favor, me permitam fazer isso por ele. Eu vou conseguir. Ele confia em mim pra isso, eu sei que sim – ela soluçou naquele abraço emocionalmente doloroso.

— Tudo bem, querida – Lena foi quem respondeu por detrás da porta. – Estamos voltando para nosso quarto. Se mudar de ideia, pode chamar qualquer uma de nós.

— Rose – a voz de Kate soou trêmula, interrompendo a avó que falava. Pelo tom de sua voz, parecia a ponto de chorar –, posso só abrir a porta pra ver meu irmão?

— Claro que sim, Kate.

Rosalie puxou o cobertor cobrindo um pouco mais do corpo dele. Não sabia quanto ele gostaria que vissem.

Uma brecha na porta trouxe a luz do corredor ao interior do quarto iluminado a meia-luz do abajur. Kate pôs a cabeça para o lado de dentro. Rose olhou pra ela, percebendo lágrimas em seus olhos verde-esmeralda ao localizar a imagem fragilizada do irmão, naquele momento de dor no qual enfrentava há anos.

— Não foi culpa dele... – ela declarou, sufocada por um soluço repentino.

— Eu não sei o que aconteceu Kate. Mas tenho certeza de que não foi culpa de seu irmão.

Kate abaixou a cabeça. Com um suspiro triste voltou a fechar a porta. Ela e a avó seguiram para seus quartos em silêncio. Embora não as tivesse visto se afastar, Rose imaginou que estivessem de mãos dadas.

Pouco a pouco, Emmett foi ficando calmo. Sua cabeça ainda no ombro de Rosalie. Ela ainda sentia o coração seguindo o ritmo acelerado do dele. Era como se estivessem ligados um ao outro por um fio invisível.

Emmett voltou a pedir perdão, mas dessa vez foi direcionado a ela.

— Me perdoa, Raio de Sol. Não queria assustá-la. Nem que me visse desse jeito. Tenho a impressão de que dessa vez foi bem pior que das outras vezes que você presenciou. Não quero que pense que sou maluco ou...

— Eu quero cuidar de você, Emmett. Assim como vem cuidando de mim e das crianças. O problema é que não sei o que te causa tanto dor. Quero muito conhecer seu coração, meu amor. O homem aqui dentro – E a mão dela afagou o peito dele, no lado do coração. – Quero entender o garotinho que ficou preso ao passado por uma dor infinita. Ele parece tão assustado – mencionou, recordando o momento que percebeu o menino dentro dele implorando ajuda.

Foi quando Emmett, devagar, afastou a cabeça do ombro dela. Erguendo as mãos, segurou-lhe o rosto. Contornando com a ponta dos dedos seus traços delicados.

— Você é especial – disse por fim. – Nem mesmo os meus defeitos a fizeram se afastar de mim.

Rosalie ergueu a mão, lentamente, até encostar ao rosto dele. Sentindo sua barba rala enquanto lhe fazia um afago.

— Amor, eu também sou imperfeita e, ainda assim, você me aceitou. Aceitou os meus filhos. Nossas dores. E elas são tantas. Não vejo porque alguém se afastaria de você. É um homem tão bom. Ainda que eu possuísse toda exuberância da palavra perfeição, ainda assim, ficaria com você, do cair da noite ao amanhecer. Sempre.

— Eu não me importo desde que não seja você e nossos filhos a se afastaram de mim – ele murmurou.

Ela alcançou o canto dos lábios dele com um beijo singelo.

— Não está nos meus planos deixar você. Ainda mais agora, que sei o quanto precisa de mim.

Emmett suspirou. E seus olhares se encontrarem novamente. – Te contarei tudo – confessou. – É hora de você me conhecer.

O coração de Rosalie perdeu uma batida. O passado do homem que amava tanto estava prestes a ser revelado.

— E eu ouvirei cada palavra – estimulou. No mesmo instante estava arrumando os travesseiros à cabeceira da cama, convidando-o a recostar-se a eles.

Emmett não teve dificuldades em deitar ali, adquirindo uma posição de tronco elevado. Rose deitou-se ao lado dele, passando o braço sobre o corpo largo, descansando a mão no peito. Ele passou o braço sobre os ombros dela aproximando-a mais de seu corpo. O cobertor os cobria apenas até a cintura.

— Você está usando minha camisa – ele comentou, casualmente.

— Eu estou sim. Foi a primeira que encontrei. Tive que sair um instante do quarto e não queria me demorar procurando o que vestir.

— Eu gosto de como ela cai bem em você.

Os dedos de Rosalie moveram-se, brincando no peito dele. – Estive tão preocupada com você.

— Lamento ter sido o causador de sua preocupação. Não queria te trazer mais problemas. Os seus já são tantos.

— Você não tem que se sentir culpado. Nem por isso, nem por qualquer coisa que tenha lhe acontecido no passado. Tem o coração tão nobre, não imagino você fazendo algo ruim.

Passados alguns minutos em total silêncio, com o quarto iluminado pela fraca luz de um único abajur, sombras escuras alçando seu rosto, ele finalmente começou revelar parte do que foi sua vida.

— Eu tinha seis anos quando aconteceu – começou ele.

O corpo de Rosalie retesou. O coração ficou ansioso.

Emmett encarava o teto enquanto falava. Seus olhos estavam desfocados, sua voz melancólica. Ele puxou o ar com força dos pulmões e o soltou devagar, abrindo a porta para uma das lembranças mais dolorosas de sua vida.

— Um dia eu fui Enrico. E minha mãe, você.

Rosalie sentiu medo, mas precisa ir até o fim. Teria de saber seu passado para, quem sabe, poder ajudá-lo no futuro.

— Vivíamos longe daqui... Ele não queria estar perto da família, para se sentir livre e fazer como bem entendesse. Era violento. Desconhecia compaixão e afeto. Batia em mamãe, em Kate e em mim com frequência. Causar-nos dor era sua diversão. Ele era perverso e sentia prazer com isso.

Emmett finalmente abaixou os olhos, deixando escapar um suspiro pesaroso. Rosalie não quis interrompê-lo.

— Foram anos vivendo desse mesmo jeito. Tendo início quando ela ainda me carregava no útero. Mamãe era quem mais apanhava, em sua maioria, por tentar nos proteger.

Rosalie viu sua própria história se confundindo a que Emmett narrava. Uma súbita e dolorosa confirmação a atingiu. E ela entendeu naquele momento que se não tivesse tido a ousadia de fugir de Royce, os traumas de Emmett teriam grandes chances de se tornarem também os traumas de seus filhos.

Com dificuldade, ele prosseguiu:

– Vivíamos presos. Muitas vezes sem ter nada para comer. Virando noites com estomago vazio. De toda forma, a dor física quase sempre vencia a dor do estomago vazio. – Ele moveu o braço buscando alcançar a cicatriz no ombro. Aquela cujo Rosalie ansiava saber sua origem desde que a viu pela primeira vez. – Lembra que você chegou a dizer que gostaria de um dia saber a origem dela?

Rose moveu a cabeça, olhando nos olhos dele, afirmando. Tanto ele quanto ela se encontravam com lágrimas nos olhos.

— Certa vez, quando tentava defender minha mãe, ele me acertou com uma faca. Ele a teria ferido se eu não tivesse me atirado na frente. Na hora eu não pensei no que podia me acontecer, só queria proteger minha mãe.

Rosalie se afastou apenas o suficiente para tocar a cicatriz no ombro dele com a ponta dos dedos. Lágrimas queimavam em seus olhos.

— Está tudo bem, meu amor – ele tentou suavizar a revelação. – Não chore por mim. Ver minha mãe gritando em minha defesa doeu bem mais que o ferimento em si. Lembro-me de como mamãe gritava e tremia, tentando me socorrer. Do desespero em seus olhos.

Rosalie voltou a se aninhar ao peito dele, deixando que continuasse o relato.

— Estava prestes completar cinco anos quando ele me causou o ferimento que deixaria para sempre essa cicatriz. Passei meu aniversário no hospital, me recuperando. As enfermeiras enfeitaram meu quarto com balões coloridos e até me deram um presente. Um soldadinho.

— O que vocês alegaram? – Rose não resistiu em perguntar. – Disseram a verdade?

— Não. Infelizmente, eu era muito pequeno e estávamos todos apavorados. Mamãe mentiu, disse para a polícia e a assistente social que o ferimento tinha sido causado durante um assalto. Inventou que ladrões tinham invadido nossa casa, que eu tinha me assustado muito e não conseguia parar de chorar. Um dos bandidos então ficou furioso e me acertou com a faca. Eu sei que ele ameaçou mamãe caso dissesse a verdade. Então também me calei. Ele sumiu com a arma do crime, ninguém nunca teve como provar nada. Hoje eu sei que deveria ter falado a verdade, ainda que estivéssemos com medo e fosse só uma criança. Talvez assim o final dessa história tivesse sido outro.

Rosalie sentiu-se nauseada, imaginando qual seria o final.

— Voltei para casa e nada mudou. As coisas só ficavam piores. Até o dia que mamãe arrumou nossas coisas, o que conseguíamos carregar, e partimos em um horário que sabíamos que estava no trabalho. Não foi melhor, mas também não foi pior. Dormimos ao relento. Passamos fome e sede. Andamos sem rumo por vários dias. Não podíamos vir pra fazenda. Seria o primeiro lugar que ele nos procuraria. Minha irmã chorava muito. Não entendia que não tínhamos nada para comer ou beber. Era início do verão, o sol estava forte, e o calor, intenso.

Rosalie se viu soluçando. Pensando no quanto foi difícil pra eles, com todo conforto que tinham na fazenda, a fartura em cada refeição, não ter onde dormir nem o que comer. Não podiam sequer pensar em ir pra lá, o local onde estavam as pessoas que os amavam, por medo de serem encontrados.

Emmett afagou os cabelos dela num gesto lento. A história de suas vidas estava se misturando, ele sabia.

— Estávamos tão cansados, famintos e sujos, quando deparamo-nos com um hotel de beira de estrada. Com o pouco dinheiro que tínhamos, mamãe não teve outra escolha senão alugar um quarto por uma noite. A noite que marcou nossas vidas para sempre.

Ele cerrou os dedos de uma das mãos em punho. Reagindo com tremores as imagens que se formavam em sua mente.

— Mamãe nos deixou sozinhos naquele quarto velho, de higiene duvidosa. Ela prometeu voltar logo, tentaria comprar comida pra gente. Pediu que eu cuidasse de Kate. Minha irmãzinha estava tão vermelha do sol que tomamos quando estávamos na estrada. Tão suja e irritada. Também me lembro de mamãe ter implorado para que eu ficasse longe da janela. Mas eu estava com tanta fome. Com tanto medo. Desobedeci. Fiquei o tempo todo com a cara grudada no vidro empoeirado esperando ela voltar.

Ele abriu e fechou a mão, estava tremendo outra vez.

— Quando avistei mamãe voltando, não pensei duas vezes, corri para abrir a porta. E foi nesse momento que tudo mudou. Ele estava lá e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, entrou no quarto e ficou atrás da porta. Lembro-me de ter ficado apavorado. Tentei alertar mamãe, mas ela não entendeu o meu recado silencioso e entrou no quarto logo depois.

Rosalie se remexeu, sentindo os pelos na nuca se eriçarem.

— De uma forma ou de outra, ele conseguiu nos alcançar. E, por minha culpa, descobriu onde estávamos. Eu deveria ter ficado longe da janela como mamãe pediu. Mas não fiquei, e foi tudo culpa minha. Mamãe não teve tempo para pensar nem mesmo reagir. Ele surgiu detrás da porta agarrando-a pelos cabelos, sacudindo-a com brutalidade enquanto ela, apavorada, gemia de dor. Lembro-me de ele tê-la jogado com muita força no chão. Do lanche que ela tinha conseguido pra gente, cair no piso empoleirado. E de minha mãe dizendo, em um lamento profundo, “a comida das crianças” – Emmett soluçou junto a Rose.

Rosalie não tinha certeza se queria continuar ouvindo. Contudo, precisa descobrir o final daquela história. Então, tratou de controlar as emoções e o deixou continuar.

— Minha mãe tentou pegar nossa comida de volta, mas ele pisou em seus dedos lhe causando muita dor. Eu sei disso por que ela gritou muito. Kate acordou de seu cochilo e começou a chorar, assustada. Eu tentei afastá-lo de mamãe, mas ele me pegou pelos ombros e me jogou do outro lado. Lembro-me de ter ficado com muita dor nas costas e de não conseguir respirar direito um bom tempo. Ele – frisou Emmett. E Rose soube que “ele” era o pai de Emmett. – Ele começou agredi-la de tal maneira, ininterruptamente. E eu me lembro de ter tentado ajudá-la em vão.

Ele olhou no teto novamente, se esforçando para suportar as lembranças.

— Os gritos de Kate doíam em meus ouvidos. Lembro-me de mamãe ter gritado para eu pegar minha irmã e fugir para um local seguro. Mas eu não conseguia deixá-la lá sozinha com ele. Então me ocorreu uma ideia; peguei minha irmã, na época com três anos, e tranquei no guarda-roupa velho que tinha no quarto. Ela ainda podia ouvir o que acontecia, mas, pelos menos, não assistiu todo o horror daquele momento.

Rosalie se agarrou a ele com força. Soluçando com uma dor que parecia lhe rasgar o coração. Vendo através dos olhos dele todo terror que viveu. Ele, ainda um garotinho, com seis anos apenas, um ano a menos que Enrico, presenciando tamanha brutalidade. Ficando traumatizado da pior maneira, para o resto de sua vida.

Emmett agora tremia dos pés a cabeça.

— Lembro-me de gritar muito. De pedir por socorro. Pedir que ajudassem minha mãe. Havia momentos que meu grito era tão alto que minha garganta parecia estar rasgando. O calor que já era intenso naquela época do ano se tornou insuportável. Ele cobriu a boca dela com a mão ao primeiro golpe, e eu fiquei paralisado. Eu simplesmente não consegui me mover. Ele a esfaqueou, por várias vezes seguidas, com a mesma faca que me feriu no ano anterior. Na luta para se desvencilhar dos golpes, mamãe teve as mãos dilaceradas.

O corpo de Emmett tremia com força. E a dor em seu peito o sufocava.

— O desgraçado fugiu, mais uma vez levando a arma do crime. Não sei quanto tempo se passou, só sei que quando a ambulância e a polícia chegaram eu estava garrado ao corpo de minha mãe morta. Sujo com o sangue dela, já frio. Não sei em que momento daquela cena de terror eu consegui me mover. Tudo estava confuso, e doía tanto.

Rosalie afagou o rosto dele, tentando lhe transmitir algum conforto.

— Lembro-me de as pessoas entrando apressadas no quarto. Do barulho que faziam. De alguém falando “tirem as crianças daqui”.

— Eu sinto tanto... – Rose conseguiu dizer.

— Um dos policias abriu o guarda-roupa e pegou minha irmã no colo. Cobrindo seus olhos com a mão enquanto a tirava dali. Ela ainda chorava muito, mas, não tenho certeza se compreendia o que tinha acontecido. Eu, no entanto, compreendia. Minha mãe estava morta e o culpado fui eu por tê-la desobedecido.

Certa do que tinha a dizer, Rosalie buscou o olhar dele.

— Não, não foi culpa sua. Era apenas uma criança. Estava assustado. Sentia fome. Queria que ela voltasse logo. A culpa foi toda dele que não deixou vocês em paz. Ele, sim, é o culpado. O único culpado. – Ela encostou os lábios ao rosto dele, beijando bem devagar. – Por favor, amor, pare de se culpar. Tenho certeza de que sua mãe jamais te culpou. Ela o amava tanto Emmett. Com todo o coração. Amava você e Kate mais que a própria vida.

Emmett soltou um suspiro doloroso. Melancólico.

— Braços fortes me levaram pra longe, me impedindo de estar com ela. Lembro-me de ter lutado pra ir com eles. Eu só queria minha mãe de volta. Queria que eles a fizessem ficar boa e a trouxessem para junto de mim. Lembro-me de ter pulado da ambulância quando vi que eles a levavam para um carro diferente do que eu e minha irmã estávamos. Havia luzes piscando e muita agitação nas proximidades. Pergunto-me onde estavam todas aquelas pessoas quando gritávamos por socorro.

Emmett estava novamente apertando os dedos das mãos na palma fechada.

— Ficamos em poder do Serviço Social até a vovó e vovô chegarem para nos buscar. Chegamos, finalmente, à fazenda. Pena que mamãe não viu esse momento. Nossos avós se encarregaram de tudo. O funeral de mamãe foi realizado aqui, no cemitério da cidade. Eles trouxeram o corpo dela, e, com muito sofrimento, se despediram da única filha.

— Por isso você ficou sem falar por quase dois anos inteiros – falou em pensar. Na verdade, mais pra si do que pra qualquer outra pessoa.

Emmett a olhou, um pouco surpreso.

— Essa parte sua avó me contou – ela esclareceu.

Ele apenas anuiu, continuando a falar.

— Ele foi encontrado, meses depois, em Nova Jersey, e levado à prisão. Vovô ficou muito doente depois da tragédia envolvendo sua única filha. Acabou falecendo no ano seguinte, deixando a vovó sozinha com a difícil tarefa de criar duas crianças órfãs, uma delas horrivelmente traumatizada para o resto da vida. Vovó estava sofrendo, tinha acabado de perder a única filha. Em tão pouco tempo perdera o marido também. Ainda assim, nos amou como nenhuma outra pessoa poderia. Cuidou e confortou nosso choro. Esforçou-se para diminuir a dor da saudade que sentíamos. Minha irmã e eu passamos o resto de nossa infância aqui, e também nossa adolescência. Kate sempre estudou perto daqui. Eu fui o único que me distanciei, indo passar uma temporada no Texas, para fazer especialização. Vovó, mesmo carregando dor tão grande, se esforçou para nos ver felizes.

— Me dói em pensar no quanto sofreu meu amor. E ainda sofre – Rose falou em voz baixa, carregada de tristeza.

— Me tornei uma criança calada. Um adolescente solitário. Idas e vindas em demoradas sessões com psicólogo. Kate também passou por psicólogos, mas foi bem menos que eu. Lembro que nos primeiros meses vovó nunca conseguia dormir porque eu gritava muito. Aos seis anos de idade, eu tinha voltado a fazer xixi na cama.

— Você não tinha culpa... – ela sentenciou.

— Minha mente é minha pior inimiga. Estou sempre voltando ao momento do crime, naquele mesmo quarto empoeirado, em um hotel de beira de estrada. A dor não diminuiu. É como se eu estivesse ficado preso aquele momento para o resto de minha vida. Queria muito que isso deixasse de me assombrar.

— Você vai conseguir – ela o encorajou. – Estou aqui para te ajudar, ainda que não seja a cura pra essa dor incomensurável que carrega em seu coração. Eu posso ajudar.

Emmett tocou o queixo dela com os dedos da mão trêmula. – Quando os encontrei naquela noite, fiquei com tanto medo que a história se repetisse. Eu só conseguia pensar em proteger você e as crianças. Eu me vi em Enrico e Noah, entende? Vi minha irmã na Amy. Eu não podia permitir que as crianças passassem por tudo o que passei. Naquela noite, meu amor, eu vi em seus olhos o mesmo desespero que vi nos olhos de minha mãe quando estávamos andando sem rumo. Mas você não era a minha mãe. E muito fácil me apaixonei por você.

Rosalie se inclinou, beijando o peito dele brevemente.

— Ah, se você soubesse como tive medo de te perder. Como tive medo que não me aceitasse. Fiquei assombrado com a possibilidade de que pensasse que eu era um doente. Que se negasse a ter uma vida ao meu lado.

— Você não é um doente. É apenas um ser humano marcado por uma grande tragédia. E isso não te faz menos merecedor de amor. De ser amado. Seu trauma poderia bem ter sido o trauma de meus filhos. Você foi um garoto valente, mas era isso, apenas um garoto. Nada poderia fazer contra um homem adulto, cheio de perversidade. Ainda assim, conseguiu evitar que sua irmã carregasse na mente e no coração a mesma cena de horror. Você foi o herói dela naquela noite. Ela o ama tanto.

Emmett meneou a cabeça concordando. – Eu também a amo muito – disse. – Desde o funeral do vovô, nunca mais voltei ao cemitério. Não tive coragem de visitar o túmulo dela. Não tenho até hoje. Por isso acabei nunca visitado nenhum dos dois. A cena do garotinho desobedecendo, ficando de cara no vidro da janela, ainda me persegue. Se eu não tivesse desobedecido, ele não teria nos encontrado. A minha mãe estaria viva e, talvez, o vovô também.

— Você precisa aceitar que não foi culpa sua o que aconteceu. E o primeiro passo é voltar ao cemitério para visitar o túmulo de sua mãe. Depois o do seu avô.

— Não tenho coragem... – ele admitiu, com a voz falhando.

— Eu vou com você. Vou segurar sua mão e lembrá-lo o tempo todo que não foi culpa sua.

— Em seus últimos momentos, mamãe tentou dizer algo, mas, infelizmente, não teve tempo.

— Eu tenho certeza de que ela iria dizer que não foi culpa sua. E o quanto te amava, e queria que fosse feliz.

Em um gesto suave virou-se de frente pra ele. Segurou seu rosto entre as mãos acarinhando devagar, limpando as lágrimas.

— Ela está orgulhosa do filho que teve. Do irmão que você é pra Kate. Do homem maravilhoso que se tornou. Repetindo suas palavras; as cicatrizes, e, me atrevo acrescentar, tanto da alma quanto do corpo, fizeram de você quem é. Então, se fosse diferente, não seria o meu Emmett. Não seria esse ser humano tão especial. Se minha vida antes não fosse o inferno que era, eu não teria te conhecido. Teria, sim, passado o resto de minha vida ao lado de um homem insignificante e boçal feito Royce King.

Emmett moveu a cabeça, levando-a entender que não tinha gostado de Royce ter sido mencionado.

Ela aproveitou para esclarecer.

— O que quero dizer é que tudo acontecesse por um proposito. Se para conhecer você foi preciso viver o que vivi antes, aceito com resignação. E sabe por quê? Porque você é o homem de minha vida. Não vai ser seus traumas, nem suas crises que irão me pôr medo. Porque, acredite meu amor, medo maior eu vivi antes de te conhecer.

Em silêncio, Emmett a envolveu num abraço apertado.

— Você é especial demais pra mim – ela repetiu as mesmas palavras dele, na noite em que fizeram amor pela primeira vez e ele viu medo em seus olhos.

— Não consigo mais ver minha vida sem você, Raio de Sol. – Emmett ficou em silêncio, seu corpo ainda tremia.

— Você está bem? – ela pediu. – Quer que eu busque um copo de água para você tomar?

— Apenas fique aqui comigo. Abrace-me até isso passar.

— Uhun... – ela anuiu, apertando-o com força, sentindo os tremores do corpo dele tornarem-se seus tremores.

— Eu não queria que ele tivesse nos encontrado. Não queria que ele... – Emmett apertou os lábios, sem conseguir pronunciar a palavra. – Eu só queria que ela voltasse logo.

— Eu sei meu amor. Eu sei.

Agora Rosalie compreendia o que Lena queria manifestar quando dizia que um era a cura para o outro.

Notas finais
Esse foi um dos capítulos que estava entre os mais aguardados, creio eu. Vocês conheceram nele um pouco do que foi o passado de Emmett. A infância dele e da irmã. Como sofreram. Os horrores que Emmett vivenciou e os traumas que isso deixou. O porquê de ele ter se apegado tanto a Rose e aos filhos dela no momento em que os viu. A necessidade dele em lhes dar segurança e afeto. O amor, a paixão, veio depois. O rapaz atormentado que vivia saindo de casa, buscando algo que não compreendia, até o dia em que os encontrou. Talvez o destino (eu gosto muito desse lance de destino) quisesse que eles se encontrassem. Porque como vocês já sabem, um é a cura para o outro. Espero que tenham gostado. Eu iria adorar encontrar com vocês nos comentários. Saber o que pensam. Beijo, beijo Sill