Um Lugar Para Ficar

20 Capítulo 20 – O Pedido Angustiado de Uma Mãe


Notas iniciais
Quero deixar registrado aqui meu agradecimento a três leitoras em especial; Leticia Vicce, Brigadeiro e Íris de Souza por terem feito recomendações lindíssimas. Senti-me como em um sonho enquanto as lia. Vocês capricharam, de verdade. Muito obrigada! Esse capítulo é especialmente para vocês, espero muito que gostem.

No momento que Rosalie alcançou a varanda da sede, carregando Noah nos braços, ela e as três crianças ainda cantarolavam a canção tema do desenho animado. E, por Deus, há quanto tempo isso não acontecia. Há quanto tempo não cantava com o real sentimento de felicidade. De liberdade.

Enrico e Abby subiram os poucos degraus da varanda de mãozinhas dadas logo à frente dela. Algumas vezes, Rose ouvia Abby pedir a Enrico que pulasse. E os dois, então, pulavam juntos o degrau a seguir. As risadinhas viam logo depois a enchendo de conforto.

A cantoria cessou quando Enrico abriu a porta de tela. Abby foi a primeira a passar para o lado de dentro. O menino ficou segurando a porta até que a mãe também passasse, para somente então tornar a fechá-la.

— Mãezinha... – Noah choramingou, coçando as costelas, no lado esquerdo do corpo. – Um bicho me mordeu. Ai... E agora?

Rosalie passou a mão onde ele coçava, esfregando algumas vezes o local.

— Foi um mosquito – disse. – Quem mandou você sair pelado lá fora. E eles não mordem amor, eles picam.

— Tá coçando, mãezinha. Tá coçando – sua voz soava extremamente dengosa, enquanto se contorcia para coçar-se.

— A mamãe vai fazer parar de coçar passando uma pomadinha.

— Então passa mãezinha. Passa! Passa logo. – E ele continuava se coçando deixando marcas vermelhas na pele alva sem se importar.

— Noah para! Vai ferir. Aí, sim, você vai chorar dizendo que está doendo.

— Então passa o negócio, de sarar.

— Eu vou passar. Mas deixa só eu dá uma olhada na Amy antes.

A irmã de Emmett estava sentada num dos sofás com Amy no colo. A pequena tomava seu suco favorito, o de uva, no copinho antivazamento.

Garrett se encontrava no sofá oposto – o menor. Assistindo a um programa de tevê que falava de esporte. A tigela de pipocas que deveria ter sido pras crianças estava agora vazia sobre a pequena mesa de um abajur.

Enrico e Abby dispararam pela casa em busca de alguns brinquedos espelhados.

Rosalie sorriu, vendo sua caçula beber o suco sem querer sequer parar para respirar. Precisando Kate intervir algumas vezes para que não sufocasse.

— Oi, bebê – ela falou com Amy a fim de chamar sua atenção. – Que suco mais gostoso mãezinha. – Amy olhou para ela, abrindo um sorriso marcado pelo suco uva.

Kate ergueu o olhar na direção de onde Rosalie estava. – Ela não para nem pra respirar – disse, com certo divertimento em seu tom de voz.

Rosalie olhou de Amy para ela. – Pior é que não para mesmo. Nunca posso a deixar tomando suco sem supervisão, senão ela engasga.

Amy se esticou estendendo os bracinhos, sem largar do copo de suco.

— Está tão linda, amor – a mãe falou usando de um tom de voz carinhoso. – Quem fez essa chuquinha no alto de sua cabeça? Humm...? Foi tia Kate, foi? Que linda mãezinha.

A garotinha olhou para Kate e novamente para a mãe. E quando Rosalie fez menção de pôr Noah no chão, o menino se agarrou a ela com braços e pernas.

— Noah, a mamãe tem que pegar a Amy – ela esclareceu um pouco impaciente. – E ainda tenho que tomar banho filho.

— Tudo bem, Rose. Eu posso olhar ela mais um pouco – Kate avisou. Foi então que Rosalie parou de tentar pôr Noah no chão. – Logan ficou lá fora?

— Ele foi com Emmett deixar Noturno na baia.

— Ah – começou Garrett –, aquele ali é igual ao tio. Adora montar a cavalo, e cuidar dos animais. É outro que vai ser veterinário no futuro. Posso até apostar nisso.

— Quando o conheci – disse Rosalie – não imaginava qual profissão exercia. Mas agora, olhando pra ele, tendo conhecimento de sua natureza doce e nobre, percebo que nasceu pra isso. Pra cuidar. Pra ajudar os que mais precisam.

— Penso igual você – concordou Kate. – Aliás, a segunda opção que me vem à cabeça quando penso em meu irmão, é pediatria. Ele tem uma facilidade pra lidar com crianças que é a coisa mais linda. Além de ser um ser humano extremamente dócil. Resumindo, um homem maravilhoso.

— Esse é o meu amor vendendo o peixe do irmão – Garrett brincou.

Kate riu. ­– Lógico! Ninguém melhor que eu, que cresci com ele, e a vovó, claro, para fazer isso.

Rosalie, apesar de um pouco envergonhada, também riu.

— Quando eu crescer – Abby comentou com Enrico – vou ser uma bailarina. Que vai se apresentar pelo mundo todo. E você Rico, vai ser o quê?

— Eu vou ser músico. Violinista – A mãe o ouviu responder com convicção. Enrico jamais ficava em dúvida quanto à resposta pra essa pergunta. E em todas às vezes Rosalie sentia-se orgulhosa de seu primogênito.

— E você vai tocar para um monte de gente? Igual que a gente ver na tevê? – Abby perguntou.

— Ahã. Num teatro. E você vai está lá, na plateia, me assistindo tocar. Junto com a mamãe, a Amy, o Noah, o Emmett e também seu papai e sua mamãe, seu irmão e a bisvovó. Todos juntos.

De repente, Rosalie sentiu uma fisgada de angustia acertar o coração. Era provável que, a essa altura, já nem estivessem mais na fazenda Recanto dos Ursos.

Viu a sobrinha de Emmett sorrir para seu filho, e ele para ela. Dois inocentes sonhando com o futuro. Um futuro incerto. Ainda enevoado.

— Onde está dona Lena? – Rosalie tentou mudar a rota dos pensamentos trazendo um assunto mais seguro, como o agora.

— Vovó está na cozinha com Neva. As duas estão preparando o jantar. Depois de muito reclamar, vovó acabou aceitando que Neva ajudasse hoje.

— Mãezinha, isso não para de coçar – Noah resmungou.

— Então vamos tomar um banho pra ver se melhora. Depois mãezinha passa a pomada.

— Desculpe-me, Rose – Kate pediu. – Ele saiu correndo pra encontrar com você, nem tive tempo de impedir que fizesse isso.

— Está tudo bem, Kate. Eu conheço bem esse safadinho – disse, cutucando na barriguinha de Noah, que se contorceu e deu uma risadinha.

— No armário do banheiro, no corredor, tem uma pomadinha para alergias a picada de mosquitos, você pode pegar pra passar nele.

— Acho que não será necessário. Ainda assim, obrigada. Antes de sair... – E ela, de repente, se viu pensando na casa que deixou pra trás e não soube ao certo como defini-la. – Só enfiei todos os remédios das crianças na sacola, nem vi direito o que estava pegando. Por sorte estavam todos no mesmo armário. Mas acho que não tive tanta sorte com os meus.

— Se você precisar passar num médico, Carlisle é ótimo. Caso seja alguma área especifica, ele pode te indicar um conhecido, de confiança. Ou até mesmo eu, se o caso for uma ginecologista. A minha é uma excelente profissional.

— Obrigada, Kate. Vou precisar, sim. Precisarei também de um bom pediatra.

— Está certo. Depois te passo o contato deles. O pediatra das crianças é um dos melhores da região.

Amy tinha terminado de tomar o suco, agora brincava com o copo vazio batendo com ele no sofá, enquanto tentava balbuciar algumas palavras novas.

Rosalie virou o rosto na direção de onde Enrico estava. – Filho, a mamãe vai tomar um banho agora. O Noah vai junto. Você vai ficar bem?

— Ahã. Eu vou ficar aqui com a Amy.

— Não precisa amor. A tia cuida dela – Kate avisou. – Você pode ir brincar. Eu cuido de sua irmãzinha enquanto sua mamãe estiver no banho.

O menino olhou pra mãe. – Pode mamãe?

— Pode príncipe. Pode, sim.

[...]

Momentos depois, Rose saiu do banheiro usando o único vestidinho que tinha conseguido pegar; um floral cujo comprimento chegava à altura dos joelhos. Como os hematomas em seu corpo tinham praticamente desaparecido, salvo as cicatrizes em um lugar ao outro, mas essas jamais deixariam sua pele. Todas tinham uma história a contar. Ainda assim, Rosalie preferia deixar no passado.

Noah ia bem a sua frente, enrolado na toalha, calçado um chinelinho de borracha. Ele subiu na cama com os chinelos enquanto a mãe penteava os próprios cabelos diante do espelho da penteadeira de metal.

— Tira os chinelinhos filho – ela pediu, vendo-o no reflexo do espelho.

— Por que suja? – Noah pediu, sem parar de pular no colchão.

— Ahã – ela respondeu de costas pra ele.

— Essa cama é nossa, mãezinha? – pediu, atirando o chinelinho longe.

— Temporariamente, sim, filho.

— Que isso, mãezinha?

— Isso o quê?

— Poradamente? – ele repetiu enrolando a língua na pronuncia.

— Quer dizer que é por um pequeno espaço de tempo. Não é para sempre. Só por alguns dias.

— Ah. Não sei por que, mas eu não gostei disso, mãezinha.

A mãe achou graça de sua resposta, se deixando levar por um pequeno sorriso. Voltou para perto dele levando a muda de roupa limpa, e a pomadinha para aplicar no local da picada do mosquito onde a pele estava irritada.

— Vem filho! Para de pular, está até parecendo uma pipoca.

— Eu gosto de picoca.

Rosalie meneou a cabeça, mais uma vez achando graça das coisas que ele dizia.

— Vem pipoquinha!

— Mãezinha, eu tô de pinto de fora – comentou sem deixar de pular. – Cadê minha cuequinha do Thomas e Seus Amigos?

— Está suja, né filho. Você acabou de tirar. Vem aqui perto da mãezinha que tem outra pra você vestir.

— Do Thomas e Seus Amigos?

— Não. Mas é botinha também ó. – Ela mostrou a cuequinha pra ele, diferente da outra essa tinha estampas de ursinhos.

Os olhinhos azuis brilharam. – Igualzinho o Emmett falou! Ele disse que o Rico e eu era ursinhos.

— Éramos ursinhos– a mãe corrigiu.

Mas Noah não deu importância e continuou falando.

— E você e a Amy, ursinhas – uma risadinha finalizou a frase.

A mãe também riu. E ele se pôs a passar uma perninha, depois outra.

— A sua tem ursinho também, mãezinha?

— Não. Não tem amor. Você já viu.

— Ah, pensava que tinha.

Ela terminou puxando a cuequinha dele pra cima. Depois fez o mesmo com o short.

— Mãezinha?

— Oi?

— Eu quero que o Emmett venha logo.

— Ele vem daqui a pouco.

— Por que ele não veio com a gente?

— Ele tinha que levar o cavalo pra casinha dele, lá no estabulo.

— Ele tem uma casinha?

— Tem.

— E você é um cowboy, mãezinha?

A mãe deu risada, lembrando-se de ter dito que era cowgirl. Mas ele insistia em falar na forma masculina.

— Fica quietinho pra mamãe passar a pomadinha.

— Vai doer?

— Não.

— Se doer eu vou ficar triste. E vô também chorar.

— Você não vai ficar triste. Nem chorar. Porque não vai doer.

Depois de passar a pomadinha na área afetada pela picada do mosquito, pegou uma blusinha e vestiu nele. Buscou o pente e penteou os cabelinhos louros.

— Mãezinha? Mãezinha – ele pôs a mão pequena no rosto dela –, eu vou falar um poema pra você.

— Um poema pra mim?

— Ahã – ele respondeu, com os olhinhos brilhando de antecipação.

— Então tá né. Manda vê – Rosalie se ajeitou na beirada da cama, para prestar atenção no que ele dizia.

Ele voltou a ficar inquieto sobre o colchão, mas, dessa vez, levou a mão pequena ao coração. E o tempo todo olhava pra mãe.

— Mãezinha, mãezinha querida. Eu vou amar você pra sempre, minha vida.

Rosalie o derrubou no colchão e começou cobri-lo de beijos. Os dois gargalhavam. E Noah se contorcia.

Emmett passava pelo corredor quando os ouviu. Inevitavelmente, parou para ouvir um pouco mais. Era gratificante presenciá-los sorrindo, depois da forma como os encontrou na estrada aquela noite.

[...]

Mais tarde, depois do jantar, as crianças brincaram um pouco no quarto dos brinquedos antes de serem levados para a cama.

Os adultos se dedicaram a assistir um programa de tevê na sala de estar, até que três deles decidiram inesperadamente se recolher mais cedo.

Garrett e Kate dividiam o sofá maior, enquanto Lena ocupava a poltrona reclinável. Rosalie e Emmett dividiam o menor. Emmett já desconfiava de que a irmã houvesse feito isso de propósito.

O som da tevê se misturava ao som de suas vozes.

Lena foi a primeira a se levantar.

— Estou indo me deitar – disse, por fim.

Emmett logo se preocupou que pudesse ser um mal-estar relacionado à pressão arterial.

— Se sente bem vovó?

— Sim, sim. É somente cansaço. – E quando Kate olhou para ela, Lena piscou um olho com cumplicidade. – Eu vou indo, meus queridos. Tenham uma boa noite. Quero estar bem disposta para ir à igreja amanhã de manhã. Você também vai, não é Rose?

— Sim, dona Lena. Com muito prazer eu irei.

— Que ótimo, minha querida. Tenham todos uma boa noite. Nos vemos pela manhã, então.

Todos também lhe desejaram boa-noite. E depois de um tempo, Kate falou:

— A gente também já vai, não é amor? – Ela se pôs de pé diante do marido.

— Vamos? – Apesar da cara de dúvida que ele fez, Kate segurou sua mão puxando-o para longe do sofá.

— Vamos. Eu estou com um pouco de dor nas costas – mentiu.

— Quer que lhe faça uma massagem?

— É com isso que estou contando. – E ela deu uma piscadinha.

Depois de se despedirem, Garrett a seguiu pela casa. Deixando assim Emmett e Rosalie sozinhos na sala de estar.

Percebendo o que eles tinham feito, Emmett olhou para Rosalie. E foi aí que os olhares se encontraram, ficando presos um ao outro. Depois de um minuto em silêncio, Emmett voltou a falar.

— Parece que queriam nos deixar a sós.

Rose mexeu as mãos sobre o colo, um pouco nervosa. Embora gostasse de estar na companhia dele.

— É, parece que sim – foi o que conseguiu dizer.

Emmett moveu as mãos alcançando as delas sobre o colo. Sentiu tremer ao seu toque. Dessa vez estavam completamente sozinhos. Não havia outros adultos, ou crianças ao redor. Nem mesmo um cavalo como quando estava ensinando ela a montar. Talvez por isso estivesse tão nervosa. Lembrava-se perfeitamente a primeira vez que se viram a sós, quando, pela primeira vez, sentiu a maciez e o gosto dos lábios dela. Ele nunca esqueceria aquela noite.

— Eu não tive a chance de dizer antes... – ele voltou a falar. – Mas, fiquei encantado com você chegando para o jantar usando esse vestido.

Sem olhar para ele, ela respondeu:

— Não é nada especial. Costumava usá-lo com frequência na minha... Você sabe o lugar onde estava antes de conhecer você.

— Ainda assim, achei que ficou lindo em você. Não se esqueça de que essa é a primeira vez que a vejo usando um vestido. Eu... é... realmente achei muito bonito em seu corpo. Desculpe, eu não deveria ter dito isso.

Rose suspirou, com um pequeno sorriso ameaçando surgir em seus lábios.

— Obrigada... – murmurou em resposta.

— Mas, eu devo lembrá-la que também gostei bastante de como estava vestida hoje à tarde.

— Eu também gostei de como estava vestido – ela deixou escapar. E as covinhas iluminaram o rosto dele quando sorriu.

— Que bom, porque, me sentiria ofendido se dissesse o contrário.

Dessa vez foi ela quem riu.

Emmett moveu a mão direita, alcançando o rosto dela com a leveza de uma pluma, temendo que se afastasse ao seu gesto.

— Seu sorriso é como um raio de sol... – declarou sem pressa. – Aquece meu coração e traz luz a escuridão que há em mim.

— Emmett... – ela murmurou outra vez.

— Não tenha medo. Eu prometi que não iria beijá-la, a menos que pedisse, e vou cumprir minha palavra. Mas, preciso que saiba Rose. – Ele afagou o rosto dela, em seguida, traçou o contorno de seus lábios com o polegar. – Eu nunca quis tanto alguém como quero a você. Esperarei pelo tempo que for preciso.

Ela soluçou, não demorou estava chorando.

Emmett limpou uma lágrima na ponta do polegar. – Eu vou abraçá-la agora. Caso não queria, apenas diga não. – Como ela nada disse, ele moveu os braços em torno do corpo dela trazendo-a para descansar no calor e aconchego de seu peito largo. Ele sabia, como ninguém, o quanto Rosalie precisava sentir seu carinho.

— Chore querida... – sussurrou nos cabelos dela. – Deixe essa dor ir embora. Quando tudo isso passar, ainda estarei ao seu lado aguardando que seu sorriso volte a brilhar pra mim.

— Você é tão bom, Emmett – ela tornou murmurar. – Não merece alguém como eu. Sou cheia de imperfeições... Minha vida é uma bagunça.

— Eu também sou imperfeito, Rose. Você viu. – Ele permaneceu fazendo carinho nas costas dela, aguardando que as lágrimas cessassem.

— Sou uma ameaça para você e sua família... Eu nem deveria estar aqui.

— Não volte a dizer isso. Você é tudo o que eu esperei a minha vida inteira.

Ela fungou, tendo uma mão espalmada no peito dele sobre a camisa de malha azul que marcava seus músculos. No aconchego dos braços fortes, sentindo o peito dele se mover com a respiração tranquila, adormeceu.

— Rose...? – ele sussurrou próximo ao seu ouvido quando a sentiu quieta demais.

Afastou os cabelos dela do rosto, marcado pelas lágrimas recente, antes de posicioná-la melhor nos braços e movê-la. Sem fazer barulho, caminhou pela casa levando Rosalie adormecida nos braços. Completamente vulnerável. Necessitada de amor e cuidado tanto quanto suas crianças eram.

Empurrou com o pé a porta do quarto o qual ela vinha ocupando com as crianças, e entrou. Aproximou-se da cama e a pôs deitada na extremidade direita onde o espaço era maior. Cobriu-a até a altura da cintura, evitando focar-se nas curvas de seu corpo que o tecido leve do vestido modelava.

Beijou na testa dela, sussurrando algumas palavras em seguida.

— É minha família agora. – Depois se inclinou sobre o corpo dela, de maneira que pudesse alcançar a mãozinha de Amy plantando um beijo. Em seguida se afastou, indo até o outro lado da cama fazendo questão de beijar na testa de cada um dos meninos.

Quando enfim começou se afastar, Rosalie abriu os olhos tomando conhecimento de estar no quarto, não mais na sala ao lado dele no sofá.

— Emmett... – ela o chamou com a voz arrastada.

Ele se virou na direção dela. – Volte a dormir... Eu vou deixá-los a sós agora.

— Por favor, fique um minuto mais. Preciso te pedir uma coisa.

Emmett voltou para perto da cama. Permanecendo de pé ao lado dela.

— Pode pedir. Não importa o que seja eu farei.

— Eu não tenho mais ninguém no mundo com quem contar a não ser você e sua família. Então, por favor, te peço que se algo me acontecer...

Nesse momento, Emmett ajoelhou-se ao lado da cama. Segurou na mão dela e disse:

— Nada vai acontecer a você.

Ela negou movendo a cabeça. – Ele está procurando por mim... – E então virou o rosto pro lado em que as crianças dormiam. Cada um com seu jeitinho peculiar; Noah agarrado a seu coelhinho de pelúcia. Enrico com uma mecha dos cabelos entre os dedos da mão direita. Amy, esparramada, sugando a chupeta. – E deve estar furioso.

— Ele não vai encontrá-los.

— Por favor, Emmett... – Ela apertou a mão dele na sua. – Preciso de alguém de confiança. Por favor, me prometa cuidar de meus filhos caso algo me aconteça. Não permita que os separem, ou que lhes façam mal. Eu posso escrever uma carta onde cedo a guarda deles a você, pro caso de algo me acontecer.

— Eu prometo cuidar dos quatro pra sempre, se assim me permitir. Agora volte a dormir. Não vou deixar que nada de ruim te aconteça. Boa noite – murmurou, beijando a testa dela. Quando tornou se afastar, Enrico estava sentado na cama, observando o que fazia. – Volte a dormir, campeão – disse ao menino. Mais uma vez passou para o outro lado da cama. Cuidadosamente o fez deitar-se outra vez. E o cobriu até a altura da cintura como havia feito minutos antes com a mãe. Ao curvar-se para beijar na testa de Enrico, o menino o abraçou pelo pescoço.

— Fique aqui com a gente – pediu.

Emmett se afastou, cobrindo os bracinhos dele com o cobertor.

— Não posso campeão. A cama não cabe todos nós.

— Cabe, sim – o menino insistiu.

— Eu vou cuidar de vocês mesmo que do outro quarto. E você pode bater na porta sempre que quiser, está bem?

— Tá – Enrico aceitou, embora preferisse que ficasse ao lado deles.

— Agora dorme. Você precisa descansar. Amanhã será um dia cheio. Teremos muitas coisas a fazer por aqui.

Ao mover a cabeça para o lado, percebeu que Rosalie o observava. Naquele momento, ela tinha a confirmação de que ninguém no mundo, depois dela, cuidaria de seus filhos melhor que Emmett.

— Mamã... – Amy gemeu, quando a chupeta lhe escapou da boca. Rose lhe devolveu a chupeta e a trouxe para mais perto do corpo. Amy se aquietou logo que sentiu o calor do corpo dela.

— Durmam bem – murmurou Emmett. Em seguida, apagou a luz e deixou o quarto, abrindo e fechando a porta bem devagar.

[...]

Domingo de manhã. Todos acordaram cedo e preparam-se para ir à igreja.

Lena costumava ir sempre com o neto, no carro dele. Mas dessa vez, no entanto, foi no carro do marido da neta. Já que no carro de Emmett todos os assentos estavam ocupados com as cadeiras das crianças de Rosalie. E, obviamente, procurava sempre uma forma de deixá-los a sós. Seu desejo de vê-los juntos crescia a cada dia. Assim como sua esperança.

Na cidade, Emmett estacionou bem ao lado do carro de Garrett, no estacionamento ao lado da igreja dominical. O movimento de pessoas ali era pouco, pois grande parte delas já havia entrado na igreja e ocupado seus lugares.

Emmett e Rosalie retiraram as crianças da caminhonete ao mesmo tempo em que o restante da família deixava o outro veículo.

Kate segurou na mão de Logan e Garrett, na de Abby.

Lena levava uma bíblia numa das mãos, e usava um de seus melhores trajes de domingo.

Abby, Kate, Rosalie e Amy usavam vestidos. Nessa manhã, antes de se aprontarem, Kate doou para Rosalie um de seus vestidos ainda sem uso. E também um par de sapatos. Como ainda não tinha recebido seu salário, acabou aceitando.

O vestido lilás, alguns centímetros abaixo do joelho, lhe caíra como uma luva. Os sapatos de salto lhe emprestavam certa elegância. Os cabelos estavam presos em uma trança lateral que ela mesma fizera antes de o pessoal se apressar.

O vestidinho de Amy era branco com estampa floral azul e seus sapatinhos, azul-marinho. Nos cabelos tinha uma faixa no mesmo tom da estampa do vestido.

Todos os garotos estavam usando trajes sociais. Claro que tinha as mãos de Kate por trás de tudo isso. Uma vez que no dia em que escaparam dos horrores que viviam na casa de Royce, seus filhos só puseram roupas de malhas em suas respectivas mochilas. A mãe ainda lamentava. Mas, na agonia das pressas, como poderia ter sido o contrário. Por sorte haviam se lembrado de pôr algumas cuequinhas também.

Agora, carregando Amy nos braços, vendo Emmett de mãos dadas com os meninos, caminhando rumo à porta principal da igreja parecia uma família feliz. E ela estava feliz.

Como havia poucos lugares desocupados nas primeiras fileiras, acabaram todos se sentando na penúltima delas. Rosalie e Emmett, com as três crianças, ficaram no lado direito da igreja e o restante da família, no lado esquerdo.

Ela viu o reverendo – um homem alto, de cabelos ralos e grisalhos – chegar à frente com a bíblia nas mãos e se posicionar diante o púlpito.

A luz do sol da manhã iluminava o ambiente, chegando através dos vitrais composto por pedaços de vidro coloridos, que representava trechos bíblicos. Rosalie os achou belíssimos.

Enrico e Noah, sentadinhos ao lado da mãe, sorriram pra ela igualmente encantados com a beleza do local. Rosalie sorriu de volta e lhes mandou um beijo. Ficando um pouco sem graça ao perceber que Emmett a olhava.

Mais a frente, numa das fileiras do meio, Alice ficou de pé – trajando um vestido amarelo – olhando para trás, acenando freneticamente pra eles. Esme segurou seu braço para que voltasse a sentar, e ao virar o rosto encontrou a família de Emmett sentada nos fundos da igreja. Acenou gentilmente pra eles. Sentado ao lado dela estava Carlisle, e ao lado de Alice, Jasper. E, acreditem, seus cabelos louros estavam impecavelmente penteados. O que levou Rosalie suspeitar que Alice o tivesse obrigado a fazer isso.

O reverendo Walker cumprimentou a todos, em seguida deu início ao sermão do dia: Amor Que Nunca Me Abandona.

Rosalie olhou para os filhos, imaginando o que estaria se passando pela cabecinha deles. Era a primeira vez que iam à igreja. E, para sua surpresa, pareciam tão concentrados nas palavras do reverendo.

Para Amy, não fazia muita diferença. Toda sua atenção estava voltada para o brinquedo que segurava.

Às vezes, Rosalie tinha a impressão de estar sendo observada por Emmett, mas não virava o rosto para confirmar. E ele não era o único. Lena, de tempos em tempos, lançava um olhar na direção deles.

Momentos mais tarde, uma mulher de pele negra, de cabelos bem escovados e brilhantes foi até a frente. Dois rapazes a acompanharam. A mulher pegou o microfone no palco situado na lateral esquerda da igreja. Um dos rapazes sentou-se diante do piano vertical, também chamado piano modelo console. O outro pegou o violino.

O violinista tinha a pele clara e seu rosto era encoberto por sardas. O outro rapaz, um negro alto, de cabeça raspada. Por sinal, muito atraente.

Quando a canção começou, Rosalie levantou-se com o restante da congregação. Bastou que a voz daquela mulher alcançasse seus ouvidos para lhe trazer arrepios. Sem dúvida, uma voz abençoada por Deus, pensou ela.

Seu louvor era tão forte que em instantes Rosalie se viu com lágrimas nos olhos. Emmett acariciou seu rosto com as costas da mão. Foi aí que suas suspeitas, quanto a ele observá-la, se confirmaram. Ela o olhou brevemente, como que dizendo que estava bem.

Os olhinhos de Enrico estavam vidrados no violinista. Mal piscava tão concentrado estava no instrumento musical de que tanto gostava.

Momento depois tudo tinha chegado ao fim. E o pessoal começou ir embora.

Esme o marido e a filha, com Jasper junto, juntaram-se a família de Emmett. Assim como Isabella, Edward e Liam. Todos perto da porta de saída, onde se puseram a conversar.

Nesse momento Rosalie foi apresentada ao reverendo. E também a ex-babá dos filhos de Kate, Marci. Uma mulher na casa dos quarenta anos, de cabelos castanhos e pele do rosto marcada por sardas. Mãe de um adolescente de treze anos.

Devagar, Enrico se aproximou da primeira fileira de bancos, sentou-se e ficou a olhar o violino um pouco mais de perto. Suas mãozinhas formigavam de tanta vontade de segurar o instrumento musical. De sentir a música fluindo, preenchendo seus sentidos. O levando a outra dimensão.

Rosalie desviou a atenção das pessoas ao seu redor, com Amy no colo, notando então Enrico sozinho lá frente.

Emmett tocou o braço dela com a mão, percebendo o que acontecia.

— Eu vou até lá falar com ele – disse.

Antes de ir falar com Enrico, Emmett trocou duas palavras com o reverendo, mas Rosalie não chegou saber do que se tratava.

Alice tagarelou sem parar chamando sua atenção. Rose deixou de olhar pra eles quando Emmett parou e sentou no banco ao lado de Enrico. Depois disso, o som que saia do violino chegou aos seus ouvidos. O coração reagiu palpitando forte. E ao olhar novamente pra frente, seus olhos confirmaram o que o coração já sabia; Enrico tocava Primavera, de Vivaldi. Uma das canções favorita de Rosalie, o menino sabia. Apesar de o violino não ser no tamanho adequado pra ele, tocava com perfeição. Como sua professora de música, na antiga escola, dissera um dia; Enrico tinha um dom.

Os olhos da mãe encheram-se de lágrimas. Orgulho e amor incomensurável tomavam conta de seu ser. Mesmo com um sorriso no rosto, lágrimas fizeram seu percurso.

— Rico! – Noah gritou feliz. Em seguida, correu para mais perto. As outras crianças, incluindo Liam, correram para sentar-se no banco, na primeira fileira. Os adultos olhavam, fascinados, a criança com o violino nas mãos.

Enrico parou de tocar assim que percebeu todos aqueles que ainda estavam na igreja o olhando.

— Ico! – Amy chamou por ele.

— Continua filho – Rosalie moveu os lábios sabendo que o menino atenderia seu pedido.

Enrico olhou para Emmett ao seu lado. E ele passou a mão grande em seus cabelos castanhos. Devagar, e um pouco envergonhado, Enrico ajeitou o violino abaixo do queixo outra vez e moveu o arco com suavidade criando a sinfonia.

De frente para ele, sentadinha no banco, Abby balançava os pezinhos. Seu rostinho se iluminava com um sorriso vendo o amigo tocar.

— Uau! – Alice deixou escapar. – Ele manda muito bem.

— Meu bisneto é um prodígio musical – se gabou Lena. – Não o subestime. – O pessoal ao redor dela deram risadinhas.

— Ai, vovó – disse Kate, achando graça.

Enrico tocou também Feels Like Home – de Edwina Hayes – no solo de violino emocionando profundamente a mãe. Somente depois disso devolveu o violino pras mãos de Emmett. Enquanto ele se encarregava de guardar o instrumento, o menino voltou correndo para junto da mãe.

Rosalie o acompanhou, com os olhos em lágrimas, até que parou a sua frente.

— Eu toquei de novo, mamãe – comentou, com os olhinhos brilhando de satisfação. – Eu não esqueci. Não esqueci, mamãe.

A mãe se curvou, segurando Amy, e beijou nos cabelos dele, no alto da cabeça, quando ele abraçou suas pernas. Inebriada com seu talento musical tanto quanto as outras pessoas na igreja pareciam estar.

— A mamãe viu amor – ela respondeu, com os lábios ainda nos cabelos dele.

— Emmett me deixou tocar com o violino da igreja. E ele nem ficou bravo comigo, mamãe.

— Ele nunca ficará bravo por você tocar violino, amor. Não.

— Eu te amo, mamãe. E também amo muito o Emmett.

Rosalie não pôde impedir as lágrimas de rolarem em seu rosto. Seus filhos estavam encontrando em Emmett o amor que jamais tiveram de Royce e isso a preocupava. Porque não sabia o que o futuro os reservava. Nem o quanto Emmett estava disposto enfrentar para assumir tamanha responsabilidade.

Notas finais
Obrigada também ao pessoal que comentou no capítulo anterior. Beijo, beijo Sill