Um Lugar Para Ficar
19 Capítulo 19 – Primeira Aula de Montaria
Notas iniciais
Os primeiros dias na fazenda Recanto dos Ursos pareciam correr. Quando Rosalie se deu conta, o sábado havia chegada. Dia que trabalharia apenas até o horário do almoço na livraria.
Esme pediu que levassem as crianças, pois seria o dia dedicado à leitura infantil. A responsável por encantá-las era nada menos que Alice, sua filha. Fazendo questão de ressaltar que todas as crianças adoravam seu jeito exagerado e teatral de narrar.
Emmett levou Rosalie e as crianças na caminhonete como já era de costume. Logan e Abby foram com o pai, no carro dele, pois não couberam todos no mesmo veículo.
Rosalie ficaria encarregada dos dois pelo tempo que estivessem na livraria. Quando terminassem, um dos pais iria buscá-los.
Por isso estavam todos agora sentadinhos em pufes coloridos sobre um tapete macio e felpudo, no fundo da livraria, num cantinho aconchegante, feito especialmente para esses momentos com as crianças.
Cercados por outras crianças estavam os filhos de Rosalie e os sobrinhos de Emmett. Liam, o encrenqueiro, também estava lá.
Rose se encontrava atrás do balcão atendendo um eventual cliente ou o telefone, sempre que tocava.
Esme estava dando voltas, indo de um corredor a outro. Por vezes parava pra ouvir a filha contando histórias. Dessa vez Alice estava recebendo uma ajuda especial. O garoto louro, que usava óculos de grau. Seu amigo Jasper.
De tempos em tempos, a loja era preenchida por risadinhas e gargalhadas. Em outros momentos ouvia-se apenas um “oh” surpreso. Ainda assim, no meio de todas aquelas crianças, quinze no total, Rosalie conseguia distinguir o riso de seus filhos. Principalmente quando Noah se punha a fazer perguntas.
Embora fosse uma das melhores coisas, e a que mais buscava, ainda estava se acostumando com a frequência com que eles estavam rindo ultimamente. Em apenas alguns dias, seus filhos riram mais do que riram a vida inteira na casa de Royce King.
Amy estava com eles. Apenas uma única vez precisou ir até pegá-la para tocar a fralda. Nas demais coisas, Esme se encarregou de cuidar dela.
Fez-se uma pequena pausa, onde as crianças receberam lanches. E foi nesse momento que Enrico a surpreendeu levando seu lanche até ela, para dividirem. Esme observou de longe, imaginando que ele estivesse apenas buscando a presença da mãe. Rose não aceitou, apesar de ele ter insistido muito.
Esme se aproximou, com um lanche na bandeja, que foi entregue a Rosalie. Somente dessa forma o menino se deu por satisfeito, voltando para perto dos irmãos no tapetinho.
Os risos voltaram minutos depois de a narrativa ter sido retomada por Alice e Jasper.
Com tantas crianças por perto, Amy acabou não tirando o cochilo da manhã.
O horário da leitura chegou ao fim e, pouco a pouco, os pais foram aparecendo para pegar seus filhos. Bella apareceu para pegar Liam, aproveitando para conversar um pouco com Esme também.
Amy estava no colo de Alice, distraída com um dado de pelúcia colorido.
— Na próxima sessão de leitura para as crianças, irei trazer uma fantasia de sapo para você usar, Jasper – ela comunicou.
O amigo não apreciou muito sua ideia. – Nem vem! Não vou usar de jeito nenhum.
— Como não? Você é meu amigo.
— Por isso mesmo. Sou seu amigo, não seu escravo.
— Você é um chato, isso sim. Custa fazer isso pelas criancinhas? Elas ficam tão contentes.
Abby se agitou na frente deles, pensando nos contos de fadas que ouvira a vida toda.
— Então você vai ter de dar um beijo nele, pra se transformar num príncipe – disse, por fim.
Jasper ficou vermelho no mesmo instante. Enquanto um coro de vozes infantis, com repugnância, diziam “argh”.
Alice fez cara de asco e começou a falar:
— Credo, ele é meu melhor amigo. Quase como se fosse um irmão.
As crianças riram. E, no instante seguinte, Liam se pôs a cantar enquanto dançava.
— Alice e Jasper, embaixo de uma árvore, trocando beijinhos azubidu, azubidu... – Mais risadinhas surgiram. Deixando o casal de amigos envergonhados.
— Liam, já chega! – Isabella protestou. E depois de se despedir de todos, guiou o filho até a saída.
Liam abraçou o próprio corpo, simulando uma cena de beijo. Bella deu um peteleco na cabeça dele, e o escoltou para fora da loja. Apesar disso, o menino ria.
— Esse menino é doido – Noah falou sem pensar.
— Noah! – Rosalie tentou adverti-lo quanto ao que disse, mas, acabou rindo logo depois junto com Esme. Quando olhou para o lado, notou que Jasper parecia ressentido. Chegando a conclusão de que os sentimentos dele por Alice iam muito além de uma simples amizade. Ele era completamente apaixonado por ela, mas ela, talvez, nunca tenha se dado conta disso. De repente, sentiu-se triste por ele.
— Tia Rose – Logan começou –, quando que a gente vai embora?
— Seu tio e o seu pai já estão vindo pra cá. Eu falei com Emmett por telefone agora há pouco.
A sineta da porta soou no momento em que os dois passavam por ela.
— Ah, olha eles aí. Não falei que eles estavam chegando – disse ao menino, com satisfação.
Abby correu para os braços do pai, com aquele jeito que as crianças tinham que pareciam cair a qualquer momento. O irmão caminhou para perto deles.
Noah e Enrico abraçaram as pernas de Emmett, e ele bagunçou seus cabelos com a mão. Amy estendeu os bracinhos, e ele a pegou sem hesitar. Beijou seu rostinho, depois sorriu olhando a mãe da criança. Sempre muito feliz em vê-la.
Rosalie também não podia negar que ficava feliz em vê-lo. E que o coração regia descontrolado. Ela só não sabia que o dele reagia da mesma maneira.
Esme notou a forma como se olhavam. Contudo, nada disse. Quisera sua filha fosse tão discreta assim.
— Porque vocês não ficam juntos?! Não é por nada não, mas, qualquer um pode perceber que rola um climão. Sem falar que a madrinha já está pirando o cabeção para ver vocês junto como casal. Sem essa de “somos apenas amigos”.
Esme cobriu a boca da filha com a mão. – Já chega mocinha! Porque você não vem me ajudar fechar a loja?!
Jasper riu.
— Você também Jasper – Esme completou, arrancando o riso do rosto dele.
— Por que eu? – o garoto perguntou.
— Não me questione mocinho.
— Toma! – Alice zombou, depois de a mãe ter afastado a mão de sua boca.
— Ela é sua mãe, não minha – Jasper resmungou. – Não tenho por que obedecer.
— Não pense que não ouvi isso – Esme declarou.
— Isso, mamãe! Mostra pra ele quem manda.
— Traidora! – o amigo denunciou.
— Parece que foi divertido – mencionou Garrett, depois de os três terem se afastado.
— As crianças se divertiram bastante – a resposta veio de Rosalie.
Nesse momento, Emmett aproveitou para chegar mais perto do balcão onde ela estava levando Amy com ele.
— E você, se divertiu? – perguntou a ela.
— As crianças sempre fazem meu dia melhor.
— Rezo para um dia, quem sabe, poder fazer parte disso – ele murmurou, pondo uma mão sobre o balcão, sem desviar os olhos do rosto dela. Ela deslizou sua mão sobre a bancada até seus dedos encostar-se à ponta dos dedos dele. Apenas nesse momento Emmett deixou de olhá-la, para olhar suas mãos próximas. Rose fez o mesmo, e, em seguida, pôs a mão sobre a dele. A torrente de calor líquido se espalhou causando formigamento e ansiedade a cada célula do corpo. Nenhum dos dois pôde evitar sentir. Era como nadar contra a maré; inútil e desgastante.
— Você já faz parte, Emmett. Você é especial... – Ele moveu a mão, de maneira que seus dedos pudessem envolver os dela.
— Ei, criançada, que tal se fôssemos esperar lá do lado de fora? O tio paga sorvete pra todo mundo.
— Você não é tio – Abby resmungou. – É papai.
— Eu sou seu papai, claro que sim, princesa. Mas do Enrico e do Naoh, eu sou tio. Tio Garrett.
— Ah, tá bom – Abby sorriu. – Pensei que estava falando de mim e do Logan.
— Então, vamos lá galerinha? Sorvete pra todo mundo!
— Obaaa! – três das quatro crianças gritaram entusiasmadas.
Enrico preferiu perguntar antes a opinião da mãe.
— Pode ir, mamãe?
— Pode, sim, amor.
O menino correu para perto dos demais, esbanjando um sorriso.
— Eu vou querer o meu de limão – disse Logan.
— E eu de morango, papai – Abby avisou, saltitando na frente do pai.
— Eu gosto mais de pistache – Enrico avisou.
— E o seu Noah? – Garrett perguntou, enquanto abria a porta para eles passarem. – É de chocolate que você quer?
— Não! Eu não gosto de sorvete de chocolate, tio.
— Ele acha amargo – a mãe avisou vendo-os saírem saltitantes.
— Ok – Garrett respondeu se distanciando da porta.
— Eu gosto de morango também – Noah esclareceu já na calçada.
Os dedos de Emmett ainda estavam ao redor dos de Rose sobre o balcão. Não podia evitar a satisfação que sentia a partir desse contato.
— Amy toma sorvete também? – ele perguntou.
— Somente às vezes dou uma colherinha pra ela provar. Nunca passei disso. Morro de medo de ela ficar doente.
— Vem tomar sorvete comigo quando sair daqui?
— Sim – ela concordou, com sorriso aberto. E ele a presenteou mostrando-lhe as covinhas ao sorrir. – Me deixa apenas ajudar eles a fecharem a loja. – Ela moveu a mão, afastando da dele devagar. O vazio que deixou ao se afastar fez Emmett desejar que voltasse.
Amy tentava balbuciar algumas palavras, se enrolando nas pronuncias. Isso fez Emmett rir, esquecendo-se um pouco do vazio que a mãe dela deixou ao se afastar. Buscando distrai-la, passou a carregá-la como se ela pudesse voar. E a pequena gargalhou gostosamente em seus braços.
Rosalie moveu a cabeça na direção onde eles estavam, e o viu beijar a barriguinha de sua filha, enquanto chocalhava divertidamente seu corpo pequenino no ar. Foi difícil evitar o coração vibrando dentro do peito.
A afeição por ele só crescia.
Escondidos atrás de uma estante de livros, Alice e Jasper espionavam os três.
— O que vocês pensam que estão fazendo? – Esme perguntou, pondo a mão nos ombros deles, os movendo para trás. Ambos apertarem os olhos, sabendo que haviam sido pegos com a boca na botija.
— Alice disse que eles iriam se beijar a qualquer momento... Ai! – Jasper gritou quando Alice esmagou seu pé em uma pisada forte, propositalmente.
— A gente só estava vendo se os livros estão ok, mamãe.
— Sei... Passa já pra fora os dois. Eu os encontro lá em alguns minutos.
— Está expulsando a um cliente? – Jasper se atreveu a dizer.
— Tecnicamente, você não é cliente. Já que não comprou nada.
— Não hoje. Mas...
Os dois foram postos porta afora.
— Mamãe, Jasper acabou de dizer que agora só compra livros na concorrente – Alice gritou da calçada.
— Eu arranco a orelha dele – Esme avisou. E os dois gargalharam.
Depois de sentarem no chão encostados a vitrine da livraria, Jasper retirou o celular do bolso. Desenrolou os fones de ouvido, compartilhando com Alice a música que ouvia.
Pouco tempo depois, todos estavam do lado de fora. Emmett ainda segurava Amy, só que com o acréscimo da sacola com coisinhas dela. Esme terminava de fechar a loja com Rosalie ao seu lado. Ambas com a bolsa embaixo do braço.
— Até mais, Rose – disse Esme. – Bem, caso não nos encontremos amanhã. Então no vemos aqui na segunda-feira.
— Até logo, Esme. Tchau Alice. Jasper.
O casal de adolescentes retiraram os fones do ouvido, e olharam para ela se preparando para ficar de pé.
— Tchau, Rose. Tchau, Emmett – os dois falaram, quase que ao mesmo tempo.
— Vamos, Alice – a mãe chamou, com a mão na porta do carro, estacionado ali perto.
— Mamãe, Jasper vai almoçar na nossa casa hoje – Alice avisou.
— Novidade! – Esme rolou os olhos. E, então, entrou no carro.
Rosalie achou graça. – Eles são sempre desse jeito? – perguntou a Emmett.
— Desde que os conheço. E, então, vamos tomar um sorvete agora?
— Vamos. Vamos, sim.
Caminharam lado a lado até a sorveteria da esquina. Garrett e as quatro crianças estavam sentados a uma mesa na calçada. As crianças se lambuzavam nos sabores favoritos de seus sorvetes.
Rosalie não quis acreditar no que viu; Noah estava com o rosto e parte da frente da camisa completamente sujos de rosa. O azul de seus olhinhos faiscava pela satisfação em estar ingerindo todo aquele açúcar.
— Noah do céu! – ela disparou.
— Mãezinha, isso tá uma delícia muito deliciosa – ele falou sorridente.
Emmett gargalhou sonoramente ao lado dela. Se divertindo com o estado em que Noah se encontrava; sujo e grudento.
— Depois lava – Garrett falou em defesa do pequeno. E as outras crianças gargalharam. Apesar de estarem também com suas bocas sujas, não chegavam nem perto do estado que Noah se encontrava.
— Deus, cadê o meu filho? Porque vejo aqui apenas um sorvete ambulante.
Noah gargalhou, mostrando a boca rosa por dentro, e as covinhas em suas bochechas.
— Pop! Pop! – Amy gritou, estendendo as mãozinhas, impaciente.
E Noah se atreveu pedir a mãe um beijo.
— Dá beijinho, mãezinha. Dá beijinho.
— Ah, tá! Eu vou te dar um beijinho assim, sujo desse jeito. Nem vem neném – brincou com ele.
— Nem vem neném? Ora essa! Eu tô com gosto de morango.
Rosalie meneou a cabeça e foi pegar, na sacola embaixo do braço de Emmett, uma toalhinha para passar no rosto de Noah. Fez o melhor que pôde para tirar toda aquela sujeira rosa. Mesmo sabendo que apenas um banho resolveria. Depois segurou as bochechinhas do filho e as beijou, confirmando que o grude permanecia.
— Ai, meu Deus! Bebê gostoso e grudento da mamãe. – Noah ficou todo dengoso. E ela se afastou dele para limpar a boca de Enrico, depois beijar suas bochechas como havia feito com o irmão.
— Vamos lá escolher o nosso – Emmett sugeriu –, porque alguém aqui já está impaciente.
— Pop! Pop! Dá? Dá mamã!
A mãe estendeu os braços e a pegou no colo. Mas Amy começou chorar.
— Pop... Dá?
— Mamãe vai dar o pop, bebê. Calma!
— Pop – Amy tornou a pedir. Agora fazendo beicinho.
Os dois entraram juntos na sorveteria. Retornando momentos depois trazendo sorvetes de sabores diferentes.
Rosalie sentou com Amy no colo – depois de Emmett ter puxado a cadeira – mantendo o sorvete um pouco afastado sobre a mesa, porque Amy tentava alcançar com as mãozinhas. De vez em quando punha um tiquinho na boca dela. Mas Amy queria mesmo era se lambuzar igual Noah estava fazendo.
Quando o vento soprou uma mecha dos cabelos dourados de Rosalie no rosto, Emmett fez questão de afastá-la com a mão. Em agradecimento, ela lhe ofereceu um sorriso.
[...]
De volta à fazenda, as crianças foram imediatamente para o banho.
Já passado da hora, todos se reuniram à mesa para o almoço.
Logo depois, Emmett deu uma saída para conferir alguns animais da fazenda em recuperação.
Noah e Amy dormiram. As outras três crianças foram ver desenho animado na tevê da sala. Jujuba e Caramelo estavam sempre as rondando os pequenos.
Garrett perseguia Kate, insistindo que fosse com ele até o rio.
— Vovó, fala pra essa criatura que eu não estou a fim de tomar banho de rio nesse momento. Parece que não entende. Nunca vi.
— Sossega esse facho, Garrett. Você só quer que ela vá, pra ficar de sem-vergonhice. Pois minha neta não vai, não. – Kate gargalhou por detrás das costas da avó. – Pode tratar de sossegar esse facho. Vá procurar o que fazer.
Garrett tentou alcançar Kate pelo braço. Ele estava rindo. E Lena mostrou o chinelo.
— Bate nele, vovó!
— Não vou bater em ninguém. Estou vendo é que, por causa de vocês dois, meu chinelo acabou de arrebentar. Agora qual dos dois vai me dar outro? Podem ir tirando o dinheiro do bolso.
Kate riu ainda mais. Garrett aproveitou sua distração para agarrá-la e jogá-la sobre o ombro.
Rosalie só ria.
Abby correu para perto dos pais, e começou a pular. – Pega eu! Pega eu, papai – ela pedia.
— Papai não pode filha.
Emmett apareceu na porta. – Quem manda ser um fracote – provocou o cunhado.
Abby ainda pulava e, Kate, de cabeça pra baixo, nos ombros do marido, dizia:
— Se o papai pegar nós duas ao mesmo tempo, nós vamos cair filha. Mamãe não quer que você se machuque.
— Rose – Emmett chamou –, você pode vir aqui fora um instante comigo?
Ela pôs a almofada que repousava sobre o colo novamente no sofá e foi até ele. Emmett segurou sua mão guiando-a para fora da casa.
Sobre a cadeira de balanço de Lena na varanda estava uma sacola de compras de uma loja country. Emmett pegou e entregou na mão dela.
— Pra mim? – pediu mostrando-se surpresa. Analisando a sacola perguntou: – O que é?
— Por que não descobre você mesma? – sugeriu, tendo um sorrisinho maroto nos lábios.
Rosalie abriu a sacola devagar. Mergulhou a mão dentro e retirou primeiro um chapéu country feminino na cor caramelo. Depois um par de botas, na mesma cor.
Sua primeira reação foi de divertimento. Não podia acreditar no que acabara de ganhar. Olhou nas solas, percebendo que era o seu número.
— Como soube que número comprar?
— Olhei nos seus tênis outro dia, sem que você percebesse.
— Já estava com elas quando voltamos da cidade hoje?
— Sim. Mas eu queria entregar quando estivéssemos a sós. Para o caso de você não gostar... ou não aceitar.
Um sorriso curvou o canto dos lábios dela. – Eu adorei! De verdade, Emmett – disse, e, mesmo com o presente nas mãos, ficou nas pontas dos pés, passando os braços em torno do pescoço dele.
Seu gesto o pegou tão de surpresa que, no primeiro instante, ele não esboçou reação alguma. Somente depois, e bem devagar, para dar a ela chance de fugir, se assim desejasse, passou os braços em torno da cintura dela. Aproximando os lábios de seus cabelos dourados plantando um beijo no alto de sua cabeça.
— É para sua primeira aula de montaria.
Rose se afastou devagar, embora ele desejasse permanecer assim por muito mais tempo.
— Eu deveria saber que estava encrencada – disse.
— É uma encrencazinha de nada.
— Você diz isso porque cresceu aqui. Cavalos e montaria sempre fizeram parte de sua vida.
— E agora você vive aqui, também.
Ela encostou a mão que segurava as botas ao peito dele. Emmett pegou o chapéu e pôs na cabeça dela. Foi difícil não se encantar ainda mais com sua beleza, com um toque de menina do interior.
— Quero que esteja vestida de acordo. Tem que entrar no clima de fazenda. Mandei encilhar o Noturno pra sua primeira aula. Vamos?
— Tudo bem. Deixa só eu pôr uma calça antes, e aí já ponho as botas também.
Ele olhou as pernas dela de fora. Ela usava um short branco de tecido.
— E também preciso avisar ao Enrico onde estarei.
— Vai lá! Eu te espero aqui. Só não demore. Em pouco tempo o sol estará se pondo.
— Eu volto rápido.
Com essas palavras, ela entrou novamente na casa. Emmett ficou sentado na cadeira de balanço que pertencia à avó enquanto a esperava. Estava pronto para cavalgar: com jeans, camisa branca de botões e botas. O chapéu preto tinha acabado de pôr na cabeça.
Em pouco menos de dez minutos, Rosalie estava de volta. Usava a mesma blusinha de tecido rosa, com a diferença que agora estava de jeans e as botas com a quais ele havia acabo de lhes presentear.
Emmett a olhou com cobiça e adoração. Analisando toda sua figura feminina, discretamente, sentindo falta de um cinto que combinasse com o restante do presente. Decidindo assim que seria o próximo presente a dar a ela.
Olhando os cabelos dourados dela, percebeu que os havia penteado. O brilho nos fios estava mais intenso que antes. De repente, se pegou pensando se havia feito aquilo pensando nele. Preferiu pensar que sim. E quis muito acariciá-los.
Ficou de pé, esbanjando um sorriso contagiante enquanto as covinhas nas bochechas se exibiam. E pôs o chapéu caramelo novamente na cabeça dela.
— Está ainda mais bonita – soltou sem pensar, causando um pouco de nervosismo a ela. No entanto, era o tipo de nervosismo bom. Aquele que antecede coisas boas.
— Obrigada...
— Já avisou ao Enrico ande vamos?
— Já. Ele está distraído assistindo a tevê com seus sobrinhos. Fico tranquila que ele saiba onde me encontrar caso precise de mim. Ou os irmãos acordem.
— Venha! – ele lhe estendeu a mão. E, juntos, se puseram a descer os degraus da varanda da frente. Afastaram-se um pouco da sede, passando pelo celeiro e o galpão ao lado do escritório cujo ele usava para receber funcionários e pessoas de fora que vinham tratar de negócios. Chegando a uma área cercada, usada para exercitar os cavalos.
A sombra de uma árvore, Scott segurava Noturno pelas rédeas. Seu pelo negro ainda mais sedoso e brilhante, o que a levou pensar que tivesse passado por uma sessão de beleza recentemente. Parecia pronto para uma competição.
— Tudo certo, Scott? – pediu Emmett, quando se aproximavam.
— Sim, patrão. Noturno está pronto para ser montado. Senhora...? – ele fez uma mesura, tocando de leve a aba do chapéu marrom.
Rosalie sorriu para ele. Depois olhou o cavalo com mais atenção.
— Eu queria preparar a Estrela para você montar, mas ela ainda está se recuperando da lesão na pata dianteira. Tenho outros cavalos fáceis de montar, mas...
—... Mas Noturno é o seu favorito – ela completou. Depois de um segundo admitiu. – Estou com medo.
— Eu vou estar o tempo inteiro por perto. Garantindo que não vá sair galopando a toda por aí. A menos que esteja preparada.
— Fiquei muito mais tranquila agora – ela ironizou.
Emmett riu. – Por enquanto esse será o único local onde iremos trabalhar.
Ela olhou para ele, com um sorriso nervoso estampado no rosto. – Ele não vai saltar a cerca comigo em cima, vai?
— Não se preocupe. Noturno não é um cavalo de hipismo. É um cavalo de corrida. Saltar não é o forte dele. Claro que há exceções.
Rose mexeu o pé, lembrando uma garotinha apavorada. Emmett tocou seu ombro levemente com a mão.
— Em hipótese alguma permitirei que se machuque. Estou aqui para garantir sua segurança. Acredita quando digo isso?
— Acredito.
— Então relaxe, meu anjo.
A forma como ele a chamou causou uma tempestuosa agitação no estomago, como se milhares de borboletas despertassem de um sono profundo.
Alheio ao que estava acontecendo a ela, Emmett recebeu das mãos de Scott as rédeas do cavalo. – Obrigada, Scott! Você já pode ir agora.
— Sim, patrão. – Novamente, Scott tocou na aba do chapéu ao falar com Rosalie. – Com sua licença, senhora.
— Reza por mim, Scott – ela brincou.
— O patrão sabe o que faz – ele disse.
— Ah, disso eu não duvido. O problema sou eu.
Quando ela voltou olhar pra Emmett, ele estava com sorriso aberto.
— Primeira dica – disse ele. – Nunca, em hipótese alguma, fique logo atrás de um cavalo. Um único coice de um cavalo assustado pode ser letal. Além disso, ficar diretamente na frente do cavalo é perigoso, pois ele não consegue vê-la e pode se assustar. O melhor é ficar do lado dele.
— Porque será que isso não me faz sentir melhor?!
Ele riu outra vez de seu nervosismo.
— A maior parte das pessoas montam do lado esquerdo, mas não há um lado que seja o correto. Fique de frente para a sela – e assim ela fez. – Você deve ajustar as rédeas. Depois segurá-las firme assim – ele mostrou como devia ser feito. – Você deve mantê-las nessa posição durante todo o processo de montaria, para que o cavalo não fuja de você. Diminua a rédea interior para que caso você coloque um pouco de pressão no freio, o cavalo apenas ande em círculos até parar.
— Não me deixe cair – ela implorou. – Meus filhos precisam de mim.
— Você não vai cair. Agora levante o pé que está na frente até o estribo. Isso aqui é o estribo – ele segurou a peça presa a lateral da sela. – Seu peso tem que ficar na ponta de seus pés.
— Deus... – ela murmurou enquanto fazia o que ele sugeria.
— Isso, agora segure a parte da frente da sela. Você pode colocar a outra mão na parte de trás, para dar mais equilíbrio. Mova a perna pela parte traseira do cavalo. Tome cuidado para não chutá-lo com os pés.
— Eu estou com medo.
— Não tenha. Eu estou aqui. Agora, devagar se acomode na sela para que não cause desconforto ao cavalo.
— Seja bonzinho, cavalinho – Rose murmurou apavorada.
— Parece complicado, mas, com prática, você fará isso mais gentilmente e rapidamente. Dica para próxima vez que montar: se o cavalo começar a se mover enquanto você estiver montando, diga “oa” e gentilmente puxe as rédeas.
— É informação demais – ela alertou.
— Tudo bem. Vamos com calma.
Emmett guiou o cavalo para dentro da área cercada, onde o chão era de terra fofa.
— Corrija a postura – alertou. E ela obedeceu. – Isso, muito bem. Confiante, Rose! Ele precisa sentir isso vindo de você.
— Tá – ela respondeu em agonia. Emmett tornou a rir.
Permaneceu conduzindo o cavalo com ela em cima enquanto passava mais instruções, indo de um lado a outro da pequena arena.
Depois do nervosismo inicial, a aula estava se tornando prazerosa. Ele logo percebeu que ela levava jeito e, o mais importante, tinha amor e respeito aos animais. No demais, com dedicação ela pegava o jeito.
Claro que ressaltou a importância de nunca sair pra cavalgar sozinha, para o caso de ela cair. E que se fosse montar um garanhão como Noturno, ou um cavalo arisco ou um que não tenha muito experiência, deveria sempre ter alguma outra pessoa por perto para ajudar.
Depois de um tempo, o sorriso de satisfação estava estampado no rosto dela. Seu cabelo, vez por outra era atingido por uma lufada de vento, e mesmo que quisesse Emmett não conseguia deixar de olhar o movimento suave e o brilho dourado sob a luz do sol poente.
Em determinado momento, Noturno trotou mais rápido. E o grito dela chamando por seu nome causou agitação ao corpo inteiro. Uma vez que o cavalo havia sido controlado, eles se pegaram rindo juntos.
[...]
Um pouco afastado dali, dentro da sede, Noah e Amy tinham acabado de acordar, e não demorou descobrirem que estavam sozinhos no quarto.
Amy foi a primeira a chamar pela mãe, depois Noah. Antes de se desesperar como na outra vez, ele se lembrou das palavras dela e decidiu procurá-la pela casa antes.
Usando apenas uma cuequinha boxer, de Thomas e Seus Amigos, ele saiu da cama, em seguida, ajudou a irmãzinha a descer. Amy apenas de fralda, segurava o paninho numa das mãos. Os dois de pés descalços, cabelos louros bagunçados, e o rosto ainda amassado da soneca.
Levaram muito mais tempo que de costume para chegar à sala. Já que Noah seguia o ritmo lento e cambaleante da irmãzinha enquanto seguiam de mãos dadas.
— Rico? – ele chamou pelo irmão. A voz estava sonolenta, e também desconfiada. – Cadê a mãezinha?
— Ico, mamã? Dê? – Amy tentava fazer a mesma pergunta que o irmão.
Enrico se levantou do tapete e foi logo para junto deles. Ainda tão pequeno, com apenas sete anos, sentia a necessidade de cuidar dos menores. Fez um esforço enorme para pegar Amy no colo.
— Não chore tá bom?! – pediu. – Mamãe está lá fora com o Emmett. Ela foi com ele aprender como andar a acavalo, eu acho.
A voz de Kate soou quando ela chegava à sala. – Ei, piquetuchos, já estão acordados?! – Chegou mais perto de Enrico e falou: – Me dá ela, querido. Eu vou pôr uma roupinha nela e também uns sapatinhos.
— Mamã?
Kate passou a mão no rosto de Amy, como se seu gesto fosse tirar a marca do paninho na bochecha. E deu um beijinho logo depois.
— Mamãe já vem, meu anjo. Logan e Enrico irão chamá-la. Você vem comigo, Noah. A tia vai pôr uma roupinha em você também. E calçar seus pezinhos.
Ela deu alguns passos, certa de que Noah a seguia, porém, quando se virou não viu sinal algum dele.
Lena chegava à sala, com uma tigela de pipocas, quando os avistou saindo pela porta da frente.
— Crianças... – ela tentou pará-los, mas eles já haviam alcançado os degraus e, no minuto seguinte, corriam na frente da casa.
Kate retornou com Amy num vestidinho vermelho, da Turma da Moranguinho, e sapatinhos igualmente vermelhos. Estava com uma chuquinha no alto da cabeça, o resto dos seus fios louros, ainda curto, estavam soltos.
Após olhar de um lado para o outro, questionou:
— Vovó, onde estão as crianças?
— Correram lá pra fora. Nem quiseram esperar para comer a pipoca que acabei de fazer.
Garrett entrou na sala, usando a porta lateral da varanda.
— Pode deixar comigo. Como tudinho, não vai restar um só caroço.
— Eu não acredito – Kate se queixou.
— Não posso comer as pipocas? – o marido pediu.
— Não, não é isso amor. Pode comer. É que o Noah estava só de cueca, e de pés descalço quando foi lá pra fora.
— Eu bem que vi uma coisinha branca correndo pelada – disse Lena, achando graça.
— Para onde eles foram? – Garrett quis saber. Se preparando para pegar um punhado de pipocas na tigela.
— Devem ter ido atrás da Rose. Mas era apenas para Enrico e Logan fazerem isso. Abby e Noah foram sem permissão. Aqueles safadinhos.
— Eles foram se encontrar com Rose e Emmett?! Então está tudo bem.
— Vovó, Noah está sem roupas e de pés no chão. Ele pode pisar em algo que machuque seus pezinhos. E, a senhora sabe que se o sol se puser e ele estiver lá fora pelado, os mosquitos vão querer comê-lo vivo.
— Não seja exagerada, Kate. Você e seu irmão viviam fazendo isso. Aliás, Abby e Logan também já fizeram, e muito. Daqui a pouco eles estão aí. Deixe de besteira.
[...]
A primeira aula de montaria tinha chegado ao fim. Emmett ajudou Rosalie descer do cavalo, e quando ela firmou os pés no chão, seus corpos ficaram perto demais. Os olhares se encontraram. O coração de Emmett parecia querer explodir. Suas mãos formigavam, espalmadas nas laterais da cintura fina dela. O peito de ambos subia e descia com o ritmo da respiração cadenciada. Os lábios, a milímetros de se tocarem.
— Emme... – Rose não pôde terminar a sentença, pois os gritos das crianças, que se aproximavam, acompanhadas por Jujuba e Caramelo, atraíram sua atenção.
Emmett ergueu o olhar, depositando um beijo na testa dela antes de se afastar. Queria muito que ela terminasse o que estava prestes a dizer, mas, no momento, não dava pra ser.
As quatro crianças e os dois cachorros se aproximaram da cerca branca.
— Eu não acredito! – disse Rosalie, com certo divertimento.
— O quê? – Até então Emmett não os tinha visto, apenas ouvido. Quando olhou na mesma direção que ela olhava, avistou Noah só de cueca. E sua cabeça se moveu com divertimento.
— Mãezinha! – Noah gritou.
— Viu quem está só de cueca? – ela falou com Emmett.
— E de pés descalços – ele concluiu.
— Eu não acredito – Rose repetiu indo encontrar com eles do outro lado da cerca. Deixando a porteira aberta ao passar.
Logan subiu na cerca. As outras crianças permaneceram no chão.
— Mamãe, a Amy já acordou – Enrico avisou a ela.
— Ela está chorando, filho?
— Não. A tia Kate ficou com ela lá.
Noah olhou a mãe dos pés a cabeça. E uma pergunta lhe surgiu: – Mãezinha agora você é um cowboy?
— Cowgirl, filho. Cowboy são os garotos – ela brincou, tocando o narizinho dele com a ponta do indicador. – O que está fazendo aqui pelado e de pés no chão? – Ela o pegou no colo. E deslizou a palma da mão nas solas dos pés dele limpando os resíduos de terra. – Um espinho poderia machucar seus pezinhos, sabia?
— Eu não tô pelado, mãezinha. Tô de cueca, ó. Do Thomas e Seus Amigos. O pinto tá guardado.
A mãe plantou um beijo estalado na bochecha direita dele.
— Está guardado o pinto? – brincou.
— Ahã.
— Dá pra acreditar? – ela falou com Emmett, que passava pela porteira, trazendo Noturno pelas rédeas.
— Leve ele de volta pra casa – disse. – Ainda vou demorar um pouco. Preciso levar Noturno de volta pra baia. Depois darei uma olhada em outros dois cavalos em recuperação.
— Tudo bem – ela concordou.
— Tio Emmett, eu posso ir com você? – Logan pediu de cima da cerca branca.
— Pode. Vem cá, que o tio te ajuda a montar.
O menino desceu da cerca com um pulo. Correu até o tio, e ele o pôs em cima do cavalo.
Rosalie começava caminhar, refazendo o caminho de volta a sede, com Noah no colo. Abby e Enrico corriam, um pouco mais a frente, com Jujuba e Caramelo seguindo seus passos.
Noah cutucou o chapéu na cabeça da mãe, depois acariciou seu rosto com a mão pequena. – Mãezinha linda, você agora é um cowboy?
— Talvez uma cowgirl – ela corrigiu outra vez, e então uma risada gostosa veio à tona.
Por mais que quisesse, Emmett não conseguia deixar de observá-la. Nem de notar o quanto parecia feliz. O quanto estar no Recanto dos Ursos lhe fazia bem.
Muito rápido, a atenção de Noah deixou de serem os trajes da mãe, e passou a ser sua cuequinha, do Thomas e Seus Amigos.
— Essa cuequinha é muito bonita – ele puxava o tecido para ver melhor a estampa.
— É? E quem deu a cuequinha bonita pra você? – a mãe pediu, se divertindo com ele.
Um dedinho indicador foi encostado no peito dela. – Você! Minha mãezinha.
— São dois, são quatro, são seis, são oito... – Rosalie começou, cantarolando.
Noah abriu um sorrio de pequenas covinhas salpicando suas bochechas, e prosseguiu com a canção:
—... Puxam cargas, empurram vagões. Vermelha, verde, marrom e azul. É uma equipe de campeões. Todos têm uma função. Em Tidmouth Sheds, longe ou não. Em ladeiras ou abismos...
—... Thomas e seus amigos – Enrico e Abby cantarolaram em alto e bom tom. Rindo a frente deles. Noah fez cara emburrada, por terem cantarolado uma de suas partes favoritas, mas logo estava rindo e cantarolando outra vez.
Emmett ficou olhando eles se distanciarem, somente então se virou na direção contraria. E junto com o sobrinho, Logan, foi deixar Noturno na baia dele, nos estábulos.
Ainda podia ouvir a voz de Rosalie e das três crianças cantarolando juntas a música tema de abertura do desenho animado.
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