Um Lugar Para Ficar
18 Capítulo 18 – Pedido de Desculpas
Notas iniciais
Rosalie ficou observando Lena deixar o quarto, numa caminhada meio lenta. Talvez ainda não estivesse sentindo-se totalmente bem. Somente um segundo depois, deixou apressada o quarto dela. Seguiu ela de perto por todo o corredor, passando por várias portas fechadas, até chegar à sala. Ainda não havia se acostumado com tantos cômodos, por vezes chegava ter medo de se perder.
Avistou Kate se aproximando da porta da frente com as roupas limpas para o irmão entre os braços. Lena se juntou a eles, fazendo perguntas a respeito da égua que o neto tinha ido prestar atendimento às pressas.
Por detrás das costas de Lena ouviu a voz de Emmett dando as explicações necessárias.
— Foi um prolapso uterino. O que significa que uma parte do útero acabou virando do avesso, e ficou pra fora do corpo. É raro, mas pode acontecer. Por sorte cheguei a tempo. E não houve rupturas nem necrosadas. Limpei o útero, e depois o manipulei um pouco, para tentar reduzi-lo manualmente. Tivemos sorte, ele se contraiu sozinho. Não houve necessidade de cirurgia. Mesmo assim ela vai precisar de muito repouso por alguns dias até recuperar as forças, e vai precisar também de alguns antibióticos e fluidos. Vou precisar fazer um raio X nela, mas isso apenas amanhã. Se não houver complicações, Luar ficará novinha em folha em pouco tempo.
— Mas não a perigo de voltar a sair? – a irmã perguntou, se mostrando um tanto gasturenta.
— Certamente não deve acontecer. Como eu mencionei, ele se contraiu normalmente.
A avó moveu a cabeça, mostrando-se orgulhosa do neto.
E Rosalie, movida pelo desejo irrefreável de vê-lo, deu alguns passos à frente. Avistou sua figura grande e viril, sob a varanda, com roupas sujas, e, diria também, pegajosas. Exatamente como o cunhado Garrett mencionara estar.
Ele notou sua presença no mesmo instante e seus olhos adquiriram o brilho já comum sempre que estava diante dela.
Rose o presenteou com um sorriso amigável. Ele deu de ombros, com um ar divertido. Mais uma vez ficava claro pra ela que ajudar ao próximo o fazia bem.
— Vamos – Rose ouviu Kate falar e, em seguida, Emmett desviou o olhar de seu rosto. – Vou deixar as coisas no banheiro pra você – a irmã avisou.
Emmett sorriu pra irmã, agradecido. Mas a avó imediatamente entrou em ação, pondo a mão na frente do corpo da neta.
— Porque não deixa a Rose fazer isso? – Rosalie ficou nitidamente sem graça. Por Deus, Lena ainda a faria ter um treco com suas indiretas, não tão indiretas assim. Com toda certeza a faria.
— Vovó – disse Kate. – Não acho que seja necessário... Rose deve estar muito cansada. Chegou agora a pouco do trabalho. E tem as crianças...
De canto de olho, Emmett prestava atenção em Rosalie. Sua figura, iluminada pela luz branca da sala, se mostrava constrangida.
— Vovó, a Kate tem razão... – Emmett aceitou, muito embora desejasse o contrario.
— Tá certo. Tá certo – disse Lena. – Então vai logo tomar esse banho. Eu vou aproveitar pra ver meus bisnetinhos. Estou mesmo cheia de saudades. – Lena se virou e ao passar por Rosalie, tocou de leve em seu braço.
— Kate, se você não se importar, eu posso levar as coisas dele no banheiro dos fundos – de repente as palavras deixaram sua boca. E lá estava ela, aceitando uma tarefa que podia ser bem arriscada.
Lena estava de costas para ela, quando um sorriso gigantesco chegou a seu rosto.
Surpresa com a atitude de Rosalie, Kate olhou do irmão pra ela. E novamente de Rosalie para o irmão.
— Na verdade, não me incomodo nenhum pouco. – Kate deu um passo à frente no momento que Rose dava outro em sua direção. Entregou as coisas nas mãos dela, passando para dentro da casa em seguida.
— Obrigado, Kate – disse Emmett. Um olho nas costas da irmã, outro em Rosalie.
A irmã fez um breve aceno com a mão, sem parar para olhá-lo. – Não a de quê – disse, apenas.
Mesmo desconfortável com o que estava prestes a fazer, Rosalie decidiu que tinha de ser feito, por ele. Afinal, não era nada comparável ao que ele vinha fazendo por ela e seus filhos.
— Você não precisa fazer isso, Rose – ele ressaltou, notando o desconforto dela.
— Tudo bem. Você tem apenas de me dizer onde fica o banheiro para onde devo levar suas coisas. Não deve ser tão longe assim.
Os lábios dele se curvaram em um pequeno sorriso. – Venha comigo – disse, mantendo-se distante para não sujá-la com a gosma que manchava parte de suas roupas.
Eles caminharam em silêncio, por toda a lateral direita da casa, até chegar à parte dos fundos onde havia um banheiro, tão bem equipado quanto os do interior da casa.
— É nessa porta aqui – a voz dele soou bem atrás de suas costas. – Você pode entrar e deixar no lugar onde achar melhor.
Rosalie fez exatamente como o sugerido. Entrou e deixou as coisas sobre uma bancada de mármore limpa e seca. Ao sair, o encontrou na porta. Seus olhares se cruzaram, tornando-se impossível desvia-los pelos próximos cinco segundos.
Emmett foi o primeiro a tomar uma atitude, sabendo que estava com as roupas sujas, e da promessa que fizera, de não beijá-la a menos que pedisse que a beijasse, passou a mão na cabeça com um movimento impaciente. Era dolorido manter as mãos longe dela.
— Er... Eu vou... – começou, gesticulando com a mão o interior do banheiro. – Preciso tomar banho.
Rosalie olhou para os próprios pés, calçados em sandálias rasteirinhas – presente da irmã dele – passando uma mecha dourada de seus cabelos para detrás da orelha.
— Obrigado, Rose.
Ela voltou olhar diretamente no rosto dele. Abrindo um pequeno sorriso.
— Não foi nada – disse.
Emmett entrou no banheiro e, antes de fechar a porta, tornou a falar:
— Apreciei imenso o que acabou de fazer por mim. – Ela moveu a cabeça concordando, e se pôs a caminhar, enquanto ele ainda fechava a porta.
Da mesma forma como não deixava os pensamentos dele, ele também não deixava os seus.
Outra vez dentro de casa, Rosalie encontrou Noah sentado no colo de Lena. Enrico estava bem ao lado, juntinho a eles. A avó de Emmett acarinhava os dois como se fossem verdadeiramente seus bisnetos. Demonstrava em cada gesto, e atitude, o quanto eram bem vindos e adorados. Seus pequenos ficavam a ponto de derreter, em mãos tão carinhosas.
No meio da sala, ajoelhada diante da mesinha de centro, estava Abby. Mais uma vez brincando de hora do chá com sua coleção de pôneis em cores variadas. Dessa vez, porém, algumas bonecas também faziam parte da hora do chá.
Garrett e Kate não estavam mais por perto. Logan assistia a um desenho animado na tevê.
Deu alguns passos à frente, chegando mais perto de onde Lena estava com os meninos.
— Ei, príncipes da mamãe – disse, sorrindo para eles. – Vamos tomar um banho. Vocês precisam tirar essa roupa suada. Vamos pôr uma roupa limpinha, bem cheirosinha.
Enrico se pôs de pé no mesmo instante. E seus bracinhos finos se lançaram em torno no corpo da mãe, na altura dos quadris, enquanto seus olhos buscavam pelos dela.
— Mãezinha – começou Noah –, a bisvovó disse que vai fazer um bolo de chocolate pra gente comer depois do jantar. – De cobertura e tudo.
Lena abriu um sorriso de orelha a orelha. Era a primeira vez que os via se referindo a ela dessa maneira. Seu coração festejou. E o desejo ver Rosalie namorando seu neto, quase a fez dançar uma valsa.
Apesar de ela se mostrar confortável com isso, a mãe do menino pensou não ser certo. Afinal, eram apenas visitas, não eram? Porém, toda família McCarty, e os funcionários da fazenda Recanto dos Ursos, pareciam pensar diferente.
— Bebês, é somente dona Lena – ela corrigiu as crianças.
— Não! – Noah negou. – Ela falou pro Rico e pra mim, mãezinha, que é bisvovó.
— Igual é da Abby e do Logan – Enrico concordou com o irmão.
Rosalie, intuitivamente, olhou para as outras duas crianças na sala. Logan estava com os pés pendurados no encosto do sofá. E Abby servia chá imaginário a sua família de brinquedos.
— Não vai impedi-los de me tratar dessa maneira, não é mesmo?!
— Oh, dona Lena, eu jamais faria algo assim com a senhora. Se for do desejo de todos, eu certamente ficarei imensamente feliz. Seria como se minha avó estivesse comigo outra vez.
— E assim será, minha querida. Minha neta.
O conforto e o calor contidos em suas palavras trouxeram a Rosalie grande acalanto. Era imensamente gratificante, e confortável também, saber que não estava sozinha. Que tinha alguém em quem confiar. Pessoas com quem pudesse contar.
Noah, que já estava sentado ao colo de Lena, passou os bracinhos em torno do corpo dela em um abraço gostoso.
— Bisvovozinha – murmurou o menino.
— Você também, Enrico – disse Lena. E estendeu um braço a ele, convidando-o.
Os olhos de Rosalie se encheram de lágrimas diante da cena de afeto compartilhada por eles. Jamais pensou pudesse encontrar pessoas tão boas quanto as que haviam encontrado na fazenda Recanto dos Ursos.
— Obrigada, dona Lena.
— Não faça isso, minha querida. – Rosalie moveu a cabeça concordando com ela. – Carinho não se agradece. Carinho e afeto vêm do coração.
Rosalie estendeu os braços, mexendo as mãos diante dos filhos, chamando-os para se juntarem a ela.
— Venham! Venham os dois com a mamãe, pra tomar banho. Dá um beijinho na bisvovó, e venham com a mamãe.
Dois rostinhos felizes se inclinaram, com um biquinho nos lábios, colando de cada lado do rosto da avó de Emmett. Em seguida se puseram de pé, e deram as mãos à mãe.
— Tia, Rose – Abby chamou sua atenção. – Bisvovó. Eu pus chá para vocês duas também.
— A bisvovó aceita o dela – disse Lena, com satisfação. – Mas o da tia Rose vai ter que ficar pra depois. Ela vai dar banho nos meninos agora, anjinho da bisa.
— Tá bom, bisvovó. – Abby ficou de pé com uma xicarazinha lilás de plástico, com chá imaginário dentro dela e entregou na mão da bisavó. Olhou para tia, e completou. – Eu vou guardar o seu tá bom, titia?
— Está bem, meu anjo. Muito obrigada.
[...]
Os dois meninos correram pela casa disputando corrida, parando aos protestos da mãe.
Rose revezou-se, esfregando um e outro, enquanto eles brincavam com a água morna que caía do chuveiro. Depois os enrolou, em toalhas diferentes, e os levou ao quarto. Os secou cuidadosamente. E virou-se a fim de pegar o perfume de Amy para usar neles, quando, então, ouviu Enrico chamar por ela, com desconforto.
— Mamãe – ele esfregava as mãos nas coxas. – Essa cueca está apertando meu pinto.
A mãe olhou com um pouco mais de atenção, chegando à conclusão de que ele tinha pegado a cueca do irmão menor por engano.
— Não, filho. – Ela sorriu. – Essa cueca não é sua. E a do Noah, por isso está te apertando assim. Tira! Dá aqui pra mamãe – disse, estendendo uma mão vazia, e na outra a cueca que pertencia a ele.
Enrico quis ir até ela, mas não estava conseguindo se mover direito.
— Mamãe – pediu, agoniado.
— Tira filho!
— Tira Rico! Vai rasgar minha cuequinha com seu bumbum grande. Eu não vou mais querer uma cueca rasgada. Não vou querer – ressaltou. – De jeito nenhum. Mãezinha você trazeu outra cueca pra mim?
Rosalie gargalhou. – Se diz trouxe, filho, e não trazeu.
Enrico retirou a cueca apertada, pegando em seguida a que estava na mão da mãe.
— Ficou uma marca, mamãe – comentou, esfregando o local onde o elástico o tinha apertado.
— Desculpe amor. Daqui a pouco some. É superficial. Agora veste a sua cuequinha. Essa não vai te apertar.
— Quem manda ter um bumbum tão grande – Noah brincou, gargalhando.
A mãe não resistiu em puxá-lo pra cima da cama, dando dois falsos tapinhas em seu bumbum.
— Eu tô pelado, mãezinha – ele gritou, se contorcendo, enquanto ria. – Eu tô muito pelado.
Rose se curvou, segurando-o enquanto mordia seu bumbum de brincadeira.
— Bebê gostoso da mamãe! – murmurou, cerrando os dentes, contendo a vontade de mordê-lo com força. – De quem é esse bambuzinho fofo?
— É o bumbum do Noah. Para mãezinha. Para de beijar o meu bumbum. Eu vou soltar um pum bem fedido.
Enrico riu do irmão. A mãe o puxou pro meio da brincadeira, e começou lhe fazer cocegas na barriga.
Os dois meninos gargalhavam e se contorceram sob suas mãos ágeis e cuidadosas.
— Dois peladões da mamãe.
A caçula acabou acordando com a algazarra dos três. Sentou na cama, sorrindo. Embora o rostinho ainda estivesse amarotado da soneca que tirou, e não soubesse do que eles riam tanto.
— Mamã! – gritou.
Rosalie olhou para ela, sem deixar de fazer cocegas nos meninos.
— Oi, amor.
Amy engatinhou para perto deles, e Rosalie a pôs no meio da brincadeira. Os quatro riam, quando foram interrompidos por alguém batendo à porta.
— Oi – a voz dela soou risonha –, pode entrar.
A porta foi aberta cuidadosamente, e a figura de Emmett apareceu sob o umbral. Ele ficou olhando-os com um sorriso nos lábios, as covinhas brincando em seu rosto. E uma estranha sensação de ter vivido aquela mesma cena um dia, perpassou seu coração.
Rosalie parou de fazer cocegas nas crianças, olhando para ele. Seus filhos ainda rindo sob o efeito das cocegas que receberam.
— Sua mãezinha sem-vergonha – Noah disparou entre risos.
— Oi – ela tornou dizer a Emmett.
Ele usava as roupas que ela havia deixado para ele no banheiro dos fundos algum tempo atrás: calça jeans e camisa de malha branca. Não podia vê-la agora, mas, tinha certeza de que usava a cueca boxer preta que estava junto às outras peças de roupa.
Ele riu de olho na cena que eles protagonizavam juntos. – O jantar já vai ser servido. Kate pediu para avisá-los. Vamos?
— Ai, caramba, desculpe. Acabei me distraindo com os meninos. Ainda nem tomei banho.
Emmett meneou a cabeça, achando graça. – Sem problema. Aviso pra esperarem um instante até você ficar pronta.
Rose se pôs de pé. – Desculpa mesmo – pediu. – Nossa, que vergonha.
— Está tudo bem – ele garantiu. – Te vejo em alguns minutos?
— Com certeza. Estou indo agora mesmo tomar meu banho.
— Não precisa ter pressa – disse, voltando a encostar a porta.
Rosalie olhou para os meninos outra vez.
— Já chega bebês. Os dois de pé pra mamãe ajudar vocês se vestirem.
— Mãezinha, ficou grande? – Noah quis saber a respeito de sua cuequinha.
— Não, filho. Está do mesmo jeito. Anda, vem pra mãezinha te vestir.
Depois dos dois já vestidos, e de cabelos penteados, ela pegou a roupa que vestiria depois do banho, ainda no banheiro. E também pegou Amy no colo.
— A mamãe vai tomar banho com a Amy. Vocês dois já podem ir lá pra sala se quiser.
— Mãezinha – Noah gritou, chamando atenção da mãe. – Sua cueca – disse com a calcinha dela em uma das mãozinhas. – Você ia se esquecendo de levar sua cueca, mãezinha.
Enrico e Rose se olharam, em seguida, caíram na gargahada.
— Dá aqui pra mamãe. – Noah pôs a lingerie na mão dela. E ela começou explicar. – Não é cueca, filho. É calcinha.
O menino olhou pra ela, e repetiu:
— Calcinha?!
— É amor. Meninas usam calcinhas.
— Ah, tá bom. Calcinha – ele gargalhou pensando naquilo.
Rosalie se curvou, com a caçula encachada no quadril, plantando um beijo na cabeça loura de Noah.
— A gente já pode ir lá ficar com o Emmett, mamãe? – Enrico pediu.
— Podem. Podem, sim. Daqui a pouco a mamãe chega lá.
— E a Amy? – Noah quis saber.
— Sua irmãzinha também. Onde a mamãe for ela vai. E os dois também.
— Tá bom, então.
— Tá? – ela pediu, achando graça.
— Uhumm – Noah respondeu.
Os quatro deixaram o quarto juntos. Só que, enquanto ela seguia por um lado do corredor enorme, os meninos seguiram por outro desaparecendo de vistas logo em seguida.
Ouviu risadinhas, e foi inevitável deixar de sentir a satisfação que vinha com o som de seus risos; puro e verdadeiro, como sempre deveriam ter sido.
[...]
Quando retornou do banho, com Amy no braço – usando uma roupinha de malha confortável – ouviu, antes mesmo de chegar à sala, risos e gargalhadas, acompanhadas de gritinhos, latidos e também falsos grunhidos.
Ao pôr os pés na sala, soube o porquê de todo aquele alvoroço: Emmett e o cunhado Garrett perseguiam as crianças fingindo-se de monstros, melhor dizendo, de ursos.
Nas costas de Emmett estava Logan, gargalhando, completamente torto, tentando escapar da mão que o mantinha preso ali. E no braço estava Noah, se contorcendo tanto quanto uma minhoca enlouquecida, em meio a risos e gargalhadas.
Abby e Enrico corriam ao redor da mesinha de centro, gritando. Ora rindo, também. Garrett os perseguia, sem dar trégua.
Amy se agitou no colo da mãe, desejando poder fazer parte de tudo aquilo. Mas a mãe não a deixou ir. Tinha medo que maiores a derrubasse, com toda aquela agitação.
Jujuba e Caramelo pularam em cima de Emmett, como que quisessem ajudar aos meninos se libertarem.
— Mãezinha! – Noah gritou, assim que avistou a mãe na sala. – Socorro! O urso pegou a gente. Ele vai devorar todo mundo.
— Tia, vem nos ajudar! – esse foi Logan, também afoito. – Vem logo, tia Rose. Rápido!
Rosalie sorriu, mas não se moveu do lugar. Estava encantada com a cena diante de seus olhos, que mal conseguia piscar.
Correndo em torno da mesinha de centro, Enrico gritou:
— Eles são selvagens, mamãe.
A vozinha de Abby veio logo depois da sua.
— Só que o meu papai é um urso que faz regime.
De repente, estavam todos gargalhando de sua declaração.
Garrett parou se fazendo de indignado. Isso fez Abby se distrair. Obviamente, ele se aproveitou disso para pegá-la jogando sobre o ombro o corpo pequeno.
Nesse momento, Caramelo pulou muito perto de Enrico. O menino teve medo e acabou indo para o lado errado. Garrett também o pegou.
Seus dois garotinhos estavam agora erguidos do chão, gargalhando. Os cachorros latiam. E os dois adultos fingiam serem ursos ferozes.
Em seus lábios havia um sorriso, embora nos olhos houvesse lágrimas.
Kate parou ao lado dela, com sorrisinho no rosto.
— Vamos jantar? – disse.
Rosalie olhou para ela. Kate afagou seu ombro gentilmente.
— Vamos – concordou. – Vamos, sim.
— Pessoal! – Kate chamou, elevando o tom de voz, para que pudesse ser ouvida em meio a toda aquela algazarra. – É hora do jantar. A vovó já pôs a mesa. – Todos os rostos se moveram em sua direção. – Jantar – ela repetiu. – Vocês não estão com fome, não?
— Eu estou faminto – Emmett anunciou. – Faminto feito um urso. – E grunhiu com vontade.
— Eu também – disse Noah. – Porque eu sou o senhor faminto. Que a mãezinha disse no outro dia. – A mãe gargalhou, lembrando-se de suas palavras.
— Oah – Amy chamou, abrindo e fechando a mãozinha.
Emmett pôs os dois que segurava, no chão. Noah correu para perto da mãe, com os bracinhos erguidos. Tentando alcançar a irmãzinha no colo. Rosalie se curvou um pouco, aproximando os dois. Noah deu um beijo na bochechinha de Amy, e ela sorriu pra ele, se mostrando animada.
Quando retomou a postura correta, Emmett estava bem ao seu lado, estendendo as mãos para pegar Amy no colo. A criança praticamente se jogou na direção dos braços dele. E ele voltou fingir ser um urso apenas para diverti-la, assim como havia feito com os maiores. E funcionou bem. Amy estava gargalhando nos braços dele. Logo suas mãozinhas estavam agarradas aos fios curtos dos cabelos de Emmett, enquanto lhe dava um beijo babado no olho.
Rosalie não conseguia deixar de olhar, comovida. Porque toda sua vida antes havia sido o contrario daquilo. Os momentos que antecediam as refeições eram sempre precedidos por estresse e medo.
Emmett notou sua fragilidade emocional no mesmo instante. E lhe piscou um olho, mostrando um sorriso de covinhas que, sem saber, causava fascinação.
E, então, a voz de Garrett chamou atenção no outro lado da sala.
— Amor, eu estou morrendo de fome.
— Então vem pra cozinha, senhor estou morrendo de fome. Já fazem trinta minutos que estou chamando, e nada de vocês virem.
Rose olhou a tempo de vê-lo por Enrico no chão. E Abby logo depois. Viu Enrico com o rostinho iluminado, em felicidade genuína, estender uma mão pequena para segurar na mão da sobrinha de Emmett. Jujuba deu um empurrão nela sem querer, e Enrico a impediu que caísse.
Do outro lado da sala, viu Garrett segurar na mão de Kate e beijar brevemente seus lábios antes de seguirem pra cozinha.
Noah e Logan apostaram corrida até lá.
Enrico e Abby estavam bem atrás de Garrett e Kate. Por último, Rosalie e Emmett – com Amy no colo – lado a lado.
[...]
No dia seguinte, Emmett a levou ao trabalho. E as crianças à escola. Às cinco da tarde foi buscá-la como vinha fazendo todos os dias.
Estavam de volta à fazenda fazia pouco tempo. Os dois estavam sentados na varanda dos fundos, conversando, vendo Lena tricotar.
As crianças brincavam no parquinho feito pela família, naquela parte do terreno. Amy brincava no tapetinho, aos pés da mãe. Às vezes atirando os brinquedos longe, para buscá-los depois.
Garrett ainda não tinha retornado do trabalho. E Kate corrigia os trabalhos de seus pequenos alunos na mesa da sala de jantar.
— Irei te ensinar montaria nesse fim de semana – dizia Emmett a Rosalie. – Ela fez uma careta, embora, no fundo fosse divertido pensar nisso. Montar num cavalo, com Emmett lhe dando instruções de montaria. Não fazia ideia de como seria isso.
Lena, mesmo tricotando, estava atenta ao que falavam. Não querendo perder um só sinal que indicasse que pudessem estar juntos. De canto de olho, viu o neto estender a mão para tocar na de Rosalie, e ela, sem graça, afastar a sua devagar.
Emmett olhou da mão abandonada para o rosto dela, evitando pensar na rejeição.
— Você não vai escapar. Vai ter aulas de montaria querendo ou não. Não pode morar em uma fazenda e não saber montar a cavalo. É contra as regras – ameaçou.
— Aposto que você acabou de inventar isso – ela disse.
— É... Bem... é verdade.
Rose meneou a cabeça com certo divertimento.
— Não querendo ser estraga prazeres, mas... você sabe... minha permanência aqui na fazenda é temporária – ela falava, segundos antes de Kate aparecer ao lado de uma jovem mulher, que trazia um garotinho pela mão.
— Não pode ir... – ele murmurou, preocupado. – Mas a atenção de Rose estava agora nos novos visitantes.
Lena se compadeceu da angustia por trás do olhar do neto ao murmurar aquelas poucas palavras. Sabia que Emmett nunca mais seria o mesmo depois da partida de Rose com as crianças. Precisava fazer algo para impedir isso de acontecer.
— Oi, dona Lena – disse a recém-chegada. – Oi, Emmett.
Lena a olhou com satisfação. – Oi, Bella. Venha sentar-se aqui conosco.
— Obrigada, dona Lena. Não vou tomar muito do tempo de vocês.
— Bella – a voz de Emmett se juntou a conversa. – Já conhece a Rose?
— Ainda não tinha tido a chance.
Rosalie ficou de pé, estendendo a mão para cumprimentá-la. E Emmett começou explicar.
— Bella é esposa de meu amigo, Edward, dos tempos de escola. Na verdade, foi o único amigo que tive por anos.
— É ainda mais bonita do que me falaram – disse Bella a Rosalie.
Rosalie olhou da visitante para Emmett, um pouco constrangida. Era estranho saber que as pessoas a mencionavam em suas conversas, quando sequer a conheciam de verdade.
Isabella passou o olho rapidamente nas crianças se divertindo no parquinho. Os cachorros, Jujuba e Caramelo, estavam entres elas, correndo e saltando. Risos e latidos se misturavam ao som da melodia dos pássaros, no entardecer. Depois olhou para o próprio filho, de cabeça baixa, se mostrando envergonhado.
— Liam veio se desculpar com a Abby – comunicou. E o menino se encolheu, sabendo de seu erro. – Como hoje ele não foi à escola, porque foi suspenso, o trouxe até aqui para se redimir.
As feições de Emmett tornaram-se séria. Quase rude. Lembrar a violência cometida contra sua sobrinha de cinco anos, na escola, esquentava- lhe o sangue.
— Abby! – Kate chamou pela filha, que descia do escorrega logo atrás de Noah. O rabo de cavalo que Rosalie havia feito nos cabelos dela, depois mencionar estar com calor, estava agora bem bagunçado. E as bochechas coradas, cheias de veias sob a pele fina e clara.
A garotinha correu, vindo parar de frente a mãe, ofegante. Olhou para Liam, magoada, depois para o tio. Emmett ofereceu a mão a ela, e Abby colocou sua mão pequenina na dele.
Isabella deu continuidade ao que tinha vindo fazer na fazenda com o filho.
— O que você tem para dizer a Abby, Liam?
— Desculpe – Liam pediu, com a voz quase sumindo.
— Eu não ouvi Liam, e aposto que a Abby também não. – Bella advertiu.
— Desculpe – o garoto repetiu, elevando um pouco mais o tom de voz.
— Pelo que você está se desculpando, Liam? – a mãe recriminou. – Peça desculpas direito.
— Desculpe Abby, por ter batido em você e puxado seu cabelo no outro dia, na escola.
— Tá bom. Eu desculpo você – disse Abby.
— Entregue a ela o que você trouxe – Isabella voltou a falar. O menino estendeu as mãos com um embrulho de papel de presente.
— Obrigada, Liam – Abby agradeceu, olhando o papel de presente cor-de-rosa que envolvia o que quer que fosse lá dentro. Antes de abrir o presente, olhou para cada membro da família a estar na varanda no momento.
Era um quebra-cabeça da Princesinha Sofia, contendo 100 peças.
— Obrigada, Liam – ela voltou agradecer. – Obrigada, Bella.
— De nada, querida. Liam está muito arrependido do que te fez. Não está, Liam?
— Sim, mamãe – Liam respondeu, como se falar fosse difícil demais.
Emmett entrou na conversa. Sua voz soando rude demais.
— A próxima vez que machucar minha sobrinha, o assunto será entre nós dois, rapazinho.
Liam recuou um passo, escondendo-se atrás da mãe.
— Ele é apenas uma criança, Emmett – Lena ressaltou.
— Pelo amor de Deus, vovó. Não irei bater no garoto. A senhora me conhece o bastante para saber que não sou esse tipo de monstro. Será apenas uma conversa. Bem séria, por sinal – concluiu olhando no rosto do menino.
— Ele já entendeu que o que fez foi errado, Emmett – Kate alertou. – Os próprios pais e a escola já se encarregaram disso.
— É bom mesmo que tenha entendido, porque não vou tolerar, de forma alguma, minha sobrinha voltar da escola machucada outra vez. Não quando for alguém o culpado disso.
Abby olhou pra cima, buscando o olhar do tio. Rosalie presenciou o momento que ele sorriu pra sobrinha, mostrando as covinhas que salpicavam suas bochechas. – Pode ir brincar gatinha – disse ao piscar um olho pra ela.
A garotinha olhou para onde estavam os meninos, e gritou por um em particular.
— Rico!
O sorriso que chegou aos lábios de Rosalie foi radiante. E seu filho mais velho virou o rosto antes de correr para perto da varanda onde eles estavam. Sentaram-se lado a lado, no chão, com as perninhas penduradas sobre os degraus. E, juntos, começaram retirar as peças do quebra-cabeça de dentro da caixa.
Emmett se viu olhando das duas crianças para Rosalie.
— Com ele eu sei que minha sobrinha estará sempre em boa companhia – confidenciou, em um sussurro a mãe do menino. Ele não soube, mas o que ela sentiu foi vontade de abraçá-lo. Apertado e pelo tempo que pudesse.
— Estou muito envergonhada de como Liam agiu na escola ontem. Quero me desculpar também – declarou Isabella.
— Não é necessário fazer isso, Bella – Kate a livrou do constrangimento. Embora tivesse ficado muito chateada por Liam ter machucado sua filha, não levaria aquilo adiante. Nada disso fazia bem a família. – Eu sei que não foi culpa sua. – Lançou um olhar a Emmett. – E meu irmão, também.
— Em momento algum cheguei a pensar que a culpa fosse dela – ele se defendeu. E olhou para Isabella. – Conheço você e Edward há muito tempo. Sei bem que são bons pais. Só que às vezes as coisas escapam do controle. Por isso a necessidade de se corrigir enquanto é cedo.
Isabella olhou dele para o filho, realmente envergonhada com toda aquela situação.
— Isso não vai voltar acontecer – assegurou. – Liam já aprendeu a lição.
O menino encarava uma listra no piso da varanda.
— Agora que Liam já se desculpou, eu acho melhor irmos andando.
— É cedo, Bella. Deixe de coisa. Sente-se aqui conosco um pouco. Deixe Liam brincar com as crianças. Você vai ver que daqui a pouco eles já terão esquecido o ocorrido.
O menino puxou a barra da blusa da mãe. – Quero ir embora... – sussurrou.
Isabella olhou de Lena para o menino e novamente para Lena.
— Obrigada, dona Lena. Eu realmente preciso ir. Daqui a pouco Edward chega do trabalho e, se o conheço bem, esfomeado. Ainda tenho que preparar o jantar.
— Ah. Mas se é assim, então, tudo bem. Apenas não e acanhe com o que aconteceu envolvendo as crianças. Você e sua família continuam sendo sempre bem-vindos a Recanto dos Ursos.
— Obrigada! Vamos, Liam. Se despeça do pessoal.
— Tchau... – o menino se despediu, sem muito animo.
No parquinho, Logan estava sentado no alto do escorrega, olhando na direção da varanda, com a cara amarrada. Noah corria com os dois cachorros, alheio ao que acontecia.
Enrico e Abby trabalhavam juntos montando o quebra-cabeça.
— Foi um prazer conhecê-la, Rose.
— Igualmente, Bella – respondeu amistosa.
— Passe na minha casa qualquer dia desses para tomarmos um café.
— Obrigada. Eu irei, sim.
Quando Isabella se virou, pegando na mão do menino para irem embora, Kate se ofereceu para acompanhá-los até o carro.
— Emmett – disse Lena. – Você não precisava levar tão a sério o que aconteceu com as crianças na escola. Crianças são assim mesmo, elas se desentendem. Depois volta tudo ao normal.
— Vovó, Liam tem oito anos, e Abby cinco. Ele não é apenas maior, como tem muito mais força que ela. Temos cinco crianças aqui na fazenda e nenhuma delas se desentendeu. Muito menos se agrediu. Não só estou protegendo minha sobrinha como, também, estou protegendo a Amy. E a garota que um dia será sua namorada, quem sabe esposa. Essa atitude precisa ser corrigida agora, enquanto ainda é cedo.
— Tudo bem. Vamos deixar isso pra lá. Já foi resolvido. O menino já se desculpou. Os pais já o puniram. A escola também. Todos eles estão envergonhados.
— A senhora sabe bem, vovó.
— Sim, eu sei. E por isso mesmo quero que pare de pensar nisso.
Amy se locomoveu a passinhos vacilantes até onde estavam Enrico e Abby montando o quebra-cabeça. Abaixou-se pegando duas peças, caindo de bumbum no chão enquanto tentava ficar de pé outra vez. As duas crianças maiores deram risadas. E a pequena fez cara de choro. O irmão a ajudou ficar de pé novamente, e lhe deu um beijinho no rosto.
Amy voltou correndo, parecendo cair a qualquer momento, para perto da mãe. Entregando uma peça do quebra-cabeça a ela e outra a Emmett. A mãe riu. Em seguida estendeu o braço oferecendo a peça de volta aos outros dois. Enrico deu uma corridinha até lá para pegá-la. Emmett também entregou a que estava em sua mão. Amy ficou olhando as peças serem todas devolvidas. Quando o irmão se afastou, começou chorar.
Emmett foi mais rápido que a mãe na hora de consolá-la. Colocou Amy sentada em uma das pernas, chacoalhando fingindo ser um cavalinho. O choro foi logo substituído pelo riso fácil e a expressão feliz.
Toda vez que ele parava, Amy olhava pra ele, como que querendo saber o porquê de ter parado. Emmett tornava chacoalhar a perna e ela logo voltava gargalhar.
Lena ficou rindo, outra vez olhando-os de canto de olho, enquanto voltava a tricotar.
Emmett virou o rosto na direção de Rosalie e a encontrou com um sorriso nos lábios.
Noah veio correndo com os dois cachorros logo atrás, seguindo seus passos. Os cachorros param no primeiro degrau da varanda sentando-se ali, com a língua pra fora, ofegantes, esperando o companheiro de farra voltar.
Sem rodeios o menino se sentou no colo da mãe. E ela passou a mão em seus cabelos suados, passando pelo pescoço e costas, até parar no colo.
Noah segurou na mão dela, brincando, movendo de um lado para o outro, até esbarrar na de Emmett sem intenção. Ambos olharam suas mãos ao mesmo tempo, próximas demais. E, então, os olhares se encontram. Antes que ela pudesse afastar a mão, ele segurou a bebê com apenas um braço, deixando a mão livre para que pudesse encaixar seus dedos aos dela.
Rosalie estremeceu ao toque da mão dele na sua. Emmett apertou gentilmente seus dedos aos dela.
Noah percebeu, e o sorriso inocente chegou aos seus lábios, enquanto olhava de um pro outro. Emmett piscou um olho pra ele. E, muito gentilmente, a mãe da criança retribuiu seu toque. No mesmo instante, Emmett olhou – para ter certeza de que era real – e encontrou os dedos finos dela se encaixando aos seus com aceitação.
Ela tremia, pode sentir isso vindo dela. De uma maneira muito gentil, moveu a mão que segurava a dela até a altura dos lábios beijando nos nós de seus dedos devagar, se demorando um pouco mais onde havia uma cicatriz.
No colo dele, a caçulinha olhava a cena, sem piscar, embora não entendesse o que acontecia.
De sua cadeira de balanço, Lena também observava. Tentando não interromper o momento. Sabia o quanto aquele primeiro passo era importante.
Quando se deram conta, Amy dava um beijo babado em suas mãos unidas. E o irmão, Noah, se pôs a gargalhar.
Os dois adultos não moveram suas mãos. Não tinha como refutar a confiabilidade crescendo, em uma linha invisível, entre eles e as crianças.
Fale com o autor