Um Lugar Para Ficar
15 Capítulo 15 – Primeiro dia de Trabalho
Enrico gargalhava com os pulos que Emmett dava, propositalmente, a cada degrau que pisava para chegar à varanda. Mas foi o som de choro a sugar toda atenção de Rosalie naquele momento. O choro vinha de dentro da casa, e ela conhecia bem pra saber que eram de seus outros dois filhos.
Movida pelo instinto, passou por eles desaparecendo porta adentro. Os dois notaram sua reação exagerada, no mesmo instante o menino quis saltar das costas de Emmett para ir atrás da mãe.
— Mamãe – Enrico chamou por ela. Seu riso fácil cedeu lugar ao medo. Tornou a se remexer anisando ir atrás dela. – Mamãe – ele voltou a chamar, embora já não pudesse vê-la. – Eu quero ir – pediu, agoniado. – Eu quero a mamãe.
— Tenha calma, Enrico. Desse jeito você vai cair.
— Eu quero ir lá com a mamãe. Por favor, me deixa ir... – Seu coraçãozinho batia acelerado agora.
Emmett puxou o corpo pequeno pra frente, tomando cuidado para ele não cair.
— Já estamos indo pra lá. Fique calmo, amigão.
Enrico parou de tentar descer dos braços dele, mas em seus olhinhos estava estampada a preocupação que sentia. O medo de que algo ruim estivesse acontecendo com os irmãos menores, consequentemente com a mãe.
Emmett passou a mão nos cabelos dele, enquanto ainda cruzavam a porta, ao som do choro de Amy e Noah.
Rosalie se encontrava no meio da sala, de pé. Olhando de um pro outro sem saber qual deles “socorrer” primeiro.
— O que aconteceu? – conseguiu dizer angustiada.
Noah estava nos braços de Kate, tentando se soltar a qualquer custo. E Amy, no colo de Lena, chorava assustada.
— Me solta! – o menino pedia, se engasgando com próprio choro. – Solta! Eu não quero você. Quero a minha mãezinha... – Soluços e tosse o atrapalhavam em meio a sua agonia – Quero... Quero ir com a mãezinha. Mãezinha? – ele gritou implorando sua presença.
— Mamã... – do outro lado, Amy repetia o pedido desesperado.
— Quer ir pra onde, Noah? – a mãe falou ainda assustada com todo aquele choro dos dois. Não entendendo o que tinha acontecido.
Foi quando Noah ergueu a cabeça seguindo o som de sua voz. Visualizando a imagem dela através de lágrimas. Soluçando ao lhe estender os braços.
— Mãezinha – gritou numa mistura de ansiedade e euforia que lhe caiu até baba da boca.
Kate ainda tentava tranquilizá-lo, embora inutilmente. Atrás de Rosalie, no colo de Emmett, Enrico olhava a cena tentando entender o que havia acontecido com os irmãos mais novos.
— Pode soltar ele, Kate – Rose pediu e, no mesmo instante, Noah veio correndo aos trôpegos pro seus braços.
— Oh, mãezinha... – ele disse, em meio a soluços e fungadas, agarrando as pernas dela com força.
Rosalie o pegou no colo, enroscando os braços e pernas pequeninos ao redor de seu corpo. Tentando acalmá-lo. Enquanto seu coração também se acalmava.
— Oh, meu Deus. O que foi filho? – Passou a mão em seu rostinho com cuidado, afastando os cabelos que lhe alcançavam os olhos, em seguida, limpando as lágrimas que não paravam de cair.
— Aonde você tava, mãezinha? Aonde?
Rosalie caminhou para mais perto de Lena a fim de pegar Amy também.
— Eu estava lá fora... – respondeu focada na caçula que lhe estendia os bracinhos.
— É melhor você sentar, querida. Não vai conseguir segurar os dois – Lena sugeriu, muito amavelmente, tocando no braço dela com uma das mãos.
— Rose? – Emmett chamou.
— Tudo bem. Eu vou sentar pra poder segurar os dois. Ou todo esse choro não vai ter fim.
Sentou-se em um dos sofás com Noah agarrado a seu pescoço. Somente então Lena lhe entregou a caçula. Usando apenas um dos braços, acolheu a filha no colo. Beijou o rostinho molhado de lágrimas, e até tentou secá-las.
— O que aconteceu aqui? – A voz de Emmett chamou atenção outra vez. Enquanto esperava a resposta da irmã, deixou que Enrico fosse se juntar a mãe e aos irmãos no sofá.
— Noah acordou agora a pouco, e quando se deu conta de que a mãe não estava, entrou em pânico. Amy acordou com o choro dele e também começou a chorar. A vovó veio me ajudar com os dois porque Noah estava querendo sair sozinho pela fazenda. Claro que eu não deixei. Vai que acontece alguma coisa. Deus me livre.
— E porque não mandou que alguém nos avisasse lá no estábulo?
— Logan estava exatamente indo fazer isso quando vocês chegaram.
Emmett lançou um olhar em Rosalie com as crianças. Enrico estava agora ajoelhado no sofá, bem ao lado dela. Amy tinha os dedinhos da mão direita grudados à parte da frente da blusa da mãe, como que quisesse mantê-la perto. Noah se recusava a desgrudar do pescoço dela.
No outro lado da sala, em um canto perto das cortinas, Abby se mostrava assustada.
— Bisvovó, porque que eles estavam choram assim?
A mão frágil, marcada pelo tempo, afagou o rosto da bisneta em um carinho delicado.
— É que o Noah pensou que a mãezinha dele tinha ido embora com o Enrico e ele tinha ficado pra trás. Por causa de seu choro foi que a irmãzinha também chorou. Ela se assustou, meu anjo. Você entende?
— Mas só que ela não vai embora bisvovó. Essa casa também pertence a eles. O titio Emmett disse pra mim. Ele disse bisvovó. Ela não vai. Nem os meninos. – Abby fez beicinho sem querer, e a bisavó voltou acariciar seu rostinho preocupado.
— Noah deve ter esquecido querida. Venha, vamos para a cozinha – Lena segurou sua mãozinha. – Você quer ajudar a bisvovó a preparar o jantar? Podemos fazer uma deliciosa sobremesa.
Abby abriu um sorriso, animada com a ideia de ser ajudante de cozinha da bisavó.
— Quero bisvovó.
As duas deixaram a sala de mãos dadas. E Kate ofereceu a mão a Logan.
— Vem filho! Vamos lá fora ver se o papai já está chegando.
Rosalie se moveu, buscando o olhar dela.
— Obrigada, Kate. E desculpa por isso... Desculpa mesmo.
— Não faça isso, Rose. Não tem que se desculpar. É totalmente compreensível que tenham se assustado. Eles não estão acostumados.
Rosalie meneou a cabeça antes de olhar pra Emmett, e depois novamente para os filhos.
Enrico afagava ora o bracinho da irmã, ora o da mãe. Preocupado demais para se afastar. Em seus olhos ainda havia um vislumbre do medo que sentiu ao ver a mãe correr.
Uma nauseante sensação de déjà vu golpeou os pensamentos Emmett.
Antes de sair pela porta da frente, segurando na mão pequena do filho, Kate trocou um olhar triste com o irmão. Como se através daquele gesto palavras corressem. Mas foi a voz de Rosalie que o trouxe de volta a realidade.
— Desculpe-me, Emmett. Não imaginei que Noah fosse fazer todo esse escândalo... Sabia que podia chorar caso não me encontrasse, mas não que chegasse a esse ponto de desespero.
Emmett deu um passo à frente. – Não se preocupe com isso – disse. – Como Kate mesmo falou: É totalmente compreensível que ele tenha se assustado. Nenhum deles está habituado a ficar sem sua presença, salvo os momentos em que estão na escola. Mas nesse período eles entendem que estão com a professora e os colegas, e que você vai voltar pra buscá-los. Já nesse caso, não tinham a menor ideia de que você voltaria. A rotina foi quebrada. Querendo ou não, a insegurança estar inclusa. Noah também não viu o irmão, e isso pesou. Apesar de ser muito novinho, Enrico se tornou o segundo porto seguro pros dois mais novos.
Uma lágrima saltou apressada no olho direito de Rosalie. Noah passou a mãozinha pelo rosto dela, em movimentos suaves e lentos, cuidando dela e ao mesmo tempo se acalmando.
— Mãezinha, eu queria você... E o Rico. Mãezinha linda.
Emmett sentiu os olhos arderem vendo Rosalie beijar o rosto de Noah. Havia tantas reminiscências. Ele precisou piscar algumas vezes para não se render as lágrimas.
— Mãezinha já sabe amor. Mas você podia ter acreditado no que Kate dizia. Mamãe não iria a lugar algum do mundo sem você e a Amy. Eu amo os três com a mesma intensidade. Jamais deixaria algum pra trás. Eu morreria se tivesse que fazer isso. E essa é uma verdade imutável.
Noah deu dois beijinhos no pescoço da mãe.
— Ei, – Rosalie roçou o nariz no rosto dele, já que suas mãos estavam ocupadas no momento – você está entendendo o que a mamãe está dizendo? – Noah balançou a cabeça em um sinal de confirmação. – Você assustou sua irmãzinha com tanto choro. E a mamãe também.
O menino afastou a cabeça do ombro dela, estendendo as duas mãos pequenas, segurando o rostinho molhado de lágrimas da irmã, beijando o beicinho que ela fazia; uma ameaçava constante de choro.
— Desculpe bebezinha – pediu, com o rosto ainda bem pertinho do dela.
Emmett achou graça. E as covinhas voltaram a brincar em seu rosto. Rosalie beijou o rosto de cada um dos filhos. E, Enrico, que estava ao lado, beijou o seu soltando um estalo.
— Pode ir brincar amor – ela disse ao filho mais velho. – Está tudo bem comigo e com seus irmãozinhos. Cuidar deles é obrigação da mamãe, não sua. Vai brincar, vai.
Enrico estava com uma das mãos repousando no ombro dela.
— Eu posso ver desenho? – perguntou.
— Porque você não pergunta pro Emmett?!
Antes que o menino pudesse repetir a pergunta, Emmett respondeu.
— É claro que ele pode Rose. Nem precisa me perguntar uma coisa dessas. Vem cá, Enrico! – O menino desceu do sofá, e calçou os chinelinhos antes de ir até ele. – Pega lá o controle perto da televisão e escolhe o canal que você quer assistir.
Enrico correu até lá e voltou com o controle na mão. Sentou ao lado de Emmett no outro sofá, e zapeou os canais de tevê a cabo até encontrar o seu favorito. Encolheu-se ao lado de uma almofada e não demorou pra sentir o braço grande de Emmett puxando-o para junto das costelas, aninhando-o ali. Enrico olhou para ele feito um gatinho desejoso de carinho, e, então, se aconchegou sob o braço daquele homem enorme que lhe dava afeto e proteção.
A porta da frente voltou a ser aberta e Kate, com o marido e o filho, passou por ela. Bastou Logan ver a tevê ligada para ir sentar-se junto ao tio. Emmett o acolheu no outro lado do corpo, da mesma forma que havia feito com Enrico. Dessa forma, os três ficaram a ver desenho animado juntos no sofá.
Kate lançou um olhar a Rosalie. – Ele já está mais calmo, Rose?
— Está sim. E não vai mais voltar a fazer isso, não é mesmo Noah?
— Se eu ficar sozinho de novo, eu faço.
Garrett sorriu e Kate o acompanhou.
— Às vezes ele fala cada coisa – a mãe se explicou. – Não liguem gente.
— Quer dizer que você andou chorando, foi rapazinho? – Garrett perguntou, usando de um tom brincalhão.
— Eu chorei, porque a minha mãezinha não estava aqui. E ela – ele apontou o indicador pra Kate – não deixou eu ir procurar no mundo.
— Ela te proibiu de procurar pelo mundo? – repetiu Garrett, com falsa indignação. – Essa Kate, viu?! Onde já se viu não deixar o garoto procurar a mãezinha dele pelo mundo. Que coisa feia.
— É, essa Kate – Noah o imitou.
— Você está bravo comigo? – a irmã de Emmett perguntou, levando na brincadeira.
— Eu tô é chateado.
— Mas eu sou sempre tão legal com você. Vai mesmo ficar chateado comigo, amorzinho?! Eu gosto tanto de você.
— Pode ser que eu não fico mais.
— Pode ser que você não fique mais? Hummm... Então o que eu tenho que fazer pra você me desculpar?
— Só tem que me dá um beijinho.
— Com um beijinho você fica feliz de novo? – ele afirmou movendo a cabeça. – Ah, mas isso é moleza, então.
Rosalie abriu um sorriso, assistindo Kate se aproximar pegando seu filho no colo enquanto cobria seu rostinho manchado de lágrimas com beijos. Encaixando-o no quadril.
— Agora a tia está perdoada?
— Você é minha tia de verdade?
— Eu sou.
— Porque, eu nem sabia disso?
Ele ganhou outro beijo no rosto.
— Pois é, nem eu – Kate brincou.
— Mãezinha, ela é minha tia?
— Se ela está dizendo...
— E a outra?
— A dona Lena?
— Essa mesmo. É minha bisvovó que nem é da Abby e do Logan?
Rose abriu a boca pra falar, mas Emmett foi mais rápido com sua explicação.
— Sim. Ela é sua bisvovó. E posso jurar que vai vibrar quando te ouvir falando isso. Ela pensa dessa forma desde que vocês chegaram à fazenda. Desde que botou os olhos em vocês.
Noah olhou de um para o outro, se mostrando contente. Sua gargalhada gostosa veio à tona quando Kate começou fazer cocegas em sua barriguinha, levantando a blusa de malha, enquanto o corpinho se contorcia.
Ela o devolveu, ainda rindo, aos braços da mãe. Em seguida, acompanhou o marido Garrett pelo caminho que levava aos quartos.
Apenas segundos depois, uma garotinha loura apareceu na sala, sorridente.
— Noah já está legal outra vez?
— Eu acho que sim – Rose respondeu, olhando de Abby para Noah, que se remexia em seu colo.
A garotinha correu chegando mais perto, e estendeu as mãos.
— Vem brincar!
Sem hesitar, Noah saltou do colo da mãe. E, de mãos dadas, os dois começaram a saltitar pela sala.
Emmett olhou os dois se divertindo. Nem parecia que há alguns minutos Noah estava se acabando de tanto chorar. Tinha consciência de que crianças eram assim mesmo. De um minuto pro outro riam ou choravam. De canto de olho, viu Rosalie levantar e falar com o filho.
— Noah. Noah?
— Oi, mãezinha? – Ele parecia tão animado agora.
— Mãezinha vai ao quarto trocar a fralda da Amy. Vê se não faz mais escândalo, está bem?
— Tá, eu não vou fazer esse negócio. Só vou brincar. – Ele ainda pulava de mãos dadas com a sobrinha de Emmett. Os dois rindo um pro outro.
— Tome cuidado para não esbarrar em nada.
— Eu fico de olho neles, Rose. Pode deixar.
— Obrigada, Emmett.
Ela se retirou, com Amy tentando falar, balbuciando palavras confusas enquanto enrolava a língua.
— Tio – Logan começou –, eles estão na frente da tevê. Não consigo ver o que está acontecendo.
— Abby e Noah, vão brincar mais pra lá. Logan e Enrico querem ver o desenho e vocês estão na frente. Sejam bonzinhos com eles.
Os dois saltitaram, chegando para o lado, em meio a risadinhas.
— O jantar já está pronto – Lena avisou, chegando à sala, secando as mãos em um pano de prato branquinho. – Cadê o resto do pessoal? Rosalie com Amy, sua irmã e Garrett?
— Rose foi trocar a fralda de Amy no quarto dela. Kate e Garrett foram pro quarto deles, eu acho.
Lena sacudiu o pano de prato. – Eu vou chamá-los. Só espero que não estejam de saliência há essa hora... – resmungou.
Enrico olhava agora pra Emmett com curiosidade.
— O que é saliência? – perguntou.
Os lábios de Emmett se curvaram em um sorriso, aliado as covinhas peraltas, pensando no que iria dizer.
— Fazer bagunça.... Brincar no quarto – respondeu, de repente, ficando sem graça.
— Ah... – o menino murmurou. – Royce não brincava com a mamãe. Ele só machucava e dizia coisas feias. Ele nunca fazia a mamãe rir. Só chorar.
Emmett encostou os lábios aos cabelos castanhos de Enrico, em um beijo totalmente paterno, cheio de compreensão.
— De agora em diante tudo será diferente, campeão. Vocês estão comigo agora. – E, então, sentiu os bracinhos finos de Enrico envolvê-lo em um abraço confiante.
O barulho de algo caindo fez com que olhassem na direção de onde vinha o som. Abby e Noah haviam esbarrado em um objeto de decoração. Não chegou a quebrar, ainda assim, Noah teve medo de ser punido. O que o levou a se esconder atrás das cortinas.
— Tio! – Abby gritou. – Me ajuda. Titio.
O tio foi rapidamente ajudá-la a pôr o objeto de volta no lugar sobre o console de madeira trabalhada.
— Vai lá chamar o Noah, gatinha. Ele está com medo.
— Porque ele sempre tem medo, titio?
Emmett passou a mão nos cabelos louros que caiam ao rosto da sobrinha.
— Porque onde ele vivia antes tinha uma pessoa muito ruim que o machucava. Machucava também a tia Rose, o Enrico e a Amy. O tempo todo.
— Coitadinhos... – Abby exibiu uma expressão de tristeza. – Não gosto disso. Não gosto de pessoas más.
— O titio também não. Agora vai lá, gatinha, o chama pra brincar de novo.
— Tá. – A garotinha correu pela sala, agitando os longos cabelos louros. Até desaparecer, também, por detrás das cortinas. Um instante depois, o tio voltou a ouvir risadinhas. Não demorou os dois voltaram a correr pela sala.
[...]
O jantar foi servido minutos depois, com todos já reunidos à mesa.
Durante a madrugada, Rosalie voltou ouvir os mesmo sons de sofrimento vindo de um quarto não muito longe do seu. Mas não se atreveu ir até lá. Talvez porque tenha lhe faltado coragem. Ou quem sabe apenas insegurança. Imaginando que o ocorrido na noite passada, quando foi ajudá-lo, o tenha confundido. Levando acreditar que pudessem ter algum tipo de relacionamento que não fosse apenas de amizade.
Não podiam, jamais, segundo suas convicções. Estava atada ao passado pra sempre. Não somente por causa das crianças, mas, por tudo o que viveu. Era impossível apagar o passado, e toda sua história.
Apesar disso, sabia que aquela família também tinha sua própria história apenas ainda não sabia qual.
Para surpresa de Rosalie e de toda família McCarty, Emmett não saiu para cavalgar ainda as sombras da noite. Mesmo depois de uma noite ruim, preferiu estar ao lado dela, sentado à mesa.
Ajudou os meninos a se servirem do café da manhã e até se ofereceu para ir com ela levá-los a escola, antes de deixá-la na livraria para o primeiro dia de trabalho.
Kate foi à frente com os filhos. Precisava estar lá a tempo de receber os alunos. Garrett saiu com outro carro, logo atrás dela.
Apenas alguns minutos depois, Emmett saiu com Rosalie e as crianças na caminhonete preta.
Despediam-se dos meninos em frente ao prédio da escola primária. Outras crianças também chegavam acompanhadas por um adulto responsável. O som de suas vozes, e risadinhas, presente o tempo todo fazendo do ambiente um local agradável.
Ela estava com Amy no colo, e, com uma das mãos, ajeitou os cabelos dos dois garotos antes de beijar seus rostos.
Emmett esteve o tempo inteiro ao seu lado, como o marido que desejou a vida inteira Royce tivesse sido.
— Comportem-se – disse aos meninos, impecavelmente arrumadinhos para mais um dia de aula.
— Tá bom, mamãe – Enrico concordou.
— Tá, mãezinha. Eu vou me comportar muito bem.
— Sejam bons garotos. Quando chegar a hora de voltar, Kate vai levar vocês na livraria onde estarei trabalhando. Até meu horário terminar, vocês se ocupam com a lição de casa.
— Tá – responderam em sincronia.
Enrico abraçou as pernas da mãe. Do outro lado, Noah fez o mesmo.
— Tenham um bom dia, rapazinhos – Emmett desejou oferecendo a palma da mão para eles baterem nela.
Os dois bateram as mãos pequeninas na palma da mão grande. E deram risadinhas enquanto corriam para se juntar aos colegas.
Noah saltitava ao lado dos colegas de classe. Já Enrico, mais reservado, ficou quietinho no canto dele. Apesar de ter sido sempre desse jeito, Rosalie desejava fazer mais por ele. Para que pudesse se soltar mais. Fazer mais amigos. Por ser o mais velho Enrico havia tomado pra si responsabilidades que não lhe cabiam. Era tão criança quanto os outros, e merecia viver isso.
Voltaram pra caminhonete juntos, e Emmett dirigiu até o emprego dela. Estacionando em frente à livraria, no meio-fio.
Ao lado dele, Rosalie não se moveu, em vez disso olhou a estrada através do para-brisa, o que o fez pensar que estivesse nervosa.
— Nervosa? – arriscou. – E se virou um pouco de lado, de maneira que pudesse olhar diretamente para ela.
— Um pouco... – admitiu, virando-se para mexer na mãozinha de Amy, no banco de trás.
— Eles são gente boa – tentou tranquilizá-la. – Todos eles. Minha família os conhecesse desde sempre. Carlisle é médico da família. Minha avó é madrinha da filha deles.
— É eu sei... mas... é que... faz muito tempo que não trabalho. Pra falar a verdade, desde que me casei com Royce.
Toda vez que a ouvia pronunciar aquele nome, Emmett sentia um desconforto descomunal, ainda que nunca tenha colocado os olhos nele, o odiava. Mesmo sabendo que todo esse ódio não era saudável.
— Não se preocupe. Vai dar tudo certo – disse depois de retirar o cinto. Aproveitando para recolher o brinquedo que Amy deixou cair.
— Tomara que sim – ela respondeu nervosa.
Amy estendeu a mãozinha para pegar o brinquedo, institivamente Rose estendeu a sua para o caso de ela deixar cair novamente. A palma da mão de Emmett roçou na sua, e, toda aquela confusão de sentimentos estava de volta, a flor da pele. Os olhares se prenderam um no outro. A lembrança do beijo, de volta aos pensamentos, clara como aquele dia estava sendo. Foi bom, embora desconfortante também.
Ela, com medo de se envolver, de se entregar a outro relacionamento. Ele, perturbado com a ideia de que ela pudesse querer fugir dos sentimentos indo pra longe com as crianças.
— A dá! Dá – Amy repetia, batendo no assento com o brinquedinho que segurava.
— Ela vai ficar bem? – Emmett quis saber.
— Vai. Esme disse que eu podia trazê-la. Que ela podia brincar e dormir no cantinho da leitura. No andar de cima tem uma cozinha onde poderei preparar as refeições dela sempre que preciso.
— Não vai ser complicado trabalhar e cuidar dela ao mesmo tempo? Eu posso pagar pra alguém ficar com ela na fazenda durante seu horário de trabalho.
— Como assim? Não. Não posso aceitar que faça isso.
— Não quero que se chateie. Foi só uma ideia.
— Eu sei que está tentando ajudar, Emmett. O que acontecesse é que não me sinto bem com isso. É como se estivesse te explorando.
— Não volte a dizer isso, por favor. – Ela meneou a cabeça concordando. – Então, onde você vai almoçar?
Rosalie abriu um sorriso. – Dá pra acreditar?! Sua avó cuidou disso pra mim. Meu almoço está na sacola junto às coisas do preparo da mamadeira, e o lanche da Amy. – Ele a imitou, abrindo um sorriso, imaginando a avó. – Toda sua família é maravilhosa, Emmett.
Aquelas palavras tiveram um efeito borbulhante nos sentimentos dele. Não conseguia afastar a esperança de que um dia ela pudesse aceitá-lo. Que pudesse se entregar a uma nova relação.
Depois do que pareceu um segundo em silêncio, ele voltou a falar.
— Precisa de algum dinheiro? – Sua mão a caminho do bolso onde estava carteira.
— Não. Tenho tudo o que preciso aqui comigo. De qualquer forma, obrigada.
— Rose, pelo amor de Deus, você está com um bebê. Precisa de algum dinheiro para emergências.
— Vai ficar tudo bem. Eu preciso acreditar nisso – acrescentou, beijando a mão da filha. Querendo muito acreditar no que dizia.
— Aceite ficar com um de meus cartões de crédito, apenas por segurança, então.
— Não posso aceitar. Ainda que esteja fazendo isso de coração. Já estou aceitando coisas demais... por favor.
— Só me prometa, então, que vai me avisar se precisar.
— Eu quero reconstruir minha vida. Quero ser capaz de ganhar meu próprio dinheiro. Muito embora não seja lá grande coisa. Estive tempo demais dependendo de um homem, se é que aquilo pode ser chamado de homem. – As covinhas se agitaram nas bochechas de Emmett com aquela confirmação da parte dela. – Mas se um de meus filhos precisar, não hesitarei, em momento algum, pedir sua ajuda.
— Faça isso.
Amy tornou balbuciar. – Tu, tu. Lá. Mamã.
— Alguém está querendo participar da conversa – ele disse, e Rosalie sorriu.
— Está na hora. Preciso mesmo ir – ela anunciou, movendo-se para abrir a porta.
— Deixe-me ajudar – e foi com essas palavras que ele saiu do carro. Deu a volta por trás do veículo e foi abrir a porta pra ela. Enquanto ela retirava Amy do carro, ele segurou suas sacolas.
Estavam na calçada quando ela voltou a falar.
— Obrigada, Emmett.
Ele a acompanhou até a porta de vidro da livraria. E lhe entregou as sacolas, beijando sua testa demoradamente antes de se afastar.
— Às dezessete horas estarei aqui para levar você e as crianças de volta pra fazenda.
Rosalie abria os olhos, ouvindo-o falar. O beijo dele em sua testa tinha levado a sentir novamente as emoções que tentava evitar.
— Qualquer imprevisto, ligue no meu celular. Estarei cuidando das coisas na fazenda, mas não desgrudarei dele um só minuto. Por tanto, não hesite em me procurar.
— Nem sei como agradecer tudo que tem feito por mim e meus pequenos.
— Nem precisa. Eu já disse uma vez e volto a repetir: apenas me deixe fazer isso; cuidar de vocês. É somente isso que peço. – Ele inclinou o corpo, dando um beijo no rostinho de Amy. – Até mais tarde bonequinha. Cuide bem da mamãe.
Amy soltou um gritinho, entusiasmada, estendendo os braços para ele.
— Não, bebê. Emmett vai voltar pra fazenda agora. Você vai ficar com a mamãe.
— Seja boazinha com a mamãe, Amy. Logo mais a tarde a gente se ver.
— Dá tchau pra ele amor. Dá. Dá tchau – Rose mexeu a mão, para que ela também o fizesse.
— Tchau, gatinha. Até mais tarde, Rose.
— Até mais tarde, Emmett. E... Obrigada.
Rosalie o viu caminhar de volta até o carro enquanto empurrava a porta de vidro para entrar na livraria, onde, a partir de hoje, seria seu local de trabalho.
Enquanto entrava, a sineta anunciou sua chegada. Esme se virou em sua direção, por trás do balcão, para vê-la chegar. Rosalie se pôs encostada a porta observando o carro de Emmett se afastar.
Esme aguardou até que ela se virasse para falar qualquer coisa. E isso aconteceu somente quando a caminhonete preta dele sumiu totalmente de vista.
— Bom dia, querida.
— Bom dia, Esme. – E então ela olhou em volta. – Por favor, não diga que estou atrasada no meu primeiro dia?! Meu Deus, que vergonha.
Um sorriso curvou o canto dos lábios de Esme. – Não. Não está atrasada. Fique tranquila.
Rosalie soltou o ar, nitidamente aliviada.
— Fique tranquila. Vai dar tudo certo. Estou aqui para orientá-la. Não tenha medo. Ensinarei tudo o que precisa saber. Tenho certeza de que no final será a melhor funcionaria que já tive.
— Obrigada pelo voto de confiança.
— De nada. Agora vá deixar o que tiver de deixar lá em cima. Quando voltar, direi o que tem que fazer. Trouxe um cercadinho que pertenceu a minha filha, Alice, e também alguns brinquedos para Amy se distrair enquanto trabalhamos.
Rosalie olhou, comovida, o cercadinho praticamente novo posto em um local seguro e ventilado, próximo ao balcão onde ela trabalhava.
— Nem sei o que dizer, além de muito obrigada.
— Não precisa. Agora vá querida. Vamos começar isso aqui. Há dias estou sozinha, tem muita coisa pra se fazer.
[...]
Dessa forma, o dia foi seguindo em frente.
Amy brincou no cantinho da leitura com os brinquedos novos.
Esme explicou tudo o que precisava saber sobre o funcionamento da loja. E a melhor forma de cumprir com sua parte.
Voltou a dizer que em alguns sábados a livraria estaria aberta até o meio-dia. E aos domingos e feriados não abririam. No demais, tudo seria feito conforme as leis trabalhistas.
Recebeu muitas orientações e dicas valiosas, para alguém que estava começando do zero.
Amy adormeceu, com o bumbum pra cima, como estivesse desabado enquanto engatinhava, algumas horas depois de ser posta dentro do cercadinho. Rosalie foi até lá e ajeitou seu corpinho para que dormisse melhor. Ela acabou dormindo até o meio-dia. Para o desespero da mãe, acordou disposta a ter sua atenção. Chorou por quase vinte minutos sem parar. Rosalie agradeceu aos céus por estar em seu horário de almoço e poder ficar com ela.
Esme se mostrou uma chefe mais do que compreensiva. Além de toda paciência, ajudou também com a criança o máximo que pode. Com a loja fechada para almoço, as duas almoçaram juntas no andar de cima. Quando retornaram, Amy já estava bem mais tranquila.
Entre uma coisa e outra para fazer, e atender os eventuais clientes que chegavam, davam um pouco de atenção a criança. Sem deixar de lado todas as fraldas que foram trocadas, comidinhas que foram preparadas e servidas.
Rosalie pensou que não fosse dar certo. Mas, provando o contrário, Esme não reclamou, tampouco fez cara feia.
Eram quase três da tarde quando Amy voltou a dormir.
Mais uma vez a sineta soou anunciando a chegada de alguém a loja. E a pessoa a entrar pela porta Rosalie já conhecia; America cujo teve a chance de conhecer no dia em que deixava a papelaria na companhia de Emmett e das crianças.
Lá estava ela outra vez. Linda, com aqueles cabelos negros e ondulados, que iam até o meio das costas; expressivos olhos acinzentados e um corpo de curvas acentuadas. Bem-vestida e de uma prepotência incomparável. Exatamente como se lembrava.
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