Um Lugar Para Ficar

11 Capítulo 11 – A Insegurança de Uma Criança


Ainda em frente à papelaria, Emmett guardou as compras na carroceria da caminhonete. Abaixava a capota marítima quando, juntos, perceberam uma voz feminina chamar por ele.

Rosalie deixou de prestar atenção ao que fazia a tempo de ver se aproximar uma jovem mulher, cheia de sorrisos. Sim, era bonita, tinha que admitir. Com aqueles cabelos negros e ondulados, que iam até o meio das costas. Grandes olhos acinzentados e um corpo de curvas generosas.

Desistiu de olhá-la ocupando-se em pôr Amy na cadeirinha. Fingindo não dar importância a sua presença.

Os meninos ainda admiravam os novos livros de colorir, de pé na calçada ao lado do carro parado no meio-fio.

– Oi, Emmett – disse a mulher, agora bem mais próximo que antes. Chegou ainda mais perto, beijando-o no rosto bem devagar como que quisesse prolongar o contato. Uma de suas mãos apertando os bíceps do braço esquerdo de Emmett. Seu gesto o incomodou. Não queria que Rosalie pensasse que tinha algum tipo envolvimento com mulher alguma, muito menos com America. Rapidamente buscou fazer as apresentações afastando logo qualquer mal entendido.

– Rose – ele mencionou tocando seu braço. Rosalie se afastou do automóvel deixando Amy lá dentro, presa à cadeirinha. Olhou para Emmett, depois a mulher. Somente então ele prosseguiu: – Essa é a America. Ela foi colega de Kate no ensino médio. – America, essa é Rosalie. Mas, na verdade, eu prefiro chamá-la de Rose.

Ouvi-lo mencionar seu nome na forma abreviada, na presença daquela mulher, causou certa agitação no estomago.

As duas deram-se as mãos muito brevemente. A morena não escondia sua insatisfação. Já a loura, disfarçou o quanto estava incomodada.

America lançou um olhar aos meninos, na calçada. – Que crianças lindas. São suas? – perguntou voltando-se para Rosalie outra vez.

– Sim – ela respondeu pondo a mão na cabeça de Enrico. No momento, o que estava mais próximo dela.

– Os garotos são Enrico e Noah – Emmett esclareceu. – E a bebê dentro do carro é a Amy.

America se curvou a fim de ver a outra criança dentro do automóvel.

– Que gracinha – disse. Em seguida começou olhar em volta. – Onde está o pai das crianças? – quis saber.

Sua pergunta despertou em Rosalie não só irritação, por achar muito inconveniente, mas medo também. Tudo o que menos queria era alguém fuçando sua vida.

Ignorou a pergunta de America, guiando os meninos para dentro da caminhonete. Os prendeu com o cinto e fechou a porta.

– Com licença – pediu ao passar por America. Abriu a porta do carona acomodando-se no assento logo em seguida. A porta foi fechada novamente, e o foco de sua atenção passou a ser o movimento na rua. Os pensamentos fervilhando.

– Que grossa – se queixou America. – Fiz apenas uma pergunta.

– Sobre um assunto que não te diz respeito – Emmett emendou.

– Nossa! Nunca te vi falar assim antes.

Emmett fingiu não ouvir o que disse. Amercia repousou a mão direita nos músculos do peito dele sobre a camisa que usava.

– Deveria se divertir um pouco. Parece tão estressado. Vamos sair para jantar qualquer dia desses?!

– Não posso, tenho muitas coisas para fazer.

– Esqueça-se daquela fazenda um pouco. É muito jovem e bonito para viver a vida inteira enfurnado naquele lugar. Você tem empregados, deixe nas mãos deles.

– Não estou em busca de diversão, America.

Ela insistiu acariciando o peito dele algumas vezes enquanto apreciava a rigidez dos músculos. – Precisa relaxar, sabe... Anda muito solitário esse grande urso das montanhas – comentou fazendo alusão ao nome da fazenda. – Precisa de uma mulher. Filhos. Todo homem precisa ter sua própria família. Ninguém é feliz sozinho baby.

– E quem disse a você que não tenho?!

America abriu a boca com intenção de falar, mas as palavras lhe fugiram. Depois de um tempo em choque, deixou escapar sua surpresa.

– Como assim?

– America... – Emmett lamentou.

Ela ergueu o indicador no ar. – É... Com licença, eu preciso ir.

Emmett meneou a cabeça vendo-a sair de fininho. Deu a volta por trás da caminhonete, e foi acomodar-se em lugar no assento do motorista.

America seguiu seu caminho sem olhar pra trás. Além da vergonha a resposta que ele lhe deu a perturbava.

Desde o momento que entrou no carro, Rosalie olhava pra frente. Com o vidro fechado, pouco ouviu da conversa dos dois.

– Me desculpe por isso – Emmett pediu, olhando para ela. – America desconhece limites.

Pela primeira vez desde que estavam todos dentro do carro, Rosalie olhou pra ele.

– Não tem porque se desculpar. Não foi culpa sua. Dá pra ver que ela é bem saidinha. E que gosta de você. Pelo menos foi o que me pareceu.

– Tudo o que você precisa saber Rose está em apenas uma única frase: Eu não sinto nada por America Johnson.

– Sério?! – ela zombou. – Eu nem tinha percebido.

Um largo sorriso brotou nos lábios de Emmett, e as covinhas festejaram. Voltou-se pra frente ainda com o sorriso no rosto. Girou a chave na ignição dando vida ao motor potente. Acelerando algumas vezes apenas pelo prazer em ouvi-lo roncar.

– Que bom – mencionou com grande satisfação –, porque tudo pelo qual irei lutar está dentro desse carro.

Ele manobrou o veículo retornando ao tráfego. No mesmo instante Rosalie olhou para o lado de fora, pelo vidro da janela. Sentindo os reflexos daquela frase em ondas de ansiedade e medo por todo o corpo. Ficou feliz em ouvi-las, extasiada, mas, com muito medo também.

Virou-se para as crianças no banco traseiro. Elas lhes sorriram. Tudo o que pôde fazer no momento foi retribuir aos sorrisos cheios de amor que elas lhe ofereciam.

Emmett ainda sorria quando os observou pelo espelho retrovisor.

Foi durante o trajeto de volta – ainda no centro da cidade – que Rosalie notou, em mais uma breve olhada no banco traseiro, Enrico com o rosto grudado no vidro da janela, e as mãos pequenas espalmadas.

Prestou atenção curvando-se um pouco para ver o que ele tanto olhava. Logo soube, pelo nome na fachada da loja e os objetos na vitrine, se tratar de uma loja de música.

Somente quando o carro se distanciou Enrico se afastou do vidro, voltando a sentar-se corretamente no banco. Em seguida escondeu o rosto na blusa que usava.

Rosalie sentiu-se mal pelo filho. Pelo sentimento de vazio que ele estava vivendo naquele momento.

Virou-se no banco, esticando o braço, alcançando o joelho dele com a mão.

– Enrico... Está tudo bem filho?

O menino não respondeu, apenas moveu a cabeça afirmando. No entanto, o soluço o entregou.

– Vou parar o carro – comunicou Emmett, preocupado.

– Não precisa fazer isso, Emmett. Eu converso com ele quando chegarmos à fazenda. Já tomamos muito do seu tempo.

Ele olhou brevemente para o menino. – Você está bem, Enrico? – Enrico meneou a cabeça afirmativamente, embora continuasse chorando. – Posso continuar dirigindo? – outra vez a afirmação muda. – Tudo bem campeão. Mas, qualquer coisa é só falar.

Preocupado com o irmão, Noah entrou na conversa.

– Rico? Rico? Fala irmão. Fala! Fala com a gente – pediu agoniado.

– Deixa ele, Noah – a mãe pediu.

– Mãezinha porque ele tá chorando?

– Não sei amor. Mas ele vai falar pra mamãe quando chegarmos.

– Na nossa casa?

– Na casa de Emmett – a mãe corrigiu.

– Porque não é nossa casa?

– É claro que é sua casa, Noah – afirmou Emmett.

O menino relaxou, voltando a encostar-se ao banco.

– Desculpe – Rosalie pediu, constrangida.

– Não faça isso Rose, por favor. – Ele fez uma curva na estrada, e voltou seguir em linha reta outra vez. O silêncio estava de volta ao interior do carro.

Amy olhava o irmão mais velho sem entender o que o afligia. Tentou puxar a blusa onde o irmão escondia o rosto, mas ele acabou segurando na malha com ainda mais força.

Quando chegaram à fazenda, e a caminhonete foi estacionada perto da casa, Amy dormia na cadeirinha. Noah parecia ansioso para começar colorir seu novo livrinho. E Enrico estava com a cabeça encostada à porta.

Emmett os ajudou descer e foi pegar as sacolas na carroceria, enquanto Rosalie pegava Amy adormecida no colo.

Encaminharam-se para dentro de casa, as crianças indo na frente. Noah pulava nos degraus da varanda, brincando contente. Mas Enrico subia bem devagar, a mãe havia notado.

Os cachorros correram para recebê-los na porta, fazendo festa com muitos abanar de rabo e giro em torno deles. O aroma saboroso do almoço de Lena já se espalhava por toda a casa.

Ao ouvir vozes e os latidos dos cachorros, Lena foi até sala.

– Então, como foi tudo por lá? – secava as mãos no avental florido que usava para trabalhar na cozinha. – Conseguiu fazer a inscrição dos meninos?

– Sim, consegui dona Lena.

– Eles já começam amanhã mesmo – disse Emmett pra avó.

– E eles gostaram do ambiente?

– Ah, eles adoraram – esclareceu Rosalie. – Ainda mais que é na mesma escola onde estuda Logan e Abby. E onde também Kate leciona. O fato de saber que Kate vai estar lá, perto deles o dia inteiro, já me tranquiliza. E muito.

– Que bom, minha querida. – Lena tocou seu ombro. – Tudo vai se ajeitar, pouco a pouco. Você vai ver.

– Obrigada, dona Lena.

– Vovó, a Rose precisa pôr a Amy na cama. Vou acompanhá-la pra levar as sacolas com as coisas dos meninos. É o material escolar que compramos.

Lena lhe ofereceu um sorriso cúmplice. – Vai lá! Leve o tempo que precisar. Não precisam ter pressa.

E ela retornou à cozinha assim que eles sumiram no corredor.

Rosalie terminava de cobrir Amy, quando Emmett, que deixava as sacolas na poltrona, chegou mais perto para falar com ela.

– Foi por causa do violino que Enrico chorou hoje, não foi? Somente me dei conta depois que passamos pela loja de música no centro da cidade.

Os olhos de Rosalie se encheram de lágrimas com a lembrança recente da tristeza estampada no rosto do filho. Devagar se afastou da cama. Ficando ainda mais perto de Emmett, mesmo que não fosse essa a intenção.

– Ele sente muita falta da música. – Seu lábio tremeu ao falar, pensando no primogênito. – Enrico tinha encontrado na música o refúgio e a paz que nunca tivemos em casa. – Uma lágrima rolou em seu rosto muito rapidamente, vindo a cair na roupa. – Ele é talentoso. Toca violino feito gente grande. A professora de música, da escola onde estudavam, o adorava. Sempre me dizia que Enrico era seu melhor aluno. O mais dedicado. Uma estrela destinada a brilhar. – Outra lágrima rolou, e, dessa vez, veio devagar o bastante para que Emmett pudesse secá-la com o polegar direito. – Mas Royce destruiu tudo... – Ela soluçou e mais uma lágrima, que ele tratou de limpá-la, trilhou caminho em seu rosto.

– Não – Emmett negou, acariciando o rosto dela com o mesmo polegar que havia limpado suas lágrimas. – O talento de Enrico ainda está com ele, Rose. Ele só precisa de um violino novo, e de uma professora de música para dar continuidade ao aprimoramento. Posso conseguir isso pra ele.

Rosalie moveu a cabeça em negação. Os olhos voltando a encher-se de lágrimas. As mãos de Emmett, morna e calejada, ainda estavam em seu rosto.

– Isso cabe a mim – disse-lhe.

– Rose... Eu...

– Não, Emmett. E, por favor, não insista. Não é questão de orgulho ou de achar que está fazendo demais pela gente. Fiz uma promessa a meu filho. E só vou me sentir em paz com minha consciência, quando puder fazer pra ele o que prometi. Como mãe, quero e preciso fazer isso.

– Mas...

– Eu sei, não tenho dinheiro. Mas sua irmã ficou de me conseguir um emprego. Sei também que não vou ganhar muito. Ainda assim, mesmo que de segunda mão, darei um violino ao meu filho. Meu companheiro de todas as horas. Meu cúmplice. Meu pequeno herói.

– Tudo bem. Agora entendo o quanto isso é importante pra você – concordou orgulhoso, apesar de comovido também.

– Foi ele quem me ajudou na manhã em que fugimos... – comentou com angustia, lembrando-se do medo que sentiu de que Royce acordasse e descontasse nas crianças toda sua raiva.

– Eu sei. Noah me contou na noite em que os encontrei.

– Noah – ela repetiu, limpando o rosto com as mãos, pensando no outro filho. – Me desobedeceu e por pouco não me matou do coração. Mas foi por seu erro que acabamos encontrando você. E só por isso não fico furiosa toda vez que me lembro do risco que ele esteve correndo aquela noite.

– Imagino o medo que sentiu. Mas, como já disse, nunca pensei em nada que não fosse ajudar.

– Agora eu tenho certeza disso – ela afirmou, olhando-o diretamente nos olhos.

Emmett se curvou beijando suavemente na testa dela, apreciando o cheiro que entrava junto com o ar em suas narinas.

– Preciso ir falar com ele – ela mencionou, tendo os lábios dele ainda tocando sua testa. Emmett se afastou, concordando.

Ela verificou como estava Amy antes de deixar o quarto. Emmett já estava a caminho da porta. Ela foi logo atrás, mas ele mudou de direção entrando na cozinha. Ainda a caminho da sala pôde ouvir a voz dele enquanto conversava com a avó.

Encontrou apenas Noah na sala de estar, colorindo seu novo livrinho na mesa de centro. Apenas um dos cachorros, que Rosalie tinha certeza ser Jujuba, estava ao lado dele.

– Noah – o menino levantou a cabeça para olhá-la –, onde está o seu irmão?

– Ele saiu mãezinha.

– Saiu pra onde?

– Foi lá pra fora. Ele ainda está triste. – Noah deu uma rabiscada com o giz de cera vermelho no livrinho e tornou olhar para a mãe. – Porque ele não quer falar com a gente, mãezinha? Porque não quer?

A mãe acariciou com as pontas dos dedos seus cabelinhos louros.

– Ele vai falar amor. Só está triste. Eu vou conversar com ele agora. Você vai ver que depois ele virá falar com você de novo. E vão brincar juntos, como sempre fizeram.

– Posso ir também?

– Fique aqui bebê. Mamãe prefere falar com seu irmão a sós. Pra ele não se sentir tímido, tá?! Se Amy acordar, aí você pode ir lá fora me avisar.

– Tá. E você vai querer ver o desenho que estou colorindo, mãezinha?

– Mamãe vai querer ver, sim. Eu já volto amor. Não vá mexer em nada, hein?!

Ela se afastou do menino e passou pela porta da frente. Olhou de um lado para o outro na varanda, avistando apenas Caramelo – o outro cão – sentado perto de uma árvore de tronco grosso.

Desceu os degraus seguindo para lá. Viu Caramelo mexer uma patinha como que querendo tocar em algo, ou alguém. Aumentou o passo, e, ao dar a volta em torno do tronco, encontrou Enrico sentado abraçado aos próprios aos joelhos.

Caramelo se afastou com sua chegada, refazendo o caminho de volta a varanda da casa. Rosalie teve a impressão de ele estar cuidando de seu filho e, de repente, se sentiu grata com isso.

Apesar de ainda ter medo dos cachorros, Enrico já não fugia deles. Apenas não se sentia seguro para tocá-los.

– Oi, filho. Mamãe pode sentar aí com você?

O menino não olhou para ela, apenas afirmou com um leve movimentar de cabeça.

Rosalie se abaixou devagar, sentando bem ao dele, encostada ao tronco da árvore. Em seguida o abraçou bem coladinho a seu corpo.

– Está assim por causa do violino, não é? Eu vi que você olhava pela janela do carro pra loja de música quando passamos por ela hoje. Eu vou comprar outro violino pra você, filho. Mamãe prometeu e vai cumprir.

– Mamãe – Enrico falou depois de muito tempo em silêncio. A mãe suspirou aliviada por voltar ouvir sua voz.

– Oi, amor?

– Você vai gostar mais do Noah e da Amy que de mim? – a tristeza em seu rostinho era nítida, assim como a preocupação que não deveria tão cedo fazer parte de sua vida.

A mãe foi pega de surpresa. Nunca imaginou que um dia fosse lhe fazer tal pergunta.

– Porque está me perguntando isso filho? – Beijou os cabelos castanhos dele demoradamente.

– Porque Noah e Amy se parecem mais com você...

– Nada no mundo me fará gostar menos de você, Enrico. Você é meu filho. Cresceu dentro de mim. Eu já o amava e protegia mesmo quando era só uma sementinha. – Ela puxou o menino gentilmente para o colo, envolvendo os braços em torno dele, ninando-o como se fosse um bebê. – O dia em que você nasceu, assim como o dia em que Noah e Amy também nasceram, foi o dia mais feliz de minha vida. Essas três datas jamais deixaram de ser importantes pra mim. E a melhor de minha vida. Você foi o primeiro a me dar forças pra lutar. Eu amo cada pedacinho seu filho. Amo a cor de seus cabelos – revelou acariciando os cabelos castanhos do menino. – Eles são lindos do jeitinho que são.

Enrico soluçou. – Mas são parecidos com os dele... – interrompeu em desespero.

Rosalie o apertou ainda mais no seu abraço. Beijando seu pescoço varias vezes seguidas.

– Meu amor, eu amo a cor de seus cabelos. A cor de seus olhinhos. – Ela tocou a ponta do dedo nos cílios de Enrico. – E esses cílios lindos. Sua orelhinha. Esse narizinho. Mamãe ama tudo em você. Você é uma obra prima que Deus desenhou pra mamãe – Depois de alguns segundos de silêncio voltou a falar: – E quem foi que disse que você não se parece comigo? Você gosta de sorvete de pistache, a mamãe também. Fica bicudo igual à mamãe quando está com raiva. Gosta de dormir enrolando o cabelo no dedinho. Quando eu era pequena fazia exatamente a mesma coisa com o meu cabelo. Gostamos do mesmo tipo de doce. E morremos de medo de aranhas. Claro que essa última ninguém precisa ficar sabendo. Apenas nós dois.

Os olhinhos do menino ganharam um pouco de brilho, motivado por suas palavras de amor.

– Ainda duvida de que não se parece comigo?

Enrico negou com a cabeça, e lhe sorriu.

– E é verdade que ama tudinho?

– Absolutamente tudo. Cada pedacinho do meu bebê. Até o popô e o pintinho.

Enrico gargalhou. – Para com isso, mamãe.

– Achou graça né, seu safadinho!

Os bracinhos foram enlaçados em torno do pescoço dela.

– Eu te amo, mamãe.

– Eu te amo, Enrico. – Ela afastou os cabelos da testa dele e plantou um beijo no local. – Mamãe ama tudo em você, filho. Nunca, nunca se esqueça disso.

– Tá bom – o menino respondeu encostando as duas mãos pequenas no rosto dela, voltando abrir um sorriso.

Rosalie o cobriu de beijos, e gargalhou com ele em seus braços.

Quando voltaram olhar pra frente, Emmett e Noah estavam lá, de mãos dadas, sorrindo pra eles.

– Vamos almoçar – Emmett convidou.

Ela pôs Enrico de pé, em seguida, também se levantou. O garoto lhe segurou a mão, e foram juntos ao encontro deles.

Os dois cachorros estavam na varanda esperando por eles.

Noah soltou da mão de Emmett e Enrico a da mãe, correndo juntos para alcançar os degraus.

Emmett e Rosalie se olharam e novamente voltaram a olhar os meninos. Depois para suas mãos bem próximas. Elas roçaram uma na outra. Aquilo bastou para que ela se afastasse. Emmett ficou observando ela subir os degraus com os meninos ao seu lado. Eles pulavam, segurando na roupa dela, um de cada lado.

– Agora o Rico tá brincando, mãezinha – Noah se lembrou do que ela dissera antes. Rosalie sorriu para eles, lhes estendendo as mãos.

Emmett aumentou o passo, passando por eles, indo abrir a porta de tela. E permaneceu segurando até os três passassem por ela.

[...]

Mais tarde, após terem deixado toda a cozinha em ordem, Lena pegou sua cesta de tricô com agulhas e linha de lã e foi sentar-se na varanda. Tirando um tempo para trabalhar em uma peça de roupa infantil.

Embaixo da mesma árvore onde encontrou Enrico mais cedo, Rosalie forrou o chão de terra com uma manta vermelha, e os brinquedos das crianças foram posto em cima dela.

Jujuba e Caramelo se acomodaram ao redor da manta, deitados com as patinhas dianteiras esticadas pra frente.

Amy olhava pra eles, balbuciando palavras que ninguém entendia. E sacudia as mãozinhas, gostando de ter os cachorros por perto. Em um segundo de distração da mãe, caminhou em passinhos vacilantes para mais perto, tentando subir em Caramelo. Rosalie percebeu a tempo e a pegou no colo. Amy não gostou, por isso acabou chorando. O que durou apenas alguns segundos já que os irmãos começaram fazer gracinhas a sua frente. Ela abriu o sorriso de poucos dentinhos, tendo ainda as bochechas molhadas de lágrimas.

Um cavalo relinchou perto dali, atraindo atenção de Rosalie. A poucos metros de onde estava com as crianças avistou Emmett sem camisa e, para sua surpresa, usava um chapéu de cowboy. Teve que admitir o como estava sexy.

Seu corpo e mente virou uma confusão de sentimentos.

Emmett não era apenas bonito por fora, não era apenas uma casca. Sua beleza interior era ainda maior que a de fora. Seus sentimentos eram nobres e o coração grandioso.

Ele trazia pelas rédeas um lindo cavalo negro. Rosalie não sabia dizer que tipo de raça. Tudo que sabia era que se tratava de um lindo animal.

O cavalo voltou a relinchar e, dessa vez, as crianças também olharam na mesma direção.

Emmett chegou um pouco mais perto, mantendo uma distância segura entre as patas do animal e as crianças.

Rosalie se pôs de pé, mantendo os olhos nele. Não pôde deixar de notar os ombros levemente bronzeados brilhando sob a luz do sol. O azul de seus olhos levando-a imaginar uma lagoa cristalina no meio das montanhas. Pensou também em seu próprio pai. E no filho, Noah, que herdara o mesmo tom de azul no olhar. Mas os de Emmett, no entanto, lhe transmitia um sentimento diferente. Desejava poder desvendar toda sua vida; seus maiores segredos, seus medos. Da mesma forma que os dela também o inquietavam.

Um grito de Amy, de pura empolgação ao ver tão grande e belo animal, atraiu atenção de todos em volta. Motivando um sorriso no rosto de Emmett. Rosalie se deixou levar pela beleza e verdade que o sorriso de covinhas lhe transmitia. De repente, estava também sorrindo.

– Os garotos gostam de cavalos? – ele sondou. O timbre perfeito de sua voz, causando estragos no coração de Rosalie.

– Que tipo de cavalo é esse?

– É um corcel negro. É o meu melhor cavalo. Tenho verdadeira adoração por ele. Era muito arredio quando o adquirir, mas aos poucos foi melhorando. – Ele acariciou entre os olhos do animal com cuidado. – Hoje ele sabe que somos amigos. Não é garoto? – sussurrou.

– É um animal muito bonito. Tem nome?

– Noturno – respondeu.

– Combina com ele – disse.

Ela não pôde evitar gostar da forma como o viu tocar a aba do chapéu com o indicador.

– Você ainda não me respondeu se os meninos gostam de cavalos?

– Eles nunca chegaram tão perto de um bicho desses quanto agora.

– Sério?

– Como poderiam.

Não foi preciso mais explicações, Emmett entendera perfeitamente onde ela queria chegar com aquela resposta.

– Eles podem chegar mais perto para acariciá-lo?

– Se me garantir que não oferece risco.

– Jamais colocaria nenhum de vocês em risco.

Ela sentiu a verdade daquela frase empurrando as barreiras do medo em seu coração de mãe. Olhou para os meninos e novamente para Emmett.

– Noah, Enrico, venham até aqui – ele mesmo foi quem chamou as crianças, após o olhar de aceitação dela. – Você pode pegar a Amy? – perguntou pra Rosalie.

Ela assentiu e foi buscar a filha sobre a manta. Os meninos correram para perto de Emmett. Ela se virou a tempo de vê-lo com Noah no colo, segurando para que seu filho acariciasse o animal. Noah sorriu enquanto sua mão pequenina deslizava sobre o corcel negro, passando pela ganacha, crina e pescoço.

– Mãezinha, olha! – o menino gritou, entusiasmado, adorando aquele contato com a natureza. – Olha, olha mãezinha. Olha.

– Mamãe está olhando, amor – respondeu, com um sorriso largo.

Emmett piscou um olho pra ela. Em seguida, pôs Noah de volta no chão. Pegou Enrico e deixou que fizesse o mesmo; acariciando o animal com a mão pequena.

Enrico olhou para a mãe e sorriu, satisfeito. A mãe piscou um olho, gostando da reação dele.

Noah correu para o seu lado. Estendendo a mãozinha puxando sua roupa.

– Mãezinha. Mãezinha. Mãezinha. Eu posso montar?

Os olhos da mãe se arregalaram com tal pedido. As palavras a seguir escaparam automaticamente.

– Sozinho? Nunca.

– Não, mãezinha, com o Emmett.

Ela ainda olhava o menino, apavorada com a ideia de deixá-lo montar a cavalo.

– Está tudo bem, Rose. Estarei com ele.

Ela negou automaticamente com a cabeça. – Não, Emmett, é muito perigoso.

– Juro que irei segurá-lo como se fosse meu.

Rosalie olhou indecisa de Noah para Emmett e novamente para Noah.

– Tudo bem! – O garoto vibrou, pulando sem sair do lugar. – Mas tem que obedecer, Noah. Não me faça morrer do coração.

– Eu obedeço, mãezinha. Obedeço muito.

– Certo.

Noah correu, gritando um obrigado a mãe.

– Eu posso também, mamãe? – Enrico perguntou, parando ao seu lado.

– Não tem medo filho? – pediu. Estava surpresa com o pedido dele.

– Não.

– Mas você tem medo de cachorro.

– Porque o cachorro fica pulando em mim.

– Ele faz isso porque quer ser seu amigo.

– Então eu posso também montar a cavalo?

– Pergunta pro Emmett.

Enrico abriu um sorriso de orelha a orelha. – Eu posso montar também, Emmett? Posso?

– Pode. Só que faremos o seguinte: um de cada vez. Não quero deixar a mãe de vocês ainda mais preocupada.

– Tá bom.

Rosalie chegou mais perto do cavalo, segurando na mãozinha de Amy para que também pudesse tocá-lo assim como os meninos fizeram. Empolgada, deu vários gritinhos, prendendo os dedinhos roliços na crina do animal.

O som da gargalhada de Emmett se misturou a dos meninos.

Ela tentava fazer Amy soltar a crina, sem muito sucesso. Mas bastou o corcel sacudir para ela largar imediatamente, agarrando-se ao pescoço da mãe assustada. Dessa vez Rosalie também teve que rir.

– Tá legal! – disse Emmett. E logo sem seguida se posicionou para montar o cavalo. Rosalie e os meninos se afastaram.

Ele chamou por Noah, e quando o menino chegou perto o puxou para cima colocando-o sentado a sua frente. Prendendo seu corpo pequeno com o braço, usando o outro para sustentar as rédeas.

– Fique quietinho filho – a mãe avisou, preocupada.

– Tá bom, mãezinha – Noah respondeu animado.

Rosalie o viu virar o rostinho e sorri para Emmett.

O cavalo começou a trotar para longe. Os cabelos louros de Noah eram bagunçados pelo vento. A expressão de felicidade em seu rostinho era radiante. Os músculos no braço direito de Emmett tencionavam segurando as rédeas do cavalo. O outro se mantinha firme em volta do corpo pequenino do menino.

Ao lado da mãe, Enrico estava inquieto esperando por sua vez de montar a cavalo.

Deram duas voltas a uma distância que os olhos de Rosalie pudessem alcançá-los. Quando voltaram, o corcel foi diminuindo o passo até parar.

– Irraaaa! – gritou Noah. Todos gargalharam. – Uhullll, isso é muito legal! – continuava comemorando em uma euforia danada.

– Você gostou filho? – a mãe estava agora radiante, a felicidade do filho se refletindo nela.

Emmett não conseguia parar de olhá-la, ficava ainda mais atraente quando estava feliz.

– Eu quero ir de novo, mãezinha – Noah voltou a falar com a mesma animação. – Quero de novo no cavalinho pocotó.

– Não filho. Agora é a vez do seu irmão. Enrico também quer dar uma volta a cavalo.

– E depois do Rico? Pode? Pode? Pode mãezinha?

– Vai depender de Emmett.

Enquanto ela falava, Emmett pôs Noah no chão. Pegando Enrico, quando esse se aproximou.

– Cuidado! – Rosalie gritou quando os viu se afastar, da mesma forma que fizera antes com Noah.

Os cabelos de Enrico estavam bagunçando com o vento. Precisou passar a mão na testa quando alguns fios entraram em seus olhinhos. No começo parecia tenso, mas, à medida que o cavalo trotava pra longe foi gostando da sensação que cavalgar lhe causava. Um sorriso enorme chegou aos lábios do menino. E então virou o rostinho olhando para o homem que o segurava, e recebeu um beijo na cabeça.

Rosalie não parava de olhar, ainda que de longe.

Quando retornaram, seu filho ainda sorria. Emmett o pôs de volta ao chão e o menino lhe disse um obrigado, radiante.

– Agora é sua vez – lançou a oferta a Rosalie.

– O quê? Não posso, tenho que ficar com a Amy.

– É rapidinho. Os meninos ficam com ela. E minha avó está bem ali, de olho neles.

– Eu não sei...

– Vai mãezinha. É muito legal! – Noah incentivou.

– É legal filho?!

– Emmett segura você, mãezinha. Não tenha medo. Ele tem muita força, que nem um super-herói – E Noah começou mostrar os músculos dos bracinhos enquanto fazia pose, sem saber que a mãe havia ficado envergonhada.

Como que para encorajá-la Emmett deu uma piscadela. – Noah está certo. Eu seguro você.

Sentiu-se estranha, imaginando o braço forte de Emmett em volta de seu corpo.

– Tudo bem, eu vou. Mas, sentem-se os dois aqui com a Amy e não a deixem sozinha por nada no mundo.

– Aham – os dois concordaram indo sentar na manta com a irmãzinha.

Emmett a ajudou montar em Noturno, depois se posicionou atrás dela.

– Tenha cuidado, mamãe – pediu Enrico.

– Cuide da minha mãezinha direito, viu? – esse foi Noah dando seu aviso.

– Deixa comigo, campeão! – Emmett respondeu de volta, passando o braço esquerdo ao redor da cintura fina. Encostando o rosto ao ouvido de Rosalie, aproveitando para sentir o perfume que exalava. Seu cheiro era de frescor, cheirava a xampu e maçãs. Talvez maçãs fosse apenas coisa de sua cabeça. O fato é que gostou tanto desse contato que poderia permanecer assim para sempre; sentindo o perfume dela.

Ela se encolheu sentindo a respiração morna muito perto de seu rosto. Os braços dele roçando nos seus. Também havia gostado dessa proximidade, mas não podia negar que sentia um pouco de medo.

– Confie em mim – ele pronunciou perto demais. Para, no minuto seguinte, puxar as rédeas e o cavalo começar a trotar para longe.

Não conseguia pensar em nada mais a não ser o corpo dela tão próximo ao seu. Havia estado tão perto na noite anterior, mas, diferente de agora, não teve consciência de tal proximidade quando tudo ocorreu.

Desconfortável, Rosalie também não conseguia pensar na cavalgada. Pensava apenas naquele peito forte, desnudo, colado a suas costas. No braço viril que apertava sua cintura.

Atreveu-se a olhar pra ele, e o encontrou olhando para ela. Sua reação foi voltar olhar pra frente, como se estivesse anestesiada. Podia jurar que ele havia beijado seus cabelos, que esvoaçavam com o vento, bem de leve.

Após duas voltas retornaram para onde as crianças estavam. Emmett saltou e em seguida a ajudou, segurando em sua cintura com as duas mãos. Ficando frente a frente. Perto demais. Respiração acelerada. Olhar ansioso, desviando dos lábios um do outro.

Umedeceu os lábios, inconscientemente. Desejando beijá-la como nunca antes havia desejado beijar alguém. Ansiando sentir a maciez dos lábios dela nos seus, o gosto.

Rosalie estava dividida entre a vontade de se deixar beijar, sem violência, apenas por desejo, ou correr dali evitando que esse tipo de coisa florescesse. Além disso, estava com a sensação terrível de que, se ele se aproximasse muito, iria colocar a cabeça em seu peito, fechar os olhos e apenas ficar lá. E estava certa de que isso não podia acontecer.

O barulho de pneus prensando o cascalho foi se tornando cada vez mais próximo. O carro parou a poucos metros de onde estavam. As portas foram abertas trazendo gritos e vozes de crianças à tona.

Os cachorros latiram na varanda.

Emmett se afastou imediatamente de Rosalie. Ela aproveitou para voltar de fininho para junto dos filhos. Mas, ao ver Logan e Abby chegar, Enrico e Noah correram ao encontro dos amigos.

Em pouco tempo a frente da casa se tornou uma bagunça, com crianças e cachorros correndo de um lado para o outro brincando de pega-pega. Risos e gritos de felicidade se misturando ao som de latidos.

Notas finais
Meu homenzinho teve medo de a mãe deixar de amá-lo por ele não ser tão parecido com ela quanto os outros dois. Mas não precisa necessariamente ter os mesmo traços físicos pra ser parecido, não é verdade?! Os trejeitos, as atitudes e o caráter também contam. E nisso ele não se parece em nada com o traste. Sobre o casal, ai... fico tão sonhadora. Dio. Se puder, adoraria vê-los nos comentários. Beijo, beijo Sill