Um Lugar Para Ficar

7 Capítulo 07 – Madrugada Estranha


Notas iniciais
Oi, gente. Dessa vez não demorei tanto o/ Esse vai especialmente pra Laura Moreira Galvão e Akemi Chang, que fizeram recomendações lindas. Muito, muito, muito obrigada meninas. Ameii demais!!! A todos uma boa leitura :)

Para surpresa de Rosalie, os momentos na cozinha, durante o preparo da mamadeira de sua filha caçula, foram bastante agradáveis. A conversa fluiu naturalmente entre a família McCarty, nenhum deles se mostrou incomodado com sua presença, tampouco deixou que se sentisse de fora.

Foram muitas ás vezes que percebeu Lena demonstrar que queria que ela e seu neto fossem muito mais que bons amigos.

E, então, quando a mamadeira ficou pronta foi buscar a filha com Emmett. Pediu licença a todos e foi sentar-se com ela na sala.

As crianças estavam distraídas, com vários brinquedos espalhados pelo chão.

Vê-los brincando sem demonstrar medo ou ansiedade aquecia seu coração de mãe. Raramente seus filhos tinham a chance de estar na companhia de outras crianças, salvo os momentos em que estavam na escola. De se divertirem como estavam fazendo agora. E pensar que isso era apenas o começo.

Foi observando essa cena que jurou a si mesma que Royce nunca mais voltaria pôr os olhos neles. Seus filhos tinham o direito de serem crianças normais. De correr de pés no chão. De terem amigos. De crescerem livres. De conhecerem a verdadeira felicidade.

Segurou a mão mãozinha de Amy entre a sua e beijou algumas vezes, aproveitando também para sentir seu cheirinho de bebê.

– Você e seus irmãos serão felizes, eu prometo... – sussurrou.

Assim que Abby percebeu sua presença se pôs de pé. Recolheu um brinquedinho de borracha em meio a todos os outros brinquedos espalhados e foi até ela com ele na mão.

– Eu quero dar esse brinquedinho pra Amy – disse.

– Não precisa querida. São seus brinquedos, e você já a presenteou com um. Olha – Rosalie pegou a bonequinha que estava encostada a sua perna sobre o sofá, enquanto Amy mamava.

– Mas eu queria que ela ficasse com esse também.

– Você é um amorzinho Abby. Bondade deve ser de família – sussurrou. – Mas são seus brinquedos, lindinha. Você realmente não precisa fazer isso.

– Eu quero que ela fique com esse também – insistiu.

– Não posso aceitar Abby – esclareceu Rosalie, carinhosamente passando uma mecha dos cabelos da garotinha para detrás da pequena orelha.

– O meu irmão deu um carrinho pro Enrico e outro por Noah...

– Deu? – sondou curiosa, antes que Abby pudesse terminar de falar.

– Ele deu, sim.

– Pessoal, o jantar já está pronto – dizia Kate, chegando à sala, sorridente. Mas logo parou pensando haver algo estranho acontecendo.

Enrico e Noah estavam de pé diante da mãe, de cabeças baixas, os cabelos caindo nos olhos, como se estivessem envergonhados de algo que havia feito. Cada um tinha um carrinho de corrida na mão, e os dedinhos se mexiam ao redor do brinquedo.

– Não podemos aceitar... – dizia Rose – Já estamos aceitando coisas demais.

Em silêncio, os dois se viraram ficando de frente para Logan. E estenderam as mãozinhas quase que ao mesmo tempo, devolvendo os carrinhos. Noah encolhia os ombros, entristecido.

– Não podemos aceitar... – repetiram aos sussurros a mesma frase que a mãe havia usado para falar com eles.

– O que houve? – pediu Kate, seus olhos fixos na cena.

Logan lançou um olhar à mãe.

– Eles não podem ficar com os carrinhos – esclareceu. – A mãe deles disse que eles podem aceitar.

Kate observou o filho receber os brinquedos de volta. E, então, olhou para Rosalie.

– Já estamos aceitando coisas demais... – ela esclareceu, constrangida.

– Entendo que pense assim. Mas, também sei que foi obrigada a deixar muita coisa pra trás. Não se sinta mal... Não queremos te constranger, longe disso. São crianças, e se deram tão bem. E quer saber, eu realmente não me importo que dividam o que tem com outras crianças. Ainda mais se essas crianças forem seus filhos. Sei que acabou de chegar, mas, para minha família e eu, é como se nós conhecêssemos há anos.

Rosalie ficou olhando os filhos, entristecidos, repensando sua decisão.

– Tudo bem, eu vou permitir que fiquem com os carrinhos. Mas, apenas dessa vez.

– Obá! – as quatro crianças vibraram. Jujuba e Caramelo latiram.

Rosalie se surpreendeu com o entusiasmo nos filhos de Kate, era como se estivessem ganhando e não o contrario.

– Ok, problema resolvido – disse Kate, sorrindo abertamente. – Agora todo mundo correndo para lavar as mãos. O jantar já vai ser servido.

Os filhos dela correram para a cozinha, Logan um pouco mais a frente da irmã, entusiasmados. Mas os de Rosalie permaneceram onde estavam.

– Vocês também – voltou a dizer, batendo palmas. – Vamos lá. Quero todo mundo na cozinha.

Enrico e Noah olharam para a mãe, buscando sua opinião.

– Tudo bem. Podem ir – ela concordou, movendo a cabeça com um sim.

Os dois irmãos saíram correndo pelo mesmo caminho que Logan e Abby haviam feito segundos atrás.

– Você também, Rosalie.

– Eu chego lá em um minuto. Vou só pôr a Amy na cama, ela acabou dormindo enquanto mamava.

– Tudo bem. Estaremos te esperando.

Deixaram a sala ao mesmo tempo, porém, cada uma seguiu por um lado diferente da casa. Depois de deixar a filha na cama, cercada por travesseiros, foi se juntar a eles na cozinha.

Surpreendeu-se ao chegar lá e encontrar Enrico e Noah já sentados à mesa. Emmett os servia da mesma forma que Garrett servia o prato de seus filhos. A única diferença era que Logan e Abby palpitavam sobre o que queriam, os seus não.

A mesa farta foi outra coisa que chamou sua atenção, tinha de tudo um pouco. Muito poucas vezes havia visto algo assim. Parecia um banquete.

Sentiu uma leve angustia pressionar o peito. Seus olhos chegaram a lacrimejar. Apesar de estar em um bom momento, a cena mexia demais com seu emocional. Há muito tempo não presenciava algo assim; uma família reunida à mesa sem gritos, choro, ameaças ou brigas.

Um pequeno sorriso alcançou seus lábios, ao observar seus filhos se deliciando com a macarronada com almondegas – um de seus pratos favoritos – que Lena preparou com tanto carinho. Os olhinhos, de tonalidades diferentes, brilhavam com a mesma intensidade.

Assistiu Emmett pegar um guardanapo e usar para limpar o queixo de Noah, sujo de molho de tomate, e seu pequeno abrir um sorriso gigantesco exibindo covinhas idênticas ao do homem a sua frente.

Não podia negar que tudo aquilo mexia muito com ela. Despertava sensações e emoções há muito adormecidas.

Foi então que a voz de Lena chamou sua atenção.

– Meu neto daria um ótimo pai. É uma pena nunca ter se apaixonado de verdade. Não houve uma mulher que o fizesse enlouquecer de amor. Mas isso vai mudar... – sussurrou de maneira conspiratória.

Rosalie tinha um olhar constrangido direcionado a ela.

– Venha aqui querida. Eu reservei um lugar para você.

Segurando Rosalie pelo braço Lena a conduziu pela cozinha parando ao lado de Emmett, onde havia uma cadeira vazia, localizada de frente para Enrico e Noah.

– Obrigada – agradeceu, embora ainda constrangida, sentando-se na cadeira. Virando o rosto encontrou o olhar de Emmett focado no seu. Suas bochechas queimaram. E tudo o que conseguiu fazer foi passar a mão nos cabelos empurrando uma mecha para detrás da orelha, em seguida, abaixou o olhar.

– Eles parecem gostar de macarronada com almondegas – ele comentou.

– Ah, sim, eles adoram – ela concordou, olhando os filhos com orgulho. E ao olhar novamente para Emmett, o encontrou sorrindo. As covinhas salientes fizeram seu coração se agitar de maneira estranha. Rapidamente desviou o olhar. – Limpa a boquinha filho – disse a Noah.

O menino pegou o guardanapo e passou na boca de um jeito todo atrapalhado.

– Assim tá bom, mãezinha?

– Mais um pouquinho aqui, bebê – instruiu, encostando o dedo na própria boca para que o filho entendesse onde deveria limpar.

– E agora?

– Está perfeito amor.

Noah sorriu, ainda esfregando o guardanapo ao redor da boca.

De canto de olhou, observou Emmett e percebeu que ele ainda mantinha os olhos fixos nela. Lena logo percebeu na maneira como o neto a olhava que existia algo além de mera amizade em seus sentimentos em relação à Rosalie.

– Mamãe nós podemos jogar vídeo game depois? – Logan pediu a mãe, no outro lado da mesa.

– Pode. Mas só um pouquinho. Depois, cama.

– Legal! – o garoto comemorou, erguendo a mão que segurava uma espiga de milho no ar.

Emmett segurou os talheres, olhou um dos refratários, sugerindo batatas assadas ao prato de Rosalie.

– Sim, por favor. Obrigada.

Ela olhou para ele com um pequeno sorriso nos lábios, abaixando o olhar logo em seguida. Ele disfarçou um sorriso se ocupado em servir o prato dela.

Rosalie ainda estava um pouco anestesiada com tanta bondade e gentileza da parte daquela família. Apesar disso, restava uma sensação muito boa. De amparo.

Após o jantar as crianças foram escovar os dentes, depois correram para jogar vídeo game na sala.

Garrett e Emmett ajudaram as mulheres na limpeza e organização da cozinha antes de se retirarem. Pouco tempo depois, Lena disse que estava cansada. Tinha passado mal mais cedo, agora se sentia fadigada. Pediu licença a Rosalie, desejou boa-noite a todos e foi para seu quarto.

Kate ajeitou mais algumas coisas na cozinha enquanto Rosalie colocava suas roupas e a das crianças na maquina para lavar.

Quando chegou a sala, o casal estava aninhado no sofá maior vendo as crianças jogarem vídeo game. Às vezes um deles reclamava de algo no jogo, e o outro dizia que estava chegando sua vez de jogar.

Essa era apenas mais uma das coisas que Rosalie jamais teve com Royce: carinho, afago e cuidado. Para ele apenas sexo importava.

Parada ao lado da janela, apreciando a leve brisa noturna e o som da vida na mata, ela assistiu Garrett afagar os cabelos de Kate, logo depois plantar um beijo na cabeça dela. Kate afagava a todo instante o peito do marido sobre a camisa de botões, distraída.

Inevitavelmente, Rosalie se sentiu mal. Como se estivesse invadindo a privacidade deles. Virou-se de costas buscando concentrar-se na paisagem encoberta pelas sombras da noite. Ainda assim não foi o bastante.

Discretamente caminhou até a porta da frente e saiu para a varanda. O ar puro e fresco encheu seus pulmões. A brisa leve soprou os fios dourados de seus cabelos lhe trazendo a melhor das sensações. Grilos exercitavam sua cantoria ocultos nas sombras em meio à vegetação.

Pensou ser bom ficar ali um pouco. Acomodou-se em um banco de madeira trabalhada e ficou observando a noite. Nunca antes havia visto um céu tão estralado. Suspirou, pensando o quão horrível era sua vida antes de chegar ali. E tinha plena consciência de que era apenas o começo.

– Oi – a voz de Emmett soou grave em seus ouvidos, lhe causando um sobressalto. – Desculpe, eu não queria te assustar.

Rosalie virou o corpo, inclinando um pouco a cabeça, de maneira que pudesse vê-lo melhor.

– Está tudo bem – ela disse.

– Posso me sentar aí com você?

Antes de respondê-lo, ela corrigiu a postura no banco.

– Claro.

Manteve o olhar fixo no gramado diante da grande casa. Fingindo não se abalar com a proximidade e o cheiro que ele exalava. Com ele tão próximo assim, e a brisa soprando seu perfume, ficava difícil pensar em outra coisa.

– Está gostoso aqui fora – ele comentou casualmente.

– É, está sim. Como soube que estava aqui? – pediu.

– Minha irmã disse que você tinha saído. Só queria ter certeza de que não tinha se afastado. Quero dizer, não é seguro andar por aí à noite, principalmente quando não se conhecesse a região. Alguma coisa a preocupa?

– Na verdade, não. Apenas apreciando isso... – mexeu a mão indicando tudo a sua volta. – Toda essa tranquilidade me faz bem. Há muito tempo não desfrutava disso. A minha vida com Royce sempre foi um show de horrores. Desde que cruzamos a porta da igreja, não tive paz um único dia sequer.

Emmett sentiu um leve pesar no tom de voz dela. Outra vez sentiu a necessidade de reconfortá-la. Sorrateiramente sua grande mão deslizou sobre o banco até encostar a dela. Mas rapidamente Rosalie recolheu a sua, descansando no colo.

– É... – ela murmurou sem saber como agir depois daquilo. – Acho melhor eu ir pôr garotos na cama. Foi um longo dia... Foi cansativo para todos nós – olhou para ele brevemente – Principalmente para você, deveria descansar um pouco.

Ela ficou de pé.

– Quer ajuda com as crianças? – sondou, desesperadamente desejando ouvir um sim.

– Não é preciso. Boa noite, Emmett.

Ele parecia um pouco decepcionado quando também ficou de pé.

– Boa noite, Rosalie.

Permaneceu parado observando-a entrar novamente na casa. De repente estar ali fora já não era mais tão interessante assim.

Chegando a sala, Rosalie se deparou com uma cena adorável. Noah e Abby dormiam dividindo o mesmo espaço no sofá menor.

Do outro lado, Enrico e Logan assistiam tevê, deitados no tapete com almofadas embaixo da cabeça. O sono que sentiam estava estampado em seus rostos.

– Que gracinha, não é?! – comentou Kate, sobre Noah e Abby estarem dormindo no mesmo sofá.

Rosalie sorriu pra ela em resposta.

– Parece que já são grandes amigos.

– Pode apostar que sim – disse Kate.

– Eu vou levá-lo pra cama agora.

Kate moveu a cabeça concordando, e logo depois olhou para o marido.

– Amor leva a Abby pra cama dela também.

Rosalie se curvou buscando a melhor forma de pegar o filho adormecido no colo. A dor que sentiu nas costas ao fazer isso à fez apertar os dentes. Noah gemeu em resposta quando ela o retirou do sofá.

– Enrico? – ela chamou pelo outro filho. – Vem dormir com a mamãe. Está morrendo de sono amor...

O garotinho se pôs de pé cambaleante.

– Dá boa noite ao pessoal, filho.

– Boa noite – disse ele, com a voz arrastada.

– Boa noite – Kate o marido e o filho responderam.

Mesmo com Noah nos braços conseguiu apoiar uma das mãos no ombro de Enrico quando ele perdeu o equilibrio.

Ainda pôde ver Garrett pegar a filha no colo. Kate segurar na mão de Logan, e desligar a tevê logo em seguida. Todos seguiram pelo mesmo corredor que levava aos quartos, porém, entraram em portas diferentes.

Como estavam sem pijama, a única coisa que fez foi retirar seus chinelinhos, antes de colocá-los na cama pra dormir. Cobriu Noah já adormecido e beijou seu rostinho. Fez o mesmo com Enrico, embora ele ainda estivesse acordado.

– Boa noite, filho.

– Boa noite, mamãe.

Ela se afastou pegando a nécessaire, e foi ao banheiro escovar os dentes. Ao retornar se desfez do sutiã e do short. Assim como os garotos estava também sem pijama e não tinha a menor ideia de quando poderia estar comprando outros. O dinheiro que tinha era muito pouco, e apenas ainda o tinha porque Emmett não permitiu que pagasse por nada durante a viagem até a fazenda.

Deitou-se ao lado de Amy, com um dos travesseiros que antes usou para cercá-la na cama. Na calmaria do que havia sido a noite sequer percebeu o sono chegar.

Acordou poucas horas depois, durante a madrugada, assustada, ao ouvir murmúrios de homem, como se esse sentisse dor. Depois de um tempo ouviu murmúrios femininos, no corredor, demonstrando não querer acordar os que dormiam.

Saiu da cama cautelosamente, andando na ponta dos pés, evitando acordar as crianças, nem chamar atenção para o quarto em que estava.

Chegou perto da porta e encostou o ouvido a ela tentando ouvir o que diziam.

– Os terrores noturnos voltaram... Eu não posso acreditar que isso esteja acontecendo outra vez. Ele parecia tão bem antes da viagem – reconheceu a voz de Lena, mesmo que ela ainda sussurrasse.

– Eu sabia. Toda essa história mexeu muito com ele... Eu vou ficar e fazer companhia um pouco. Pode ir se deitar vovó.

– Como quer me deite se meu neto está tendo uma daquelas noites... Mesmo depois de anos ele ainda sofre com a culpa e as malditas lembranças.

O que estaria acontecendo? Do que falavam? , essas perguntas martelavam na mente de Rosalie.

– Vai se deitar vovó – Kate continuava a falar. – Juro que te chamo se precisar. A senhora precisa descansar. Não se esqueça de que se sentiu mal mais cedo.

– Está bem... Mas saiba que não estou satisfeita com isso.

As vozes diminuíram até que restou apenas o som que se assemelhava muito a sofrimento.

Não queria acreditar, mas tinha certeza de que algo ruim acontecia ao homem que a resgatou em uma noite que pensava não ter saída. Doía pensar que por trás daquele sorriso de criança sapeca estava oculto um sofrimento de longa data.

Sentiu-se mal com isso. Não era a única ali com problemas. Desejou ir até lá e trocar de lugar com a irmã dele. Cuidar do homem que vinha cuidando dela e de seus filhos. Mas faltou coragem pra isso, e tudo o que fez foi voltar pra cama e deitar-se ao lado das crianças.

Foi difícil voltar a dormir. Pouco tempo depois de ter se deitado sentiu uma pequena mão cutucar suas costelas. Ao abrir os olhos soube que era Noah.

Ele estava sentado entre Enrico e Amy, na cama. A expressão em seu rostinho era a personificação do medo.

– O que foi filho? – estava preocupada, embora sua voz soasse sonolenta.

– Tem um monstro na janela – o menino choramingou assombrado sem querer olhar na direção da janela outra vez.

Rosalie ergueu um pouco o tronco procurando pelo que o assustava.

– Não é um monstro, amor, é só a sombra dos galhos da árvore que chegam à janela.

– É, sim, mãezinha. E ele tava até fazendo uns barulhos...

Ela ergueu a mão acariciando o rostinho assustado do filho. Agora sabia que não eram apenas as sombras projetadas na janela que o assustava. Noah havia escutado o mesmo barulho que ela, de minutos atrás.

– Oh, bebê. Vem deitar aqui com a mãezinha. Vem, meu amor.

Foi preciso sentar para trazê-lo para seu lado sem tocar em Amy.

– Mãezinha, eu tô com medo... – murmurou agarrando-se a ela.

– Eu sei filho – deu um beijinho no rosto dele, em seguida, voltou a se deitar. – Abraça a mãezinha que o medo passa.

– Mamãe... Mãezinha.

Ela aninhou-o sobre o peito fazendo afagos em suas costas.

– Volte a dormir amor. Não tem monstro algum aqui.

– Mas eu ouvi... – ele confidenciou.

– Não foi nada. Agora dorme meu amor.

Os minutos se passaram arrastadamente, e, por fim, Noah voltou a dormir.

Quando a manhã chegou, pássaros pipilavam animados, indo de copa em copa, nas árvores que ainda guardavam o orvalho da noite, ao redor da propriedade.

Dessa vez, acordou com Amy balbuciando coisas que não dava pra compreender. Ao abrir os olhos se deparou com ela sentadinha na cama, os cabelos finos bagunçados, enquanto brincava com a bonequinha de pano que usava para dormir todas as noites.

O peso sobre seu peito a fez recordar da madrugada estranha que teve. Beijou a cabeça de Noah, e, cuidadosamente o levou para repousar no colchão.

– Mamã – Amy gritou.

– Bom dia, bebê. Onde está o Enrico? Cadê o seu irmãozinho?

Deu uma rápida olhada ao redor vindo localizá-lo sentadinho em uma cadeira posicionada de frente a janela. A fraca luz da manhã refletindo em seu corpo.

Tornou olhar a caçula, beijou sua bochecha e se afastou em seguida. Mas Amy não aprovou esse afastamento, quando Rosalie menos esperava soltou um gritinho.

– Vai acordar o seu irmão, bebê. Não grita.

– Oah?

– É, vai acordar o Noah.

– Oah – ela gritou outra vez.

– Shhhh... Não, Amy. Não faz isso. Assim você vai acordar não só o seu irmão, mas a casa inteira.

Amy balançou a cabeça negativamente.

– Ão – ela repetiu.

– Não – a mãe afirmou.

– Ico – apontou o dedinho para o irmão sentado diante da janela.

– Sim, mamãe vai falar com ele. Fica quietinha aí para não acordar o Noah.

– Oah mimino.

– Isso. Fica quietinha.

Finalmente conseguiu se afastar sem que Amy voltasse gritar. Ao se aproximar do filho mais velho, percebeu que ele chorava.

– O que houve amor? Porque levantou tão cedo, e porque está chorando? Fala pra mamãe. Fala minha vida, não me deixe assim tão angustiada.

Os lábios do garoto tremeram, enquanto afastava as lágrimas do rosto com as pequenas mãos.

– Acordei com o barulho dos pássaros... – sussurrou.

Rosalie passou a mão nos cabelos castanhos dele.

– Fala pra mamãe, porque estava chorando? Sente falta de algo? Está com medo? Pode falar amor, a mamãe não vai ficar brava.

– Meu violino... – Enrico confessou com certa dificuldade.

A mãe encostou as mãos em suas pernas.

– Levanta, deixa a mamãe sentar aí.

Enrico fez como sugeriu. Após sentar-se, ela o colocou no colo com a cabeça encostada ao seu ombro.

– Porque ele tinha que quebrar meu violino, mamãe?...

Ela passou a mão na testa de Enrico, empurrando os cabelos para o lado, para em seguida plantar um beijo carinhoso no local. Seu corpo pequenino ainda estava morno do calor das cobertas.

– Eu te prometi comprar outro e vou fazer isso. Só te peço que tenha um pouco de paciência, meu amor. Assim que a mamãe conseguir um emprego você terá outro violino. Mesmo que de segunda mão. Eu vou falar com a irmã de Emmett. Talvez ela saiba de alguém que precise de funcionário. Tudo bem amor?

Ainda afagava os cabelos dele. Enrico afirmou com um leve movimentar de cabeça para logo depois passar os braços em volta do pescoço dela.

– Te amo, minha vida – Rosalie murmurou, com os lábios nos cabelos dele.

Ouviu risadinhas, dos outros dois na cama, em seguida a voz de Noah dirigindo-se a ela.

– Mãezinha, e você compra pra mim uma fantasia de super-homem?

Foi preciso inclinar um pouco a cabeça para poder olhá-lo.

– Compro. Mas antes eu preciso conseguir um trabalho.

– Vai demorar?

– Eu não sei filho. Tomara que não, porque senão como vamos viver?! Não podemos abusar da boa vontade dessa família, nem viver na casa deles pra sempre.

­ – Mamã.

– Oi, princesa?

– Dá gagau. Dá?

– O seu pedido a mamãe pode atender agora.

Rosalie se remexeu dando palmadinhas nas coxas de Enrico, convidando-o a levantar.

– Vamos escovar os dentes e dá uma olhada se o pessoal já acordou.

Depois de pegar Amy no colo e as coisas de que precisava, foram ao banheiro no fim do corredor.

A casa ainda estava silenciosa, embora agora soubesse que havia alguém acordado, porque o aroma do café fresco chegava ao seu olfato. O som que os pássaros emitiam, traziam calmaria.

Retornando do banheiro encontraram com Kate e os filhos dela no corredor. Logan e Abby estavam prontos para irem à escola.

Deram bom-dia uns aos outros, e rapidamente foram surpreendidos com a pergunta de Naoh.

– A gente também vai pra escola, mãezinha?

– Hoje não, meu amor. Antes a mamãe precisa saber se tem disponibilidade de vaga. Depois fazer a matricula. Comprar o material...

– Se você quiser posso ver isso pra você – Kate ofereceu. – Depois você terá apenas de ir lá preencher a ficha e assinar.

– Não quero dar mais trabalho a vocês.

– Não é trabalho algum. Sou professora na escola primária. Estou lá todos os dias. Eles nem vão precisar ir de ônibus, posso levá-los juntos com os meus.

– Obrigada, Kate. Sendo assim, acho que vou abusar um pouco mais de sua bondade. Será que você não sabe de alguém que precise de uma funcionária. Pode ser em qualquer coisa. Com três filhos pra criar, não posso me dar ao luxo de escolher. Todo dinheiro que tenho não dá pra quase nada.

Kate abriu um sorriso, levando a mão direita ao ombro de Rosalie.

– Não se preocupe. Hoje mesmo falarei com os pais de alguns alunos. Pode ser que alguém saiba de algo que possa te interessar. Fique tranquila. Vai dar tudo certo.

– Obrigada, novamente.

[...]

– Bom dia, dona Lena – disse Rosalie, no momento que entravam na cozinha.

– Bom dia, vovó.

– Bom dia, minhas queridas. Venham, sentem-se aqui com suas crianças. Já está tudo pronto. Podem comer a vontade, o bolo de milho está uma delicia. O café está fresquinho, acabei de passar.

As crianças se acomodaram à mesa. Rosalie aproveitou para deixar Amy com Enrico e foi preparar a mamadeira pra ela.

Garrett entrou na cozinha desejando bom-dia a todos e foi sentar-se em seu lar à mesa.

Quando a mamadeira ficou pronta, Rosalie sentou-se ao lado dos filhos para amamentar a caçula.

Percebeu que a família não esperou por Emmett para dar início ao café da manhã. Achou realmente estranho que não o esperassem, então, decidiu perguntar.

– Emmett não vem para o café?

Kate e Garrett trocaram olhares, sem saber se deveria falar a respeito. Mas foi a avó quem respondeu.

– Meu neto teve uma noite ruim – sua voz pareceu triste ao falar – Sempre que isso acontece ele sai bem cedo pra cavalgar. Ele sempre busca a solidão das montanhas.

“Uma noite ruim”, pensou recordando o ocorrido durante a madrugada. Apesar de querer muito fazer perguntas, optou pelo silêncio. Talvez não quisessem falar sobre isso com ela. Mas não pôde deixar de se preocupar. Realmente não pôde.

Emmett estava por aí tentando se isolar porque algo o fazia mal. Algo o atormentava. E disso ela e os filhos entendiam bem.

Quando todos se retiraram, Rosalie deixou as crianças na sala assistindo tevê e foi ajudar a avó de Emmett na cozinha. Mas Lena se recusou alegando ela ser igual a seus netos, que não queriam deixar que fizesse nada. Que se preocupavam demais à toa.

Não tendo outra saída deixou que fizesse suas coisas como desejava. Aproveitou para dar uma volta na varanda que rodeava toda a grande casa, e descobriu que na parte de trás havia um balanço colorido e um escorrega.

Mais tarde, mesmo com Lena dizendo que tinha uma pessoa que ajudava com a limpeza da casa, limpou a sala e dois banheiros, o do fim do corredor, o outro perto da sala. Na verdade, estava mesmo era tentando não pensar em Emmett que ainda não tinha retornado.

E então foi sentar-se na varanda, com Amy brincando ao seu redor, desejando que ele voltasse logo.

Enrico e Noah continuavam com os olhos vidrados na tela da tevê. Era a primeira vez que podiam fazer isso sem o medo de Royce entrar pela porta ameaçando-os. E também tinha o medo da mãe em deixar andarem sozinhos por aí. Tinha medo de que se perdessem ou que se machucassem.

Os dois cachorros, Jujuba e Caramelo, estavam lá dentro, deitados aos pés dos meninos. A essa altura, Noah fazia um deles de travesseiro.

Pouco tempo depois de estar ali viu Lena se aproximar com os braços cheios de flores do campo.

– Olha só que lindas – ela comentou. – Vou agora mesmo arrumá-las em um lindo vaso para que possam ficar na sala. Vai ficar bonito, não acha querida?

Rosalie lhe ofereceu um sorriso gentil.

– Aposto que sim. A senhora precisa de ajuda?

– Ah, não. Isso é bobagem, faço até de olhos fechados. Porque não vai dar uma volta por aí, conhecer nossas terras. Eu cuido das crianças pra você.

– Eu realmente prefiro ficar aqui. Não quero me afastar. Os meninos entrariam em pânico se eu fizesse isso. É tudo muito novo pra eles ainda.

– Como quiser querida. Eu vou lá dentro cuidar das minhas flores, mas, se quiser conversar, estarei a sua disposição.

Um minuto de silêncio e Rosalie voltou a falar.

– Dona Lena?

– Parece que a você esqueceu que deve apenas me chamar de Lena – comentou com ar risonho.

– É que assim me parece mais correto.

– Se acha melhor assim. Mas o que iria me perguntar?

– É sobre Emmett. Quando ele sai pra cavalgar costuma demorar tanto assim para voltar?

– Não se preocupe minha querida. Meu neto conhecesse essas terras como ninguém. Já, já ele aparece por aí. Ele costuma fazer isso para esvaziar a mente...

Novamente quis especular o assunto, mas acabou desistindo.

– Tudo bem. Eu vou esperá-lo aqui, então.

Lena assentiu, com ar de quem sabia que estavam interessados um no outro. Mas o que fez a seguir deixou Rosalie sem reação.

– Amy, você quer vir com bisavó?

– Mamã – Amy falou, correndo a passinhos vacilantes para perto da mãe, grudando-se as suas pernas.

– Imagino que isso seja um não.

– Desculpe – pediu Rosalie, constrangida.

– Imagina, Amy é só um bebê. Está certa em querer apenas a mãe dela. Ou o pai... – sussurrou de modo conspiratório.

[...]

Rosalie brincava com Amy, quando avistou Emmett se aproximar da varanda montado a cavalo. Usava jeans e uma camisa de malha azul-escuro, que parecia um pouco suada, e botas de montaria. Não usava chapéu, embora segurasse um.

Um jovem rapaz cujo ainda desconhecia se aproximou enquanto ele saltava do animal, e segurou as rédeas.

Ela ficou de pé sem desviar os olhos da cena. O coração acelerado, tomada pelo alívio em vê-lo outra vez.

– Oi – disse Emmett, saltando do cavalo negro. – Como você está? Dormiu bem?

O rapaz se retirou levando o animal pelas rédeas.

– Oi – ela respondeu, aliviada. – Dormi, sim – certamente não diria que mal conseguiu dormir e que, além de tudo, acordou muito cedo. Queria perguntar como se sentia, mas teve medo. Então achou melhor sondar de outra maneira – Como foi o passeio?

– Foi bom. Deu pra esvaziar um pouco a mente... – ela sentiu algo diferente em seu tom de voz, como se tivesse medo de entrar no assunto com ela. – Oi, Amy – ele falou com a bebê, mas Rosalie reparou que as covinhas não estavam estampando seu rosto como nos outros dias.

Amy deu um gritinho, agitando os braços e pernas como que fizesse uma dança. Mais uma vez ficou surpresa com a aceitação de sua filha para com ele. Estava claro que Amy o adorava.

– Ela parece animada – ele comentou.

– Ela gosta de você.

– E eu de vocês – revelou sem pensar.

A resposta pegou Rosalie desprevenida, e o coração disparou.

Emmett estava com a mão a caminho de tocar os cabelos dela, mas acabou desistindo após lembrar-se como reagia a sua proximidade. De como havia afastado a mão da sua na noite anterior, ali mesmo na varanda.

Notas finais
Alguém curtiu? Beijo, beijo Sill