Um Lugar Para Ficar

3 Capítulo 03 – A Oferta Chega, O Medo Causa Dúvidas


Notas iniciais
Oi, gente bonita. Vamos lá, descobrir o que espera por Rose e seus bebês nesse capítulo?!

Mesmo receosa Rosalie deixou as crianças naquele quarto de hotel vagabundo, de beira de estrada no qual se hospedaram. Caminhou por todo o estacionamento, onde havia poucos carros, atenta a qualquer movimento por mais insignificante que pudesse parecer. Evitando contato visual com qualquer coisa que se mexesse.

Não se atreveu pedir informações a quem quer que fosse. Tinha medo que, a essa altura, Royce estivesse a sua procura. O medo de ser reconhecida era algo intimidador.

Enquanto caminhava, com as mãos no bolso do moletom, a brisa noturna, com seu frescor suave, lhe soprava a pele machucada do rosto. A sensação era até boa. Teria se sentido livre, em outra ocasião, certamente.

Na rodovia, o zunido de carros não diminuía em momento algum. Toda vez que um se aproximava de seu ponto de localização, fosse caminhão ou carro esportivo, ficava tão apreensiva a ponto dos pelos de sua nuca se erriçarem.

Além do medo, ainda tinha que lidar com a dor no corpo e o estomago vazio. Contudo, sua maior preocupação era com as crianças. O dia já tinha sido difícil o bastante, passar a noite com fome não facilitava em nada. Apesar de na mochila ainda restar algumas fatias de pão e alguns biscoitos, não era o suficiente. Não podia alimentar as crianças somente com isso. E, de qualquer forma, era melhor deixá-los de reserva para quando estivessem na estrada outra vez.

Estava quase desistindo de encontrar um lugar onde comprar algo para comer, quando, em sua frente, um pouco mais adiante, avistou um letreiro luminoso. Embora algumas das letras estivessem queimadas ainda era possível saber o que dizia: “lanches do Bill”.

Olhou para os dois lados, para ter certeza de que o caminho estava livre, antes de aumentar o passo indo até lá. Seu coração passou a palpitar ainda mais forte no momento em que se viu de frente ao trailer de lanches.

Seu estomago reagiu ao cheiro de fritura com um ruidoso som impaciente. O aroma de hambúrguer com bacon fez sua boca salivar. Por Deus, só agora tinha noção do tamanho da fome que tentava ignorar.

Apesar de não ser adepta de lanches gordurosos, daria tudo para provar um desses agora. Ainda que sua procedência fosse duvidosa.

Dentro do trailer, atrás do balcão, usando um avental branco e gorduroso, se encontrava um sujeito corpulento, beirando os quarenta anos, que mantinha um bigode ridículo acima dos lábios.

Perto dali, sentado em um engradado de cerveja, estava um motoqueiro. Comia com gosto um daqueles lanches gordurosos e tomava uma garrafa de cerveja, direto no gargalo. Seu corpo repleto de tatuagens e seus trajes pretos chamavam atenção de qualquer um a sua volta.

Apesar de receosa, Rosalie chegou mais perto do trailer para poder ler na placa o nome e preço de cada um dos lanches disponíveis.

Inicialmente, ao abrir a boca, sua voz não saiu. Foi como se houvesse se refugiado. Amaldiçoou-se mentalmente por isso. O que menos queria agora era se mostrar covarde. Dar motivos para chegarem nela.

O homem com o avental gorduroso, atrás do balcão, olhou para ela ansioso. O motoqueiro limpou os dentes e emitiu um som repugnante.

Rosalie pensou nas crianças, sozinhas naquele lugar horroroso e imundo. Em Noah lhe dizendo que estava com fome. E então, de alguma forma, isso lhe trouxe segurança. Embora seu rosto estivesse parcialmente oculto pela sombra do capuz, sua voz veio à tona, segura e decidida.

Pediu três lanches completos e três sucos de uva, o favorito dos meninos. Pela primeira desde que deixou o quarto, afastou as mãos do bolso do moletom, em seguida, retirou do bolso dos jeans desbotado o dinheiro que usou para pagar pelo pedido. Deixou as notas amaçadas sobre o balcão, e saiu do local sem olhar para trás. Embora pudesse sentir o olhar dos dois homens em sua direção, cravados em suas costas.

Desobedecendo a sua ordem de permanecer no quarto com os irmãos, Noah estava sozinho na noite, olhando de um lado para o outro, enquanto chorava.

– Mamãe. Mãezinha... – ele a chamava, entre lágrimas e soluços.

Foi aí que alguém, que não era sua mãe, se aproximou.

– Ei, garoto – uma voz de homem lhe chamou atenção. Noah ergueu os olhos cheios de lágrimas, inclinando o pescoço para trás, se deparando com uma torre de 1,92 m de puro músculo.

Piscou os olhinhos, assustado. De repente, estava com uma vontade enorme de sair correndo dali. Por outro lado, seus pezinhos pareciam estar cravados no chão de concreto empoeirado.

– Você está perdido? – continuou o homem.

– Ma-mãe – foi tudo o que Noah conseguiu dizer.

– Você se perdeu de sua mãe, foi isso?

Noah sacudiu a cabeça negativamente, sem desviar por um segundo sequer o olhar do homem a sua frente.

– Ela passou mal, e você está buscando ajuda? – continuou tentando adivinhar, uma vez que o garoto parecia não conseguir falar. Novamente Noah negou com a cabeça. – Assim fica difícil – disse, olhando do garoto para o estacionamento e novamente para o garoto. – Olha eu quero ajudar, só que antes preciso saber o que está acontecendo.

Noah olhou rapidamente de um lado para o outro, louco para fugir dali.

– Não precisa ter medo. Eu não vou te fazer mal. Por um acaso você não foi sequestrado, foi? – outra vez a muda resposta negativa. – Você não fala? – sondou, com um leve tom de brincadeira tentando deixá-lo mais tranquilo, quem sabe assim obtivesse uma resposta favorável.

– Falo, sim – Noah respondeu em um sussurro.

O homem a sua frente sorriu, e, em contraste com todos aqueles músculos, covinhas encantadoras surgiram em ambas às bochechas.

– O que aconteceu? Pode falar pra mim – pediu, pouco a pouco, chegando mais perto. Automaticamente, Noah recuou alguns passos e acabou caindo de bumbum no chão.

Chegou ainda mais perto dele e conseguiu levantá-lo pelos ombros. Noah gemeu e, assim que pode, passou as mãozinhas no local onde as grandes mãos o seguraram para levantar.

– O que foi? O que você tem aí? – perguntou, erguendo a manga da blusinha verificando o que o incomodava.

Inevitavelmente seus instintos o conduziram a outro nível de preocupação.

– Quem fez isso com você?

– Foi o papai.

Indignação tomou conta do estranho que lhe fazia tantas perguntas. Aquela descrição não lhe era incomum. Tão inesperadamente quanto o encontrou ali sozinho, estava com vontade de ir atrás do cara que o machucou e lhe ensinar uma lição.

– Ele está aqui? – sondou, cautelosamente olhando em volta.

– Não.

– E, afinal de contas, você está aqui com quem?

– Com a mamãe, Enrico e Amy.

– E onde estão todos eles agora?

– Enrico e Amy – ele ergueu a mãozinha na direção da porta do quarto logo atrás de suas costas – estão lá dentro, dormindo. Mamãe foi comprar comida pra gente.

– Enrico e Amy são crianças também?

– São.

– E eles são o que seu?

– Irmãos.

– Qual o seu nome?

– Noah.

– Porque vocês estão aqui, Noah?

– Porque papai é mau.

– Sua mãe e seus irmãos também foram machucados por ele?

– Enrico e mamãe, sim. A gente não deixou machucar a Amy. Ela é bebê ainda.

Filho da mãe. Covarde. Foi o que pensou, movendo a cabeça em um gesto positivo.

­– Vocês estão fugindo, não é? – Noah abaixou o olhar imediatamente. – Eu posso ajudar vocês, é só confiar em mim, Noah.

– Ele estava apertando na mamãe – colocou as mãozinhas no próprio pescoço para demonstrar –, bem aqui. Eu tentei ajudar ela, mas ele é muito forte. Ele me jogou do outro lado e me machucou aqui – confessou, encostando a mãozinha no ombro dessa vez. – Daí o Enrico voltou do quarto com o taco de baseball e bateu com ele na cabeça do papai. Ele caiu de olhos fechados, parecia que estava dormindo até. Aí a mamãe conseguiu respirar de novo. Depois ela mandou a gente guardar as coisas na mochila, só que não podia ser os brinquedos. E depois ela disse que só um. E aí a gente fugiu no carro. E depois o carro ficou num lugar feio. E a gente andou, andou e andou.

A mão grande acariciou os cabelos louros do garotinho a sua frente.

– Sinto muito campeão. Eu vou ficar aqui guardando vocês até que sua mãe volte – ele olhou para o lado verificando se alguma mulher se aproximava. Como não havia ninguém, voltou olhar para Noah. – Você está com fome?

– Uhum – o menino murmurou, meneando a cabeça.

– Tudo bem, eu tenho um lanche aqui comigo – disse, mostrando uma embalagem de fast-food com batatas fritas, hambúrguer e milk-shake dentro. – Você pode ficar com ele. Eu não estava com muita fome mesmo. Posso comprar outro depois.

– Posso? – os olhinhos azuis de Noah brilharam em expectativa, e o seu pequeno estomago se agitou com a ideia de comer algo tão saboroso. – Você não quer mesmo? – questionou recebendo o pacote com mãozinhas ansiosas.

– Não. Você pode ficar com tudo. Pode dividir com seus irmãos também.

– Obrigado, moço.

– Emmett. O meu nome é Emmett.

Noah sorriu pra ele, satisfeito.

– Obrigado, Emmett.

Imediatamente a mão pequenina se infiltrou dentro da embalagem de papel retirando de lá um hambúrguer suculento. O seu pequeno estomago roncou outra vez. A boca salivou, e os olhinhos voltaram a brilhar. Estava feliz, assim tão fácil.

Emmett sorria, apreciando a felicidade que causou ao garotinho em um simples gesto, quando, de repente, a voz feminina irrompeu no silêncio.

– Afaste-se de meu filho – exigiu.

Noah ergueu a cabeça, olhando para a mãe. Emmett olhou rapidamente para trás. Apesar da proximidade, não conseguiu ver direito o rosto dela, estava parcialmente oculto no capuz do moletom. Nas sombras, no estacionamento a meia-luz, não podia ver muito.

– Calma moça. Eu só estava conversando com o garoto. Seu filho estava aqui fora, sozinho. Estava apenas tentando ajudar – Emmett tentou se explicar antes que ela começasse gritar ou fizesse qualquer outra loucura.

– Não coma isso, Noah – ela gritou, ao perceber o filho levando, o que quer que fosse que o estranho havia lhe dado, à boca.

Noah parou com as mãozinhas a caminho da boca aberta. A felicidade de poucos minutos atrás, cedeu lugar ao choro.

Rosalie olhou rapidamente na direção do estranho outra vez. O capuz descobriu sua cabeça, revelando os fios dourados de seus cabelos. Infelizmente, evidenciando também as marcas de agressão em seu rosto.

O aroma adocicado de seu perfume, soprado pelo vento, atingiu o olfato de Emmett, despertando nele algo novo e inusitado.

Estava perdidamente focado no aroma que ela exalava ao vento, quando o som de sua voz tornou chamar atenção. Conseguiu se concentrar na cena a tempo de vê-la arrancar o hambúrguer das mãos da criança, que ainda chorava.

– Isso pode estar envenenado – ela acusou.

Emmett chegou mais perto da cena, e, sem querer, Rosalie esbarrou contra os músculos de seu peito. Ignorou a torrente de calor liquido que tomou seu corpo inesperadamente. Seus instintos alertavam para proteger o filho, em primeiro lugar.

– Calma moça – Emmett tornou a pedir. – Eu não vou fazer nada com o garoto, nem com você – avisou, retirando com calma o lanche intacto das mãos dela. – Só para você ver que não está envenenado – dizendo isso, deu uma boa mordida no hambúrguer. Após mastigar e engolir tudo mencionou: – Não sou nenhum louco. Muito menos assassino de crianças. E que fique claro, estou longe de ser um pedófilo. Meu Deus – sua voz soou bastante indignada agora. – Olha seu filho estava com fome, eu apenas ofereci meu lanche pra ele. Sei que tem todo o direito de pensar assim. É seu filho e quer protegê-lo. Mas eu sou um homem de bem, moça.

Desconfiada, olhou o filho dos pés a cabeça, depois para Emmett e novamente para o menino.

– Ele tocou em você, Noah? – pediu ao garoto, que agora chorava baixinho.

– Não, mamãe – conseguiu responder entre soluços e fungadas.

– Mas que droga, Noah – esbravejou irritada. – Isso poderia ter acabado muito mal. Porque não fez o que pedi, ficando dentro do quarto?! Eu nem sei o que faria de minha vida se algo te acontecesse, Noah. Por Deus. Estou ficando louca de tanta preocupação, e você ainda me dá um susto desses, filho.

Com lágrimas nos olhos, puxou o garoto para um abraço carinhoso e protetor.

– Me desculpe – começou Emmett –, nunca foi minha intenção te assustar. Só fiquei aqui com o garoto para protegê-lo. Assim como eu o encontrei aqui sozinho, outra pessoa também poderia tê-lo feito. E como sabe, nem todos têm boas intenções. Não precisa dar bronca nele. Seu filho é um bom garoto.

– Eu sei disso – ela respondeu na defensiva.

Agarrado a mãe, Noah se queixou.

– Mamãe, eu ainda estou com fome.

– A mamãe trouxe o lanche. Vem – ela se curvou pegando-o no colo –, vamos entrar – aquilo foi o bastante para fazer seu rosto se contorcer de dor, ainda que quisesse evitar.

– Estarei no quarto vinte e dois. Se precisar de ajuda, pode bater lá – Emmett ofereceu.

Rosalie não deu muita importância ao que disse.

Estava abrindo a porta do quarto, que ocupavam temporariamente, quando o ouviu falar outra vez.

– Eu estou de carro. Partirei amanhã cedo. Estou voltando pra casa, em Vermont. Posso dar carona pra você e as crianças – antes que ela pudesse questionar, ele fez questão de esclarecer. – Noah me disse que os irmãos estão no quarto dormindo. Se vocês não tiverem para onde ir... Posso levá-los comigo. Não se preocupe, não espero nada em troca. E também não moro sozinho. Vivo com minha avó materna, minha irmã, meu cunhado e dois sobrinhos pequenos.

Estava parada, de costas para ele, em frente à porta encardida, ouvindo o que dizia.

– A propósito, meu é Emmett. Emmett McCarty.

Rosalie levou a mão à maçaneta. Empurrando a porta um pouco mais, dando um passo para o lado de dentro, ignorando suas palavras.

– Partirei às sete da manhã, caso queira vir com as crianças – avisou, esticando-se na direção deles.

Ela entrou no quarto fechando a porta atrás de si. Emmett ficou encarando a velha porta por breves segundos. Abaixou a cabeça sentindo-se um fracasso. Queria poder ajudá-los de alguma maneira. Já tinha enfrentado tanta coisa na vida. Sabia o que era se sentir sozinho. Sabia o que era medo.

Pegou o saco de papel em uma mão, segurando o hambúrguer mordido na outra. Com a mente cheia de reminiscências, seguiu para o quarto vinte e dois. Abriu a porta e entrou. Deixou as coisas sobre a cômoda, em seguida, retirou a camisa pela cabeça.

Algo em sua mente o alertava para uma noite conturbada.

Enquanto isso, Rosalie colocou Noah sentado nos pés da cama e entregou a ele o lanche que tinha comprado. O menino ainda chorava.

– Para de chorar amor, e come. É um hambúrguer. Não é do mesmo, mas também deve estar gostoso. Olha é suco de uva. O seu favorito.

– Me desculpe mãezinha.

Ela se curvou beijando de leve sua cabecinha loura.

– Mamãe já desculpou. Agora come o seu lanche.

Passou uma fralda ao redor do pescoço dele para que não se sujasse por inteiro. E acariciou seu rostinho com a mão.

Abriu a garrafinha de suco e pôs o canudo. E foi nesse momento que ouviu os primeiros gritos de Enrico, enquanto ainda dormia. Virou-se rapidamente na direção do menino e o encontrou sentado na cama, aos prantos. A fralda úmida que antes estava na testa, estava agora no colchão. Seu choro era angustiado e carregado de dor.

– Mamãe. Ma-mãe. Ma-mãe – engasgado com o choro mal conseguia respirar. – Ele matou a mamãe. Ele matou – Enrico sofria acreditando que tinha sido real.

Rosalie correu para o lado dele, na cama, e o abraçou.

– Olha a mamãe aqui filho.

– Matou. Matou – ele soluçava, e as lágrimas não davam trégua.

– Olha a mamãe aqui te abraçando Enrico – Rosalie falou, com os olhos cheios de lágrimas. Pegou em sua mãozinha e encostou ao rosto. – Abre os olhos filho. Olha, sou eu, a mamãe. Estou viva, meu anjo.

Enrico abriu os olhos, mantendo-os fixos nela. Um soluço lhe escapou da garganta, enquanto ainda tomava consciência de que a mãe estava realmente viva. Abaixou os olhinhos, olhando no pescoço dela onde estavam as marcas do quase estrangulamento. Ergueu as mãos devagar e acariciou o local machucado com as pontas dos dedinhos.

– Não matou – sussurrou em uma constatação cheia de alivio.

– Não. Você ajudou a mamãe. Você ajudou a mamãe... – repetiu enquanto Enrico se agarrava a seu pescoço em um desespero de senti-la mais perto. Rosalie o puxou para sentar em seu colo, as pernas de Enrico ficando uma de cada lado de seu corpo, enquanto se abraçavam. Ela beijou e afagou os cabelos do filho varias vezes.

– Mamãe. Mamãe – Enrico não parava de repetir.

– Abraça forte. É a mamãe sim, amor.

Noah tinha parado de comer e olhava a cena com carinha de choro e espanto.

Rosalie deixou que Enrico chorasse tudo o que tinha de chorar, no calor de seu abraço. De canto de olho, viu Noah se aproximar e afagar o rosto do irmão.

– Mamãe comprou lanche, Rico – disse com a vozinha fraca. – Vem comer.

A mãe piscou e as lágrimas caíram.

Depois do que pareceu apenas um minuto, encostou a mão na testa de Enrico, avaliando brevemente a temperatura. Graças a Deus, a febre havia baixado.

– Come um pouquinho filho. Vamos – pediu, afastando os bracinhos de seu pescoço cuidadosamente. – Sente pertinho de seu irmão para comer o lanche. A mamãe trouxe um pra você também.

Enrico concordou, e logo depois olhou para o irmãozinho.

– Está gostoso? – pediu, se deixando guiar pela mãe até os pés da cama.

– Uma delicia – acrescentou Noah, de boca cheia. – Para de chorar irmão, e vem comer o seu – sorriu pro irmão com a boca toda suja de ketchup.

O vislumbre de um sorriso alcançou os lábios de Rosalie naquele momento.

Enrico esticou a mão, recebendo das mãos da mãe o lanche que lhe pertencia. Deu a primeira mordida com a mesma satisfação que o irmão havia dado no dele. O ketchup escorreu pelos cantos sujando suas mãos pequenas e o rosto.

Rosalie verificou como Amy estava. Somente depois começou comer o último lanche do pacote. Chegando a conclusão de que os garotos estavam cobertos de razão. Talvez por causa da fome que estavam, mas, o fato é que estava tudo muito gostoso.

Enquanto as crianças deixavam escapar murmúrios de satisfação, comia o seu em silêncio, pensando na oferta daquele homem que conhecia há poucos menos de minutos. Não sabia bem no que pensar, nem o que decidir.

De barriga cheia, Noah e Enrico sorriram um para o outro. Ambos com os rostos sujos. E, pela primeira vez em muito tempo, Rosalie estava se sentindo mais leve.

– Venham cá, os dois – disse ela. – Dá um abraço na mamãe – deixou o papel sujo de lado, abrindo os braços para recebê-los.

Os dois meninos engatinharam no colchão indo ao encontro dela, na outra extremidade da cama. Ajoelhados, ambos grudaram no pescoço da mãe com seus bracinhos frágeis.

­– Meus dois homenzinhos – comentou, beijando o rosto sujo de cada um deles. – Vocês estão com gosto e cheiro de ketchup – esfregou os lábios na bochecha de um e de outro, brincando com eles, que sorriram satisfeitos. – Mamãe vai morder. Vai, sim.

– Obrigado, mamãe – disse Enrico. – Eu te amo muito. Muito, muito. E não quero que morra. Nunca.

– Eu também te amo muito, mãezinha – esse foi Noah, presenteando-a com seu sorriso de covinhas.

Rosalie os apertou ainda mais no calor de seus braços. Com a certeza de que seu coração batia inteiramente por eles; seus três filhos.

– A mamãe também ama muito vocês. Muito, muito, muito. Mais que qualquer coisa nessa vida. Mas, agora preciso que escovem os dentinhos e lavem o rosto.

As manchas de lágrimas no rosto de Enrico tinham se misturado as de ketchup.

Com um tapinha no bumbum, os dois pularam da cama e correram para o velho banheiro encardido.

Rosalie também saiu da cama. Puxou a mochila e remexeu dentro dela em busca do creme dental e das escovas. Pôs o creme dental nas escovinhas e entregou cada qual a sua – a de Enrico, uma vermelha com o cabo emborrachado no formato do corpo do mickey mouse. Já a de Noah, essa era verde e o cabo em formato de dinossauro. A de Amy, a única que ficou na mochila, era cor-de-rosa e o cabo no formato da personagem uniqua, dos backyardigans.

Os dois disputavam espaço em frente a pia pequena. Rosalie estava o tempo inteiro atrás deles, supervisionando. Antes de eles darem por finalizada, revisou a escovação, um por vez. Depois de eles cuspirem e lavarem a boca, foi a sua vez de fazer o mesmo.

– Abre o bocão, pra mamãe ver se ficou limpinho – brincou.

Noah foi o primeiro, pulando na frente do irmão. Enrico não se importou, apenas esperou por sua vez.

– Está tudo lindo. Limpinho e com cheirinho de fruta. Nota dez para os dois.

– Me deixa ver o seu, mamãe – Noah pediu, se esticando nas pontinhas dos pés, enquanto a mãe se curvava a sua frente, abrindo a boca.

– Está limpinho. Mamãe também tirou um dez – ele declarou, afirmando com a cabeça.

Rosalie fechou a boca, que logo se curvou em um grande sorriso. Somente as crianças tinham poder de fazê-la esquecer, mesmo que por um breve momento, o horror que era sua vida. E o fato de não saber para onde ir quando o sol nascesse.

– Agora vamos dormir – ela os conduziu para fora do banheiro. – Mamãe está muito cansada, cheia de dores também. Todos nós precisamos de descanso agora. Amanhã será um longo dia... E que Deus nos ajude – pensou essa última parte.

Os três subiram cautelosamente na cama, temendo acordar a caçulinha. Enrico ficou em uma extremidade e Rosalie na outra, deixando Noah e Amy no meio.

– Beijinho mamãe – ela pediu.

Os dois concordaram fazendo biquinho, que a mãe logo tratou de beijar.

– Durmam bem, meus bebês – murmurou.

– Boa noite, mãezinha – desejou Noah.

– Boa noite, mamãe – também desejou Enrico.

– Boa noite, príncipes de minha vida.

Todos eles se aconchegaram da melhor forma possível, uma vez que não possuíam travesseiros ou cobertores.

Rosalie acariciou os cabelos de Amy, e beijou seu rostinho suavemente temendo despertá-la.

– Dorme bem, minha princesinha linda. Jamais permitirei que alguém te faça mal. Nem aos seus irmãos. Eu prometo que farei o impossível para mantê-los em segurança. E para que não voltem a sentir medo. Essa é a minha maior promessa – sussurrou.

Enrico e Noah voltaram a pegar no sono quase que instantaneamente. Rosalie levou muito mais tempo para conseguir dormir. Novamente a oferta de Emmett voltou martelar em sua mente. Seus instintos diziam para arriscar. Já a razão, para correr, se afastar. E foi pensando nisso, e apesar de todas as dores, que acabou caindo no sono.

A noite não foi diferente da anterior, em sua casa; confusa e conturbada.

Ainda muito cedo acordou, com Amy cutucando seu rosto, sentadinha na cama.

– Mamã. Mamã, gagau.

Rosalie abriu os olhos ao se mexer, contendo um gemido de dor que ameaçou escapar por entre seus lábios. Todos os ossos de seu corpo pareciam estar moídos pela dor.

– Oi, bebê.

– Mamã, gagau.

– A mamãe já vai resolver isso. Mas antes precisamos trocar essa fralda. Está até pesada de tanto xixi – comentou, trazendo Amy para seu colo. No primeiro movimento que fez para se retirar da cama, as fortes dores lhe atingiram. Tornando impossível conter o gemido que veio à tona.

Desceu da cama com a filha nos braços, e foi até onde estavam as mochilas. Na sacola com as coisas de Amy, encontrou as fraldas. Se preocupou, pois sabia que as que tinha não seriam suficiente para mais que dois dias. Logo teria que conseguir dinheiro para comprar mais.

Voltou para a cama carregando os itens necessários. Deitou-a novamente e realizou a troca da fralda com bastante cuidado. Durante o processo, Amy ficou impaciente, por mais de uma vez tentou se sentar. O que era pra ser um processo rápido se tornou demorado, levando-a ao choro.

Rosalie se apressou em pegá-la no colo novamente, somente depois se desfez da fralda suja. Voltou a mexer na sacola, dessa vez para pegar as coisas do preparo da mamadeira.

Lamentou por Amy ter que tomar mamadeira fria mais uma vez. Mas não havia outro jeito. Por sorte ainda restava água mineral, que usou para fazer a mistura do leite.

– Pronto. Pronto. Pronto. A mamãe já vai dar a mamadeira – repetia, à medida que levava a mamadeira com o leite frio à boca de Amy. – Oh, meu Deus, que agonia bebê.

Beijou seu rostinho quando ela sugou com ansiedade o bico de borracha. Embora tenha parecido não gostar muito, continuou mamando.

Verificou no relógio de pulso o horário, eram 6h15 da manhã.

Pensou em como seria aquele dia. Logo mais teriam que deixar o quarto. Os garotos estavam esgotados de tanto que andaram no dia anterior, e ela não era exceção.

Se pegassem um ônibus, mesmo que não tivesse a menor ideia de para onde ir, acabaria gastando muito mais rápido todo o dinheiro que tinha, e isso não podia acontecer. Não quando se tem três crianças que dependem de você para lhe dar o que comer.

Subitamente tomou uma decisão.

Com Amy ainda mamando foi acordar os meninos.

– Enrico. Noah. Acordem – ela os chamava, cutucando-os com cautela. – Precisamos ir. Acordem bebês. Vamos. Por favor, colaborem com a mamãe. Acordem. A gente precisa ir. Eu sei que ainda é muito cedo e que estão cansadinhos. Mas acontece que conseguimos uma carona e não podemos perdê-la. É tudo o que nos resta agora.

Não tinha a menor ideia até onde essa carona os levaria, mas estava disposta a arriscar-se.

Os garotos despertaram, gemendo enquanto espreguiçavam-se.

– Eu não quero ir pra escola, mãezinha – Noah resmungou, tendo os olhos abertos em uma fenda.

– Não é para ir à escola, filho. Acontece que se não nos apresarmos teremos que caminhar o dia inteiro outra vez.

Noah gemeu, com muxoxos de choro.

– Não mamãe, andando não. Não quero. É ruim. Dói nas pernas e nos pés. Mãezinha. Por favor...

– Dói mesmo, mamãe – contou Enrico, também beirando o choro.

– Mamãe sabe que estão cansados, e somente por isso decidi aceitar a carona daquele homem. Vamos, depressa. Vão até o banheiro lavem o rosto, escovem os dentinhos mesmo sem a mamãe supervisionando, e peguem suas coisas. Não há tempo para banho agora. Temos que correr.

Enrico estava se preparando para deixar a cama, quando Noah saltou no chão, segurando o pintinho sobre a roupa com as duas mãos, correndo para dentro do banheiro.

– Xixi. Xixi. Xixi.

– Sejam rápidos – avisou, no momento em que Enrico também entrava no banheiro.

Mesmo com a caçula nos braços, guardou todas as coisas que estavam espalhadas. As roupas sujas foram inseridas em um compartimento separado das demais, na mochila.

– Mãezinha, o pintinho não aguentou segurar o xixi.

Noah surgiu na porta do banheiro, com as duas mãos no pintinho sobre a roupa molhada de xixi.

– Ah, Noah – Rosalie lamentou. – Agora terei que carregar a roupa fedendo na mochila. Volta já para o banheiro e retira toda essa roupa. Enrico, você já terminou aí filho?

– Já, mamãe – avisou, saindo do banheiro.

– Cuida aqui da Amy, pra mamãe ir resolver o problema do seu irmão.

– Não é podlema, mãezinha – Noah se enrolou ao falar. – É xixi.

– Ah, mamãe confundiu então.

Deixou Amy sentada na cama, segurando a mamadeira vazia, que logo virou um brinquedo em suas mãos.

– Ico – Rosalie a ouviu falar com o irmão.

– Ei, bebê – Enrico respondeu, mexendo nas bochechinhas dela.

– Anda logo com isso, Noah.

– Mamãe.

– Vai filho – ela pediu, enquanto abria o chuveiro. E para seu desgosto descobriu que a água estava fria. Não mencionou nada sobre isso com ele, pois sabia que se falasse algo Noah sairia correndo dali sem tomar o banho.

– Vem Noah.

Ele entrou embaixo do chuveiro sem muita vontade. O choque ao sentir a água fria em contato com a pele o fez gritar enquanto pulava. O choro foi apenas questão de segundos.

– O que aconteceu, mamãe? – Enrico perguntou, erguendo o tom de voz, preocupado com o que pudesse estar acontecendo ao irmão menor.

– A água está fria – Rosalie respondeu em um tom de lamento.

­– Coitadinho dele, mamãe – lamentou.

Esfregou rapidamente o sabão em todo o copinho de Noah. Depois do enxague o enrolou na toalha úmida, a mesma usada na noite anterior. Ele ainda chorava quando deixaram o banheiro.

– Porque não me avisou mamãe? Por quê? Porque você fez isso? Mãezinha... Ai, ai, meu Deus.

– Desculpe bebê. Mamãe não fez por mal. Vem, deixa eu te secar.

Ele chegou mais pertinho, e ela logo puxou a toalha e começou a secá-lo.

– Meu pintinho quase sumiu – comentou inocente, observando o próprio pintinho.

Rosalie e Enrico acharam graça de seu comentário. Mesmo que não fosse a intenção, acabaram rindo.

– Pito – Amy repetiu.

– Amy falou pinto – avisou Enrico.

Rosalie tentava conter o riso, pois sempre que se movia a dor lhe fisgava as costelas.

– Pare vocês – Noah se queixou. – Não fique falando do meu pinto.

– Pare de falar essas coisas filho – pediu, mesmo que ainda estivesse achando graça do comentário feito por ele. Pegou a cuequinha limpa na mochila, segurando na posição de vesti-lo. – Anda, cobre esse pinto antes que apareça um rato e queira comê-lo.

– Rato não come pinto – ele falou, passando uma perninha para dentro da cueca. – Eles comem? – como a mãe levou alguns segundos para responder, ele encostou a mãozinha em seu rosto, pedindo sua atenção. – Mãezinha, mãezinha, eles comem? De verdade?

– Eu não sei filho. Por via das dúvidas, melhor não arriscar – brincou.

Noah se apressou passando a outra perninha, puxando rapidamente a cueca pra cima, deixando-a toda enrolada. A mãe acabou tendo que ajeitar pra ele. Depois o vestiu com um conjuntinho de malha. Penteou os cabelinhos louros e voltou ao banheiro para pegar a roupa suja.

Para não ficar com cheiro de xixi, lavou o shortinho e a cueca embaixo do chuveiro com o sabonete. Torceu e sacudiu bem. Por falta de opção, guardou em um dos bolsos, da mochila de Noah.

Verificou se havia pegado tudo. Não queria perder o pouco que tinha conseguido levar. Muito menos deixar pistas para trás.

Saíram do quarto um atrás do outro. Enrico levando sua mochila e a sacola com as coisas da irmã. Noah também levava sua mochila nas costas, o ursinho de pelúcia sempre com a cabeça pra fora, e nas mãos, o boneco do super-homem. Rosalie levava uma mochila nas costas, e outra mochila pequena pendurada em um braço, tendo ainda que carregar Amy no colo. Só Deus sabia o quanto estava custando ficar de pé com toda aquela bagagem.

Passaram na recepção e entregaram a chave para a mesma mulher que os atendeu quando chegaram, na noite anterior.

Esperançosa, caminhou com as crianças rumo ao quarto de número vinte e dois.

– O que estamos fazendo aqui? – pediu Enrico, ao perceber a mãe bater na porta.

– A pessoa que vai nos dar carona está nesse quarto. Pelo menos foi o que disse – ela verificou no relógio de pulso novamente, eram sete e vinte da manhã. – Acho que ele já partiu. Chegamos tarde demais – lamentou, permitindo os ombros cederem um pouco, lutando com a dor. E a frustração de não saber para onde ir.

Os garotos a imitaram, igualmente decepcionados. Os olhinhos grudados nela, ansiando uma solução. Acreditando que a mãe pudesse resolver qualquer problema.

Notas finais
Ai meu coração de papelão, vendo-os assim. O que acharam? Se puder deixe um comentário ;) Beijo, beijo Sill