Um Lar Para Klaus

2 Capítulo 2: Cinco votos contra um



Lia começou a se arrepender da decisão aproximadamente três minutos depois de entrar no carro.

Não porque Klaus tivesse feito alguma coisa.

Esse era precisamente o problema.

Ele estava quieto.

Quieto demais para um homem que, poucos minutos antes, parecia capaz de sustentar sozinho uma conversa envolvendo vivos, mortos e pessoas que talvez não pertencessem a nenhuma das duas categorias.

Sentado no banco do passageiro, Klaus olhava pela janela com as mãos entre os joelhos, ocupando o mínimo de espaço possível, como quem se desculpava por existir em ambientes fechados.

Lia olhou rapidamente para ele.

Depois para a rua.

Depois para ele.

Definitivamente uma péssima ideia.

Ela, mulher adulta, razoavelmente inteligente, profissional perfeitamente funcional, proprietária de um apartamento financiado e responsável legal por cinco gatos, havia acabado de colocar um homem que não conhecia dentro do próprio carro.

Um homem que conversava com mortos.

Supostamente.

Possivelmente.

Talvez.

Aquela ainda era uma questão em aberto.

A possibilidade de ele simplesmente estar tendo algum tipo de episódio continuava sendo, para Lia, consideravelmente mais plausível do que fantasmas.

Embora as histórias do projeto fossem incômodas.

Luzes.

Portas.

Vozes.

Ela apertou os dedos no volante.

— Seu sobrenome.

Klaus virou o rosto.

— Desculpe?

— Você disse que Klaus bastava para nossos propósitos atuais.

— Disse.

— Nossos propósitos mudaram.

Um pequeno sorriso apareceu.

— Eu sabia que aconteceria. Sou irresistível.

— Você está entrando na minha casa. Quero saber seu nome completo.

— Klaus Hargreeves.

Ela esperou.

— É só isso?

— Quantos sobrenomes você gostaria que eu tivesse?

— Perguntei porque você fez um mistério desnecessário.

— Mistério valoriza a experiência.

Lia lançou um olhar para ele.

— Idade?

— Isso está começando a parecer um interrogatório policial.

— Pode responder?

Klaus suspirou teatralmente.

— Trinta e...

Parou.

Franziu a testa.

Lia esperou.

— Essa pergunta é mais complicada do que deveria.

— Como alguém não sabe a própria idade?

Klaus se virou para ela.

— Você ficaria surpresa com a quantidade de coisas que podem complicar cronologias.

Ela permaneceu olhando para a rua.

— Certo.

— Você não vai perguntar?

— Acabei de perguntar.

— Não. Sobre as cronologias.

— Não.

Ele pareceu genuinamente desapontado.

— Por quê?

— Porque estou dirigindo, dormi quatro horas e já levei um desconhecido para casa. Acho prudente limitar a quantidade de informações absurdas processadas simultaneamente.

Klaus ficou olhando para ela.

— Você é divertida.

— Não estou tentando ser.

— É por isso.

Lia parou no sinal vermelho e pegou o celular.

— O que está fazendo?

— Avisando uma amiga que estou levando você para casa.

Digitou:

Trouxe um cara do projeto para casa porque não quiseram acolher. Nome: Klaus Hargreeves. Se eu não responder mais tarde, me liga.

Pensou.

Acrescentou:

Não, eu não enlouqueci.

Ficou olhando para a frase.

Apagou.

Não havia evidências suficientes para sustentar aquela afirmação.

Mandou apenas a primeira mensagem, junto com seu endereço e a placa do carro.

A resposta chegou quase imediatamente.

Que homem?? Você está bem??

Estou. Acho. É complicado.

LIA.

Se eu não responder em duas horas, liga.

Guardou o celular.

— Isso foi para o caso de eu ser um assassino? — perguntou Klaus.

— Foi para o caso de eu ser burra.

— Justo.

O sinal abriu.

Lia acelerou.

— Posso fazer uma pergunta desagradável?

— Você já fez várias desde que nos conhecemos.

— Bebeu? Usou alguma coisa?

Klaus finalmente virou o rosto.

— Só café e teimosia.

— Isso é verdade?

— É.

Por um instante, toda a brincadeira saiu da voz dele.

— Faz alguns dias que não durmo direito. E que não como direito.

Uma pausa.

— E que ele não cala a boca.

Lia manteve os olhos na rua.

— Ele quem?

— Meu irmão.

Aquilo não era a resposta que ela esperava.

— Seu irmão está onde?

Klaus apontou vagamente para o banco traseiro.

Lia não olhou.

Não imediatamente.

— No meu carro?

— Tecnicamente.

— O que significa "tecnicamente"?

— Significa que ele está morto.

Lia inspirou devagar.

— Claro.

— Essa foi uma reação surpreendentemente tranquila.

— Estou dirigindo. Se eu tiver uma crise existencial agora, nós três batemos.

Klaus ergueu uma sobrancelha.

— Você contou o Ben.

— Se ele está no meu carro, conta como passageiro.

O silêncio seguinte durou alguns segundos.

— Ben? — perguntou Lia.

Klaus assentiu.

— Ben Hargreeves. Meu irmão.

Ele virou o rosto para a janela novamente.

— Morreu há muito tempo. Mas nunca foi muito bom em ir embora.

A voz continuava casual.

Quase.

Lia percebeu a diferença.

Não perguntou como Ben tinha morrido.

Ainda não.

Em vez disso, estacionou diante de uma padaria.

Klaus olhou em volta.

— O que está fazendo?

— Comprando uma coisa.

Voltou alguns minutos depois com um pão na chapa, dois pães de queijo e um suco, que colocou no colo dele sem a menor cerimônia.

— Eu não estou com fome.

O estômago de Klaus respondeu alguma coisa ofensiva.

Lia ergueu uma sobrancelha.

— Seu estômago discorda.

— Meu estômago nunca teve bom senso.

Ele começou pelo pão de queijo.

Devagar.

Cuidadosamente.

Com uma educação tão exagerada que deixava óbvio o esforço para não devorar tudo.

Lia fingiu um interesse profundo no retrovisor.

— Seu irmão também come?

Klaus parou com metade do pão de queijo no caminho da boca.

Olhou para o banco traseiro.

— Ela perguntou se você come.

Silêncio.

Klaus voltou-se para Lia.

— Ele disse que essa foi uma pergunta ofensiva.

— Ótimo. Então já temos intimidade suficiente.

A boca de Klaus tremeu.

No banco traseiro vazio, alguma coisa fez um pequeno clique contra o vidro.

Lia olhou pelo retrovisor.

Nada.

Absolutamente nada.

— Foi ele?

— Não.

— Klaus.

— Foi.

— Ótimo.

Ela voltou a dirigir.

— O morto fica proibido de mexer no carro.

Klaus virou-se discretamente para trás.

— Você ouviu.

Antes de subir, Lia parou numa farmácia.

Água.

Escova de dentes.

Pasta.

Sabonete.

Desodorante.

Alguns itens básicos.

Klaus acompanhou tudo com um interesse curioso.

— Você faz isso com frequência?

— O quê?

— Recolhe estranhos.

— Não.

— Que bom.

Lia colocou a escova no cesto.

— Para nós dois.

Depois passaram por um mercado.

— Precisa de alguma coisa específica para comer?

— Você está perguntando se tenho alergia ou se sou exigente?

— Primeiro alergia. Depois descobrimos se você é insuportável.

— Nenhuma alergia importante.

— Restrições?

— Estou aberto a experiências.

Lia olhou para ele.

— Isso soou preocupante.

Klaus colocou uma caixa de cereal no carrinho.

Ela observou.

Ele observou de volta.

— O quê?

— Nada.

Ele colocou uma segunda caixa.

— Klaus.

— Você disse para pegar o que eu queria.

— Eu disse uma coisa.

Ele devolveu a segunda.

— Ditadura.

Lia colocou pão, frutas, leite, macarrão e algumas coisas simples no carrinho.

Quando chegaram ao caixa, Klaus enfiou a mão nos bolsos.

Depois em outro bolso.

Depois em outro.

O movimento foi ficando progressivamente menos casual.

Lia percebeu antes que ele precisasse dizer qualquer coisa.

— Eu pago.

— Não precisa.

— Eu sei.

Klaus ficou quieto.

Ela passou o cartão.

E não mencionou o assunto novamente.

O prédio de Lia era antigo, mas bem cuidado.

Klaus ergueu os olhos para a fachada.

— Então é aqui.

— É.

— A misteriosa residência dos cinco gatos.

— Não crie expectativa.

— Tarde demais.

Entraram.

No elevador, Lia decidiu que era hora das regras.

— Regra um: nunca abra janela sem verificar a tela.

— Sensato.

— Dois: ninguém pisa no Aegis. Ele não vai reclamar, e é exatamente por isso que você precisa olhar por onde anda.

— Entendido.

— Três: nunca deixe Sekhmet sozinha com uma sacola.

— Isso eu não entendi.

— Vai entender.

— Quatro?

— Não dê comida para nenhum deles sem perguntar. Kitsune vai tentar convencer você de que não come há seis semanas.

— Já gosto dela.

— Não deveria.

— Outros avisos?

— Se Heimdall subir em você, aceite seu destino.

— E Morrigan?

Lia inseriu a chave na fechadura.

— Morrigan não sobe em ninguém.

— O que ela faz?

— Observa.

— Como uma sogra.

— Como um tribunal.

Abriu a porta.

Um focinho apareceu imediatamente pela fresta.

Lia bloqueou a passagem com o pé.

— Para trás.

Klaus espiou por cima do ombro dela.

— Esse é qual?

— Ainda nenhum. Isso é só um pedaço dele.

O focinho desapareceu.

Lia abriu mais a porta.

Heimdall estava sentado no corredor de entrada.

Grande.

Pelagem escura.

Muito ereto.

Muito sério.

Os olhos fixos em Klaus.

Klaus parou.

Heimdall também.

— Ah.

— Entra.

— Ele não parece concordar.

— A casa é minha.

Lia entrou.

Heimdall imediatamente se esfregou na perna dela.

Klaus apontou.

— Claramente ele discorda da questão patrimonial.

— Heimdall, esse é Klaus.

Klaus fez uma pequena reverência.

— É um prazer.

Heimdall permaneceu olhando.

— Acho que ele me odeia.

— Não. Quando ele odeia, rosna.

Heimdall rosnou.

Klaus virou lentamente o rosto para Lia.

Ela apertou os lábios.

— Talvez eu tenha sido precipitada.

— Excelente início.

Foi então que Sekhmet apareceu.

Entrou na sala como se uma trilha sonora de batalha devesse acompanhá-la.

Era menor que Heimdall, mas compensava isso com uma quantidade absolutamente desproporcional de personalidade.

Aproximou-se.

Cheirou o ar.

E parou.

Não olhando para Klaus.

O rosto dela estava virado ligeiramente para o lado dele.

Para alguma coisa atrás dele.

Klaus também percebeu.

— Ben.

Lia congelou.

— Ele entrou?

— Eu disse para esperar.

— Você disse ou pediu?

— Existe uma diferença jurídica importante?

— Na minha casa, existe.

Sekhmet deu mais dois passos.

O pelo da cauda se eriçou.

Mas ela não rosnou.

Farejou o ar.

Klaus acompanhou algo invisível atravessando a sala.

— Ben, por favor, não provoque os gatos.

Uma luminária piscou.

Lia fechou a porta.

— Ele respondeu?

— Disse que não fez nada.

A luminária piscou novamente.

Klaus olhou para cima.

— E agora está ofendido porque você sugeriu.

— Fantástico.

Morrigan apareceu sobre a estante.

Silenciosa.

Imóvel.

Seus olhos, porém, não estavam em Klaus.

Estavam alguns centímetros à esquerda dele.

Klaus respirou fundo.

— Ah, não.

— O quê?

— Ela vê.

— O quê?

Klaus apontou.

— Ele.

Lia olhou para o espaço vazio.

Depois para Morrigan.

Depois para Klaus.

— Então tem um morto na minha sala.

— Tecnicamente, ele já estava no elevador.

— Isso não melhora.

— Eu sei.

Do outro lado da sala, alguma coisa se moveu junto à sacola de Klaus.

Kitsune mergulhou metade do corpo dentro dela.

— Ei!

A gata saiu com uma pulseira na boca.

— Ela pegou minha pulseira!

— Kitsune.

A gata disparou.

— Ela está roubando minhas coisas!

— Eu avisei.

— Você disse que ela fingia fome!

— Isso também.

Klaus correu atrás dela.

— Volte aqui, pequena criminosa!

Kitsune acelerou.

Sekhmet decidiu participar.

Heimdall continuou na entrada, aparentemente dividido entre vigiar Klaus, Ben e a completa falência da ordem pública.

Morrigan observava tudo do alto com manifesto desprezo.

Lia fechou os olhos.

Tinha dormido quatro horas.

Quatro.

Quando abriu os olhos novamente, Klaus estava de joelhos diante do sofá.

— Eu vejo você.

Do escuro vieram dois olhos brilhantes.

— Podemos negociar.

Lia se apoiou na parede.

— Não negocie com ela.

— Eu tenho experiência com forças hostis.

— Não com ela.

— Todo mundo tem um preço.

Klaus enfiou cuidadosamente a mão debaixo do sofá.

Retirou-a.

Vazia.

— O que ela quer?

— Provavelmente sachê.

— Excelente.

— Klaus.

Ele suspirou.

— Regra de não alimentar sem perguntar.

— Parabéns.

— Então estou perguntando.

— Não.

Klaus encarou o vão sob o sofá.

— A negociação fracassou, menina.

Kitsune saiu pelo outro lado com a pulseira ainda na boca.

Lia começou a rir.

Não pretendia.

Talvez fosse o cansaço.

Talvez fosse a expressão genuinamente ofendida de Klaus sendo derrotado por uma gata de quatro quilos.

Mas riu.

Klaus olhou para ela.

Por um instante apenas observou.

Então sorriu.

Dessa vez parecia verdadeiro.

— Finalmente.

— Finalmente o quê?

— Você pareceu gostar de alguma coisa que aconteceu hoje.

Lia percebeu que ainda estava sorrindo.

— Não se acostume.

— Tarde demais.

A luminária piscou.

Klaus olhou para o lugar onde Ben devia estar.

— Ele concorda.

— Ninguém perguntou ao Ben.

Outra piscada.

Lia apontou para a luminária.

— E nada de participação não solicitada.

A luz se apagou.

Klaus arregalou os olhos.

— Ele fez isso de propósito.

— Estou começando a perceber a dinâmica familiar.

Kitsune devolveu a pulseira quinze minutos depois em troca de absolutamente nada, provando que todo o incidente ocorrera exclusivamente por entretenimento.

Lia entregou a Klaus a sacola da farmácia.

— Banheiro é a segunda porta. Tem toalha limpa no armário.

Ele espiou o conteúdo.

Escova.

Sabonete.

Pasta.

Coisas absolutamente banais.

Klaus ficou quieto.

— Klaus?

— Hm?

— Está tudo bem?

O sorriso apareceu.

— Maravilhosamente.

Lia já começava a desconfiar daquela palavra.

— Depois você come.

— Você realmente está determinada a me alimentar.

— Você está com fome.

— Como sabe?

O estômago dele respondeu.

Lia ergueu uma sobrancelha.

Klaus olhou, indignado, para o próprio abdômen.

— Traidor.

— Vai tomar banho.

Ele deu dois passos.

Parou.

Olhou para algum ponto ao lado de Lia.

— Não.

Fez uma pausa.

— Você fica aqui.

Lia cruzou os braços.

— Está falando com ele?

— Ben acredita que as regras não se aplicam a pessoas incorpóreas.

— Ben está enganado.

Klaus olhou para ela.

Depois para Ben.

— Viu?

Uma piscada na luminária.

— Ele diz que você é mandona.

— Ele está hospedado aqui há oito minutos e já perdeu o direito a opiniões.

Klaus começou a rir no caminho para o banheiro.

Quando a porta se fechou, Lia soltou o ar.

Foi então que percebeu Aegis no corredor.

Finalmente.

Ele não olhava para ela.

O gato observava alguma coisa no meio da sala.

Lia acompanhou seu olhar.

Nada.

— É o irmão dele?

Aegis piscou.

— Isso não é uma resposta.

Outra piscada.

Morrigan desceu da estante.

Caminhou até a poltrona do canto.

Parou diante dela.

Olhou para o assento vazio.

Então saltou.

Mas não se deitou.

Sentou-se na extremidade da poltrona, deixando cuidadosamente espaço ao lado.

Lia ficou olhando.

A almofada afundou.

Muito pouco.

Mas afundou.

— Ah, não.

Morrigan começou a ronronar.

— Não, não, não. Não encoraja.

Aegis caminhou até a poltrona.

Cheirou o ar.

Depois deitou diante dela.

Lia colocou as duas mãos na cintura.

— Cinco gatos.

Olhou para Morrigan.

— Cinco.

A gata piscou.

— Eu já trouxe um homem. Não vou adotar o irmão morto também.

A luminária piscou.

— Não foi um convite para participar da conversa.

Depois do banho, Klaus saiu vestindo uma camiseta antiga de evento de programadores, três tamanhos maior do que o necessário, e uma toalha de gatos ao redor do pescoço.

Parou no corredor.

— Posso fazer uma observação?

— Pode.

— Sua toalha tem estampa de gato.

— Todas as minhas têm.

— Isso explica muita coisa.

Klaus entrou na sala.

Morrigan continuava na poltrona.

Ele parou imediatamente.

Os olhos foram para o espaço vazio ao lado dela.

A expressão mudou.

— Ben?

Lia ergueu a cabeça.

Klaus ficou olhando.

Por alguns segundos, não disse nada.

Então soltou o ar.

— Ele está sentado com ela.

Lia terminou de colocar os pratos na mesa.

— Eu percebi.

Klaus virou-se devagar.

— Você percebeu?

— A almofada afundou.

— Ah.

— E aparentemente Morrigan aprovou.

Klaus olhou novamente para a poltrona.

Alguma coisa no rosto dele ficou menos tensa.

Quase imperceptivelmente.

— Isso é... raro.

Lia não perguntou o que exatamente era raro.

Aceitação?

Ben conseguir interagir?

Klaus não precisar ser a única pessoa numa sala que sabia que o irmão existia?

Ainda havia coisas demais que ela não sabia.

Colocou dois pratos de macarrão sobre a mesa.

— Ele come?

Klaus olhou para Ben.

Esperou.

— Continua ofendido com essa pergunta.

— Ótimo. Então fiz a quantidade certa.

Klaus comeu em silêncio durante alguns minutos.

Dessa vez não tentou esconder a fome.

Lia agradeceu mentalmente por isso.

— Por que você apareceu lá hoje? — perguntou.

Ele girou o garfo.

— Pela comida.

Uma pausa.

— E pelo barulho.

— Barulho?

— Lugar cheio de gente falando ajuda.

Lia esperou.

Klaus olhou para o prato.

— Às vezes faz tudo ficar mais distante.

Não precisava explicar mais.

Lia não tinha certeza se ele falava de Ben ou de outros mortos.

Provavelmente de ambos.

— Você não perguntou se eu sou louco — disse ele.

— Eu não sou médica.

— Mas está pensando.

— Estou pensando que você precisa dormir, comer e, amanhã, conversar com alguém que entenda melhor do que eu algumas dessas coisas.

Klaus ergueu os olhos.

— Um médico.

— Sim.

O sorriso desapareceu um pouco.

Lia continuou:

— Eu não vou arrastar você. Se você disser não, é não.

Ele ficou imóvel.

— Mas vou insistir — acrescentou. — Sou muito chata quando insisto.

O sorriso voltou.

Menor.

Verdadeiro.

— Já percebi.

Às seis da tarde, Klaus dormia.

Adormeceu no sofá em quatro minutos, no meio de uma explicação extraordinariamente apaixonada sobre as virtudes do pão de queijo.

Lia o cobriu com uma manta antes de perceber que o estava cobrindo.

Heimdall demorou menos de um minuto para subir no peito dele.

Klaus nem acordou.

Aegis se instalou sobre suas pernas.

Sekhmet escolheu um dos lados.

Kitsune ocupou o outro.

Morrigan?

Morrigan voltou para a poltrona.

Lia sentou à mesa com o notebook.

Tentou trabalhar.

Escreveu uma linha de código.

Apagou.

Escreveu novamente.

Apagou outra vez.

Olhou para a sala.

Cinco gatos.

Um desconhecido.

E um morto.

Talvez.

Definitivamente?

Ela ainda não estava pronta para essa conversa consigo mesma.

O celular vibrou.

Uma mensagem do trabalho.

Aproveitei o fim de semana para pensar num detalhezinho a mais. Só um. Segunda a gente vê.

Lia ficou encarando a tela.

Claro.

Porque o universo tinha senso de humor.

Levantou para buscar água.

Quando voltou, parou na entrada da sala.

Klaus dormia de boca entreaberta, o rosto menos tenso do que em qualquer momento do dia.

Heimdall continuava sobre seu peito.

Aegis, nas pernas.

Sekhmet e Kitsune enroladas dos dois lados, temporariamente aposentadas da vida de crime.

E Morrigan estava no braço da poltrona.

Vigiando.

A almofada ao lado dela afundou.

Lia ficou imóvel.

Morrigan virou a cabeça.

Piscou lentamente para ela, tranquila.

Lia cruzou os braços.

— Ele está aí, não está?

A luminária piscou uma vez.

Ela olhou para Klaus.

Dormindo.

Depois para a poltrona.

— Certo, Ben.

Nenhuma resposta.

— Algumas regras.

A luminária piscou.

— Seu irmão precisa dormir.

Nada.

— Então nada de luz piscando, objeto caindo, porta batendo, manifestação ectoplasmática, possessão ou seja lá o que vocês fazem.

A luz permaneceu estável.

— E não assusta meus gatos.

Morrigan ronronou.

Lia olhou para ela.

— Você não ajuda.

A almofada afundou um pouco mais.

Quase como se alguém tivesse se acomodado.

Lia suspirou.

— Uma noite.

Klaus se mexeu durante o sono.

Imediatamente a sala ficou imóvel.

Até os gatos.

Lia percebeu.

Ben também.

Aquilo a fez parar.

Porque, fosse o que fosse aquela presença, e independentemente de ela compreender como aquilo podia existir...

estava cuidando dele.

Lia abaixou os olhos para Klaus.

Talvez por isso ele tivesse dito que Ben nunca fora muito bom em ir embora.

Talvez Klaus também nunca tivesse pedido que ele fosse.

Lia voltou a olhar para a poltrona.

— Está bem.

A luminária brilhou um pouco mais forte.

— Não se empolga. Continuo não acreditando completamente em você.

Uma piscada.

Então outra.

Lia apertou os olhos.

— Isso foi sarcasmo?

Morrigan abriu um olho.

A luminária piscou uma terceira vez.

Lia apontou para o espaço vazio.

— Definitivamente irmãos.

Pegou o copo.

O celular vibrou novamente.

Ela olhou para a mensagem do trabalho.

Depois para os cinco gatos espalhados em torno de Klaus.

Para Klaus.

Para a poltrona ocupada por ninguém.

Ou, aparentemente, por Ben Hargreeves.

Naquela sala havia cinco gatos resgatados, um médium recém-resgatado e um irmão morto que aparentemente viera incluído no pacote.

Lia não tinha absolutamente nenhum protocolo para aquilo.

Olhou novamente para o celular.

Decidiu que, de todos os problemas presentes naquela sala, apenas um pagava as contas.

E, pela primeira vez na vida, escolheu deixar esse para segunda.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.