Notas iniciais
As drabbles e estórias curtas presentes aqui são:- Ar Puro(Spamano). - desafio de: Alface. - She moves in misterious ways(PruAus). - desafio de: Alface.- Cenas Especiais.(PruAus) - desafio de: Labi.

"Alguém de férias em uma fazenda e o caseiro do local."

– Entrada: Ar Puro.

Um pouco de ar puro é tudo o que você precisa”, foi o que disse a sua mãe. “Uma mudança de ares vai motivá-lo muito mais, você verá” garantiu seu pai. Humpf! Como se o ar tivesse alguma propriedade mágica que fosse torná-lo um gênio do nada! Se dependesse somente de sua vontade, Lovino Vargas teria mandado todos eles e aquele maldito pedaço de terra do avô dele se ferrarem. Infelizmente, não era como se a sua situação estivesse favorável o suficiente para que ele pudesse protestar. Considerando-se as suas últimas notas, ele estava surpreso que sua mãe ainda mantivesse sua paciência com ele, então não achava que um “Danem-se todos vocês, seus idiotas!” seria recebido com risos afetuosos e falas como “Oh, o senhor mal-humorado da família”. Não, não. Ele estava em uma zona de perigo. Eis porque o nível máximo de insatisfação que ele demonstrou, quando os seus pais disseram que ele passaria o mês na casa de verão do seu avô, foi um cruzar de braços e um resmungo contidamente ranzinza. A sua mãe era assustadora quando ela estava brava.

Bem, como ele previa, o campo estava se revelando um local estúpido e chato. Totalmente um saco, um saco de batatas podres, em sua opinião. O que diabos tinha na cabeça dos seus pais? Como ficar encarando o movimento da grama ou cabras passeando de um lado para o outro fariam com que as notas dele melhorassem? Era a lógica mais absurda do mundo.

Ele estava naquele campo há três dias e, embora fosse prazeroso ficar um pouco longe da pressão familiar e ele gostasse da dieta local, ele definitivamente não se sentia mais sábio do que era na cidade. Bem, esse deveria ser um problema imenso, tendo em conta que os seus pais estavam esperando que a natureza operasse algum tipo de milagre nele, mas Lovino não estava preocupado com isso. Tédio era o que ele sentia. Tédio e certo sentimento de frustração latente que poderia ser confundido com ressentimento ou mesmo com a emoção gloriosa e vingativa de um “Eu não disse?!”.

Foi somente nessa tarde do terceiro dia que uma mudança em seu estado de marasmo e aborrecimento geral aconteceu. Durante a sua observação cotidiana do movimento da grama e das cabras, um elemento inesperado apareceu no meio delas.

Era um homem.

Na verdade, não um homem. Um jovem moreno. A cada passo que ele avançava, Lovino noticiava melhor o seu rosto alegre, tranqüilo e longe de ter as marcas fundas da maturidade. O seu andar era um pouco cambaleante e leve demais, como se o corpo dele quase fosse levado pelo vento. Ele vestia uma blusa branca que por vezes o deixava similar a uma ave prestes a alçar vôo e por vezes destacava um físico que exibia os resultados consistentes de trabalhos braçais.

Lovino ficou ligeiramente boquiaberto por razões que ele não conseguiu entender de imediato e fez a única pergunta possível naquele contexto:

– Ei! Quem é você, seu estranho?! — ele gritou, sentindo a sua voz vacilar um pouco. Ele estava com uma porção de medo preventivo e não queria ser atacado ou rendido por um estranho, contudo não sabia como defender-se de seus temores, embora soubesse ofendê-los e ameaçá-los. — Não pense que eu não posso expulsá-lo se você for um invasor!

– Huh? – o estranho piscou inocentemente, detendo-se em sua localização a poucos passos do jovem Vargas — Quem é você?

Ele não parecia remotamente perigoso. Apenas um pouco surpreso.

– Não é assim que funciona. – Lovino comentou, deleitando-se com a própria confiança que ele estava tornando a adquirir. Ah! Pelo visto, aquele imbecil não era uma ameaça. Ótimo. Agora ele poderia mostrar toda a sua autoridade e poder diante dele. — Eu sou Lovino Vargas, entendeu? Eu faço as perguntas, você responde.

– Ah! Então você é o neto do senhor Vargas! – exclamou o estranho alegremente, começando a encaminhar-se na sua direção. A constatação de que ele havia acabado de dar o próprio nome involuntariamente fez com que Lovino tivesse vontade de bater seu rosto contra a palma de sua mão com toda a força. O estranho, no entanto, não parecia estar atento a esse humilhante detalhe. — É um enorme prazer conhecê-lo. Bem vindo a nossa alegre fazenda!

– E você? Quem é? – Lovino questionou com impaciência, erguendo seu queixo e descendo os cantos de sua boca com petulância — Um ladrão de cabras ou algo assim?!

– Há, há, há! É claro que não! – ele sorriu de uma maneira que estranhamente não guardava nenhum rancor ou sarcasmo — Eu sou o caseiro da fazenda. Eu estive fora nos últimos dias para buscar algumas encomendas do senhor Vargas na outra cidade. Aconteceram muitas coisas por aqui?

– Cabras pastaram. A grama cresceu. A água continuou correndo. – Lovino resumiu em um tom sem emoção.

– Quer dizer que está tudo em ordem, não é? Isso é ótimo! – concluiu o estranho dando um sorriso especialmente radiante. Ele parecia um tanto atraente quando sorria assim. O imbecil. — Você está se divertindo em sua viagem?

– Não, eu não…

– Eu imaginei que não! Afinal, você ainda não deve ter feito amigos e eu sei que você deve sentir falta da sua família!

Ei! Aquele tom de pena era realmente irritante! E o que ele quis dizer com “você ainda não deve ter feito amigos”?! Lovino Vargas podia ter cem amigos se ele quisesse! E-Ele apenas não queria!

Antes que Lovino abrisse a boca para expressar sua indignação e ofensa, o estranho colocou duas mãos grandes e gentis em seus ombros.

– O seu avô tinha me informado que você era um pouco tímido, mas nós vamos cuidar disso.

– Nós vamos? – o garoto arregalou os olhos, consideravelmente espantado, e acabou os direcionando com alguma ansiedade para as mãos que pesavam ternamente em seus ombros.

– É claro que vamos! O que você me diz de organizar um piquenique com os outros rapazes da região? São suas férias! Você precisa se divertir! Nós podemos tomar um banho de rio e capturar alguns vagalumes quando anoitecer.

A primeira tendência de Lovino era sempre a de dizer “não”. Era parte da sua natureza acomodada. Entretanto.... Francamente, a perspectiva de passar uma tarde comendo e tomando banho com aquele caseiro e passar a noite caçando vagalumes com ele, não parecia nada mal. Havia alguma coisa naquele estranho. Alguma coisa no jeito como ele sorria, no jeito como ele era tão espontâneo e afetuoso, no jeito como ele emanava um cheiro de terra, no jeito como os músculos dele apareciam discretamente quando a sua camisa larga era empurrada contra o seu corpo pelo vento…

Lovino tinha dezessete anos.

– Bem, não poderia ser mais tedioso do que ficar o dia inteiro sentado nessa varanda. – ele comentou com um proposital semblante de descaso, alongando-se distraidamente.

Seria bom sair um pouco, ele pensou. Talvez ele precisasse mesmo de um pouco de ar puro.

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"Tocadora de piano misteriosa de um bar e seu cliente."

– Prato principal: She moves in misterious ways

Ninguém conseguia compreender o gênio de Rebeka Eldestein. Ela era o que muitos considerariam uma peça singular.

Ela tinha uma formação clássica, mas optou por tocar jazz em um bar mais distinto da cidade em vez de unir-se a alguma orquestra, como seria esperado. Ela sempre usava vestidos extremamente elegantes, mas os repetia cerca de quatro vezes por semana. Ela tinha postura, semblante e gestos solenes e impassíveis como os de uma imperatriz. Todavia, quando tocava o seu instrumento, ela deixava todo o seu corpo ser levado pela música e arqueava-se, balançava sua cabeça, inclinava-se e agitava-se; praticamente possessa pelas notas que emitia. A sua insipidez habitual muito contrastava com a emoção do seu piano.

É válido constar que, dentre todos os mistérios que envolviam Rebeka, aquele que era mais notório era a capacidade de Gilbert Beilschmidt em explicar os demais.

– A Rebeka?! Em uma orquestra?! Pfttt! A jovem dama jamais passaria pelo processo do artista sem recursos financeiros batalhando por seus sonhos! Dinheiro rápido e bons contatos são mais o tipo dela. Se um bar da elite da cidade precisa de uma figura para tocar jazz, bem, o estilo se torna subitamente interessante para ela.

– Oh! A aristocrata certamente tem condições de comprar mais vestidos! Ela é apenas um tanto mesquinha, você sabe. Ai! Ai! Não jogue a partitura em mim, Rebeka! Certo, certo! Ela é “economicamente razoável”!

– O que posso dizer? Ela ama a música. Eu não acho que exista algo que a deixe tão feliz ou que revele tanto os sentimentos que ela disfarça com essa expressão de monarca vendo a plebe com tédio. Essa garota é fantástica quando está no piano.

Era curioso porque eles eram figuras inteiramente antagônicas. Gilbert era aquele um daqueles tipos extrovertidos que distribuem bebidas para todos, fazem piadas maliciosas, riem e falam muito alto, fazem apostas idiotas e dão tapas violentos nas costas de pessoas com quem se simpatizam. Rebeka Eldestein era a fina, gélida e nobre dama que evitava interações com fregueses e franzia sutilmente o nariz para aqueles que pareciam ter bebido demais. Como esses dois indivíduos haviam se conectado?

Sem contar que eles (ainda) não tinham uma relação fora daquele espaço. Gilbert era simplesmente um cliente que se aproximava de Rebeka em suas pausas e conversava com ela por alguns minutos. Eram conversas com um volume moderado e apenas pedaços delas poderiam ser apanhados no meio da festa dos sons do estabelecimento. O que poderia ser percebido é que Rebeka era a pessoa que mais falava nesses diálogos e que Gilbert a contemplava com uma expressão sorridente cujas feições revezavam-se entre uma implicância carinhosa e algo mais quieto, doloroso e profundo. Depois que eles terminavam de se falar, Gilbert voltava para uma cadeira sempre próxima ao piano e observava compenetradamente os movimentos de Rebeka ao instrumento por um longo tempo, antes de levantar-se com um suspiro fundo e gradativamente voltar a interagir com as outras pessoas. Eram esses os momentos de contato deles. Pareciam tão simples e casuais. Era estranho, portanto, que Gilbert tivesse gravado em sua memória tantos detalhes pequenos sobre Rebeka nesses contatos, absorvendo-os como uma esponja. Era estranho também ver como a usualmente inalcançável Rebeka Eldestein facilmente transmitia esses detalhes para ele e como havia, por vezes, um brilho em seus olhos quando eles conversavam que antes só costumava ser visto quando ela tocava o seu piano.

E mesmo assim, ela permanecia em absoluto silêncio nos minutos que não eram da sua pausa de trabalho. Ela vestia o seu casaco com calma e saía sem falar com ninguém. Apenas dirigindo um relance, o qual poderia ser interpretado como esperançoso ou triste, pois a sua expressão era sempre nebulosa e indecifrável, para o chamativo centro das atenções do bar, onde um extrovertido estava envolto por pessoas demais para perceber que era observado por uma delicada figura ao longe.

Rebeka Eldestein definitivamente era uma mulher misteriosa.

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"Gilbert a narrar as ações do Roderich, como se fosse um documentário da BBC sobre a vida selvagem, apenas para irritá-lo."

Sobremesa: Cenas Especiais.

"Aqui nós temos um perfeito espécime de ‘Aristocratus Chactus’ em seu habitat natural…"

– Gilbert Beilschmidt, pare com isso. Eu já o informei repetidamente que não gosto de ser incomodado quando estou na sala de música!

"Oh. Ele parece um pouco agitado. Os ‘Aristocratus Chactus’ são muito territorialistas e podem lançar partituras ao terem seu espaço invadido por… Ai! Que droga, Rod…! Veem? Um perfeito exemplo do ataque efetivo de um desses seres ancestrais. A natureza é mesmo fascinante."

– Pare com essa atitude infantil e sente-se ao meu lado. Eu quero ouvir a sua opinião sobre a minha execução desse Ravel e posso preparar uma torta para você, depois que terminarmos. Se você tentar ser útil, eu cogitarei em recompensá-lo.

"Formidável! Além de vermos a ofensiva de um ‘Aristocratus Chactus’, nós recebemos a rara oportunidade de presenciar essa espécie iniciando seus rituais de acasalamento com a sua mais do que sensata escolha de parceiro!"

– Gilbert!!!

Notas finais
Olá, cara leitora! Novamente, muito, muito obrigada por estar acompanhando ou relendo os trabalhos dessa coletânea! Eu ainda estou em processo de transferência de drabbles antigas, contudo pretendo colocar algumas produções inéditas aqui, dentro de uma semana. O apoio e incentivo dos meus leitores sempre é muito apreciado, mesmo em um projeto casual como esse. Sendo assim, eu espero que vocês continuem a ler, apreciar e comentar as pequenas estórias dessa coletânea! Nós nos encontraremos em breve! Bai, bai!:3