Um Insuportável solitário
28 Capítulo 28 - Saudade que me mata
Notas iniciais
– Quem mais vai estar lá? – Pede Olivia passando repelente pela milésima vez em seu braço.
– Apenas meus bisa avós e minha mãe. – Rio quando ela deixa o braço branco.
– E se eles não gostarem de mim? – Pede ela nervosa e enrugo a testa, mas ignoro o sentindo de sua pergunta. – Todo mundo fica duvidoso quando me conhece...
Olho pra ela quando paro no sinal.
– Hãm... quer dizer! – Ela coça a garganta. – Meu irmão me disse que eu era bruta, talvez esse minha fama chegou aos ouvidos deles. – Ela dá de ombros e aceno com a cabeça e volto a olhar a estrada.
– Eles vão gostar de você! – Dou um sorriso malicioso.
Ainda to sentindo cheiro de treta vindo dela.
Com isso ela se cala e ligo o som e esta tocando uma música de Ed Sheeran, não sei bem se é nova, mas Olivia canta com emoção e bem baixinho e apenas presto atenção à intensidade disfarçada.
Ouvir a voz de Olivia assim, cantada é tão prazeroso que faz meu coração encher de vermelho como a minha mãe uma vez me disse.
– Quando a gente encontra alguém que faz com que vejamos nosso coração pulsar vermelho e quente, quer dizer que essa pessoa realmente nos faz bem.
– Mas eu já sinto meu coraçãozinho assim quando eu fico com a senhora e o papai. – Cael sorri para mamãe que o abraça forte.
– Eu sei, mas há também outras pessoas que vocês vão conhecer e fazer com que sintam isso, assim como você sente quando está conosco. – Ela alisa nossos cabelos.
– Eu não quelo senti isso! – Digo ao bagunçar meu cabelo outra vez.
– Querido, você só tem dez anos, ainda vai viver muita coisa nesse mundo. – Mamãe entorta a boca em desgosto e logo sorri para nós. – Mas lembrem de que a mamãe e o papai sempre estarão aqui. Ok?
– Sim! – Eu e meu irmão falamos ao mesmo tempo.
– Agora vamos dormir que amanhã vamos pra escola. – Ela nos beija a testa e nos deitamos nas camas. – Boa noite meus furacões lindos!
– Boa noite mamãe! – Falamos.
– KAIK! – Grita Olivia e tomo um susto e olho pra ela. – Eles estão nos olhando!
Ela aponta para nossa frente e vejo que já chegamos à fazenda e meus bisavós e mamãe estão na porteira nos encarando, e creio que ninguém ainda nos enxergou já que mamãe está sem óculos e não enxerga de longe.
Meu sorriso vira de coringa e coloco a mão e a cabeça para o lado de fora.
– RAPARIGAS! – Grito pra eles e logo ouço o grito do meu bisa avô.
– PELAS BARBAS DE MERLIM! É KAIK MESMO!
Caio na gargalhada e me aproximo com o carro e bisa abre a porteira e depois fecha quando passo.
– O que vocês três estão aprontando em? – Peço olhando pra eles.
– Essa moça que é Olivia? – Pede minha bisa.
– sim, sou eu. – Ela sai do carro e sai abraçando meus bisa avó. – como vocês vão? Caramba, eu fiquei tão ansiosa pra conhecer vocês, na verdade já conheci os Maldonatos, agora faltam os Gandras. – ela sorri animada e enrugo minhas testa.
“eu fiquei tão ansiosa pra conhecer vocês, na verdade já conheci os Maldonatos, agora faltam os Gandras”
E antes que eu diga alguma coisa, eles já vão entrando no carro e eu bisa avô senta na frente enquanto as mulheres sentam atrás e entram em uma conversa sem fim. E estranho o comportamento de Olivia sendo que meses atrás ela estava toda educada, calma, e envergonhada, e agora é um estouro e falta de vergonha na cara como ela sempre fora.
Será que ela está voltando ao normal? Se estiver voltando ao normal, quer dizer que suas memórias também?
Assim que chegamos a grande casa, eu e meu bisavô pegamos as duas malas e uma mochila de Olivia e se fosse a antiga Olivia duvido que tivesse mais que sua mochila com suas coisas. Ela entra em uma conversa animada com minha mãe e a bisa e meu bisa avô me olha com aquele sorriso que papai faz quando está pensando em alguma maldade.
– Moça bonita! – Ele comenta e nada digo. – Mais bonita que a aquela loira.
– A Lúcia? – Peço rindo e ele acena com a cabeça.
– Essa tem cara de leoa.
– Você ainda não viu nada vovô! – Comento rindo. – Espere e verás!
Chegamos um pouco depois das três da tarde e mamãe preparou um lanche para nós e ficamos na varanda de trás conversando sobre amenidades até que a bisa solta sua curiosidade.
– Há quanto tempo você e Kaik estão juntos? – Pede ela com doçura.
Mas quem não conheça que a compre. Bisa sempre jogando para descobrir as coisas.
– Ah! Um bom tempo. – Olivia diz calmamente e olho pra ela. – Desde que começamos na faculdade... uns seis anos? – Pede ela ao me olhar.
Enrugo a testa e a encaro.
Como ela se lembra se ela perdeu a memória?
– Sete anos e três meses e dois dias. – Digo automaticamente e todos me olham. – Sou bom com datas e números. – Dou de ombros e mamãe ri.
– E como anda suas exposições? – Pede meu bisa avô. – Giovana me disse que seus quadros são lindos.
– Ah, obrigada. – Ela diz meio envergonhada. – Está indo uma maravilha. Meu assessor fechou uma parceria em Paris. Estarei me mudando daqui a três meses.
SE MUDANDO PARA PARIS? EM TRES MESES?
Tento agir normal, mas é inevitável!
Viro-me para ela e pisco surpreso enquanto ela age normal e minha respiração falha.
Olivia parece estar alheia a mim quando conversa com minha mãe e meus bisa avós, levanto-me dando a desculpa de que ligarei para meu pai avisando que chegamos bem, mas na verdade vou para o rio que tem um pouco mais atrás da varanda e me sento na beirada vendo a fraca correnteza a minha frente.
– Eu não acredito que você está colocando rodinha na minha bicicleta! – Bufa Olivia ao cruzar os braços.
– Sim, pois você nunca teve uma e eu comprei porque quero que você aprenda a andar pra você me fazer companhia aos domingos de manhã! – digo ao apertar o parafuso da ultima rodinha. – Pronto. Agora vamos!
– Me sinto uma criancinha.
Assim que me levanto a vejo com uma regata meio larguinha branca, bermuda jeans curta, allstar pretos e cabelos em um coque bagunçado e sem maquiagem.
Ela pode estar parecendo tudo, meninos uma criancinha.
– Ótimo, agora falta o capacete! – Sorrio pra ela que nega com a cabeça e eu sorrio bobo.
– Não! – Ela bate o pé.
– Sim. – Dou um sorriso preguiçoso.
– Ah, não! – ela dá um passo para trás quando pego o capacete em cima do meu carro.
– Ah, sim! – Me aproximo e beijo sua testa. – Prometo que você só colocará o capacete, a cotoveleira e a joelheira não precisa.
– Menos mal, me sentiria uma idiota! — Resmunga ao revirar os olhos.
– Quer parar com essas coisas? – Ela me olha intensamente nos olhos. – Agora vamos!
Prendo o capacete em sua cabeça e ela bufa.
– As pessoas vão rir de mim! – Ela diz chateada.
– Ninguém vai rir Olivia, você só está aprendendo a andar de bicicleta.
– Mas já sou burra velha...
– Que está aprendendo a andar. – Seguro a bicicleta e ela intercala o olhar pra mim e sua nova bicicleta.
– Tá! Mas você vai me deixar cair? – Pede ela com medo ao fazer um bico adorável e rio de leve.
– Nunca te deixarei cair. – Digo feliz.
– Tem certeza? – Pede duvidosa ao colocar a mão no banco da bicicleta.
– Olivia!
– Ok, ok! Estou com medo. Mais que coisa! Nunca andei nesta coisa de duas rodas sozinha. – Ela bate o pé como uma criancinha.
– Está vendo isso aqui? – Aponto para as rodinhas.
– Hum!
– Isso é para que você não caia. Entendeu? – Ela acena com a cabeça e morde os lábios. – Nos primeiros dias faremos com as rodinhas, depois quando você se sentir segura as tirarei.
– Não precisa me sinto bem segura com elas. – Ela diz medrosa e rio.
– Mas você nem andou pra saber! – Cruzo meus braços.
– Tá, tá, ta! – Ela resmunga e sobe na bicicleta e me afasto dois passos. – VOLTA AQUI KAIK! – Ela grita desesperada e prendo o riso.
– Olivia, você está parada, relaxa!
– Não tem como relaxar, estou com medo da poha, me segura! – Ela diz apavorada.
– Ok, estou aqui! – Coloco uma mão no fundo de seu banco e a outra no guidão. – Vou empurrar devagar enquanto você pedala. Ok?
– Ok, ok. Ok. Ok!
– Devagar, não precisa ter medo. – Digo baixinho e ela acena com a cabeça e respira com dificuldade. – Tudo bem?
– Tu-tudo. – Ela gagueja.
Tão linda gaguejando.
Vou empurrando a bicicleta devagar enquanto ela dá leves pedaladas e seu olhar está sempre a sua frente e as vezes ela sorri, porém ele logo morre quando o medo a invade. Depois de alguns minutos andando com ela bem devagar, a deixo fazer força no pedal e a deixo ir sozinha.
– Devagar. – Digo pra ela ao se afastar. – Isso, está indo bem!
– SEGURA ESSA CHUCHU! – Ela grita eufórica na bicicleta e pega um pouco de velocidade.
– DEVAGAR! – Grito. – APERTA O FREIO!
– ONDE É A DROGA DO FRE...
E lá se vai Olivia se estabacando no chão.
Mas quem não tem um tombo registrado ao aprender a andar de bicicleta?
– SEU PUTO! – Grita Olivia com raiva e com a voz meio embargada.
Corro em sua direção e a vejo em cima das latas de lixo e a bicicleta em cima dela.
– Meu queixo. – Ela chora. – Meu queixo, meu queixo.
– Calma, deixe-me ver. – Peço ao tirar a bicicleta de cima e a puxo pela mão com cuidado.
Ela levanta o rosto e vejo uma linha grossa de sangue.
– Ok, haja o que houver, feche os olhos e não olhe pra baixo.
– Estou sangrando, não estou? – Pede chorosa.
– Sim, eu vou secar isso, não olhe ou você vai desmaiar. – Peço e ela fecha os olhos.
Rapidamente pego a ponta de minha camisa preta e coloco em seu queixo, porém o sangue que sai é em grande quantidade.
– Vamos ter que ir ao hospital.
– Droga! – Ela chora mais. – Odeio hospitais.
– Eu sei, mas vai ter que levar alguns pontos para que não sangre mais.
– Tudo sua culpa. – Resmunga ela tirando o capacete. – Não quero mais andar de bicicleta.
– Realmente aqui é um lugar muito bom. – Diz Olivia me trazendo ao presente. – Sua mãe me disse que você ficava aqui em frente quando estava pensativo.
– Nem sempre. – Dou de ombros.
– Preciso te contar uma coisa. – Ela diz baixinho como se tivesse medo de me contar.
– Que você vai morar em Paris agora? – Peço com um riso morto. – Não se preocupe comigo, consigo sobreviver. – Beijo sua testa. – Até porque é seu so...
– Eu menti. – Ela diz me cortando e enrugo minha testa encarando-a. – Eu menti esses últimos meses depois que fiquei no hospital! Eu me lembro de tudo! Eu não tinha me esquecido de nada, mesmo que eu sofresse amnésia eu nunca me esqueceria de você. – Ela dá de ombros e minha boca fica aberta chocado.
FILHA DA MÃE!
E nesses meses eu poderia tê-la arrastado para meu quarto e feito o que ela tanto diz que eu não faria com ela.
Ficamos longos minutos em silêncio apenas nos encarando. Ela com um olhar de suplica para eu não surtar e o meu cheio de amor, porém raiva, mas uma raiva passageira que pode ser resolvida na cama.
ELA ME PAGA! AH! SE PAGA!
– Sabe que está encrencada com isso. Certo? – Peço ao olhar sério para ela que acena com a cabeça e meche nos dedos nervosa. – Mas primeiro preciso fazer uma coisa antes de soltar os cachorros em você.
Seguro-a pelo rosto e mais uma vez nossos lábios estão um no outro, porém os meus devoram os seus, pois a saudade que sinto dela, mesmo provando apenas uma única vez é maior do que qualquer outra coisa.
Logo sinto suas mãos em minhas costas e depois em meus cabelos puxando-os com vontade e meu parceiro logo fica animado.
É, logo, logo será hora de brincar.
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