Um Homem Encantador Às Avessas
1 Um Homem Encantador Às Avessas
Notas iniciais
Takao Kazunari observava quase com carinho a cena ridícula a que Midorima Shintaro se prestava no meio do vestiário masculino do colégio Shutoku.
Shintaro estava estático já há alguns minutos e continuava ali perdido num universo paralelo dando risadinhas agudas e ostentando um sorriso maldoso no rosto totalmente alheio aos olhares de estranheza por parte dos outros garotos que faziam um largo contorno ao passar por ele.
— Senpai, será que ele está bem? — murmurou um dos novatos com preocupação.
— Parece mais normal que nos outros dias para mim — ironizou Watanabe-kun que também observava a cena.
Takao deu de ombros e concordou com a ironia.
— Shin-chan, parece mesmo ótimo hoje.
Era muito engraçado que uma pessoa tão sensível conseguia se expor ao ridículo de novo e de novo sem nem se dar conta. Takao o achava tão ingênuo em certos aspectos…
Midorima Shintaro era um esquisitão. Alto e sério demais para os seus dezesseis anos. Não podia ser considerado tímido, mas era um introvertido cheio de manias. Tinha gostos e hábitos que lembravam gente velha e uma postura rígida e orgulhosa que mascarava sua inexperiência.
Ele era conhecido na esfera do basquete escolar como um dos membros da Kiseki no Sedai, um time de gênios da escola secundária Teiko. A "geração dos milagres" mudou a dinâmica do esporte enquanto jogou no Fundamental, pois venceram todos os jogos em seu caminho com uma facilidade absurda. Tanta glória não justificava a arrogância e desprezo pelos demais jogadores. A derrota era amarga e a vitória também não parecia assim tão saborosa para os vencedores.
Takao escolheu cursar o Ensino Médio na academia Shutoku única e exclusivamente por seu nome forte no basquete estudantil. Seu principal interesse era enfrentar novamente os membros da Kiseki no Sedai e esmagá-los. Foi impactado especialmente pelo “megane-kun” que nunca errava um arremesso de três pontos e acertou aquela maldita cesta sem nem olhar para ela já que estava muito ocupado lhe encarando com superioridade.
E justamente esse cara de óculos ia ser seu colega de time (e de classe!) pelos três anos do Ensino Médio.
Kazunari o odiava. Tentou mudar de escola no mesmo dia que o reconheceu na seletiva do time e ouviu o nome dele: Midorima Shintaro. Mas sua mãe, com um único olhar de aviso, fez com que se calasse e desistisse de qualquer ideia precipitada. Afinal, Takao foi terrivelmente insistente na ideia de estudar na Shutoku. A escola ficava em outro distrito de Tóquio, longe de onde morava, mas o garoto planejou e combateu todos os argumentos contrários. Aceitou de presente a bicicleta acoplada a um carrinho de madeira que seu tio ofereceu e se propôs a acordar uma hora e meia mais cedo e ir pedalando naquela condução exótica até outro canto de Tóquio.
Se não poderia mudar de escola via duas opções: continuar no time odiando seu colega de equipe ou dar o braço a torcer e esquecer toda inimizade. Desistir do basquete era algo que não faria nunca; nem por causa de dez Kiseki no Sedai, muito menos por apenas um deles.
Takao engoliu seu rancor. Planejou apenas tolerar o megane-kun e tratá-lo com a mesma indiferença com que o outro tratava a todos, mas… A excentricidade de Midorima o atraía. Enquanto todos cochichavam pelos cantos sobre os objetos bizarros que Shintaro carregava para todos os lados e evitavam sequer falar com ele, Takao sentiu-se curioso e compelido a se aproximar.
A primeira impressão era de que nunca se dariam bem. Midorima era arisco, seco e quase rude ao tentar se ver livre do “infortúnio” que o sorridente e falante Takao representava em sua pacata vida estudantil. Mas, de alguma forma misteriosa, a amizade vingou e floresceu. A rivalidade continuava, porém, Takao tinha declarado que ainda venceria Shintaro num mano a mano e todos os dias o acompanhava em seus treinos de arremesso quando o treino oficial terminava. Enquanto parceiros de equipe, os dois descobriram que tinham uma química fora do normal; a precisão de Midorima trabalhava muito bem com a visão de falcão que Takao tinha (coisa que o treinador Nakatani estava disposto a explorar até a exaustão).
Takao concluiu que, o que quer que tenha causado o episódio no vestiário, não devia ser tão grave assim já que Midorima esteve normal durante todo o treino.
O capitão do time chamou a atenção de todos reunidos perto dos bancos.
— Pessoal, o treinador pediu para avisar que amanhã não teremos treino. A equipe feminina vai precisar da quadra. As competições delas foram adiantadas.
O time irrompeu em exclamações de surpresa e gracejo. Era muito raro quando algo assim acontecia — Shutoku não tinha a alcunha de “Veterano” á toa, a instituição leva os esportes muito a sério. Alheio a comoção geral, Midorima suspirou. Ele estava em pé próximo ao banco assim como Takao.
— Aposto que não gostou, né, Shin-chan? Quer ir treinar comigo em outro lugar?
— Também temos jogos para vencer. Não quero ficar parado — reclamou secando o rosto na toalha. — Mas para onde iríamos?
— A gente acha alguma quadra aqui perto... Tem que ver com o pessoal que mora nessa região. Vou convidar os outros e te falo.
— Ok.
Quando o falcão sentou no banco para conversar com os outros sobre os planos de amanhã um objeto estralou em seu quadril.
— Mas que me-
A frase ficou pela metade quando notou que tinha quebrado o plástico de um relógio de parede. Ninguém mais andaria com um objeto daquele além do seu ilustríssimo amigo e rival. Já podia o ouvir gritando indignado sobre “o item da sorte para Câncer!”
Virou a cabeça lentamente para espiar a fúria de Shintaro e seu sorriso fraco, pendurado por um fio, era prova do nervosismo.
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No dia seguinte, eles tiveram o treino de basquete mais divertido e puxado de todos. O resultado era prova viva de que a união fazia a força. Ninguém da equipe ficou de fora do treino improvisado.
Os garotos que moravam na região indicaram a quadra de bairro e ainda subornaram as crianças para que elas deixassem a quadra livre apenas por aquela tarde.
O sol estava de matar, mas alguns dos meninos lembraram de levar protetor solar e dividiram com o restante e também havia uma brisa agradável que ajudava a refrescar de vez em quando.
Sem treinador ou qualquer supervisão, tinha tudo para ser um treino leve, mas, assim que começaram a jogar, o ambiente aberto e fora da rotina os ajudou a focar e acabaram estendendo o treino até mais tarde.
Depois de tudo, ainda juntaram as moedinhas para comprar bebidas e picolés para todo mundo e conversaram bobeiras até ameaçar escurecer.
O céu estava naquele tom de vermelho intenso que era o adeus do sol a mais um dia enquanto Takao pedalava a última subida até a esquina da casa de Midorima — que vinha sentado no carrinho de madeira em sua pose soberana por ter vencido no jokenpô (como sempre).
Aparentemente, o massacre do item da sorte no dia anterior tinha sido perdoado, ou esquecido (e não seria Takao a lembrar do fato).
Midorima desceu do riquixá e, antes que Takao pudesse ofegar um adeus, a mão direita bagunçou os cabelos escuros criando listras com os dedos num movimento único de trás para frente; um afago meio bruto e incomum. Shintaro não virou para trás enquanto se despedia, mas havia um micro sorriso na lateral de seu rosto… As palavras dele:
— A prova de Física é amanhã, Bakao. Não vou te emprestar meu lápis da sorte.
Demoraram a fazer sentido na mente obtusa de Kazunari e mesmo depois que ele as entendeu, não conseguiu fazer qualquer conexão.
O lançador já não estava mais a vista quando Takao saiu da inércia e pedalou rumo a casa, um suave sorriso em seu rosto.
Takao tentou rir enquanto descia da bicicleta e a guardava na garagem, mas algo parecia repuxar seu rosto. Sentia-se um tanto petrificado.
Cumprimentou sua mãe no automático. Tagarelou sobre o dia divertido e implicou com Masaya – o irmão mais novo – antes de subir para tomar um banho muitíssimo necessário por conta do dia suarento.
Tocou o topo da cabeça receoso, o toque de Midorima parecia ainda estar ali como se houvesse dedos fantasmas em seu cocuruto. Pequenos arrepios desciam pelo seu rosto.
Olhou para o celular depois que saiu do banho e sentiu seu coração o incomodar enquanto olhava para as fotos que tirou do time. Seu olhar focava especialmente numa pessoa de estranhos cabelos verdes, óculos retangulares e postura altiva. Numa das últimas fotos, ele bebia shiruko (sopa de feijão vermelho) mesmo depois do dia calorento...
Sua mãe o surpreendeu escancarando a porta enquanto o chamava para o jantar.
Takao Masaru fechou a porta do quarto meio em choque pela cena que tinha interrompido. Grossas lágrimas desciam pelas bochechas de Kazunari enquanto ele ria balançando a cabeça em negação.
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Takao chegou a conclusão de que Midorima só estava de bom humor — podia acontecer com ele também, claro, ele ainda era humano (apesar das aparências…). A confirmação veio nas respostas monossilabicas, e tão secas quanto o deserto do Saara, no chat que Takao iniciou ao enviar as fotos do time editadas com filtros engraçados. Shintaro odiava tudo que fosse moderno e sociável. Era um parto para fazê-lo atender o celular e suas conversas no chat eram sempre curtas e enfezadas. Tinha mesmo um espírito de senhor de idade.
Por alguns dias a rotina voltou a normalidade, ou o que Takao tinha convencionado chamar como normalidade, já que andar com um cara de quase dois metros de altura carregando uma chaleira por todos os lados na escola não parecia o tipo de normal “padrão”, mas era o normal para os amigos e colegas de Midorima Shintaro.
Takao estava tranquilo apenas cogitando se compraria um pão de yakisoba ou um melon pan na cantina, mas ao abrir seu armário encontrou um envelope. Olhou ao redor, mas ninguém parecia estar prestando atenção no que ele fazia.
Era uma carta romântica e o papel perfumado era agradável, tão doce que quase podia sentir o cheiro na língua. Takao apreciou a cursiva feminina escrita numa caneta cor de rosa. Apreciou as palavras elogiosas também e sentiu-se tocado por ter uma admiradora. Na carta, ela o convidava para se encontrarem amanhã no horário do almoço, atrás do pavilhão de natação. Não havia assinatura na carta nem no envelope então teria que esperar para ver de quem se tratava.
— Takao-kun, ainda está aqui? Não ia correndo para a cantina?
Guardou a carta no armário e seguiu para o refeitório com Takahashi-kun.
— Fui distraído! — respondeu sorridente.
— Ah? Você e o Midorima-san podem dar as mãos então, por que estão indo pelo mesmo caminho...
— Shin-chan? De novo?
O outro garoto assentiu.
— Eu precisei cutucar o ombro dele para que ele pegasse a folha do exercício e passasse para frente. Mas diferente de você, ele parece aborrecido e não picado pela abelhinha do amor... — debochou.
— Oe! Que conversa é essa? Não é nada disso!
Os dois riram juntos trocando leves insultos até a mesa que já reunia o pessoal de sempre. E um Shintaro que olhava pela janela ao invés de comer.
Takao lhe deu uma cotovelada.
— Ei, Shin-chan, troca de pão comigo? Quando eu cheguei o de yakisoba já tinha acabado.
Midorima olhou desorientado para o pão em suas mãos. Não tinha dado nem uma mordida sequer. Acabou trocando pelo melon pan de Takao sem reclamar.
A conversa ao redor da mesa girou em torno de uma série de TV e depois foi para um programa de luta livre. Kazunari participava, mas não conseguiu deixar de notar que Shintaro não se restringia a apenas ouvir como sempre; sua mente parecia longe, em outro planeta.
O cotovelou de novo só para irritar.
— Ein, Shin-chan, qual é a sorte de Câncer para hoje?
— Nada demais. Mediana. Recomenda-se usar azul.
— E você está usando azul? — questionou um dos garotos visto que não havia nem uma pulseira ou lenço a vista que indicasse a cor.
— Estou...
O rubor crescente no rosto do outro fez Takao gargalhar.
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Eles foram dispensados da última aula, pois o professor tinha um compromisso. Todos os alunos ficaram em polvorosa, a maioria fazendo algazarra antes de ir embora, outros ficando na sala para conversar um pouco mais. E então Takao notou Midorima, que tinha escapado de um grupo de conversa para ir olhar pela janela (com toda a sua solidão de alma idosa), andando de um lado para o outro parecendo muito preocupado e pensativo.
Takao queria fofocar sobre a carta que recebeu, mas sentia-se meio intimidado em falar sobre aquilo com o sérissimo Shintaro; e não fazia ideia de como ele receberia a notícia (talvez como uma bobagem qualquer?), mas também não queria contar para outras pessoas já que ele era o seu melhor amigo e devia saber primeiro. Porém, vendo o megane-kun daquele jeito era impensável querer ocupar aquela cabeça problemática com algo tão mundano.
— Shin-chan, — Takao chamou segurando os ombros dele firmemente. — independente do que esteja te incomodando, você não precisa encarar isso sozinho. Conte comigo.
Takao observava de baixo quando Midorima, uma cabeça mais alto, ficou pálido. Ajudou ele a se sentar antes que desmaiasse. Talvez tenha sido muito brusco em interromper o fluxo de pensamentos obsessivos do esquisitão.
Ele o ajudou a se recuperar e caminharam devagar para a quadra de basquete. Pediria autorização ao treinador para comprar um energético para Shintaro.
Não tocaram mais no assunto, embora o outro ainda estivesse meio distraído e agora evitava olhar em seus olhos.
Takao convenceu-se de que, o que quer que estivesse preocupando o amigo, era algo muito sério. Não sabia se devia se intrometer ou não, mas queria ajudar. Fato é que uma nova hipótese, mais aterradora que todas, começou a passear pela cabeça quase oca de Kazunari: e se Midorima estivesse doente?
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No dia seguinte, quem estava sério era Takao que observava atentamente qualquer movimento vindo da carteira atrás de si. Mas mantinha os bons ânimos junto aos amigos da classe; não seria Kazunari se conseguisse manter-se sem rir ou sorrir por mais de dez minutos. Hoje, porém, ainda tinha a carga emocional de ir ao encontro da admiradora secreta. Estava um pouco nervoso e sentia-se um pouco culpado; queria ter dedicado a ela mais do que um breve pensamento, mas a verdade era que não precisava pensar muito para concluir que não desejava nenhum envolvimento agora. E no final das contas, ele era natural demais para ficar ensaiando um pedido de desculpas.
Como suspeitava, ela era uma menina linda.
Com o rosto completamente vermelho, finalmente disse o próprio nome e reafirmou os sentimentos que tinha escrito na carta. Takao a escutou e, após o pedido formal para que ele passasse a pensar nela romanticamente, fez uma grave mesura agradecendo a carta e todo o carinho, mas recusando a proposta de qualquer envolvimento.
Claro que ela chorou e a pergunta já era esperada:
— Por quê?
Takao se aproximou para afagar o ombro dela.
— Não chore. Eu fiquei muito feliz com a sua carta. Nunca tinha recebido nenhuma confissão antes, sabia? Eu vou lembrar de você para sempre... Mas não posso corresponder às suas expectativas.
Ela ergueu a cabeça desesperada.
— Já tem alguém? Em seu coração?
— Ah... É. Sim. Em minha mente, sim.
Fez uma nova reverência antes de ir embora.
Meio impactado pela emoção de seu primeiro contato com qualquer tipo de romance, Takao deu o capítulo por encerrado.
Decidiu que nunca contaria nada daquilo para Midorima nem para ninguém. Agora que estava acabado, ele percebeu que estava constrangido para além da conta.
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Quando o assunto "romance" veio a tona no vestiário masculino dias depois, Takao ainda estava embaraçado demais pela experiência recente para conseguir conversar com indiferença sobre o assunto. O seu normal seria entrar na roda e tatear os colegas de time pelas melhores e mais vergonhosas histórias, mas dessa vez se absteve de apenas ir no banheiro na esperança de que quando voltasse eles já tivessem trocado o disco.
O assunto "mulheres" era tocado de vez em quando e Takao preferia ele ao assunto "namoradas"; era mais prático e, por isso, menos insuportável. Romance era tão… não devia ser tratado como uma brincadeira. Era íntimo. Até mesmo o grande palhaço interno que habitava o ser de Takao Kazunari respeitava isso.
O garoto demorou a se situar quando voltou ao vestiário, pois a conversa tinha dispersado um pouco, mas (infeliz ou felizmente) chegou a tempo de ver Kimura e Miyaji enchendo a paciência de Shin-chan.
Miyaji com um dos braços sobre os ombros de Midorima o aconselhava a sorrir mais para não assustar as garotas e a largar os hábitos estranhos que o faziam parecer um idoso rabugento.
— Ninguém pediu a sua opinião — retrucou o lançador, o que fez o pessoal ao redor apenas rir mais.
— Midorima-kun, as garotas se impressionam com facilidade. Você precisa ter um pouco mais de juízo ou elas vão começar a fugir de você.
— E elas ficam cochichando sobre os itens da sorte também. É constrangedor — Watanabe complementou Kimura.
— Não tenho interesse em ficar com ninguém assim.
— Mas Midorima-chan~... — voltou Miyaji — Essa sua postura associal prejudica a gente também. Elas acham que todos os garotos do basquete são esquisitões.
Takao deu o primeiro passo em direção àqueles patifes maldosos, mas Shintaro foi mais rápido empurrando o braço de Miyaji para longe e caminhando irritado para a quadra.
— Oe, vocês. — Os garotos olharam para um Kazunari anormalmente sério. — Quando quiserem dar um conselho construtivo para alguém, tentem não fazer disso um circo. Vocês foram extremamente desrespeitosos com ele.
— Takao-kun- — Miyaji tentou intervir.
— Isso não foi legal — Takao aumentou a voz — e espero que não se repita. Todo mundo aqui tem suas questões pessoais, não estamos aqui para depressiar ninguém. Nós somos um time.
— Bem falado, Takao-kun — o capitão surgiu da quadra. — Mas o treinador está questionando a demora. Vamos todos!
Takao não olhou ao redor para checar o efeito que causou, mas a maioria dos garotos estavam envergonhados e muito dispostos a esquecer do ocorrido. Kimura (sendo o bom menino que é) foi o único a pedir desculpas para Midorima com um tapinha no ombro ao final do treino. Os olhos de falcão de Takao estavam focados naquela pessoa que parecia ainda mais triste e introspectiva.
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"Ah". A ideia acendeu em sua mente como uma lâmpada no escuro. Takao relembrou os episódios dos últimos dias. O incomodo interior, a preocupação obsessiva que Midorima externava. Os altos e baixos de seu humor... Claro que ainda podia ser algum problema na família, mas Takao pensou e pensou por horas a fio até concluir que...
— Você está apaixonado, ne, Shin-chan?
Estavam voltando para casa a pé, porque tinha chovido pela manhã. Takao tentou abordar o tema como delicadeza para que Midorima não se assustasse demais e se fechasse em sua própria concha.
— Não é da minha conta, eu sei! Mas eu não posso ficar indiferente vendo você sofrer assim. Se quiser a minha ajuda ou só desabafar...
Mas talvez não tivesse sido tão delicado assim já que Shintaro o olhava perplexo.
E depois, do nada, deu-lhe as costas e caminhou para comprar duas bebidas aleatórias.
Takao esperou com toda paciência que tinha em seu corpo até que Midorima conseguisse falar novamente.
— Takao. Desculpe-me por tê-lo preocupado. Tem algo me perturbando... Tem relação com uma garota, mas não é isso... De estar apaixonado.
Mais confuso do que antes, Takao murmurou alguma coisa no nervosismo. Queria tanto saber qual era o problema, mas parte de si estava aliviada também. Não entendia mais nada!
— Você percebe mesmo, ne? — Midorima comentou com um sorriso na voz.
— Ahn?
Mas ele já tinha se levantado do banco sem se explicar e saiu rindo.
Shin-chan. Rindo. Quase silenciosamente. Nada de "haha" ou "hehe", o som parecia um "han han han" chiado. E os ombros tremiam. Então ele ria também.
Takao correu até ele para caminharem lado a lado. A feição séria já tinha voltado ao rosto de Shintaro, mas Kazunari supriu pelos dois todo sorriso e conversação de que precisassem.
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Quando Takao cogitou que sua vida escolar tivesse voltado aos parametros de normalidade, Midorima atacou novamente. Dessa vez ele queria saber se tinha alguma coisa que o deixava seriamente bravo.
Takao não conseguiu pensar em nada que satisfizesse a estranha curiosidade do amigo e ele chegou ao cúmulo de perguntar para os senpais do time.
Kimura olhou para Takao, com certeza pensando na situação chata que envolveu o próprio Midorima naquele vestiário, mas felizmente, o capitão foi mais rápido:
— Os sapatos — mencionou lacônico.
— Verdade! — Miyaji abaixou o tom de voz e se aproximou para fofocar — Teve aquela vez em que o Takahashi-kun estava vindo treinar com um tênis bastante velho e alguns meninos começaram a zingrar ele. Takao ficou uma fera e passou um sermão neles. Ele é bom nisso — murmurou a última parte, rabugento.
— Eu não sabia disso.
Midorima lhe lançou um olhar significativo, mas Takao desviou o olhar.
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Kazunari ficou encabulado pelo resto do dia. Era seu papel se intrometer nas intimidades dos outros (“outros” sendo igual a “Shin-chan”) a ponto de tornar as coisas desconfortáveis. Era a primeira vez que ele se interessava por algum aspecto pessoal da sua pessoa e isso estava deixando Takao acuado.
— Shin-chan... Por que você queria saber? Sobre eu ficar bravo?
— Curiosidade.
— Só isso?
— Hm. — Assentiu tranquilo.
— Eu não achei legal o que eles estavam fazendo e não consegui ficar calado. Todo mundo sabe que o Kashi-kun é maloio e isso não é motivo... Quase saí no tapa com um dos garotos — confessou. — Eu não queria que você soubesse disso.
— Por que não? Você não fez nada de errado.
— Eu sei, mas eu não gosto de brigar. Esse tipo de coisa... Eu...
Takao mal conseguia manter o olhar no de Midorima.
Ele tocou seu queixo com o nó de um dos dedos enfaixados, como um pequeno soquinho para que erguesse a cabeça.
— Da próxima vez, eu quero que me conte, ok?
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Takao sentiu a tensão que crescia dentro de si tornar-se cada dia maior. Sentia como se estivesse enchendo um balão hipotético e a borracha estivesse naquele ponto máximo em que você sopra um pouquinho mais e confere a monstruosidade com medo daquilo estourar na sua cara. Sentia que seus nervos estavam esticados como um balão.
Tudo por que Midorima Shintarou tinha enlouquecido e estava o arrastando junto com suas maluquices.
Ele deu para, nos últimos tempos, ficar encarando seu rosto fixamente. Todos os amigos e pessoas próximas estavam rindo da cara deles e mesmo assim Midorima prosseguia na sua intimidação. O que, afinal, tinha de tão interessante na sua cara? Takao se questionava em desespero.
Chegou ao ponto de, numa aula de laboratório em que faziam dupla, os dois se encararam, olhos nos olhos, por quase uma aula inteira numa guerra infantil e silenciosa de quem seria o primeiro a piscar. Midorima perdeu apenas por que o professor bateu no seu lado da mesa para chamar a atenção dos dois descarados que não tinham assistido a apresentação de nenhum dos seminários dos colegas de classe. Levaram uma dura.
Takao queria chorar, mas seus olhos estavam ressecados demais para qualquer manifestação de emoção. Midorima fez-se de desentendido, o fingido!
Naquela terça-feira, estava preparado para mais uma sessão de intimidação ou tortura por parte do melhor amigo, mas para seu desconcerto, nada disso aconteceu. Midorima tinha deixado de lado a batalha de olhares — o que era um alívio — mas a curiosidade fez com que agora fosse Takao que não conseguisse desviar os olhos de cada movimento. Takao observou que o outro parecia inquieto e aflito. Olhando dentro da mochila de tempo em tempo como se ao olhar mais uma vez o que quer que estivesse procurando fosse magicamente aparecer ali...
Não foi uma grande charada para Kazunari decifrar que provavelmente o metódico e supersticioso Midorima tinha esquecido de trazer o item da sorte para o signo de Câncer e agora estivesse agonizando por dentro acusando-se de desatenção.
Assistiu-o se descabelar discretamente aula após aula durante todo o período da manhã. Riu consigo mesmo enquanto checava no celular escondido debaixo da mesa que o objeto desejado era um pegador de macarrão... Só o Shin-chan mesmo...
Felizmente, sua tia era conhecida de uma das cozinheiras então Takao decidiu que não doeria tentar.
— Takao-kun, eu não entendi metade do que você falou, mas — enfatizou apontando o pegador de macarrão para o seu rosto — desde que você o devolva intacto ao final das aulas, eu não me importo de emprestar.
O garoto fez uma reverência e recolheu o utensílio das mãos dela.
— Muitissimo obrigado, Kanae-san! Eu vou devolvê-lo intacto, perfeito, sem nem um arranhão, prometo! — e o sorriso aberto e divertido foi maior convencimento do que qualquer promessa que pudesse fazer.
Takao correu para entregar o objeto "mágico". Não esperava a expressão tão comovida que Midorima fez ao ver o pegador de macarrão, jurou ter visto os olhos marejarem e as sobrancelhas verdes se ergueram tanto que quase formavam um semicírculo. Então Kazunari destampou a tagarelar sobre as situações dificultosas em que a amizade dele lhe proporcionava, embaraçado com as reações angelicais do outro.
Mais uma vez, Takao imaginou que as coisas tinham se acalmado e finalmente assentariam dali em diante. Ilusão causada pelas entediantes aulas da tarde e pelo cotidiano treino de basquete. Não tiveram dificuldades em devolver o utensílio para a cozinha da escola e o clima entre os dois amigos estava calmo durante todo o trajeto de volta para casa no riquixá. Não havia nada na mente de Takao além do desejo de comer karê e jogar um pouco de video game pelo resto da tarde.
Então qual não foi a surpresa quando Midorima desceu do carrinho, parou em sua frente, olhou no fundo dos seus olhos e disse muito solenemente:
— Takao... Você será um ótimo namorado.
Seguido de uma rápida reverência.
Midorima lhe deu as costas e saiu andando muito naturalmente sem qualquer outra despedida. E já estava muito longe para ouvir a bicicleta cair no chão sem o apoio de seu condutor.
Takao desceu do selim num primeiro impulso de ir atrás de Midorima, mas a verdade é que não estava pensando direito. Todo o seu rosto fervia, tão vermelho quanto uma pimenta.
Trêmulo, buscou a garrafa d'água em sua bolsa e jogou o líquido em sua testa tentando refrescar as ideias. Uma criança caminhando com a mãe do outro lado da rua estava apontando para ele. Takao fez um esforço para retornar a bicicleta e seguir o caminho de casa sem sofrer nenhum acidente, mas o canto de seu lábio tremia sem que tivesse controle sobre.
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Takao tinha se enganado ao achar que estava a salvo daquela bexiga prestes a explodir. Pois ela explodiu bem na sua cara. E o barulho era assustador. Seu coração estava disparado e parecia querer sair correndo pela garganta. A frase de Midorima rodopiava em sua mente e então as lembranças e imagens dos dois, daquela inusitada amizade, desde o começo, aquela peça do destino que os uniu, na verdade, desde o primeiro olhar, no fundamental, a primeira provocação... Imagens, principalmente, dele voltavam e voltavam. Já fazia muito tempo que só tinha olhos para aquela pessoa; Shin-chan estava em sua cabeça o tempo todo, nos treinos, nas aulas, em casa, no mercado, nas férias, nas fotos, no futuro... E se preocupava com cada mínimo aspecto dele; se parecia estar triste, se tinha se aborrecido, se era deixado de lado pelos colegas de classe, Takao estava constantemente o observando. Com a desculpa de rir dos hábitos estranhos, tinha decorado o ritual de enfaixar as mãos, ouvir o Oha Asa toda manhã para ler a sorte do signo do zodíaco e até o tique nervoso de ajeitar os óculos sobre a ponte do nariz. Tinha decorado tudo. E ainda colecionava com avidez cada nova expressão inusitada. Seu interior se remexia a cada sombra de sorriso, cada olhar ameno, cada franzir de cenho. Tudo.
Encolhido na cama, tampando a boca com as duas mãos, Takao repassava em choque e cada pensamento que se encaixava lhe causava um novo espasmo. Sentia-se descascado, sensível, esfolado.
Chegou a conclusão de que toda a estranha movimentação de Shin-chan nos últimos tempos tinha apenas uma explicação: ele descobriu a iniciativa da admiradora secreta e, sentindo ciúmes, descobriu seus próprios sentimentos. Midorima Shintaro estava apaixonado por ele (talvez) e tinha lhe pedido em namoro (disso tinha certeza).
Takao se debateu na cama violentamente e urrou no travesseiro pelo pensamento.
Sua mãe, que passava pelo corredor e abriu a porta para ver o que estava acontecendo, absteve-se de fazer qualquer comentário; cada dia que passava seus filhos se tornavam mais estranhos, elevou o pensamento ao falecido marido pedindo que olhasse por eles.
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Por muito pouco Takao não mandou uma mensagem na manhã seguinte avisando que não buscaria Midorima com o riquixá, mas concluiu que seria covarde demais da sua parte. Lógico que pensou em faltar às aulas, mas a mínima lembrança sutil da face demoníaca de sua mãe o fez abandonar a ideia. O jeito seria fingir que estava tudo bem.
Nada como um alto e sonoro "bom dia!" que engasgou e morreu em sua garganta assim que viu Shintaro. Não havia nada de diferente ou anormal no bom dia murmurado e ressecado do outro. Mas, diferente de qualquer outra situação que já tenha passado, o nervosismo fez Takao emudecer. Nada da tradicional tagarelice que lhe assombrava quando estava nervoso. Talvez tivesse passado do estado nervoso para catatônico, pois não conseguia emitir nem mesmo um gemido.
Felizmente, Midorima não o tratou diferente, não fez nenhuma exigência verbal ou mesmo por olhar, não parecia triste ou incomodado com a falta de retorno. Takao entendeu que ele estava lhe dando tempo para pensar em sua proposta. Shin-chan sabia ser tão maduro às vezes... Já Takao, agora que estava ciente de seus possíveis sentimentos (e dos interesses do outro), não conseguia ficar indiferente perto de Shintaro, mal conseguia olhar para ele por causa da timidez e conversar?! Impossível.
Apenas na próxima terça-feira, Midorima resolveu se manifestar. O sinal do almoço tinha acabado de tocar quando Takao sentiu uma mão segurar seu ombro. Virou-se muito travado para ficar de lado.
— Você está bem?
Kazunari acordou com a cabeça.
— Está bravo comigo...?
O olhar preocupado era genuíno e Takao entendeu que sua atitude estava machucando a única pessoa que não queria machucar de jeito nenhum.
Takao colocou sua mão sobre a dele em seu ombro.
— Claro que não, Shin-chan. — Pigarreou tentando falar um pouco mais alto. — O que você trouxe de gostoso?
— Korokke de peixe. É do konbini então não sei se ainda vai estar crocante.
Depois das aulas Takao estava decidido que já era hora de dar sua resposta. A oportunidade veio depois do treino já que era a vez de Midorima de guardar e fechar a quadra.
Após dispensar um dos kouhais que faria par com Midorima na limpeza, o falcão respirou fundo antes de entrar no depósito. Engoliu em seco quando percebeu Midorima virando para olhar quem tinha fechado a porta e num impulso apagou a luz deixando-os na parca luz que entrava por uma pequena janela no alto do galpão.
Tentando soar resoluto, Takao finalmente respondeu:
— Eu aceito, Shin-chan!
E sem pensar muito o puxou pela gola da blusa para que ele se inclinasse o suficiente para o beijo que era a síntese de toda a sua coragem.
Não conseguiu manter o contato dos lábios, porém, pois estava muito ofegante por toda a adrenalina. Apesar de tudo, estava feliz de ter sentido os lábios macios de Shin-chan.
Recusou-se a abrir os olhos mesmo depois de afrouxar o aperto na blusa de Midorima, sabia que estava vermelho.
— Takao...?
Midorima tinha escondido os lábios nas costas da mão e olhava estupefato para o garoto pouco abaixo de si.
— O qu- Que espécie de brincadeira é essa? — tentou soar bravo, mas o choque não permitiu que obtivesse o efeito esperado.
Takao abriu os olhos e diferente do que Midorima esperava, não havia o menor sinal de troça em seu rosto, mas um brilho de quase timidez... Rindo suavemente e parecendo um pouco nervoso, Takao coçou a nuca.
— Acho que demorei um pouco para te dar uma resposta, ne, então resolvi compensar... — explicou engolindo em seco.
Midorima deu um passo para trás se segurando no cesto de ferro onde guardavam as bolas.
— Takao... Estou perdendo alguma coisa aqui — professou.
Kazunari inclinou a cabeça levemente confuso e os dois se olharam por um longo momento.
— Aquilo que você me disse na semana passada, Shin-chan — murmurou acanhado.
Shintaro andou brevemente para sentar numa pilha de colchonetes e convidou o outro a se sentar numa mesa de salto a sua frente.
— Você está se referindo ao elogio que eu te fiz sobre se tornar um homem encantador, é isso?
Takao piscou. O rubor crescente em seu rosto não o deixava desmentir que tinha entendido tudo terrivelmente errado.
— Aqui... — Midorima tirou do bolso da calça uma folha bastante gasta nas dobras.
Takao leu ávido:
10 coisas que fazem com que Takao Kazunari seja um homem encantador
1. Ele é gentil com todo mundo
2. Ele é sempre alegre e animado
3. Ele é um amigo fiel
4. Ele gosta dos animais
5. Ele tem um olhar determinado
6. Ele é esforçado
7. Ele percebe os sentimentos dos outros
8. Ele aprecia as pequenas coisas
9. Ele fica fofo furioso (mas nunca fere ninguém de fato)
10. Ele… Ele se importa de verdade
Reconhecia a letra da sua antiga admiradora. Apenas a última frase tinha sido escrita na caligrafia muitíssimo inclinada e elegante de Shintaro.
Como Takao não conseguia falar nada, Midorima continuou.
— Encontrei isso no chão há quase um mês. Eu sei que não deveria ter lido nem ficado com isso para mim, mas... — tentou rir sem graça. — Eu fiquei indignado. Por que... Eu te conheço e você não é tão legal assim. Na verdade, você é. Ma-mas eu queria provar que não! Só que, no final, eu cheguei à conclusão de que você é mesmo... Assim... Encantador... Por isso te elogiei na semana passada. Foi isso.
A disputa entre qual dos dois estava mais constrangido era acirradíssima. Em última, instância, talvez Midorima vencesse já que a memória do beijo lhe voltou a mente e ele entendeu que...
— Você achou que eu tinha... Quando eu falei que você seria... Namorado. Você achou que era... Comigo?
Takao explodiu na risada mais alta que conseguiu fingir.
— Nossa, Shin-chan! Você estava me deixando maluco nos últimos tempos. — Balançou a cabeça em negação enquanto se levantava. — Então era por causa disso... Bom, acho que eu não estava de todo errado. Era mesmo por causa daquela garota, mas... Que bola fora a que eu dei agora, ne...
Takao pigarreou lutando contra a bola de meia que parecia estar estalada em sua garganta. Agora era Midorima que não conseguia pronunciar palavra.
— Bom, eu já vou. Ahn... Peço desculpas — inclinou-se brevemente e saiu quase que correndo para fora.
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Takao chegou em casa como um furacão, a porta da cozinha bateu na parede com tanta força que Masaya quase deixou o prato cair no susto, sua mãe surgiu da lavanderia com a mão no coração, mas Takao passou correndo por eles rindo muito alto e pedindo desculpas. Tropeçou no primeiro degrau da escala e bateu o braço fazendo mais barulho. A mãe nem teve tempo de brigar por conta do palavrão feio, por que ele já tinha batido a porta do quarto lá em cima.
Mãe e caçula olharam um para o outro com as sobrancelhas erguidas sem entender nada de nada e apenas balançaram a cabeça voltando para seus afazeres.
Takao achou que ia morrer tanta força que precisou fazer para não chorar no caminho até em casa. Sentia falta de ar tamanho o peso que segurava em seu peito. Na segurança de seu quarto, finalmente, deixou-se desmontar. Toda a decepção e vergonha saindo em soluços pela sua garganta antes mesmo que as lágrimas muito grossas inundassem tudo.
O pior de tudo era perceber que o mal entendido não mudava em nada o fato de que estava apaixonado por Midorima. Tinha descoberto os próprios sentimentos e agora não tinha como acobertá-los de novo. Pior ainda, agora o próprio Midorima sabia... E, obviamente, não correspondia. Que desastre. Que vergonha!
Takao conseguiu controlar os soluços (não precisava chamar ainda mais a atenção da mãe), mas o choro pesado continuou caindo mesmo enquanto tomava banho. Ainda era por volta das sete e, surpreendentemente, ele estava fazendo lição de casa na tentativa de se distrair dos maus pensamentos.
Sua mãe bateu na porta do quarto.
— Kazunari, Shintaro-kun veio te ver.
O pescoço de Takao estralou com a violência que ele usou para olhar para a porta. Sua mãe girou a maçaneta.
— A-ah... Po-pode dizer para ele que eu não estou em casa? Estou ocupado aqui...
Houve um breve silêncio do outro lado antes que sua mãe terminasse de rosquear a maçaneta e escancarasse a porta.
— Não vai dar não. Vocês dois desçam para o jantar daqui a uma hora.
Midorima empurrou a armação dos óculos na ponte do nariz antes de entrar no cômodo. Mamãe Takao fechou a porta rapidamente e eles ouviram os passos dela descendo as escadas.
Takao manteve sua cabeça voltada para o livro de Química enquanto Midorima permaneceu deslocado perto da porta.
— Senta, por favor — Takao pediu apontando para a cama ao seu lado. — Acho que eu... Só estou dando foras hoje, hahaha. Peço desculpas. Eu estou mesmo ocupado, então se você puder não demorar...
Shintaro se sentou na cama e após um momento de reflexão, puxou a cadeira de rodinhas — com Takao e tudo — para o meio das suas pernas.
— Oe, Shin-chan! — protestou diante da proximidade forçada.
— Takao — o tom grave e sério fez com que se calasse. Midorima não olhava para cima e suas mãos permaneciam na lateral do assento estofado.
— Desculpa, Shin-chan — Takao pediu baixinho já chorando de novo. — Desculpa mesmo.
Midorima suspirou cansado antes de retirar os óculos e coloca-los na escrivaninha. Puxou a cadeira ainda mais para perto e apenas deitou a testa no ombro do falcão.
— O que você está fazendo? — questionou depois que o choro diminuiu.
Midorima ergueu a cabeça como se ela estivesse muito pesada. Seu rosto estava muito perto e Takao tinha a impressão de que ele não estava lhe enxergando direito. A expressão de Shintaro com os olhos semicerrados, a franja desarrumada e uma ruga de confusão entre os olhos entrou para a pequena coleção particular de Takao Kazunari.
— Takao. — Ele tentou falar, mas não conseguiu. Tentou de novo. — Takao. Você não tem que pedir desculpas por nada. Eu... Odeio mal-entendidos... Peço desculpas por acabar criando um, mas... Se eu entendi direito. E se eu não tiver entendido, por favor, só me esclareça. Se eu entendi direito... Você aceita, então você deseja... Namorar comigo?
Impossível para Takao resistir a um Midorima tão perturbado e sedutor ("por Kami-sama, eu rogo para que você coloque os óculos de novo Shin-chan, isso só pode ser pecado!"). Respirou fundo antes de abaixar a cabeça e responder.
— Sim, Shin-chan. Eu (haha, nossa...) eu percebi que estou muito, perdidamente, apaixonado por você — sua voz falhou no final e ele engoliu em seco.
Takao espiou a tempo de ver o cor de rosa colorir o alto das maçãs do rosto de Midorima. Sentiu a respiração dele ficar mais forte. Qual a necessidade de estar tão perto? Mas não era uma reclamação! Por que ele estava se afastando?
Midorima ajeitou a postura e tornou a colocar os óculos.
— Bom, Takao, acho que nós criamos um problema. — Takao abaixou a cabeça entristecido, era o fim da sua amizade. — Por que agora nós nunca vamos saber “quem foi que pediu quem” já que eu também aceito.
Seu pescoço ainda ia travar naqueles movimentos bruscos. Takao olhou para cima para encontrar um Midorima de braços cruzados cuidando para olhar ao redor do quarto e não para o seu objeto de interesse.
Takao sentiu o sorriso vir do peito, mas segurou-se para não entregar tudo assim tão fácil.
— Tsc... Não é assim que se faz, Shin-chan. Eu não te ensinei mais cedo? Como se aceita um pedido de namoro?
Provocou risonho e antes que Midorima reagisse indignado, tirou os óculos dele com cuidado.
Takao aproximou a cadeira de rodinhas sozinho dessa vez, esperou maldoso pela aproximação de Shintaro, mas quando ela veio suas testas se encontraram com uma violência tal que os dois se separaram cada um para um lado em dor.
— Por Kami, Shin-chan, você enxerga tão mal assim?
— É lógico que eu enxergo! Por que você acha que eu uso óculos?! De perto fica tudo embaçado e eu perco a noção de espaço... — reclamou passando a mão na testa deitado na cama alheia.
Takao riu por um momento e então deixou a cadeira para ir deitar ao lado dele.
Dessa vez, Takao se aproximou e levou uma das mãos de Midorima para o seu rosto. As respirações agitadas se encontraram um momento antes do megane-kun juntar as duas bocas. O segundo selinho foi mais demorado que o primeiro e foi seguido de vários outros beijinhos. Dessa vez, era o lábio de Midorima que insistia em tremer um pouco, mas os dois continuaram naquela longa coleção de encaixe e desencaixe até Masaya chamá-los para jantar.
Takao Masaru fingiu não ver o sorriso escancarado que não deixou o rosto de Kazunari pelo resto da noite e aquele brilho sorridente nos olhos de Shintaro-kun. Rezou em pensamento contando a novidade ao falecido marido. Ah, os jovens!
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10 coisas que fazem com que Midorima Shintaro seja um homem encantador
1. Zodíaco é quase uma religião para ele
2. Ele carrega objetos estranhos por superstição
3. Ele não é muito sociável
4. Ele tem hábitos de gente velha
5. Ele é teimoso
6. Ele fica nervoso fácil
7. Ele é arrogante
8. Ele é orgulhoso
9. Ele é mal humorado
10. Ele... no fundo... é uma pessoa muito sensível
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