Um Felizes Para Sempre Diferente - Oneshot
1 Capítulo 1
Felizes para sempre. É muito triste que isso seja mentira.
Eu sempre achei injusto papai e mamãe não terem um feliz para sempre.
Papai diz que mamãe é a bruxa má e que quer matar a princesa. Já mamãe, diz que papai é um terrível ogro que se finge de príncipe.
O engraçado é que eu sempre achei que a minha irmã fosse a vilã da história, mas quando eu vi como ela ficou triste quando o papai foi embora percebi que ela era só uma princesa, como eu, talvez um pouco mais chata.
Mamãe diz que estou crescendo rápido e que logo vou ter um namorado, papai fica bravo quando ela diz isso, aliás, papai fica bravo com tudo que ela diz. Eu acho que ainda sou muito nova para pensar nessas coisas, tenho só oito anos. Minha irmã já tem um namorado, ele é bem legal, e sempre me dá doces (é por isso que eu gosto dele).
—Abélia! Abélia! – Alguém jogou uma pedra na janela do meu quarto.
Abri a janela e vi Carlos.
Carlos é muito legal. Eu e ele somos amigos desde bebê, ele paga lanche para mim na escola e até já bateu em um garoto que estava me incomodando.
—O que você está fazendo aqui Carlos? Hoje é domingo! E é cedo ainda.
—Por favor, me escuta. Minha TV quebrou.
—E daí?
—Eu não tenho como assistir desenhos!
Eu senti vontade de ir a casa dele e brigar com seus pais. Como assim ele não vai assistir desenhos? Que mundo é esse?
—Corre. Já vai começar, você pode assistir comigo.
Carlos partiu em disparada na direção da porta, em segundos ele já estava no meu quarto.
—Cinco! – Ele gritou e pulou do meu lado na cama se cobrindo com o cobertor.
—Quatro! – Gritei. – Três! Dois! Um!
Começou o desenho.
—_**__
A gente estava rindo assistindo o desenho do papa-léguas quando minha irmã abriu a porta do quarto.
—Abélia, Chris está aqui.
Chris é meu pai, já falei várias vezes para Amanda chamá-lo de pai, mas é impossível e eu sei que ele fica triste quando ela faz pouco caso dele.
—Papai! – Sai correndo e gritando e deixei para lá o frio que estava fazendo.
Joguei-me em seus braços. Eu estava morrendo de frio, mas quando ele me abraçou tudo passou.
—Olá minha princesinha.
Fiz cara feia.
—Oh! Desculpe, não é mais princesinha, é princesa agora, não é?
—Te amo papai. – Dei um beijo em seu rosto.
—O que você quer Chris? – Minha irmã perguntou. Ela fala assim com ele, mas quando ele vai embora ela vai pro quarto e chora.
—Eu sou seu pai Amanda. Ainda sou seu pai.
Papai abriu os braços para um abraço, mas minha irmã ficou brava por algum motivo.
—O que você quer? – Ela disse de novo.
Eu odeio quando ela faz isso.
—Eu vim buscar vocês para um passeio. – Disse papai. Ele estava triste. Dava para ver.
—Eu não vou. – Disse minha irmã.
Aí eu estourei. Eu queria bater nela.
—Você é uma boba! – Gritei. – Eu não gosto mais de você! Pare com isso. Sua... Sua... Sua covarde!
Covarde... A palavra ficou soando na minha mente. Não lembro onde eu ouvi, mas espero que seja algo bem ruim!
Quando olhei para minha irmã ela estava chorando, então saiu correndo. Eu não liguei, ela não pode falar assim com papai!
—Você deveria se desculpar. – Papai disse mostrando um olhar zangado.
Comecei a chorar.
—Ela não pode fazer isso com você. Não pode. Você ainda é nosso papai.
—É claro que sou seu papai. Nada vai mudar isso. – Ele me deu um beijo na testa.
Eu e papai estávamos quase saindo quando mamãe chegou.
Oh, não! Isso nunca dá certo.
—O que pensa que está fazendo? – Mamãe gritou.
—Hoje é o meu sábado Elize. Pare de ser chata e deixe-nos em paz!
—Cale a boca seu porco imundo! Seu imbecil! Venha Abélia, mamãe trouxe sorvete.
—Você não pode fazer isso Elize! – Papai gritou. Ele nunca grita com ninguém, apenas com a mamãe. – Eu tenho direito de ver minha filha e levá-la para passear!
Comecei a chorar, mas não por causa da briga, isso eu já estou acostumada, comecei a chorar porque minha cabeça começou a doer de mais.
E aí tudo ficou escuro.
—_**__
—Princesa Abélia... — Uma voz cantante dizia. – Você está acordada?
Com todas as forças consegui abrir os olhos.
Era Mike, o namorado da minha irmã.
—Sir Mike. – Tentei dizer, mas saiu bem estranho. Fiquei assustada.
—Tudo bem. – Ele disse. – Não fale. Você está dodói. Muito, muito dodói.
Fora do quarto eu conseguia ouvir meus pais discutindo. Foi aí que me dei conta de que eu estava num hospital.
Oh, não. Eu odeio hospitais. Eu vou morrer!
Mike me segurou quando tentei rolar da cama. Esperneei, mordi, chutei, tentei de tudo, mas fiquei cansada muito rápido.
—Está tudo bem Abélia. – Disse Mike.
Ouvi a voz de Amanda do outro lado. Ela estava gritando.
—A culpa é dela! Vocês se separaram por causa dela!
Eles começaram a sussurrar e não consegui mais ouvir.
—Não é verdade. – Mike disse.
Comecei a chorar. E então minha cabeça começou a doer de novo.
—_**__
Mamãe e papai estavam no quarto. Já fazia dois dias que eu estava no hospital e essa era a primeira vez que eu os via juntos.
Minha visão ficou escura e logo após um clarão branco invadiu minha cabeça. Lutei contra isso porque foi o que me mandaram fazer, mas era uma sensação agradável.
Mamãe e papai estavam chorando.
—Fique, filha. – Mamãe dizia, mas sua voz parecia estar a dois quilômetros de distancia.
A sensação de inconsciência estava cada vez mais forte e logo eu não conseguiria mais continuar acordada.
Olhei para mamãe e vi uma das cenas mais lindas da minha pequena vida, e mesmo se eu tivesse mil anos essa seria a cena mais linda: mamãe estava abraçando papai.
Uma lágrima escorreu dos meus olhos. Ontem eu escutei Amanda dizendo a Mike que achava que eu ia morrer. Falando na Amanda, a gente já estava de bem de novo.
Eu sabia que eu ia morrer, e que ia ser naquele dia. Eu só queria dizer a mamãe e ao papai que eu não estaria mais no caminho, e eles podiam se amar de novo.
Limpei a garganta e consegui dizer:
—Está na hora do “Feliz Para Sempre”.
Mas não tenho certeza se consegui terminar a frase.
Tudo ficou escuro.
*Segue-se o barulho irritante de uma máquina: biiiiiiiiiii...
Fim
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