Um Eterno Amanhã
7 Capítulo 7: A Emboscada
Notas iniciais
Os dias que se seguiram foram correndo muito lentamente. De volta a sua estafante rotina de assistir os outros a servirem, Kikyou foi obrigada a afastar-se cada vez mais do seu amado mestiço, que tinha um aspecto cada vez mais doente. E quanto maior a distância, maior era a dor de deixá-lo sofrer. A cada retorno era mais duro deixa-lo lá, com os olhos suplicando para que não o esquecesse... E ela não era capaz de esquecê-lo, nem mesmo em um segundo dos seus longos dias.
O arrastar das horas no relógio de seu quarto a deixava cada vez mais aflita. O imaginava deitado naquele lugar frio, mofado e fedorento, ofegando e sentindo dor, delirando com as fortes febres que tinha, com todas aquelas feridas causadas pelas regulares visitas de seu pai ao calabouço... E a cada vez que o imaginava lá, sozinho e triste, sentia-se mais impotente, deitada em seu castelinho, sua bela redoma de cristal onde o mundo era perfeito, rico e feliz.
Pensando honestamente, não sabia o que faria de sua vida depois que o libertasse daquele lugar. Passava horas a fio recordando cada detalhe daquele lugar, pensando numa maneira de fugir, sem sucesso. Tinha medo de não conseguir tira-lo de lá, temia ainda mais que ele morresse antes mesmo que ela tivesse tentando qualquer coisa. Seu enfraquecimento provava que a cada segundo que esperava, ele perdia horas de vida. Se ao menos tivesse um plano, quem sabe não pudesse tirá-lo dali, mesmo doente? Mas nem mesmo isso ela tinha.
E outro medo a afligia... E quando ele fosse embora, ela conseguiria viver sem sentir aquele palpitar em seu peito? Ela conseguiria viver junto do homem que tentara matar seu amor a sangue frio? Viveria ao lado de um torturador, um tirano que fingia amá-la, mas na verdade apenas gostava de humilhá-la? Saberia ela voltar àquela vida de menina mimada que antes levava?
Talvez... Todas as respostas eram preenchidas com talvez, e nem ela mesma sabia o porquê de tanto medo, de tanta apreensão. Apenas sabia que tantas interrogações não deveriam existir dentro dela, até porque sempre fora decidida e nunca ficara titubeando da forma que fazia agora. Tinha de apagar todas as perguntas de sua mente e manter sua pose de nobre diante dos outros, rezando por dentro para que o rei jamais desconfiasse dela naquele incidente. Mesmo depois de tanto tempo, ele estava obsessivamente procurando a moça que lhe atingira uma flecha naquele dia. E ela estava mais perto do que ele jamais imaginaria.
Num canto da cela fria que tanto povoava os pensamentos da sacerdotisa, estava o meio youkai, logo depois de ter sido mais uma vez espancado pelo pai daquela que lhe dedicava tamanho apreço. Sentia muita dor, mas talvez a dor física, a qual ele já começava a se habituara, não fosse capaz de vencer a dor em seu coração. A sua necessidade de ter alguém a seu lado, aquela humana vontade de ter alguém zelando por ele o fazia perder as forças e ficar cada vez mais apático e doente. Não sabia dizer o porquê de sua fraqueza apenas aumentar, mas a verdade era que estava se tornando depressivo ficar naquele local torturante durante tanto tempo, atormentado pelas dores e pelos cheiros que lhe davam dor de cabeça. Sabia, no fundo de si, que iria à loucura se não conseguisse sair daquela prisão logo.
A única coisa que ainda lhe dava algum aconchego era pensar que Kikyou viria... Era vê-la ao lado de si e saber que não estava tão sozinho quanto acreditara estar. A única pessoa capaz de acalmar seu coração era a mulher, e sua ausência o fazia sentir ainda mais dentro de si, que o que sentia por ela era especial. Sabia que não podia ser só amizade. Jamais sentira um sentimento tão voraz dentro de si. Era como se ela fosse tudo de que precisasse, como se fosse seu ar, sua vida, sua alma... E sabia que se não fosse por ela, estaria morto naquele momento.
E foi estando sozinho, delirando e sofrendo como nunca antes em sua vida, é que finalmente entendeu o significado daquela mulher para ele. E nunca pensou que pudesse nutrir um sentimento tão puro. Foi num dos momentos de agonia em que apenas conseguia pensar em seu nome é que seu coração disparou mais uma vez e sentiu dentro de si a verdade, tão absoluta, acometer-lhe todo o corpo: ele a amava! Só podia ser isso... Ele se apaixonara por um humano, uma criatura da espécie que mais odiava, se apaixonara por uma criatura de mesma espécie daquelas que há muito o subjugaram.
Porém ela era diferente: era linda, compreensiva, doce e era a única pessoa que estava sempre ao seu lado, que o ajudara em todos os momentos difíceis, a única mulher que não tivera medo dele, que não se deixara intimidar pelo seu jeito esquivo e que tratara dele como se fosse sua mãe. Ela não se parecia em nada com aqueles malditos que tanto destruíram sua vida... Nem mesmo com os Youkais que o perseguiam e que tinha de destruir para se tornar mais forte... Ela não era como nenhum deles! Ela era apenas a pessoa que estava sempre ali o ajudando e que arriscava sua vida por ele sem qualquer motivo.
Tendo consciência desse amor, conseguiu se tornar mais forte. Compreendendo que queria estar pra sempre junto daquela humana, conseguiu forças para continuar lutando contra tudo e todos que entrassem em seu caminho. Desejava apenas que não demorasse muito para poder deixar aquele lugar, porque senão seu organismo não seria capaz de agüentar, por mais forte que ele fosse, e acabaria tendo de deixar tudo aquilo para trás.
Numa luxuosa sala, o rei de Miko se encontrava sozinho, raciocinando sobre quem poderia ser a mulher disfarçada que o atacara. Sabia que conhecia aquela voz, alguma coisa no andar e no jeito dela lhe era familiar... Ficou pensando consigo mesmo e começou a subir as escadas quando foi abordado por uma criança:
- Papai... – Ele virou-se, olhando friamente para a filha mais jovem – Você pode brincar comigo?
- Ora, cadê a sua irmã?! Por que ela não está aqui brincando com você?
- A Kikyou não brinca mais comigo. Aliás, ela ta muito estranha – Começou a falar a menina, parecendo irritada – Quando não ta no quarto olhando pro nada, ela desaparece durante um tempão e só volta bem mais tarde!
- É mesmo? – Ele perguntou muito interessado... Talvez fosse apenas coincidência, mas talvez não – Tudo bem, Kaede, mas ainda assim eu não posso brincar com você. Porque não vai reclamar com ela? – Replicou, em seu tom habitual, ignorando-a e seguindo para sua sala, aonde poria os seus pensamentos em ordem.
Nesse mesmo instante, a moça, que antes estava em seu quarto, deitada na cama, perdeu a paciência e vestiu-se com o manto negro, partindo a passos velozes para as masmorras. Tinha um mau pressentimento. Estava com medo, muito medo de encontrá-lo morto. Rezava para que fosse apenas uma peça que sua mente lhe estava pregando. Então prosseguiu, amedrontada, indo até a cela dele. Nada estava muito diferente. Porém, para sua alegria, os olhos dourados dele estavam entreabertos e agora voltados para ela, que entrou feliz por ver que estava vivo e que tudo aquilo que sentira fora apenas por causa do medo que a perseguia.
- InuYasha. – Ela se ajoelhou diante dele, acariciando seu rosto, o que fez com que ele fechasse os olhos, gostando do agrado – Eu estava tão preocupada com você. Como está se sentindo?
- Melhor... Por que você está aqui comigo. – Ele balbuciou, entreabrindo os olhos – Quando eu te vi, eu pensei... Que estava delirando de novo...
- Está tendo delírios? – Ele fez que sim, fraco – É porque a febre quase não cede. Eu estou preocupada, não sei se você vai ficar bom disso tão cedo. Não tem mais como você estar envenenado pelo meu pai, então eu acho que só pode ser infecção dos ferimentos... Eu andei lendo um pouco sobre isso, mas não tenho muito acesso a esses livros.
- Pára de se preocupar com bobagem... Eu estou bem. – Ele repetiu essa mesma frase, que saia de seus lábios todas as vezes que Kikyou o procurava. Ela não respondeu de imediato. Antes de fazê-lo tocou sua testa com uma das mãos, sentindo como estava quente, e com a outra agarrou sua mão, sentindo o forte tremor.
- Tudo bem, InuYasha... Não precisa esconder isso de mim. Eu sei que está muito doente. Por favor, não minta mais pra mim. Você vai ficar bom, eu sei disso. Não quero que fique com medo. – Sua resposta não passava de um murmúrio, próximo a suas orelhas caninas e ele sentiu um calafrio, sentindo-a tão perto de si e falando com uma voz tão doce.
- Kikyou...
- Fique quieto um pouco. – Ela disse, colocando uma compressa fria em sua testa. Não notara o efeito que seu ato ou que sua aproximação tiveram sobre ele. Nem mesmo notara o quão enfeitiçado e entorpecido ele se tornara ao tê-la tão próxima de si – Você precisa ficar bom logo, para sair daqui. Esse lugar está cada vez mais horrível. Essa coisa no seu pé – Ela disse, olhando para a bola de ferro, não tão chamativa quanto as algemas que prendiam suas mãos, mas igualmente fatigante -e essa algemas devem pesar demais.
- Eu já estou acostumado. – Ele disse tranquilamente. Sentia-se melhor na sua presença. Até a dor diminuía um pouco.
- Eu vou ter que ir embora. – Ela disse, apressada – Mas eu quero voltar ainda hoje. Provavelmente depois do jantar. O mais cedo que eu puder, tudo bem? Você acha que pode esperar por mim? – Os dois compreendiam do que ela falava. Ela pedia que ele sobrevivesse até o momento em que se reencontrariam. Sentia muito medo longe dele, não sabia pelo que ele estava passando e sabia que seu pai podia ficar louco e vir a matá-lo a qualquer momento.
- Claro. – Ele respondeu, simplesmente, fechando novamente os olhos amarelos, o corpo recostado contra a parede – Sayounara... Kikyou...
- Sayounara, InuYasha – Ela replicou, partindo sem mais nenhuma palavra. Se olhasse para seu rosto mais uma vez não seria capaz de partir. E sabia que não podia ficar nem mais um segundo.
Os passos acelerados dela foram ouvidos de dentro do aposento do rei, embora ele nem mesmo soubesse de quem se tratava. Em sua mente rebatia somente uma questão: Porque Kikyou estava ausente? Porque Kaede estava se queixando da falta dela, se nunca a vira faltar a nenhum compromisso ou mesmo passear pelos terrenos vastos? Pensando claramente, ele mal via Kikyou ultimamente... Foi relembrando da voz e das palavras que ouvira naquele dia é que começou a montar o quebra-cabeça, peça por peça...
“Eu luto pela integridade desse reino, e, principalmente, do seu chefe. Quero que lutemos em métodos justos... Ou o senhor considera isso justo? Pisando numa criatura que está no chão, amarrada; tratando um homem que fala nosso idioma pior do que um animal criado pra virar comida... É essa sua idéia de justiça? Não pode o senhor conversar educadamente com ele, ou mesmo, matá-lo de uma forma honrada, sem ficar torturando-o dessa forma?”
Relacionou as palavras que a mulher recitara naquele dia com as de sua filha, dias antes, ao tentar defender o Youkai para ele...
“Além de tudo, isso é ridículo! Aquelas masmorras estão vazias há como o senhor mesmo me disse, cinqüenta anos! Não tem guardas lá, ele vai morrer de fome! Vocês poderiam matá-lo logo de uma vez, então! [...] Pai, eu acredito em várias coisas. Eu sou contra a tortura de qualquer tipo, em qualquer criatura... Se o senhor, que eu sempre admirei faz isso, então nunca foi como eu pensava. Pai, você está diferente! Porque eu nunca pensei que veria o senhor descer tão baixo. Confesso que depois de tudo o que aprendi com o senhor e o quanto eu o admirei, sinto-me decepcionada ao ver essa coisa ridícula que você se tornou. Eu te amava, mas é tão estranho... Após te ouvir começo a sentir que me enganei durante todos esses anos.”
Sim, começava a fazer sentido! Ela falava das mesmas coisas... Sua voz, serena e severa a um só tempo... Aquele andar delicado... Até mesmo o pequeno brilho que vira sair da flecha... Era ela! Era Kikyou a traidora, não tinha mais dúvida alguma... Não sabia aonde ela aprendera a manejar tão bem o arco, mas não havia mais dúvidas em sua mente... Era aquela criança mimada que defendia os monstros, contra os quais lutava...
Sentiu uma forte dor de cabeça, sentando-se numa cadeira. Algo dentro de si, uma dorzinha no fundo de seu peito lhe repetia que ele amava aquela menina, que ele a criara; que ela era tudo para ele... Que tudo aquilo estava errado. Porém a escuridão que agora controlava seus atos o fazia sentir dor, o fazia esquecer do amor que sentia pela menina. Esse era um dos raros momentos em que o antigo rei de Miko, o homem benevolente vencia o domínio exercido sobre ele e clamava para que não matassem sua filha... Tal qual no momento em que ela passara a odiá-lo. Mas a realidade era cruel e nada o libertaria daquele que agora o comandava.
E era esse que agora corrompia seu peito. Só conseguia pensar que se vingaria da garota que profanara seu nome e seu reino. Aquela criatura vil que fora capaz de atingi-lo com uma flecha apenas para defender o monstro que estava em seu calabouço. Mas ele a pegaria e a humilharia publicamente... Ele a mataria na frente de todos, como castigo para os crimes que ela cometera! Mas antes tinha de montar uma armadilha para pegá-la. Destronaria aquela garota que pensava que podia defender o inimigo e se safar ainda naquele dia. E o faria ele mesmo!
Sem desconfiar da descoberta do pai, Kikyou encontrara a menina Kaede sentada no mesmo lugar, agora sentando ao lado da menina, tocando-lhe a cabeça. Ela desviou, irritada. Sem dúvida estava ofendida com alguma coisa, a mais velha pensou, dizendo, preocupada com toda aquela raiva:
- Kaede-chan... O que houve?
- O que houve?! Ora, nem você nem o papai querem mais brincar comigo! Você passa o dia todo desaparecida com o seu segredo que ninguém sabe o que é! E eu fico aqui sozinha! – Havia lágrimas em seus olhos – E quando eu peço pro papai brincar comigo ele só quer saber por que você não está brincando comigo. Ele só quer saber aonde você anda! Eu to cansada disso!
- Kaede... Meu amor, não é isso! Vem cá... – A abraçou, docemente. A menina começou a chorar, nervosa – Eu te juro que meu objetivo é bem nobre. Eu não quero te contar, amor, pra você não ficar em perigo também! Mas se você está tão triste assim, eu prometo que te conto tudo. E quanto ao papai... Ele está me tratando muito mal também. Eu não sei o que houve, mas ele não é o mesmo de antes, tudo bem?
- T-Ta... Oneesan... Eu disse ao papai que... Que você anda sumindo muito... Me desculpa eu... Eu não fiz por mal. – Ela disse, abraçando a irmã.
- Tudo bem, querida... Olha, vai lavar o rosto e depois me encontra no meu quarto, tudo bem? Eu vou contar tudo para você. – Ela fez que sim, se levantando e saindo, rapidamente.
Enquanto caminhava em direção ao seu aposento, a sacerdotisa estava pensando se seu pai já não havia descoberto. Torcia para que as palavras que a pequena falara não tivessem qualquer significado para o monarca, mas agora o medo se apossara dela. Respirava fundo e assumia que esse era um risco, que, ela sabia desde o começo, existia. Porém não esperava que a menina fosse cometer um ato tão estúpido! Talvez devesse ter contado toda a verdade para ela... Mas agora teria que arcar com as conseqüências, se é que haveria alguma.
Estava sentada na cama, observando o quarto. Ouviu a menina bater e entrar. Ela fechou a porta atrás da criança, trancando-a. Segurou as mãos da irmã mais nova, olhando-a nos olhos, preocupada com o risco do que fazia:
- Kaede, minha irmã, você precisa jurar para mim que nunca vai falar uma palavra disso para ninguém... Você jura? – Ela fez que sim, com medo – O que eu vou-te dizer é um segredo muito perigoso, que eu nunca contaria para ninguém, mas vou te contar só porque você quer muito! Se você falar qualquer coisa, eu posso acabar... Sendo morta. – Ela completou, com dificuldade e menina manteve-se quieta, com os olhos arregalados de medo. – Lembra que eu te falei que o papai trouxe um Youkai aqui pro calabouço? – Ela confirmou com a cabeça. Tudo era falado bem baixinho – O que eu não te contei é que eu fui vê-lo... E fiquei com muita pena do que o papai estava fazendo com ele, por isso acabei dando comida para ele. Ele estava muito machucado...
- Mas Youkais não são monstros maus, oneesan?! – Ela indagou, amedrontada.
- Não, querida. Esse não é um monstro, e muito menos mau. Ele é um meio humano... Mas papai não sabe disso. – Fez uma pausa, sem saber como abreviar o assunto – Olha, ele está muito doente e eu tenho ido ao calabouço cuidar dele. Só que o papai não pode saber disso. Ele está torturando o... O InuYasha... – Ela revelou seu nome, receosa – Para saber alguma coisa dos Youkais. Mas eu não quero que ele faça o InuYasha sofrer mais. Eu quero ajudá-lo a fugir, Kaede-chan.
- Mas... Por que o papai está maltratando ele se ele não é mau?- Ela indagou, curiosa.
- Querida, eu realmente não sei. Mas eu tenho medo que o papai o mate. E acho que ele já desconfia que seja eu que estou ajudando o InuYasha. Então, por favor, não fala nada pra ninguém. E eu quero te pedir mais uma coisa. – Ela fez que sim, receosa – Se eu... Se eu sumir e não puder mais voltar eu quero que acredite em mim. — Parecia difícil para ela dizer aquilo e a menina já tinha lágrimas nos olhos – Mesmo se eu estiver longe, mesmo se me matarem... Eu quero que você acredite em mim. Saiba que eu sempre amei você e tudo o que eu estou fazendo é porque é o certo a se fazer. Mesmo longe eu vou ficar sempre junto com você, Kaede. Eu te prometo. Você é a única pessoa que sabe do meu segredo, a única que conhece essa história. Eu confio em você, imooto. – Ela abraçou a menina.
- Não fala isso, Kikyou-sama! – Ela disse, chorando, e abraçando a irmã mais velha – Você não vai embora! Você vai ficar aqui comigo! Por favor, eu não quero ficar sozinha! – Estava chorando de novo, abraçada à irmã.
- Você precisa ser forte, querida! – Ela disse, abraçando a menina – Você está crescendo. Vai ser uma linda mulher... Eu sei que você vai ficar bem. – Ela sorriu, soltando a menina. – Vamos botar um sorriso nesse rostinho, ta bem? E não esquece de não contar nada pro papai, certo? – Ela disse, calmamente, recebendo um aceno positivo da menina que esfregava os olhos, limpando as lágrimas que ela derramara.
Não disseram mais nenhuma palavra. A menina olhou mais uma vez para a mulher que era a inspiração para sua vida. Era bonita e sempre tão boa... Era, para ela, perfeita e não sabia o que dizer a ela. Apenas olhou-a amavelmente e ela pareceu compreender, acenando com a cabeça. A menina temia perdê-la. Mas ela tinha que ser forte. Do momento que decidira saber sobre seu segredo, tinha que ser forte como a irmã mais velha e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Ela olhou-a não como criança, mas como a jovem que começava a nascer dentro dela e retirou-se, quieta, jurando a si mesma que nunca diria coisa alguma sobre aquilo. Nunca prejudicaria Kikyou, porque a amava como uma mãe.
Orgulhosa da irmãzinha, Kikyou deitou-se na cama, totalmente esgotada física e mentalmente. Era bom saber que mais alguém sabia de seu segredo... Se nunca mais voltasse, alguém devia saber o por quê... Começava a pensar seriamente nisso. Pensava no caso de ser morta, ou de não poder jamais retornar para aquele castelo... Temia nunca mais ver a irmã. Rezava para que ela tivesse uma vida feliz, para que não sofresse tanto quanto a irmã sofria agora.
Começou a pensar de forma definitiva. Algo em seu coração descompassado lhe dava o mau presságio de que tinha pouco tempo. Começou a pensar, com mais força do que nunca, numa forma de fugir daquele calabouço. Primeiro tinha que conseguir soltar as algemas e a bola de ferro de InuYasha... Sendo assim ele teria uma mobilidade bem maior e isso facilitaria muito na fuga. Talvez a única forma de ajudá-lo a fugir seria usar a si mesma de escudo. Se seu pai não estivesse completamente louco. Se algo dentro dele ainda a amasse... Mas não podia contar com isso! Apesar disso, talvez valesse o risco...
Passou o resto do seu momento de lazer pensando sobre isso. Era a única maneira de fugir dali. Eles teriam de atravessar todo o castelo até alguma saída... Seria essa a maneira mais segura, embora talvez ela pudesse acabar morrendo. Mas não sentia mais tanto medo. Só queria saber que ele ficaria bem... No momento só pensava na segurança do meio youkai. Temia apenas que o pai que tanto respeitara acabasse por matá-la, acreditando numa louca traição, que todos sabiam não existir. Se pelo menos conhecessem InuYasha, saberiam que nenhuma das acusações eram reais... Saberiam que existiam Youkais bons. Mas jamais poderia convencê-los disso.
Quando se sentou para jantar seu pai não estava na mesa. Quando perguntou ao mordomo o que acontecera ele lhe disse que seu pai estava indisposto, então decidira ficar em seus aposentos em repouso. Agradeceu, intimamente, por isso. Talvez não corresse nenhum perigo hoje. Poderia passar quanto tempo quisesse com o prisioneiro que seu pai não viria atormentá-la. Estaria descansando em seu quarto, recuperando-se da indisposição que, provavelmente, não passava de uma dor de cabeça.
Depois de jantar foi direto para seu quarto. Pegou seu arco e flechas, escondendo-o dentro do manto. Seria hoje. Já pensara bastante sobre o assunto. Pretendia libertá-lo hoje... Não poderia esperar nem mais um minuto de agonia. Não se deu ao trabalho de retirar o belo vestido branco que usava. Apenas colocou o quimono que normalmente usava também escondido e um pouco de comida. Tinha de entrar rápido no calabouço. Precisava vê-lo.
Seus passos ecoaram pelo lugar fechado. Ele estava deitado no chão, adormecido, bastante encolhido provavelmente graças ao frio. Ela abriu o cárcere, ajoelhando ao lado do amado. O que diria a ele? Será que ele conseguiria fugir mesmo doente? – Essas perguntas a afligiam, mas ela sabia que tira-lo dali o mais rápido possível era o que mais queria em sua vida.
Observou-o dormir. Parecia um anjo e ela acariciou os longos cabelos prateados, cobrindo-o com seu manto negro. Não tinha coragem de desperta-lo... Não naquele momento, essa poderia ser a última vez que o veria... Se ele fosse embora... Ou se o rei acabasse por matá-la. Observou seu sono tranqüilo, sentindo o começo de um sorriso brotar em seus lábios.
- Kikyou...? – Ele murmurou, ainda com os olhos fechados, embora as orelhas tivessem se movido um pouco.
- Me perdoe, eu te acordei?
- Não se preocupe. – Ele replicou, entreabrindo os olhos enquanto se sentava ao lado dela, observando a expressão séria em seu rosto – Que cara é essa, Kikyou?
- Eu preciso conversar com você, InuYasha. Quero que me diga a verdade. – Ele sustentou seu olhar – Eu andei pensando muito sobre como te tirar daqui. Mas antes eu preciso saber se você está bem o suficiente para fugir... Se você vai conseguir correr e fugir sem que te peguem de novo... Acha possível?
- Acho... Eu sei que ainda não me recuperei, mas... Acredito que consiga fugir. – Estava falando sério e ela se sentiu feliz ao constatar isso. No fundo ele sabia da mesma coisa que ela. Sabia que se falhassem ele acabaria morto.
- Certo. Então primeiro eu vou ter que me livrar das correntes – Ela disse, pegando uma de suas flechas. Conhecia seu poder de miko e sabia que tinha dentro de si uma forte energia purificadora, que, sem dúvida, poderia quebrar aquelas correntes.
- Feh! Acha que vai me soltar com isso?! – Estava duvidando dela, como sempre, mas ela não se deixou abalar. Concentrou todo o seu poder na mão que segurava a flecha, quebrando as correntes que prendiam suas mãos e depois o separando da bola de ferro – N-Nani? – Ele estava surpreso. A princesa tinha realmente poderes! Ela o observou, vitoriosamente.
- Está vendo? Agora vamos ao plano. – Ela disse, olhando-o nos olhos – Nós vamos sair daqui normalmente, não tem guardas aqui na porta. Passaremos rápido pela multidão. Se nos pegarem, eu te defenderei do meu pai. Se isso acontecer, fuja. Ele não vai ser capaz de me matar.
- Kikyou, mas... Isso é perigoso. Ele pode te matar, ele é louco! – Os olhos dourados estavam repletos de preocupação. Estava muito próximo dela, e sentia o coração bater com mais força. Talvez fosse a última vez que a veria. Não podia deixá-la sozinha lá, correndo todo esse risco – Kikyou, fuja comigo! E não posso deixar aquele maldito te matar!
- Eu não posso... – Havia muita tristeza em sua voz. Sacudiu negativamente a cabeça – Eu tenho que continuar aqui e zelar pelo reino. Não posso abandonar tudo isso... Eu vou sentir sua falta, InuYasha.
- Kikyou... Eu... – Ela olhava para o chão, tristemente, sem coragem para olhar nos olhos do amado e dizer que não podiam ficar juntos. Seu coração gritava para que ela o ouvisse e vivesse ao lado dele. Mas não podia, tentava se convencer de que viveria sem ele. – Kikyou! – Ele repetiu o nome dela, mais uma vez, o que a fez erguer a cabeça, sem saber o que dizer. Seu coração batia tão rápido que ela desconfiava que ele pudesse ouvi-lo – Eu não quero te deixar eu... Eu não consigo parar de pensar em você... Eu te amo...
Foi apenas um murmúrio, as últimas palavras que ele foi capaz de dizer antes de beijá-la, primeiro docemente. Ela nunca havia beijado ninguém. Não sabia como era a sensação... E ele se surpreendia ainda mais que ela. Seu sangue estava quente. Parecia que não era mais ele quem mandava em seu corpo. Apenas sentia a si mesmo beijando-a vorazmente, como se ela fosse tudo o que tinha na vida. E ela correspondia, abraçando-o e passando a mão por seus cabelos. Não sabia o que sentia naquele momento. Só sabia que não podia mais viver sem aquilo. Não seria capaz de viver sem ele.
- Eu também... – Ela murmurou, separando-se dele e sentindo as lágrimas presas nos olhos – Mas eu...
Não pôde continuar. Ele voltava a beijá-la, urgentemente. Não conseguia controlar-se. Sentia o desejo tomar conta de seu corpo, abrindo os botões de seu vestido. Ela não foi capaz de impedi-lo. Sentia a mesma necessidade que ele, embora temesse ser descoberta. Ele já estava em um botão no meio das costas dela quando ouviu algo se aproximar. Era tarde demais. A confusão e êxtase em sua mente não o deixaram sentir a aproximação do homem que agora estava parado diante deles, com um maligno sorriso no rosto.
- Ora, Ora! O que temos aqui! VEJAM SENHORES! VEJAM A NOSSA TRAIDORA! A doce menina, que criei com tanto carinho. Vejam no que ela se transformou! Numa nojenta, uma imunda, uma amante de Youkais!- Seu tom acusador era terrível e a moça sentia vergonha. Olhava em seus olhos, acuada. Seu vestido escorregava e ela o levantava, desconcertada. Não sabia o que dizer. Nunca se vira em uma situação tão embaraçosa. O silêncio do amado também a deixava com medo – Ora, pare de tentar se proteger! Porque esconde seus seios, hum? Qual o medo de mostrá-los, hein, sua vagabunda?! Quantas vezes você se deu para esse Youkai? FALA, SUA VAGABUNDA! Quantas pessoas já não viram isso que você tanto tenta esconder?!
- NÃO FALA ASSIM COM ELA! – Explodiu o Hanyou, levantando-se e pegando-o pela camisa, sacudindo-o com violência – VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE TRATAR A KIKYOU DESSE JEITO, ESTÁ ME OUVINDO? EU VOU TE MATAR, MALDITO! – Estava com as garras encostadas no pescoço do homem, iria matá-lo naquele exato instante.
- INUYASHA, CUIDADO! – Gritou Kikyou, vendo um homem lançar uma flecha, que o atingiu, em cheio, no meio das costas. Ele caiu de joelhos e a mulher correu até ele, apesar do medo e da vergonha. Não deixaria que o matassem. Tudo o que dissessem era inútil. Ela o amava, muito mais do que aquele monstro que agora a acusava – Você está bem? – Ele fez que sim, levantando-se, devagar. Com certeza sentia dor. A flecha provavelmente era purificada, como a maioria das que os soldados usavam – Já basta meu pai! Você já sabe de tudo! Agora vai fazer o quê? Vai me matar diante de todos? Me queimar numa fogueira como faziam às bruxas? Vai me confinar nesse calabouço assim como fez com esse inocente?
- Cale-se! Eu não quero ouvir mais nenhuma palavra dessa sua boca imunda! Eu ia dar esse reino para você. Você era aquela que ia me suceder! E eu te encontro aqui, se prostituindo com um prisioneiro, um Youkai que não merecia nem mesmo nunca ter visto seu rosto! Você manchou nosso nome, Kikyou! Você maculou nossa família. Você nos marcou por estar com essa criatura, que nem mesmo é humana!
- Eu amo o InuYasha, pai! Você não vai me impedir de ficar junto com ele! Nada do que diga vai mudar meu pensamento! – Fez uma pausa, os olhos fixos no homem que nos últimos tempos lhe causara tanto desgosto — Eu te amei muito, meu pai, mas agora eu tenho nojo de você! E eu direi isso quantas vezes forem precisas, para quantas pessoas quiserem ouvir!
- Eu não vou admitir – Ele se aproximou da primogênita, os olhos flamejando de ódio. Nunca pensara que a encontraria nos braços do Youkai. Tinha certeza de que ela era a traidora, mas nunca pensaria que era também amante dele – EU NÃO VOU ADMITIR QUE FALE ESSAS COISAS! – Deu um tapa em seu rosto, com força. Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas, lágrimas de puro ódio, de asco pelo fato de ter sido capaz de amar e respeitar aquele homem.
Não houve tempo para que ela dissesse nada. Quando foi capaz de reagir, InuYasha já havia dado um forte soco na cara de seu agressor, que o fez cair no chão, enquanto os soldados vinham em sua direção, sem saber se atacavam o Youkai ou se defendiam o senhor. A moça apressou-se até o amado, parando na frente dele, para que os guardas não atirassem.
- IDIOTAS! CHAMEM REFORÇOS! O QUE ESTÃO ESPERANDO?!- Berrou o homem, desesperado. Levantou-se, olhando nos olhos do agressor – Seu maldito! Como ousou fazer mal à minha filha?!
- Pare pai! Não queremos te machucar! Pare! – Ela pediu nervosa. Nunca estivera em pior situação. – InuYasha! InuYasha, querido, vamos embora antes que os reforços venham! Agora! Vamos!
- Suba! – Ele disse, ajoelhando-se, obedecendo à ordem da amada e ignorando o homem que queria revidar, mas não tinha nenhuma arma. A moça subiu em suas costas, obedecendo-o, porém sentiu o pai segurar seu braço, com força.
- Me larga! – Ela tinha um olhar irado, quase flamejante – Pai, eu estou falando sério!
- Eu não vou te deixar fugir. Eu vou te matar, na frente de todos, para recuperar a honra do meu nome! Você nos destruiu, sua puta, e eu não vou te perdoar por isso!
- Feh! Só passando por cima do meu cadáver! – O hanyou replicou, agarrando o pescoço do homem com tamanha velocidade que a filha não foi nem mesmo capaz de ver o movimento – Eu vou quebrar seu pescoço por tratar a Kikyou desse jeito!
- InuYasha, não temos tempo para isso! Vamos! – Ela pediu, apressada. Não estava pronta pra vê-lo matar seu pai. Um dia ela o amara... E não suportaria a idéia de vê-lo morrer, não nas mãos daquele que a defendia – Vamos fugir!
Dessa vez ele nem mesmo pediu, apenas ajoelhou a sua frente. Ela subiu rápido, sendo carregada por ele. Sua velocidade era incrível. Ele passou abrindo as portas apenas com chutes, correndo por entre os humanos que apontavam e olhavam perplexos para a princesa sendo levada pelo Youkai. Naquele momento ela não sentia mais medo nem vergonha. Confiava inteiramente em InuYasha e sabia que, de alguma forma, tudo aquilo acabaria bem.
Os reforços chegaram e tiveram que desviar das flechas, todas mirando o Youkai que a carregava. Ela sentiu medo ao notar que o braço dele sangrava, com mais um objeto fincado em seu corpo. Ela não podia ver seu rosto. Não sabia se ele sentia dor ou não. Ela apertou-lhe o ombro com mais força enquanto ele seguia, sendo guiado pelo faro, para a saída daquele lugar horrível.
Ela segurou com força o arco e flechas, que, tirando o quimono, fora a única coisa que ela conseguira carregar consigo na fuga. Pegou uma flecha, mirando-a em direção do homem que comandava a tropa que os atacava. Sentiu um aperto no peito ao fazê-lo, mas atirou uma flecha nele, que o atingiu em cheio, ao que lhe parecia. Guardou o resto para o caso de necessitar. Sabia que o risco diminuiria, já que os homens de seu pai não estavam tão acostumados a lutar assim e frequentemente se enrolavam, acabando desesperados e sem saber o que fazer.
- InuYasha, está tudo bem? – Ele soltou uma exclamação de dor, indo para o chão. Já estavam bem perto de sair – O que houve? InuYasha!
- Maldição – Ele murmurou e ela desceu, mesmo que preocupada com a aproximação dos soldados. Havia uma adaga fincada no seu estômago – Suba! A gente tem que continuar! – Ele falou, com a voz esganiçada. Ela notou a dor que ele sentia naquele momento, sem saber o que fazer.
- Mas você está muito ferido...
- VOCÊ QUER MORRER AQUI?! – Ele se irritou, apressando-a – Vamos!
Ela obedeceu, sem argumentos, novamente subindo nele. Notou que sua velocidade diminuíra, mas ele já alcançava a porta quando mais uma flecha veio em sua direção, mas a moça não pôde ver se o atingiu. Dessa vez ele não emitiu nenhum som. Eles alcançaram a porta do castelo, passando por todos os jardins, desviando de cada vez mais flechas. Ela temia por ele. Ainda não havia sido atingida por nada, mas seu amado estava sangrando bastante.
Chegaram nos altos portões que os levariam direto para fora dos terrenos do castelo de Miko. O hanyou olhou para trás, dando-se conta de que não tinha para onde recuar.
- KIKYOU, SEGURA FIRME! – Não pensou nem mais um segundo no assunto. Deu um salto, agarrando-se ao muro do castelo. Escalou um pouco, com grande dificuldade graças aos ferimentos, mas conseguiu apoiar os pés na parede e dar outro salto, caindo de pé do outro lado do muro. Ainda congelada pela velocidade com que tudo aquilo acontecera, Kikyou afrouxou um pouco o aperto em seus ombros e ele tornou a correr, seguindo em direção a uma floresta, a qual a humana não conhecia. Porém InuYasha não parecia estar nem um pouco perdido. Seguia decididamente, até encontrar um local que parecesse seguro. Já haviam se embrenhado bastante na floresta quando ele parou, olhando ao redor. Kikyou sentiu que ele oscilava um pouco, perguntando, nervosa:
- InuYasha... Está tudo certo?
- Vamos parar por aqui. Acho que não vão nos encontrar. – Ele se ajoelhou, deixando-a sair de cima de suas costas.
- Conseguimos escapar, eu nem acredito. – Ela aliviou-se, descendo – Precisamos achar um abrigo e tratar desses ferimentos, está bem?
- Tudo bem... Nós... – Ele começou a se levantar, com a cabeça baixa, embora ela notasse que lhe faltava firmeza – Nós... – Repetiu, caindo de uma só vez. Ela se assustou, notando que havia perdido a consciência.
- INUYASHA! – Ajoelhou-se, nervosa – Droga, ele está fraco demais... Deve estar muito ferido... – Falava consigo mesma nervosamente – Ah, já sei! – Fez um enorme esforço, conseguindo arrastá-lo até uma árvore, o deixando encostado lá, a cabeça pendendo para o lado.
Começou retirando as flechas que foram fincadas por seu corpo. Admirava sua força... Não acreditava que mesmo tão ferido ele conseguira trazê-la até aquele lugar seguro. Era muito grata por isso. Por fim, com cuidado, retirou a adaga fincada em seu estômago, vendo o sangue jorrar do ferimento. Era bem grave. Não tinha como tratá-lo, nem mesmo conhecia aquele lugar.
- InuYasha! InuYasha! Acorde, InuYasha! – Foi bem difícil despertá-lo, mas no fim ela conseguiu, se sentindo mais calma – Você está muito ferido. Por favor, não se esforce. Esse ferimento no seu estômago parece bem grave. Está sentindo muita dor?
- Kikyou... – Ele murmurou, suando muito – Estou perdendo muito sangue... Você trouxe água? – Ela fez que não, preocupada – Espere. – Começou a farejar, sentindo o cheiro da substância – Precisamos... – Tentou se levantar, mas acabou soltando um gemido e levando uma das mãos ao ferimento.
- Você não pode levantar agora. Vai ficar bem ai sozinho se eu for procurar água?
- Mas... É perigoso...
- Mas você precisa de água. Sabe me dizer em que direção?
- Para a direita... Tome muito cuidado. – Ele se rendeu, sem energias. Pela primeira vez tivera que admitir que não tinha forças para prosseguir e a moça via nisso uma benção dos céus. Se tivesse que perder tempo discutindo talvez ele acabasse morrendo.
- Seja forte! – Ela pediu, apertando sua mão. Ele estava bem gelado.
Virou-se, partindo na direção que ele indicou. A água não estava muito longe dali, não demorou muito tempo até que ela a encontrasse. Não tendo como transportá-la, retirou as flechas da aljava, enchendo-a de água e carregando as flechas na mão, com dificuldade, voltando pelo mesmo caminho por onde veio.
- Está aqui. – Ela disse, ajoelhando-se diante dele. Ele entreabriu os olhos, ofegante, uma das mãos sobre o ferimento que ainda sangrava – Beba. – Ele fez que sim, entornando a água em seus lábios, avidamente. Bebeu bastante, embora não tenha bebido tudo e moveu a cabeça, perturbado pela dor – Querido, precisamos de um abrigo. Se chover ou ficar frio vai ser muito ruim para você. Acha que consegue procurar comigo?
- Eu não sei. – Ele replicou, fechando os olhos – Acho que preciso descansar um pouco primeiro... Está doendo demais. – Ela tocou sua testa, notando que estava febril. Sentiu muito medo. Não podia perdê-lo. Nem mesmo uma família ela podia mais ter. Até mesmo o pai ela perdera. Não tinha nem um lugar para chamar de lar.
- Tudo bem. Descanse, eu vou esperar. Mas eu te peço pra agüentar firme... InuYasha, agora você é tudo o que eu tenho... Eu não posso te perder. – Sentia muito medo, mas mantinha a voz calma, observando-o.
- Não se preocupa. – Foi a resposta, pegando sua mão, encarando-a – Acredita em mim! Eu vou ficar bem! Só me dá um tempo. Eu prometo que não vou te deixar sozinha.
- Descanse, InuYasha. Eu vou ficar aqui. – Ela sussurrou, acariciando seus cabelos e ele fechou os olhos, calmamente.
Ela o deixou dormir por bastante tempo. Parecia bem agitado, se movia muito e o ferimento ainda sangrava um pouco. Às vezes gemia, suando. A mulher nada podia fazer além de esperar que ele se sentisse melhor para procurarem um abrigo.
Olhou para cima, vendo a lua brilhando lá no céu. Olhando para as estrelas, pequenos pontos reluzentes naquela imensa vastidão, lembrou-se de como fazia a mesma coisa no dia em que seu pai contara para ela toda a história sobre os humanos e os youkais. Olhando para o homem que amava, adormecido, ela não conseguia pensar no porquê de toda aquela rivalidade entre as espécies. Não entendia o porquê de ser tão criminoso amar um Youkai... Não entendia o porquê de o fruto de um relacionamento entre um humano e um youkai não ter um lugar no mundo. Não entendia o porquê de odiarem tanto InuYasha. Não importava a qual dos reinos ele pertencia! Tampouco importava se ele era aceito ou não... Sabia que nascera para ele, e ele para ela. Nada mais tinha significado, nem mesmo as palavras de seu pai importavam.
Lembrou-se da irmã, olhando para o céu estrelado. Nunca mais poderia voltar para ver a pequena que criara com tamanho apreço. Aquela que sabia da verdade, a única que era capaz de entender que tudo o que fizera era por que era o certo a se fazer. Kaede... Aquela menina cresceria e um dia seria mais bonita que a mãe... E ainda mais generosa que ela, pensava a irmã mais velha, relembrando a mulher que lhe dera a luz. Sua mãe era uma mulher muito generosa e doce, sorridente como a filha mais velha jamais fora, e fazia todos sorrirem ao entrar numa sala. Ela tinha uma luz, tinha algo especial que a fazia se destacar dentre as outras mulheres. Talvez por isso seu pai tivesse casado com ela.
Fechou os olhos, sem querer pensar no pai. Não, não pensaria nele, definitivamente. Tinha que se concentrar em cuidar de seu amado, para que ele se recuperasse e então... O que ela faria? Ainda não sabia. Mas por enquanto iria se focar na recuperação dele. E foi com isso em mente é que se levantou, observando que ele dormia, embora estivesse um pouco agitado. Olhou mais uma vez para o céu, cada vez mais escuro e sentiu o vento frio que cortava seu corpo. Decidiu procurar alguns galhos para acender uma fogueira antes que ele acabasse pegando um resfriado.
Já um pouco longe do acampamento trocou aquele vestido pesado de princesa, sentindo muita dificuldade de se movimentar com ele. Vestiu o quimono branco que antes pertencera a sua mãe, que usara no momento em que conhecera o mestiço. Sentia-se bem mais livre vestindo-o. Amarrou os cabelos compridos com uma fita branca, que estava junto com o quimono. Sim, daquele jeito era bem melhor! Pegou um punhado de galhos, juntando ainda mais deles aos que carregava nos braços. Quando achou que a quantidade era suficiente retornou até o local aonde “acampavam”, encontrando o amado ainda adormecido, recostado a árvore. Acariciou novamente as madeixas prateadas, sentindo-se a mulher mais sortuda do mundo por poder fazê-lo sempre que quisesse.
Empilhou os galhos e começou a tentar acender a fogueira, incessantemente. Não podia ser tão difícil. Sempre parecera tão simples! Mas no momento dava-se conta que nunca tivera de acender nada e que agora simplesmente não sabia como fazer aquilo pegar fogo. Mesmo se sentindo frustrada ela insistiu, até ser interrompida por uma voz masculina:
- Keh! Admite que não sabe fazer isso! – Zombava da cara dela, explicitamente. Seu olhar de superioridade a fazia sentir vontade de rir, mas ela não o fez.
- Você sabe?
- Mas é claro que sim! – Gabou-se.
- Será que você pode...? – Não completou a frase, pois ele sorria, arrotando a arrogância que tinha e a total confiança em suas habilidades. Ela ainda sentia vontade de rir, mas não o faria.
- É claro que sim! – Levantou-se, decidido, embora tivesse travado por um momento, provavelmente graças à dor. Notou a preocupação nos olhos dela e resmungou – Não me olha assim, Kikyou, eu estou ótimo! — E seguiu até o lado dela, ajoelhando-se e girando o galho, rapidamente – Você só precisa... – As garras dele quebraram o galho ao meio. O desconcerto dele a fez sorrir, desafiadoramente – E-esse galho era muito fino! – Pegou outro, o rosto um pouco ruborizado, conseguindo enfim acender a fogueira – Viu! Eu sei acender!
- Nem por um segundo eu duvidei de você, InuYasha. – Ela falou isso com tamanha serenidade e segurança que conseguiu desconcertá-lo mais uma vez. Claramente pouco à vontade, ele sentou, encostando-se à árvore que havia atrás deles – Eu não tive tempo de pegar a comida... Você acha que tem algo que possamos comer aqui nesse lugar?
- Acho que sim. Talvez eu possa farejar algo.
- Tudo bem, não se preocupa com isso agora. – Foi sua resposta, suave – Você me parece melhor... – Ela colocou a mão em sua testa – Ainda está com febre. Não quer mais um pouco de água? – Ele fez que não, olhando para o chão, seriamente – O que nós vamos fazer, InuYasha? Eu quero dizer... Onde vamos ficar?
- Não pensa nisso agora. – Sua voz se tornava suave. Estava bem perto dela, e erguera a cabeça, olhando-a nos olhos. Ela sentiu que aconteceria de novo, mas dessa vez estava preparada – Vamos ter tempo pra pensar nisso... Vem cá... – Abraçou-a junto a si, de leve, como se ela fosse uma jóia preciosa. Ela se aconchegou em seu peito, se sentindo segura, esquecendo de todo o resto – Minha Kikyou...
Seus lábios se uniram em mais um ósculo doce e apaixonado. Ela não conseguia pensar em outra coisa. Não conseguia esquecer aquele momento interrompido pelo pai, que se tornara um enorme desastre, mas que ela tinha certeza que seria maravilhoso se não tivesse sido interrompido. Perguntava-se se o amado pretendia continuar aquilo nesse momento, mas não parecia ser essa sua intenção. O beijo agora era suave, sem todo aquele fervor do anterior. E ela gostou disso, afinal queria que ele ficasse bom mais que qualquer coisa nesse mundo. Sorriu para ele, olhando para o seu lindo rosto e acariciando-o. Agora ele lhe pertencia. Agora ela o tinha para sempre. Nada tinha temer. Jamais temeria nada em sua vida, disso estava certa.
- Descanse, amor. Você precisa ficar bom logo, está bem? – Acariciou seus cabelos e seu rosto e ele fechou os olhos, ainda abraçado a ela. – Isso, durma. Eu vou ficar aqui com você.
Sentiu que ele adormecera pouco tempo depois, notando que sua respiração se acalmara. Passou mais alguns minutos olhando para a fogueira que tiveram tanto trabalho para acender até cair no sono, nos braços do mestiço. Sentia-se cansada. Talvez sair daquele castelo tivesse sido emoção demais para apenas um dia. Talvez ela sentisse saudades... Mas talvez a partir desse dia ela pudesse finalmente ser uma mulher feliz... Apenas uma simples mulher e viver ao lado do seu amado para sempre.
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