Um Eterno Amanhã

5 Capítulo 5: Sentimentos


O céu estava iluminado pelo brilho solar, numa linda manhã. Os pássaros cantavam em uma bela sintonia, tão admirados pelas pessoas do reino. Os territórios de Miko eram lindos, disso qualquer morador poderia gabar-se. Desde as árvores às mais minúsculas flores, tudo era belo e parecia harmônico naquele lugar.

Mas agora aquilo era só uma fachada. O clima dentro dos limites do castelo era de medo, apreensão e preocupação com relação às novas atitudes do rei. Todos notaram que ele estava mudado, que não era mais o homem generoso que antes estava no comando. Ninguém sabia dizer ao certo o que acontecera, mas todos concordavam, unanimemente, que algo estava bem diferente.

Sua filha primogênita já estava sob a capa negra naquela hora. Juntara o máximo de comida e água que pudera armazenar e se preparava para se dirigir às masmorras. Sentia vontade de ver aquele que lá se encontrava... Mesmo que tivesse dificuldades de admitir, seu coração sabia que sentia saudades dele tão logo subia as escadas para seu quarto. Sorrateiramente, atravessou os corredores. Entrou pela porta que antes lhe trouxera tanto medo. Era incrível como parecia que ela já vinha visitá-lo há tempos. Sentia como se sua vida não tivesse existido de fato antes da aventura que vivia.

Abriu a cela, fazendo um estridente barulho outra vez. Desta feita, as orelhas caninas do adormecido não se moveram. Ele não reagiu, parecia nem mesmo ter ouvido sua aproximação, ou mesmo sentido seu cheiro. Ela ajoelhou ao lado dele, admirando o semblante adormecido. Parecia tão tranqüilo quando dormia. Quase como se esquecesse todas as experiências ruins pelas quais passara na vida e se tornasse uma inocente criança.

- InuYasha... – Ela chamou delicadamente. Hesitou em tocá-lo, já que poderia se sobressaltar, porém ele não atendera ao chamado então decidiu pôr uma mão em seu braço, levemente, sacudindo-o — InuYasha, acorde! – As orelhas se moveram, enfim. Ele apertou as pálpebras umas contra as outras, abrindo lentamente os olhos.

- Kikyou...? – Ele murmurou, em tom quase inaudível – Você ainda está... Brava comigo?

- Não... Não se preocupe com isso. – Ela disse tranqüila – Eu trouxe algo para você comer. Deve estar faminto.

Ele não respondeu. Apenas sentou-se, pegando o que ela lhe oferecia e comendo silenciosamente. Parecia triste... Ela não sabia dizer bem, mas algo em seu semblante lhe trazia um aperto no peito.

- Está tudo bem? – Ela indagou, olhando-o nos olhos. Ele a encarou por alguns segundos, depois baixou os olhos – O que aconteceu? Porque está me evitando desse jeito?

- Não é nada... – Ele replicou, encarando o chão – Eu estou bem! Pare de se preocupar à toa!

- Por favor, não minta para mim... – Ela disse, olhando-o tristemente – Por que está desse jeito? Me responda só isso, depois eu prometo te deixar em paz.

- Eu já não disse que está tudo bem?! O que mais você quer? – Começava a se tornar agressivo outra vez. Ela não se abalou, entendia que seu comportamento era apenas uma forma de proteger-se... Só não entendia bem do quê.

- Tudo bem. Se você está me dizendo, tudo bem. Eu confio em você. – Ela disse tranquilamente, recostando-se na parede. Ele ruborizou, sem graça, mirando fixamente o chão. Aquela frase sem dúvida o abalara – Sabe, quando sai daqui ontem comecei a pensar em o quão difícil deve ser para você ficar aqui sozinho, nesse lugar fedorento e imundo.

- Feh! Eu estou acostumado com isso.

- Você não tinha ninguém com você antes de vir pra cá? Eu quero dizer... Você era completamente sozinho? – Ela perguntou um pouco chocada por dentro. Não achava que fosse possível uma pessoa viver completamente isolada.

- Era. – Ele replicou, mais suavemente do que ela pensou que responderia a uma pergunta tão pessoal – Todos me odiavam... Mas eu também nunca senti falta disso. Estava muito bem sozinho como estava. Pelo menos eu era livre...

- Eu compreendo. Deve estar sendo difícil. – Ela replicou, tristemente. Ele não respondeu. A respiração dele acelerou, de um momento para o outro, e ele recostou a testa na parede. Olhava para o chão, parecendo sentir alguma dor – O que é que há? Está se sentindo bem? InuYasha! – Ela levantou-se, indo até ele.

- E-está... Está tudo bem... – Ele teimou, levantando os olhos para ela.

- Não esconda nada de mim! Eu só quero te ajudar... Pode me dizer o que é que você tem? Por favor, InuYasha, eu preciso saber! – Ela pedia, ainda tranquilamente, embora houvesse um tom apelativo em suas frases.

- Não aconteceu nada... – Ele disse, arfando e levando a mão ao abdômen, denunciando-se, com o punho cerrado. Mirou o chão, fixamente – Maldição...

- Fique calmo – Ela falou, tocando sua testa suada – Está muito quente... É melhor você se deitar um pouco. – Ele obedeceu, sendo auxiliado por ela, ofegando ainda mais – Me diz o que é que você está sentindo. Não faz mais sentido tentar esconder de mim.

- Meu estômago está doendo... – Ele observou-a. Pensou que ficaria brava com sua mentira, que ficaria magoada, pois ele não fora sincero com ela. Pensou que ela reclamaria... Mas isso não aconteceu, em absoluto.

- Está enjoado? – Ele fez que sim, sem coragem para encará-la – Olha, tenta ficar calmo, está bem? Eu não sei o que está acontecendo, mas você me parece doente de verdade. Eu não tenho muito conhecimento sobre isso. Mas o que eu sei é que se você não melhorar logo, num lugar com essas condições... Você não vai ter como sobreviver. – Aquilo parecia doer dentro dela – Mas fique tranqüilo, vou ficar um pouco mais de tempo com você hoje. Vou fazer tudo o que eu achar a meu alcance para te ajudar. Você tem sentido mais alguma coisa? Seja sincero, por favor. — Não havia qualquer reprimenda em sua voz.

- Não... Só umas tonturas... De vez em quando. – Parecia receoso. Nunca fora ajudado por ninguém e não podia crer que aquela humana que deveria julgá-lo como um inimigo o estava ajudando sem querer nada em troca disso.

- Tudo bem... – Ela replicou, observando-o, com preocupação evidente. Tirou um pano branco, que amarrava seus cabelos, e molhou-o, arrastando-o em seu rosto e deixando-o sobre sua testa – Obrigada por confiar em mim.

Ele não respondeu. Apenas fechou os olhos, respirando forte. Sentia-se grato. Não compreendia o porquê de ela estar sendo tão gentil, tão generosa e boa com ele daquela forma, mas sentia-se extremamente agradecido por sua presença. Sem ela ali sabia que definharia naquele lugar nojento.

- Ei, InuYasha! – A mulher chamou, fazendo-o abrir os olhos para mirá-la, indagadoramente – O rei não manda nada para você comer?

- Só mandou... Uma vez... – Ele respondeu, sentindo outra dor forte – Ontem... De manhã...

- Você... Comeu? – Ela ficava nervosa, mas ocultava seus reais pensamentos dele. Do jeito que aquele homem agia monstruosamente, não duvidava que ele o tivesse envenenado.

- É claro! O que você queria que eu fizesse?! Ficasse olhando? – Ele replicou agressivo, arrependendo-se ao sentir o estômago contorcer com mais força.

- Talvez tivesse sido mais seguro. Mas não vamos discutir o passado, não é InuYasha? – Aquele tom de voz sempre suave ainda imperava – Eu quero que você descanse. Vou te observar mais um pouco. Mas logo terei que ir embora. Talvez durante a madrugada eu possa voltar... Mas não posso garantir.

- Ta. – Foi tudo o que disse. Ele não estava brincando, com certeza se sentia muito mal. O pouco que ela sabia dele, já lhe provava que ele só ficaria tão quieto se estivesse se sentindo realmente doente.

Ela recostou-se na parede, suspirando. Tinha de ser forte... Ninguém sabia o quanto doía vê-lo sofrer... Nunca pensou que sentiria nada assim por qualquer pessoa... Mas sentia, agudamente, que até mesmo a maior dor que ele pudesse sentir não se equipararia à sua de vê-lo doente, especialmente porque sabia quem era o responsável. Além de tudo, sentia-se culpada, culpada por ter nascido, por ser princesa, por mentir pra ele, por ser uma imunda, que apenas nascera graças àquele homem que o torturava... Não sabia o que fazer para livrar-se daquele turbilhão de sentimentos.

Notou que ele havia adormecido outra vez, ajoelhando ao lado dele. Sentiu-se à vontade para tocá-lo, sabendo que não teria qualquer reação, sabendo que não se tornaria mais uma vez esquivo. Então acariciou os fios prateados, levemente, sentindo algo maternal por ele, algo que jamais definiria em palavras... Só sabia dizer que iria protegê-lo, com unhas e dentes, de qualquer pessoa que ousasse tocá-lo.

Demorou pouco tempo até ela ter de partir. Não teve coragem de acordá-lo para despedir-se, preferiu deixá-lo descansar mais um pouco. A febre não cedera nem um pouco, os resmungos que ele soltava, inquieto, provavam que a dor também não o abandonara. Tinha medo do que o rei faria se o encontrasse tão frágil, mas não podia fazer mais nada por ele.

Com isso em mente ela se levantou, caminhando para fora do calabouço, o mais rápido que podia. Gastara mais tempo do que lhe era permitido ali, o que poderia levantar suspeitas contra ela e essa era a última coisa de que precisava. Ansiava por conseguir retomar a rotina normal, para durante a madrugada dirigir-se às masmorras e cuidar do estado precário de saúde do meio youkai.

Dentro do imundo aposento o rapaz ainda jazia, agora desperto, sentindo muita dor. Estreitou os braços em torno do abdômen, pedindo para que aquilo acabasse. O cheiro enjoativo do mofo começava a agredir ainda mais o estômago, além de causar tonturas... Sempre fora sensível a cheiros, e aquele era particularmente irritante, a seu ver, especialmente naquele momento.

Sentiu uma náusea forte, seguida dum impulso forte de liberar tudo o que estava em seu estômago. Respirou fundo, se contendo: tinha de tentar ficar calmo! Sentou-se, recostado na parede da cela. Estava pálido e começava a sentir um frio enorme. Começava a tremer, olhando fixamente para o chão. Sentiu o líquido quente percorrer sua garganta, tentando contê-lo, em vão. Vomitou, sentindo ainda mais dor e depois recostando novamente a cabeça, ainda mais frágil. Pensou que aquilo melhoraria, mas tivera efeito contrário, sentia ainda mais dor.

Continuou lá, querendo que a moça voltasse para junto dele. Precisava de alguém para dizer-lhe que ficaria tudo bem... Novamente a fragilidade humana, a necessidade de carinho, de apoio, de assistência, de amor alheio... Queria ser forte para suportar sozinho, mas sabia que não o era. E aquilo, naquele momento, não o abalava. Apenas desejava ter alguém com quem compartilhar todos os momentos de sua vida, dali pra frente. Alguém que lhe daria a mão e sempre o apoiaria, mesmo que isso fosse cansativo. Sabia que encontraria essa pessoa mais cedo ou mais tarde... Pelo menos, esperava que a encontrasse, se algum dia fosse capaz de conquistar a tão almejada liberdade. Cerrou os orbes, sem saber o que fazer. Acabou por adormecer por puro esgotamento físico e mental.

A princesa se esforçou ao máximo para cumprir com todas as suas obrigações antes que chegasse a meia noite. Tinha de fingir que havia se recolhido para que pudesse ir ver o mestiço... Preocupava-se muito com uma piora que ele pudesse ter tido. A agonia e a aflição cresciam cada vez mais em seu peito. Queria vê-lo totalmente bem, mas não sabia se isso seria fácil. Ansiava, então, pela primeira hora, para que pudesse aproveitar-se do sono de todos os empregados e esgueirar-se para o local, passando várias horas lá, sem que tivesse medo de ser descoberta.

Quando o relógio marcava precisamente uma hora da madrugada, a moça cobriu-se com o manto negro e correu, sem fazer barulho, até o medonho local. Os corredores estavam desertos e aquele lugar parecia fantasmagórico à noite. Sabia que o calabouço se mostraria ainda mais assustador que qualquer outro lugar. Sabia que seu peito perderia o compasso ao aproximar-se da tão conhecida cela, mas não de medo do ser que lá havia, mas sim de como o encontraria. Afinal ele poderia ter morrido... Sacudiu a cabeça, apagando os pensamentos. Não queria nem imaginar aquilo.

Seus passos ecoaram, sem medo, pelo cômodo fedorento e tão triste quanto pela manhã. Entrou direto na jaula do prisioneiro, notando que ele estava com a cabeça baixa. Talvez estivesse adormecido... Ou mesmo tivesse perdido a consciência. Ela foi até ele, notando que havia muito vômito ali, além de duas grossas gotas de sangue no chão. Sentiu o coração disparar voltando os olhos para ele, notando o filete de sangue que escorrera da ponta de seus lábios.

- InuYasha! – Ela chamou, gravemente – Fala comigo! InuYasha!

- Kikyou... Estou acordado... Não se preocupe... – Ele disse, levantando a cabeça. Parecia tentar manter a calma, talvez estivesse se sentindo muito mal.

- O que está sentindo? – Foi sua pergunta, tocando-lhe o rosto, gelado.

- Muita dor...

- O sangue... – Ela começou receosa – Como aconteceu?

- Eu não sei... Acho que estou envenenado... Os ferimentos ainda não sumiram completamente... E agora isso. – Foi o que disse, olhando para ela — Meu corpo é muito forte... Eu tenho certeza... De que logo vou estar livre do veneno...

- Me tranqüiliza ouvir isso – Ela falou, tocando sua testa – Está gelado... Sente frio? – Ele moveu, afirmativamente, a cabeça – Tome isso – O cobriu com o manto, embora aquilo não tivesse feito muito efeito.

Nenhuma palavra escapou dos lábios dos dois. Apenas observavam um ao outro. Ela às vezes o tocava, preocupada. Sua respiração em alguns momentos se tornava mais forte e irregular, como se a dor começasse a dominá-lo, mas parecia estar melhorando aos poucos. Passou longas horas ali com ele, e depois de muita reflexão ela pontuou inquieta:

- Eu quero te pedir para você não comer nada que o rei te ofereça... Entendeu? – Ela não o repreendia por ter feito antes, apenas preocupava-se com o futuro – Eu acho que você foi envenenado, não pergunte o porquê... O que parece é que você está se livrando dele aos poucos. Talvez seja difícil, mas logo você vai estar bem.

Ele fechou os olhos, exausto. Não sabia quando ficaria bem novamente, mas rezava para que fosse em breve, bem breve... Sentiu um cheiro estranho, abrindo os olhos... Cheiro de humanos... Muitos deles. Olhou para a mulher, com ar de urgência, dizendo, seriamente:

- Kikyou... Sinto cheiro de humanos... São muitos e estão vindo para cá. – Encarou-a, fazendo um enorme esforço para sentar-se, recostando na parede – Fuja! Saia daqui, rápido! – Alteara o tom de voz, esforçando-se para parecer melhor do que estava, em vão. Ela sentia o peito apertar por deixá-lo, mas não poderia permanecer ali nem mais um segundo.

Concedeu-lhe um aceno positivo antes de partir, desabaladamente, porta a fora. Passou correndo até o quarto de brinquedos, sentando-se lá, abrigada, e ouvindo os passos marcharem em direção às masmorras, tal qual o rapaz dissera. Tentou parar a respiração ofegante, olhando ao seu redor. O ambiente era tranqüilo e não havia qualquer perigo pra ela ali.

- Youkai! – Chamou um homem que o prisioneiro bem conhecia. Um rosto que aumentava suas náuseas e o fazia rosnar, baixinho – Vejo que está tendo problemas... O que houve? Está doente? – Parecia debochar dele, olhando-o de longe – Ou está com algum outro problema... Talvez esteja com saudades dos outros youkais?

- Me deixa em paz, seu maldito!- Ele reclamou, encarando-o, com a cara mais ameaçadora que conseguiu fazer na hora – O que você quer comigo?

- Eu não vou te deixar até que me diga de onde veio, e o que fazia aqui... Eu quero saber da sua posição no reino e de tudo mais... – Ele falava, com frieza, observando – Não vai dizer nada?!

- Não! – Ele replicou agressivo, alteando o tom de voz até quase gritar – Eu já disse tudo!

- Eu não concordo com isso. – Ele olhou para um dos homens que trouxera, ordenando – Prenda-o novamente! Vamos ter que começar tudo de novo. Mas troque-o de cela, não vamos nos sujar nessa poça imunda.

O homem jogou uma rede sobre o Hanyou, sendo auxiliado pelos outros. Conseguiram prendê-lo na cela ao lado, tal qual fizeram da outra vez. Ele apenas xingava revoltado, sem nada mais poder fazer. O Rei sorria, sadicamente. Aquilo o divertia, sem dúvida alguma. Mais uma vez o rapaz se perguntava o que fizera para que um homem, que nunca antes houvesse lhe visto, sorrisse ao fazê-lo sofrer.

Do quarto bonitinho aonde se encontrava, Kikyou podia ouvir os gritos de dor incontida do seu protegido, durante os minutos que se sucederam. Sentia o coração apertado, a cada grito, a cada risada que o pai dava, e a cada xingamento que o rapaz berrava, parecendo furioso. Ela nada poderia fazer. Olhava para o contrastante cenário em que se encontrava. Aquele momento representava como se sentia: com as mãos atadas, amarrada e detida num mundo bonitinho e perfeito quando os gritos de dor dos sofredores ecoavam, tirando-a do sério. O simples fato de perder seu tempo com filosofias vãs, como aquela, a fazia acreditar que sua inutilidade aumentava à cada segundo.

- Vejo que está sentindo muita dor. – Disse o rei, ironicamente, ao notar que ele tinha uma mão diante do estômago, parecendo se concentrar para agüentar as pontadas que sentia. Os golpes consecutivos que levara na região, talvez propositais, o faziam se contorcer de dor, suando. Queria se manter firme, mas a respiração ofegante o traía. Apenas olhava para o tirano, o olhar tão ameaçador quanto no começo – Isso é muito bom. Eu vou acabar logo com isso. Se não me disser AGORA o que pretendia eu vou te MATAR, entendeu?

- Eu... Não... Tenho... Nada... Pra... Dizer... – Ele falava, respirando com força entre cada palavra. Aquele esforço parecia-lhe custar demais. A voz esganiçada que fora ouvida nos corredores voltara, tão desesperada quanto fora naquele momento.

- Nesse caso, não se aflija... Logo você não sentirá mais nada, nem mesmo essa dor que sente agora! – O rei se aproximou, chutando-o, bem na região aonde sentia mais dor no momento – Você está me causando muitos problemas... Até mesmo minha filha Kikyou agora me trata como um criminoso... Vou acabar com a sua raça, para que não crie mais problemas para mim, seu ladrãozinho ordinário!

- Você vai me pagar! – Ele falou, entre os dentes. Seus olhos flamejavam de puro ódio – SANKONTESSOU! – Ele berrou, tentando atacar o humano a sua frente. Infelizmente, antes que o golpe se completasse as correntes se apertaram mais em volta de seus pulsos... Os ferimentos se reabriram e o sangue escorreu por seus braços.

- Huhuhuhuhu! Hahahaha! – Riu o homem, parecendo sentir prazer em ver aquela criatura sofrer – Eu sempre quis ver alguém assim, abaixo de mim... Finalmente, Youkai, você vai conhecer seu destino. É o seu fim! – Berrou o rei, pegando uma enorme lança, com o símbolo da família miko gravado – MORRA!

- LARGUE-O! AGORA! – Gritou uma voz feminina, que fez os ouvidos do mestiço moverem-se, nervosamente. A figura estava coberta por um manto negro e apontava uma flecha na direção do monarca, desafiadoramente – Você não tem por onde escapar! Deixe-o em paz e deixarei que todos saiam com segurança.

- Mas o que é isso? – Indagou o soberano, perplexo – Como vocês a deixaram entrar, seus incompetentes?! – Assustou-se ele, agora voltando sua atenção à invasora — Mulher... O que está fazendo aqui? Deveria estar lavando pratos, ou mesmo cuidando de seu maridinho... Por que está defendendo um Youkai?

- Não estou defendendo um Youkai. – Ela falou, com frieza – Eu luto pela integridade desse reino, e, principalmente, do seu chefe. Quero que lutemos em métodos justos... Ou o senhor considera isso justo? – Ela indagou, voltando os olhos para o ser caído no chão. Ele a olhava num misto de susto, dor e preocupação. Por sorte dela não dissera seu nome – Pisando numa criatura que está no chão, amarrada; tratando um homem que fala nosso idioma pior do que um animal criado pra virar comida... É essa sua idéia de justiça? Não pode o senhor conversar educadamente com ele, ou mesmo, matá-lo de uma forma honrada, sem ficar torturando-o dessa forma?

- Você é o quê, uma samurai? – Ele indagou, olhando-a, ameaçadoramente – Porque esse excesso de filosofia começa a me irritar! MATEM-NA! Façam-na pagar por me desrespeitar dessa maneira! O que é que estão esperando?!- Reclamou ele, impaciente.

Sem demora os homens brandiram suas armas em direção à mulher encapuzada diante deles. Ela estreitou os belos olhos, focando-os diretamente em seu alvo. A flecha foi disparada antes mesmo que os guardas tivessem tempo de correr até ela. Porém faltara-lhe coragem para atingir o próprio pai mortalmente, assim atingindo apenas sua perna, fazendo-o soltar um uivo de dor e cair no chão, parecendo furioso.

- Eu os avisei. – Disse ela, esforçando-se para manter a voz firme, tendo sucesso – Só quero que o deixem em paz. Não peço mais do que isso. Não pretendo ferir mais ninguém. Então por favor, façam o que eu peço.

- Maldita! Você vai me pagar... – Disse o rei, entre os dentes – Vamos, soldados, deixem-no em paz por hoje! Ajudem-me a sair daqui. – Vários dos funcionários se dispuseram a ajudá-lo, apavorados – E quanto a você... Eu sei que a conheço, e quando me lembrar quem você é, eu vou pessoalmente te mandar para o fogo do inferno! Entendeu bem? Você vai aprender a não mexer com o rei de Miko! – Ele disse, sendo amparado para fora do local.

Depois que teve certeza que os passos se afastaram o suficiente, ela caiu de joelhos, respirando forte. Levou a mão ao peito, tentando acalmar o acelerado coração, em vão. Ela havia conseguido manter a calma, mas não sabia por quanto tempo estaria segura... A qualquer momento o rei poderia desconfiar dela... Rezava para que esse momento demorasse o suficiente para que pudesse ter concluído todos os seus planos.

Só então se lembrou daquele que viera salvar. Ergueu-se, rapidamente, seguindo até ele. Ajoelhou ao seu lado, notando que ele respirava com força, os olhos fechados. Talvez estivesse inconsciente, ela pensou, pondo a mão em seu braço. Colocou o máximo de doçura que conseguiu em sua voz, chamando-o:

- InuYasha! – Ele entreabriu os olhos, observando-a – Está tudo bem? Ele te machucou demais, não é?

- Kikyou... Tenha cuidado...– Ele pediu, fechando novamente os olhos.

- Não fique preocupado comigo. Eu sei me virar. Não podia te deixar aqui sofrendo daquele jeito. Eu quero saber: como você está? – Estava nervosa, tocando-lhe a testa e notando como estava quente.

- Eu... Vou ficar bem... – Ele mentiu, olhando para o chão, uma das mãos ainda na barriga – Eu quero que você vá embora! É muito arriscado ficar aqui...

- Não, InuYasha. – Ela negou baixinho, passando a mão pelos longos fios prateados – Eu quero ficar com você. Não tenha medo, por favor! Confie em mim, está bem?

- Ele é... Muito perigoso... Vá... – Ele disse, olhando-a nos olhos, teimosamente. Estava decidido a tirá-la de lá antes que fosse tarde demais para se lamentar.

- Não adianta você insistir, InuYasha. Sabe bem que não vou deixá-lo desse jeito. – Ela disse agora severa, olhando-o duramente – Por favor, desista!

- Você não entende! – Explodiu ele, alteando o tom de voz – Eles podem voltar a qualquer momento! Você não vai ter chance contra um exército inteiro!

- Mesmo correndo esse risco, vou ficar aqui. – Se fossem competir na teimosia, essa discussão não teria fim tão cedo. A diferença era que ele falava alto e nervosamente, e ela nem mesmo alterava sua expressão ao falar, deixando claro sua inflexibilidade.

- Maldição... – Ele falou, derrotado, baixando o olhar – Se eu sentir que estão voltando você me deixará aqui, sejam quais forem as condições, ta certo? – Exigiu ele, parecendo bravo.

- Eu prometo... – Ela murmurou, colocando a mão na testa afogueada e úmida de suor – Seja forte... Vou ficar aqui do seu lado. Ele te machucou muito? Acha que tem algo quebrado?

- Feh! Não seja boba! Eu estou bem... – Ele disse, observando o rosto dela, repleto de incontida preocupação. Achava-a ainda mais linda, além de se sentir muito grato, embora fosse incapaz de expressá-lo em palavras, pelo risco que correra por ele.

- Eu estou preocupada com o seu estômago... Ainda sente muita dor? – Ele fez que sim, o olhar fraco deixando-a ainda mais penalizada – Me deixa ver uma coisa?

Ele não respondeu, observando-a. Considerou isso como um sim, suspendendo a parte superior do quimono dele o suficiente para ver a enorme marca vermelha em seu abdômen, além dos longos rasgos derramando sangue que foram feitos neste, olhando nos olhos dourados, que pareciam cada vez mais opacos, como se o cansaço e a letargia o fizessem perder, lentamente, o controle sobre sua consciência.

- Está muito feio... – Ela disse, encostando a mão na região. Ele reagiu fortemente, se encolhendo e soltando um grunhido – Me perdoe... Olha, isso está muito feio... Vai ficar bom sozinho mesmo? Você tem certeza?

- Já disse... Não se preocupa... Eu não... Vou morrer por causa disso... – Sentenciou, os olhos começando lentamente a ficar ainda mais pesados e opacos, quase sem forças.

- Tudo bem. Eu acredito em você... Mas, por favor, descanse o máximo que você puder. Eu não sei quando eles vão voltar, mas acho que não vai demorar mais que um dia. – A voz dela continuava serena. Olhou para o rosto dele. Os olhos estavam distantes, como se não estivesse mais ali com ela – InuYasha? Fale alguma coisa... Está tudo bem com você? – Tomou-lhe a mão fria, apertando-a, levemente – Se estiver ouvindo, responda. – Ele fechou os olhos, silenciosamente. Estava inconsciente, disso ela não tinha dúvidas.

Naquele momento ela não sabia como proceder. Sentiu uma enorme impotência e um sentimento de fraqueza a puxarem para baixo. O cansaço tomou conta de todo seu corpo e ela só resistiu ao forte impulso de voltar para sua pacata vidinha de sempre graças a um sentimento de tristeza que despontou em seu coração. Não agüentaria viver sabendo que o deixara daquele jeito. Sentia medo, estava cada vez mais confusa, mas de uma coisa tinha certeza: ele tinha que viver, não importava o quão dura fosse a batalha que enfrentasse para concretizar seu objetivo.

Torcendo para que não estivesse cometendo nenhum grave erro, suspendeu metade de seu corpo, encostando-o contra seu próprio, o mais cuidadosamente possível. Abraçou-o pela frente, para apoiá-lo junto de si. Sentia o coração bater com força por causa da proximidade, mas acalmou-se, certa de que ele não lhe faria nada de mal. Tocou a testa fervente, preocupadíssima. Chamou seu nome, próxima às orelhas caninas, baixinho. Insistiu bastante, até notar que o prisioneiro entreabria os olhos. Ele observou-a, sem reação, por alguns segundos. Foi só quando notou a proximidade que corou, brutalmente, fixando os olhos no chão.

- Mantenha a calma. Você desmaiou, ainda está voltando a si. – Ela disse tranquilamente, ainda envolvendo-o junto a si – Não fique assustado, está tudo bem. Vejo que está melhor... Já está bem mais corado. – Zombou a moça, mesmo que ela própria não se sentisse confortável com a posição.

- Kikyou... Eu... – Ele começou, desajeitado. Desviou o olhar, fixando-o no chão – A última pessoa que foi tão boa comigo foi minha mãe, eu... Nunca pensei que mais alguém fosse ficar do meu lado... – As palavras pareciam custosas. Sem duvidas ele também não falava coisas como essas com freqüência.

- E o que aconteceu com ela?

- Nani? – Ele indagou confuso, olhando nos olhos dela.

- Sua mãe... O que aconteceu com ela? – Tentava ser delicada com ele. Assustou-se com a mudança em sua expressão. Tornara-se sombrio, baixando os olhos, esquecendo completamente até mesmo do desconcerto que a posição lhe causava.

- Minha mãe já morreu... Há muito tempo. – Ela sentiu irritação em sua voz.

- Ela era uma humana, InuYasha? – Insistiu ela, indo fundo nas feridas do Meio Youkai.

- DROGA! Ela era uma humana! Dá pra me deixar em paz?! – Ela teve certeza de que havia ultrapassado seu limite, já que agora não era mais sombrio, mas sim irritado e arredio, como fora na primeira vez que se viram.

- Sim... Eu entendo. – Ela disse, ocasionando outro silêncio. Com apenas algumas palavras ela destruíra a providencial aproximação que seus atos anteriores haviam causado.

E o clima só foi quebrado porque ele começou a tremer, agora deitado no colo da moça. A sacerdotisa tocou seu rosto, o mais amavelmente que lhe foi permitido e observou-o, nervosa. Não sabia como aliviar sua dor, era incapaz até mesmo de buscar ajuda para ele, mesmo sendo a princesa…

- InuYasha, está me ouvindo? – Ele moveu levemente a cabeça, sem abrir os olhos, sinal de sua fraqueza – Eu não sei o que fazer... Será que tem algo que faça você se sentir melhor? Porque eu posso conseguir alguma coisa para você...

- Não... Vai passar... – Ele sussurrou baixinho. Moveu de leve a cabeça, mantendo os olhos cerrados – Kikyou eu... Gosto muito do seu cheiro... – O doce murmúrio trespassou seus lábios e seus olhos se entreabriram para observar o rosto da mulher que o defendera.

Não disse nada, apenas a observou, com intensidade. Ela sentiu-se frágil diante daquele olhar. Era como se ele a dominasse, como se mesmo com toda a fragilidade em que ele se encontrava ainda fosse infinitamente mais poderoso que ela. Como se nem mesmo com toda aquela dor ele fosse deixar algo acontecer a ela. E ela se sentiu confortável olhando-o daquela forma. Sentiu um frio trespassar sua espinha e murmurou, nervosa:

- InuYasha... – Fez uma longa pausa, sentindo o coração acelerar. Queria dizer mais alguma coisa, mas não sabia o que. Observava o rosto dele, imutável. Os olhos fixos nos dela ainda a deixavam arrepiada. Sentiu-o pegar sua mão, docemente, sem desviar os olhos de seu rosto – O que é?

Ele pareceu sem-graça após as palavras dela, largando sua mão e desviando os olhos, fixando-os no chão, ruborizado. Nem mesmo compreendia o que fizera, sentira como se algo em seu coração acelerado e em seus instintos animais o impelisse a se aproximar dela, tocá-la e beijá-la... Algo despontara em seu coração, por cima de toda a dor e de todo o medo que sentia. Algo o fizera sentir como se apenas aquela doce criatura que tanto o ajudava fosse tudo para ele.

Sentira uma dor quase física ao observar sua beleza paralisada e tomada pelo sentimento que certamente seus olhos esbanjaram. Mas no fim voltara a si ao ouví-la perguntar-lhe o que fazia. Deu-se conta de que não deveria sentir aquilo. Deu-se conta de que nunca o sentira antes e que não seria agora que o aceitaria. Então decidira por evitar tudo aquilo, por mais que tivesse gostado.

- Eu... Não foi nada... – Deixou a cabeça recostar-se novamente sobre ela, acalmando os instintos que antes tomaram conta de seu ser. Fechou os olhos, sentindo um forte calor, embora tremesse forte e febrilmente.

Após essas palavras definitivas apenas o silêncio reverberou pelo lugar horrendo. Apenas ouvia-se a respiração ofegante dele, que se movia frequentemente, parecendo bem agitado e os leves movimentos da moça, que enxugava sua testa com um pano, tentando transmitir-lhe segurança. Rezava para que, mesmo com aquelas condições horríveis, o corpo do hanyou pudesse se recuperar rapidamente e então ela poderia... O quê? Tirá-lo dali? Ela ainda não sabia e seu coração estava cada vez mais confuso... Era tão nebuloso que algumas vezes desejava intensamente que pudesse ficar para sempre do lado dele... Mas tinha que libertá-lo ou morreria em breve.

Acariciou-lhe o rosto, ternamente. Já reconhecera o sentimento que se apossara de seu coração. Não tinha mais dúvidas de que se apaixonara por InuYasha com todas as suas forças, como nunca antes se apaixonara por qualquer outro homem. A intensidade do amor que sentia no momento jamais poderia ser descrita em palavras. Apenas sabia que daria sua vida por ele e sentia cada vez mais receio de manter a mentira sobre a qual baseara aquele relacionamento desde o princípio. Não desejava mais mentir para ele, mas... Não tinha coragem de contar-lhe, tinha medo de perdê-lo.

Sentiu-se triste ao pensar que teria de deixá-lo lá, sofrendo. Sabia que dariam por sua falta e então estaria em sério perigo. Levantou-se, serenamente, vestindo a longa capa preta e pegando a arma que deixara num canto da cela. Olhou-o dormindo mais uma vez, acariciando os cabelos prateados e deixando-o lá, receosa do tamanho do risco que ele corria. Mas tinha que ser forte. Confiava nele. E ele lhe prometera que em breve estaria bem. Era isso que era importante.

Deixou a cela do jeito que os guardas anteriormente haviam deixado. Virou-se, decididamente, saindo o mais rápido possível para que não fosse vista transitando com aquela capa, que já devia chamar bastante atenção graças ao escândalo que, sem dúvidas, o rei dera ao deixar o calabouço.

Adentrou o quarto, cansada. Passaria o resto da madrugada e todo o dia seguinte numa incessante espera pelo momento que teria noticias dele, que tornaria a vê-lo e ter certeza de que tudo ficaria bem. Somente conseguiria sossegar quando o visse ativo e nervosinho como na primeira vez que se viram...

Decidiu retornar àquele refúgio no dia seguinte durante a noite, porque se viesse durante a madrugada correria um grande risco. Mesmo não podendo ficar durante muito tempo, seria melhor arriscar-se durante um horário no qual haveria menor possibilidade de ser surpreendida pelo pai, do que num horário em que ele poderia estar esperando-a na porta do local. Apagando as luzes, ela adormeceu embora sua mente estivesse ainda lá ao lado do prisioneiro, nas masmorras frias e sujas na qual ele era obrigado a suportar os mais terríveis momentos de sua existência.

Notas finais
Gente, deixem reviews please x.x Eu estou louca pra saber o q as pessoas estão achando da fic *-* Beijos e obrigada a todos que estão acompanhando a fanfic =D