Um Eterno Amanhã

8 Capítulo 8: Afastamento


Notas iniciais
Capítulo menorzinho, mais simples, anyway xDDD To esperando reviews gente ^^''' Please, não me deixem na mão rsrs

O sol já estava alto quando ela despertou. Olhou ao redor, sentindo falta daqueles braços fortes que a seguraram durante toda a noite. Entorpecida de sono, levou bastante tempo até sentir medo, pensando no que podia ter acontecido a ele. Assustou-se mais ao notar que ele deixara seu quimono vermelho cobrindo-a... Meu Deus, ele estava muito ferido, ela não podia tê-lo deixado sozinho... Agora ele desaparecera... O que ela faria agora? Correria por ai procurando-o?

Levantou-se, nervosa, olhando ao redor com mais atenção. Ele não podia estar muito longe...

- Kikyou! – Ouviu sua voz, virando-se, esperançosa. Ele a olhava do alto de um galho, onde estava deitado – Você já acordou? Eu trouxe comida! – Desceu da árvore, surpreendentemente parecendo ótimo e entregou uma fruta para ela – É difícil encontrar alguma coisa por aqui. Parece que vamos ter que entrar muito na floresta pra achar alguma coisa e... Por que está olhando para mim desse jeito? – Estranhou ele ao notar o brilho de alívio em seu olhar, vidrado nele.

- Não é nada. Obrigada – observou a fruta – Mas o que é isso?

- Eu não sei. Mas a gente está com fome, e acontece que aqui a gente vai ter que se virar com o que temos, princesinha – Havia zombaria no seu tom de voz.

- Ok então... – Ela olhou para o alimento, retirando a casca e olhando para ele – E você? Não vai comer?

- Comi mais cedo. – Esquivou-se da pergunta, observando-a comer. Havia classe no seu modo de mastigar e mesmo no seu modo de segurar a fruta e aquilo de certa maneira o fascinava. Mesmo fora do castelo ela não perdera seu encanto.

- Hummm... Isso é muito bom – Ela comentou, sentando-se ao lado das cinzas do que fora a fogueira da noite que se passara – InuYasha, você me parece bem melhor... Seu corpo se recupera tão rápido assim?

- Claro! Eu já me sinto totalmente recuperado agora! – Gabou-se, ainda mais metido. Quanto mais se recuperava mais se tornava arrogante e ela achava isso apenas engraçado. Gostava dele, mesmo com essa postura cheia de si.

- Fico feliz em saber disso.

- Ei, Kikyou! Eu acho que a gente devia procurar um abrigo agora, enquanto está claro.

- Sim, eu concordo. – Ela se levantou e ele a seguiu, prontamente – Em que direção?

- Vamos para lá.

Indicou o caminho para a moça, subindo numa árvore e guiando-a, que ia por terra enquanto ele pulava por sobre as árvores. Achava fascinante a facilidade dele para saltar com precisão. Nunca o vira errar um salto... Talvez tivesse treinado muito para fazê-lo... Deu-se conta de que pouco sabia sobre seu passado. Mas, tranqüilizou-se, tinha muito tempo para descobrir.

Seguiram por um longo trecho, observando tudo o que havia ao redor. Continuaram até encontrar o rio de onde a miko antes havia pegado a água. Continuaram a seguir, procurando algum lugar mais protegido e acabaram por encontrar um velho casebre, bastante destruído, abandonado e vazio, com apenas alguns utensílios que lhes seriam bem úteis. Entreolharam-se, felizes pela descoberta. A cabana ficava bem próxima da água, mas a cobertura estava um pouco destruída. Teriam de consertá-la no caso de chover, mas agora tinham um cantinho aonde poderiam descansar e ficar seguros e em paz, finalmente.

Alojaram-se ali e Kikyou organizou o pouco espaço que tinham. Haviam alguns futons bastante destruídos, mas que seriam o suficiente para que eles pudessem ficar confortáveis. Ela organizou o máximo que foi possível enquanto InuYasha andava por aí, provavelmente em busca de comida ou qualquer outra coisa. Não estava preocupada agora, estava tranqüila de que ele havia melhorado consideravelmente e que ficaria bom em breve.

Já havia organizado tudo e reabastecido uma velha garrafa que encontrara com água. Estava começando a ficar tarde, provavelmente logo o sol se poria e começaria a escurecer. InuYasha ainda não retornara e isso a inquietava. Juntou alguns galhos para acender uma fogueira logo na frente da cabana, bebendo um bocado de água e sentando-se de frente para aquele amontoado de gravetos, aguardando pacientemente. Olhava para o céu, tão bonito, sentindo-se mais feliz do que nunca. Agora era livre e nada poderia tirar essa liberdade dela.

Respirou profundamente aquele ar, sentindo o vento mover seus cabelos. Era delicioso sentir aquele friozinho na barriga, aquele medo saudável do que viria pela frente... Qualquer coisa era incerta para ela, mas sentia-se bem mais feliz do que quando morava naquele castelo seguro e cheio de pessoas que a julgavam e mediam a cada momento... Passando todos os dias de sua vida fingindo ser perfeita e escondendo sua verdadeira personalidade e seus anseios... Queria continuar sendo livre daquele jeito... Jamais queria voltar a ser uma nobre. Já se resolvera... Jamais retornaria para o local que antes chamava de lar. Viveria em qualquer lugar no qual pudesse ver o céu todos os dias e ter uma vida tranqüila.

O sol já começava a se pôr quando InuYasha retornou, carregando consigo bastante frutas, mas apenas isso. Largou aqueles objetos no chão, sentando ao lado da amada, sem qualquer palavra. Pegou um graveto e mecanicamente acendeu a fogueira, observando o crepitar do fogo. Algo estava diferente. A mulher receou em perguntar, mas ele estava muito diferente do habitual. Não trocara uma palavra com ela. Estava em uma profunda introspecção, observando o crepitar da chama diante de si.

- Kikyou... – Ele disse, sem tirar os olhos daquele fogo que iluminava ainda mais a tarde alaranjada, adornada pelo belo sol poente – Eu só encontrei essas frutas... Podemos nos virar com isso?

- Sim é claro... – Fez uma pausa, observando a falta de reação dele – InuYasha, o que houve? Você está... Estranho. – Não sabia como definir aquilo, mas estava muito incomodada com o fato.

- Não é nada, eu só... Estou cansado. – Recostou-se numa árvore, agora olhando para o céu.

- Não me parece ser só isso. O que aconteceu? Você estava tão animado hoje de manhã... – Mantinha o tom de voz e o olhar, observando-o de maneira penetrante.

- Eu já te disse que não é nada! Só me deixa em paz! – Reclamou num tom de resmungo, com os braços cruzados. Ela sentiu ainda mais precaução... Porque ele assumira novamente uma postura defensiva com ela? Estava novamente se fazendo de forte por algum motivo. Ela queria saber qual, mas não fazia idéia.

- Está bem... Eu entendo... Vou deixar você em paz então. – A réplica foi simples e ela se levantou, deixando-o sozinho. Ele olhou-a por apenas um segundo, parecendo lamentar tê-la deixado ir embora. Porém não falou nenhuma palavra

Ela entrou na cabana, se deitando, calmamente. Preocupava-lhe seu silêncio. Temia que estivesse escondendo alguma coisa. Mas não podia fazer nada quanto a isso, ele era um adulto e ela não poderia tratá-lo como uma criança, mesmo que agisse feito uma. Tinha que deixar que viesse até ela para conversar. Até lá tinha que se manter da mesma forma.

Ficou rolando no colchão, sem saber o que fazer... Talvez devesse voltar para fora... Não sentia sono algum. Mas ficou lá por bastante tempo ainda, remoendo o que diria a ele quando o visse... Cansada de ficar sozinha, ela deixou a cabana outra vez, observando que já escurecera.

- InuYasha? – Ela chamou, procurando-o sem sucesso.

- Aqui, Kikyou! – Ele respondeu e ela olhou em sua direção se assustando.

- O que aconteceu? Você está... – O olhava, chocada, sem saber o que dizer.

- Sim, eu estou humano... É isso mesmo. – Replicou, com certa irritação na voz – Na primeira noite do mês, o dia que não tem lua eu me torno um humano inútil que não pode proteger nem a si mesmo! – Parecia revoltado. Olhava para o chão, deprimido.

- Não, InuYasha... Claro que não. Eu nunca tinha ouvido nada sobre essa perda de poderes, mas... Não precisava ficar tão nervoso por causa disso – Deu um meio sorriso, sentando ao lado dele, a mão sobre a sua – Era por isso que você estava agindo tão estranho? Não precisava ter medo de me contar.

- Feh! Eu não estava com medo! – Explodiu outra vez, cruzando os braços e olhando para a direção contrária – Eu só não queria te contar, só isso!

- Ta certo. – Ela replicou, olhando-o com doçura – Eu gosto de você de qualquer jeito. Eu não me importo com sua força... Também não me importo com a aparência.

Nenhuma palavra foi dita. Os corações novamente se aceleravam e saber daquilo havia acendido algo no coração dele, que a aninhou nos braços, unindo sua boca a dela, ainda com maior leveza do que da outra vez. Provavelmente pelo fato de estar humano controlava melhor sua força. Porém o beijo foi interrompido bruscamente. Ele se separou dela, embora ainda a abraçasse e recostou a cabeça na árvore, resfolegando.

- O que foi? Você está legal?

- Eu acho que... Com a perda dos poderes eu... Me sinto mal outra vez. – Olhou-a, parecendo calmo, o que a assustava – Kikyou... Eu quero que você tome muito cuidado... Se alguma coisa acontecer... Você vai ter que se virar sozinha... – Trincou os dentes, uma das mãos sobre o ferimento no estômago, fechando os olhos – Merda!

- Não se preocupa comigo agora, está bem? – Ela tentou tranqüiliza-lo, mesmo que voltasse a sentir medo. Ele não podia enfraquecer daquele jeito... Estava tão feliz por vê-lo melhor e agora tudo isso fora por água abaixo. – Posso ver? – Ele retirou a mão, deixando que ela retirasse o quimono vermelho e visse o outro, manchado de sangue. Levantou-o também, vendo o sangue novamente escorrendo, enquanto ele suava, ofegando – Está muito feio... Bebe um pouco de água, vai te fazer bem – Entornou o conteúdo em sua boca e ele bebeu. Depois ficou olhando pro céu sem lua, suando muito.

Ela ficou do lado dele, apoiando-o. Não havia o que ser feito. Rezava apenas para que ele voltasse ao normal assim que o dia raiasse. Não queria vê-lo sofrer tanto outra vez. Levou a mão a sua testa, sentindo a febre alta outra vez. Soltou os cabelos, pegando a fita branca e molhando-a na água que tinham, esfregando-a em seu rosto. Molhou-a novamente, deixando-a sobre sua testa. Ele apenas entreabriu os olhos, a fraqueza deixando-o abatido. Manteve o olhar sobre a moça que tanto o ajudava. Parecia grato. Isso lhe bastava, embora ela soubesse que ele nunca seria capaz de agradecer.

Passou toda a noite acordada cuidando dele. Não dormia nem por um segundo e quando ela lhe perguntou o porquê, ele apenas respondeu que não gostava de dormir quando estava humano. Ela compreendeu que sentia medo de ser atacado, apenas não compreendeu o porquê de ele ainda senti-lo quando ela estava por perto para protegê-lo.

Ela esperava o amanhecer, ansiosa. Ele estava sentindo muita dor, mas nada de realmente grave lhe acontecera e isso a alegrava muito. Começou a se preocupar ao ver que ele começara a tremer, fortemente, sem abrir os olhos. Pôs a mão em sua testa. Parecia mais fria. Provavelmente sua temperatura abaixava.

– Sua febre está cedendo, mas você está tremendo demais. – Ela acariciava seus cabelos quando ele começou a tossir, apertando sua mão – O que há? Está tudo bem? – Não houve resposta e ela sentiu o coração acelerar, vendo que ele tossia incessantemente, os olhos fixos no chão – Consegue falar? InuYasha?

Ele reagiu, apertando a mão dela. Ela aliviou-se, mas tornou a se preocupar no mesmo instante. Ele cuspiu um bocado de sangue no chão, sentindo muita tontura. Sentiu gosto do sangue em sua boca mais uma vez, eliminando-o pela segunda vez. Depois ficou arfando, pálido, a cabeça recostada no tronco da árvore, os olhos agora nublados fixos no céu. Sentia muita dor, mas se sentia calmo. Sentia-se feliz. Ficou observando a noite que tanto odiava, sob a névoa de seus olhos, que a viam embaçada. Não havia palavras no mundo para definir a sensação.

- Tudo bem... Fica calmo! Daqui a pouco vai amanhecer e tudo voltará ao normal, ta? – Ele baixou a cabeça, uma das mãos no braço, apertando-o – O que foi?

- Não é nada... Eu estou enfraquecendo... Kikyou... Acho que vou apagar... Por favor... Fica calma... – Ele murmurou com os olhos se fechando. Tombou para o lado e ela o agarrou, abraçando-o junto a si. Ficaria junto dele até que amanhecesse. Sem dúvida não faltava muito. Ela só precisava ter um pouquinho de paciência, só isso.

Ficou vendo o céu começar a clarear. Quando o sol apareceu no horizonte e o empíreo se tornara claro, ele pulsou em seus braços, trazendo de volta a coloração prateada de seus cabelos, as bonitas orelhas de cachorro, suas garras e caninos. Ela agradeceu aos céus, acariciando suas aurículas caninas que se moveram ao seu toque, o que a fez sorrir docemente. Ele abriu os olhos, observando a mulher que tanto o apoiara.

- Kikyou, eu... – Ruborizou, sem graça, sem saber como dizer – Eu... Você sabe...

- Eu sei. – Ela deu um meio sorriso – De nada, InuYasha.

Ele fechou os olhos, vendo que ela compreendera. E ela apenas acariciou-o mais uma vez, aguardando o momento em que finalmente ele se recuperaria e então... Então eles poderiam ficar em paz, sem perturbações, apenas um ao lado do outro compartilhando a recém-encontrada liberdade. Com isso em mente ela adormeceu, se sentindo também cansada após a noite tão agitada que os dois tiveram.

E os dias se passaram numa sucessão mais calma. InuYasha melhorava gradativamente. Eles buscavam frutas para comer e abasteciam a água e durante a noite acendiam fogueiras e ficavam vendo o fogo crepitar abraçados, ou mesmo se deitavam no chão, vendo o céu cheio de estrelas e iluminado por uma lua, sempre belíssima.

Foi numa noite iluminada por uma bela lua cheia que InuYasha começou a beija-la, logo depois de ficarem deitados olhando para as estrelas. Ela correspondeu, sentindo que o beijo se tornara novamente fervoroso. Não era mais um dos beijos suaves que trocavam todos os dias. Ele novamente sentia aquele fogo arder dentro de si. E ela o aceitava, de boa vontade, também começando a sentir aquele forte desejo que outrora sentira.

- Kikyou... – Ele murmurou, fazendo uma pausa, ofegante – Minha Kikyou... Eu quero te fazer minha de verdade...

- Eu também quero ser sua... – Ela murmurou, tornando a beijá-lo.

Sentia uma alegria percorrê-la. Ele finalmente retornara ao ponto de onde pararam ao serem interrompidos por seu pai. Dessa vez ela trajava o quimono branco de quando eles se conheceram. Ele desatou o laço de sua calça, começando a despi-la tal qual ela fazia com ele, retirando seu quimono com urgência, sentindo o corpo arder de paixão. Cada ponto de seu corpo que era tocado a fazia sentir uma coisa quente tomá-la, um ardor que jamais sentira em toda a sua vida e ela gemia, murmurando seu nome.

As carícias se intensificaram e a cada segundo eles sentiam como se seus corações fossem saltar para fora do peito. Ele era muito forte, mas não fora violento nem por um segundo. Havia uma doçura no modo de tocá-la, algo que parecia dizer que ela era preciosa, como uma jóia, e que se estilhaçaria se ele fosse violento. Tocando-a, ele se sentia como se fosse à loucura, apaixonado por cada curva de seu corpo, sentindo a mão dela passear por seu corpo, tomado pelo prazer de compartilhar tudo aquilo com ela, gozando de um sentimento que jamais fora capaz de sentir, que transcendia em muito a paixão física que sentira diversas vezes na vida: era especial e seu corpo respondia dessa forma, fazendo-o delirar com o prazer.

Eles tiveram uma noite tomada por aqueles deliciosos sentimentos e terminaram adormecidos, um nos braços do outro, sob o céu estrelado, tendo como únicas testemunhas a lua, as estrelas e a fogueira, que ainda crepitava, iluminando seus corpos nus, adormecidos e abraçados.

E os dias e noites que se sucederão prosseguiram em tamanha paz. Eles desfrutavam um da companhia do outro e se conheciam cada dia mais. InuYasha já falava um pouco mais do seu passado e Kikyou já se sentia completamente em paz. Nem mesmo a lembrança de seu pai era capaz de abalá-la, nem mesmo a saudade da irmã e a falta do luxo a faziam sentir, nem por um segundo, vontade de voltar para aquele lugar. Estava feliz ao lado do amado e poderia ficar ali para sempre.

Mas sabia que aquilo não seria tão simples. Sabia que chegaria o dia em que teriam que deixar o abrigo e partir para outro lugar. Todo o reino estava procurando por eles e em breve acabariam por encontrá-los. InuYasha nunca queria falar sobre o assunto, mas ela sabia que era porque ele não tinha perspectivas para o futuro. Sabia que no fundo da redoma de gelo que ele erguia em volta de si, dentro da qual escondia seus sentimentos humanos, ele sentia tanto medo quanto ela. Ele sabia o quão desamparado era e tinha consciência do risco que corria por não ter um lugar para morar.

O que ela não sabia era o pavor que ele tinha de ela acabar sofrendo por sua causa. Ela desconhecia os pesadelos que ele tinha, durante várias noites, que a envolviam sendo capturada e morta por ter fugido com ele. Ela não conhecia o seu sentimento de culpa por não poder lhe dar um lugar para morar, por não ser capaz de mantê-la segura. Sua mente o perseguia, com uma vozinha irritante insistindo que ele a colocara em tamanho risco e que se os capturassem ela morreria graças a ele.

E sim, esse dia chegou. Ela estava dentro do abrigo deles quando InuYasha apareceu, correndo, pegando-a pelo braço, nervoso:

- Kikyou! Kikyou, tem muitos humanos vindo para cá. Pegue seu arco, a comida e suas roupas e vamos embora daqui! AGORA!

- Certo. – Ela juntou as coisas, subindo nas costas dele. Sentia tanto medo quanto ele. Se fossem pegos acabariam os dois mortos nas mãos de seu pai.

Ele correu o mais rápido que podia, com a amada sobre suas costas. Não podia deixar que os pegassem. Não podia deixar que a tirassem dele! Morreria se tivesse que passar mais tempo sozinho... Pela primeira vez se sentia feliz e completo, não poderia permitir que a felicidade fosse arrancada dele. Tinha que protegê-la, custasse o que custasse... Ninguém tomaria aquela mulher dele!

Continuaram a rumar a esmo. InuYasha não conhecia aquele lugar e estava completamente perdido. Acabou encontrando o fim da floresta que lhe parecera infinita: uma enorme montanha que nem mesmo ele poderia escalar com facilidade. Olhou para cima, sem acreditar. Estavam encurralados. Não havia outra saída que não fosse derrotar todos os soldados e encontrar um outro esconderijo.

- Kikyou... Vamos ter que passar por eles!

- O quê?! Mas isso é loucura... Como vamos derrotar a todos?

- Eu não sei... – Ele replicou, correndo na direção do cheiro dos homens. Parou quando sentiu que estavam próximos. Com certeza, em breve, eles estariam ali – Kikyou, eu quero que você fuja... Encontre algum lugar para ficar. Não deixe que o seu pai te pegue, entendeu?

- Eu não vou te deixar lutar sozinho...

- Você não entende! Eu não posso deixar eles te matarem! Eu quero que vá embora. Eu prometo que te encontro... Vá! Eles estão se aproximando! São muitos, faça o que eu estou dizendo! – Havia desespero em sua voz, um medo que a mulher jamais sentira na voz confiante dele.

- Você vai mesmo me encontrar? Posso ficar te esperando? – Ela queria uma promessa. Talvez assim pudesse suportar a dor de deixá-lo sozinho, embora soubesse que ela seria um alvo fácil para os guerreiros de seu pai e que acabaria prejudicando-o ao invés de ajudar.

- Pode. – Ele respondeu, com urgência. – Eu vou voltar! Mas vá embora! Vá logo!

- Certo... – Ela replicou, sem saber por que exatamente o obedecia. Queria ficar e lutar, mas algo dentro de si lhe dizia que seria melhor assim.

Os homens se aproximavam cada vez mais. Vendo a mulher partir, InuYasha sentiu um alívio em seu peito. Ela estaria segura... E logo ele estaria com ela! Viu as tropas se aproximarem. Preparam-se para o combate, indagando onde estava a princesa. Ele simplesmente olhou-os, debochadamente, replicando que nunca teriam o que desejavam. Eles partiram para o combate e durante os vários minutos em que lutou contra o exército de humanos, manteve na sua mente a idéia de que voltaria para Kikyou... Não quebraria a promessa que fizera.

E mesmo a despeito da dor que as armas cortando-o lhe causavam, acabou por nocautear todos os inimigos, que terminaram no chão feridos. Não matou nenhum deles. Não gostava de matar humanos, nem mesmo esses, que lhe causaram tamanhos problemas.

- Youkai... – Um ferido chamou e ele se virou, defensivo – O rei mandou um recado... Disse para avisar a princesa que se não voltar, a menina Kaede morrerá... Disse que ela tem vinte e quatro horas.

Ele não respondeu, virando-se e deixando o campo de batalha. Tinha vários ferimentos por todo o corpo, mas estava preparado para ir de encontro à amada, mesmo que as palavras ditas por aquele maldito ecoassem em sua mente, como um sinal de alerta. O que aquele maldito estava querendo fazer...?

Seguiu o cheiro da mulher pela qual lutava, ansiando por vê-la, mais que tudo no mundo. No fim, acabou por encontrá-la numa outra mata, próxima à floresta em que antes moravam. Foi até ela, abraçando-a, como se aquela fosse a última vez.

- Kikyou... – Apertou-a nos braços – Você está bem?

- Estou... Você está ferido... Venha, vamos cuidar dos ferimentos...

- Não temos tempo – Ele disse, uma das mãos sobre o peito direito, que sangrava, graças a flecha que o atingira na batalha – Nós... – Fez uma pausa, gemendo de dor – Só temos vinte e quatro horas...

- Como assim? – Ela indagou nervosa, ajudando-o a se sentar, recostado numa árvore. Ele olhou-a, ainda sentindo dor graças à batalha difícil que travara – Por que vinte e quatro horas? O que é que houve?

- Aquele maldito... Ele avisou que pegou a Kaede... E que vai matá-la se nós não aparecermos em vinte e quatro horas.

- A Kaede...? – Ela indagou, preocupada, olhando para o chão. Sentiu o peito comprimir, pensando no perigo que a criança corria. Olhou para o amado que sentia o seu pânico, sem saber o que fazer ou dizer a ela – O que faremos? Eu não quero que ele mate a minha irmã...

- Não é óbvio?! – Ele reclamou, irritado – Nós vamos até lá e vamos resgatá-la!

- InuYasha... Você tem certeza? Você não precisa fazer isso... Se te capturarem, você vai...

- Eu não vou te deixar sozinha! Keh! Ponha isso de uma vez na sua cabeça, Kikyou! – Olhou-a, decidido – Acredita em mim, vamos salvar a menina!

- Obrigada, InuYasha... Muito obrigada... – Ela tocou-lhe o braço – Olha, deixa eu limpar os seus ferimentos antes de a gente ir. Dá tempo de chegar lá rápido, então antes a gente pode organizar as coisas... E pensar num jeito de salvarmos a Kaede.

- Ta... Mas só se for rápido – Ele replicou, retirando o haori e a parte superior do quimono branco. Ela viu, horrorizada, o ferimento que sangrava em seu peito direito, felicitando-se pelo fato de não ter sido do lado esquerdo... Ele poderia ter morrido se isso acontecesse.

Ela lavou seus ferimentos, com velocidade. Ele ficou bem quieto, observando-a tratá-lo. Sentia-se grato pela preocupação dela. Depois que ela terminou, comeram e beberam rapidamente, preparando-se para ir ao castelo de Miko, o local ao qual Kikyou estava certa que jamais voltaria. Mas acabara por voltar. Não pensara que seu pai fosse descer tão baixo, mas ele o fizera, sem nenhum pudor. E aquilo a fazia sentir ainda mais asco daquele homem, que um dia fora capaz de chamar de pai.

Ela subiu nas costas do meio youkai e, juntos, eles rumaram em direção ao local por onde InuYasha passara por todo aquele pesadelo. Ele jamais desejaria voltar para lá... Mas era sua amada quem queria. Não podia deixá-la ir sozinha, tinha que protegê-la do tirano! Sentia o peito arder de ódio ao lembrar do homem que tanto o torturava... Quem sabe agora tivesse a oportunidade de vingar-se. Ante a esse pensamento sentiu uma súbita alegria... A despeito do risco que ele e Kikyou corriam agora ele sentia uma coragem repentina, uma vontade forte de acabar logo com o elo que os ligava àquele lugar maldito do qual fugiram juntos.

E desapareceram daquele lugar, embora desejassem que tudo aquilo fosse somente um terrível pesadelo. Só deram por si quando avistaram as portas do reino ao qual a moça um dia pertencera... Não parecia haver guardas por perto. Com os corações acelerados, eles seguiram em rumo aos seus destinos, que eles não sabiam se seriam bons ou ruins. Kikyou repetia a si mesma que salvaria sua irmã, a qualquer preço e InuYasha que jamais teria que retornar para aqueles terrenos. Com os corações agora se enchendo de coragem, eles se aproximavam dos enormes portões que os levariam para a vida ou para a morte...

Notas finais
Muito obrigada aos leitores ^^ Fanfic se aproximando da reta final =D