Notas iniciais
Se chegou até aqui, é porque a curiosidade está te consumindo de dentro pra fora, correto? Ou você apenas queira ler um conto macabro. Então, espero que tenha uma ótima leitura ;D

Você acredita em coincidências?

Parece uma pergunta um tanto engraçada, não é? Eu nunca dei muita atenção a isso até agora. Talvez eu lhe deva algumas explicações antes de qualquer coisa.

Ontem fez um ano desde o desaparecimento da minha filha. Nunca houve qualquer nota de resgate, resto mortais descobertos ou qualquer pingo de evidência que corrobore com qualquer uma das teorias padrões como sequestro e homicídio. Toda a situação parecia estranhamente limpa e sem vestígios.

Com apenas 13 anos, a minha querida filha havia desaparecido sem deixar nenhuma pista.

Seu nome era Clarice. Depois de muito tempo eu consigo dizer “era” com confiança. É algo como uma benção amarga, que veio com um grande custo para todos nós.

Quando Clarice desapareceu, eu, seu pai e seu irmão mais velho, Mark, estavam em um estado de ansiedade e preocupação enorme. O limbo da incerteza era simplesmente monstruoso; grande demais pra nós. Cada telefonema era uma agulha pressionada em nossa pele, e cada noticiário que ia ao ar sobre aquela pobre moça “ainda desaparecida e possivelmente morta” era como água fervente derramada goela abaixo.

A verdadeira tortura era não saber de nada. Ou era o que eu acreditava até ontem.

Na tarde de ontem, eu recebi um email de uma fonte desconhecida. Um email alegando ter a verdade do que aconteceu com Clarice naquele dia terrível.

Aqui está o conteúdo do email.

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De: me.desculpa123@gmail.com

Assunto: sinto muito pelo que fiz.

Olá Sra. Davies.

Eu não vou lhe dizer o meu nome. Isso não importa agora. O que importa é o que eu fiz, e quanto eu estou triste por ter feito.

Vou ser rápido e honesto. Clarice está morta, e eu a matei. Eu adoraria lhe dizer que foi rápido e indolor, mas não foi. Ela morreu lentamente, agonizando até o último momento. Eu não posso imaginar se a minha apreciação por este fato servirá como qualquer tipo de consolo.

Eu amei Clarice por muito tempo, e um amor que se pode chamar de impróprio. A parte mais difícil disso tudo foi saber que ela nunca poderia me amar de volta, não da maneira que eu a amava — embora não tenha faltado tentativas para isso. Eu tinha feito algumas “jogadas” antes, tentativas bobas, mas ela nunca foi receptiva ao meu afeto. Ela estava desgostosa por mim, o que realmente fazia me sentir pequeno, com raiva. Embora eu possa ser grato por ela nunca ter lhe dito nada sobre isso.

Eu acho que teria sido terrivelmente embaraçoso para ela se você soubesse. Não que ela vá se importar agora.

Você sabe o quão difícil é lidar como uma fantasia, Sra. Davies? Eu tive sonhos com Clarice, e eu sei que é feio dizer isso, mas eu não podia fazer nada. Me perguntava muitas vezes durante o ano passado se era a feiúra de toda a situação que me fez tão apaixonado por ela.

Quando tudo que você tem é uma mera fantasia, uma fantasia que você acha que é inalcançável, você começa a gastar muito tempo refinando-a, como um escultor esculpindo uma estátua, na esperança de encontrar a perfeição escondida no granito. Não importava quantas vezes eu secretamente soltava as válvulas com as mãos, mantendo a fantasia escondida — não destruindo-a, ela não podia ser destruída. Ela apenas ganhava outro segmento, um componente a mais.

No momento em que a fantasia subia a cabeça, era demasiado cansativo mantê-la calma, presa em minha cabeça. Havia muito esforço para que minha imaginação criasse tudo de maneira satisfatória. Mas chega um momento que você tem fazê-la em carne e osso. Quente, prazerosa, visceral. E eu fiz, sra. Davies. Eu realmente fiz.

Eu tenho que ser honesto com você, não era tanto sobre o desejo de viver a minha fantasia, como era de saber como eu a realizaria. Não houve, em nenhum momento, dignidade em dar prazer a mim mesmo com aqueles pensamentos violentos, apenas em acreditar que eu era capaz de fazer a única que dava significado para minha vida.

E, há um ano, e hoje, eu provo que eu tenho essa coragem.

Minhas indiscrições ficaram no passado. Eu estava doente, e como um crocodilo, me preparava para jogar aquele jogo por mais um tempo. Eu tinha que fazer Clarice confiar em mim novamente, deixá-la se sentir confortável perto de mim, deixei que ela baixasse a guarda.

Ela estava indo para a escola quando eu finalmente tive a minha chance de jogar. Eu tinha escolhido uma velha cabana dentro da floresta próxima a escola. Estendi uma lona sobre o chão, preparei algumas algemas e cordas, e acendi algumas velas para dar um clima romântico. Mas pra mim do que pra ela, na verdade.

Clarice estava apreensiva no começo, mas eu consegui convencê-la a visitar a minha pequena e velha cabana. A porta já estava fechada atrás de nós quando ela percebeu a arma em minha mão. Mas ela foi uma boa menina e não gritou. Embora eu deva dizer que fiquei um tanto decepcionado com isso.

Eu não sou pornógrafo, então eu não darei detalhes sobre o que fiz. Estou ciente que isso soa perverso, mas pouco importa o vento lá fora quando você é um furacão por dentro. Minha vida inteira foi perversidade, muito bem escondida e trancada. Clarice seria a saída para a minha perversidade. Uma parte de mim pensa que eu só amava porque era conveniente, porque ela era acessível.

Eu usei um martelo, uma faca, um alicate e uma serra. Tudo ficou mais confuso do que eu esperava, muito sangue e… aquelas outras coisas, espalhadas. Tudo levou algumas horas antes dela finalmente morrer, o que era admirável. Clarice era uma menina tão forte, sra. Davies. Com certeza tinha orgulho dela.

Para o meu próprio orgulho, eu gostaria de dizer que eu não fiz nada daquilo com ela antes de morrer. Eu não poderia deixar-me atravessar essa barreira. Ficaria sempre na memória os olhos de nojo e repugnância, e eu não queria isso pra mim. Ela morreu, ao melhor de meu conhecimento, uma virgem.

Uma vez que estava totalmente feito, e a euforia havia passado, me dei conta da terrível coisa que fiz. Meu prazer virou desgosto, e toda a doçura que estava dentro de mim enquanto a matava simplesmente azedou. Eu percebi que eu não estava destinado a ser um assassino. Aquilo não combinava comigo. E o prazer que tanto sentia no ato de pensar em como eu a mataria se esvaiu e deixou apenas repulsa no lugar.

Eu era um fantasista que cometeu um erro, terrível erro, que custou a vida de uma jovem promissora. Se há um grande plano que está além do nosso conhecimento, eu tinha certeza que o que eu tinha feito era um desvio a lei natural. Eu me sentia vazio, apenas um saco de ossos e carne. Esta pequena experiência havia saído pela culatra completamente. Eu estava me afundo no buraco que eu havia me tornado.

Uma vez que o pânico e o medo diminuíram, eu cortei o corpo de Clarice em pedaços menores que seriam mais fáceis de transportar. Peguei todas as peças, os envolvi com a lona preta, e os queimei com fluído de isqueiro na floresta. Depois disso, eu enterrei os ossos carbonizados e as cinzas bem longe dali, desejando que poderia dar meia-volta e esquecer de tudo.

Matar Clarice a fazer as coisas que eu fiz com o corpo dela dela não eram atos de coragem, como eu percebi depois. Foram atos de obsessão e covardia, de uma pessoa que não é forte o suficiente para superar seus impulsos mais escuros. Eu havia sido destruído pela culpa, cercado pelas lembranças da vida que eu havia ceifado e que nunca voltaria.

É por isso eu decidi ser cortês e ceifar uma outra vida: a minha. Tudo que sou é um perigo para as pessoas ao meu redor, uma bomba-relógio destinada a explodir e ferir outro inocente. A única coisa altruísta na minha atual posição é me levar pra fora de tudo isso.

Sinto muito pelo que fiz com a Clarice. Eu não espero que você me perdoe, nem acho que mereço tal coisa. Eu só espero que isso lhe dê algum sentido de encerramento e permite-lhe seguir em frente.

Minhas sinceras desculpas.

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Depois que li aquele terrível email, eu chorei por horas. Eu não tive essa reação violenta porque eu acreditava ter sido contatada pelo assassino da minha filha, mas sim porque eu senti como se alguém tivesse fazendo uma brincadeira idiota com a minha família depois de tudo que passamos. E no dia que fazia um ano do desaparecimento da nossa querida Clarice.

Eu não mostrei aquilo nem pro meu marido, nem filho. Eu não podia suportar vê-los sofrer novamente. Eu carregaria a cruz sozinha. O aniversário já era difícil o suficiente para todos nós. Eu não deixaria o monstro do outro lado do email destroçar minha família.

Foi então que essa manhã fomos acordados com dois estrondos vindo do quarto de Mark. No momento que eu e seu pai forçamos a porta para abrí-la, já era tarde demais. Ele havia feito dois disparos: um em seu laptop, e outro em sua cabeça.

Então, com isso em mente, eu lhe pergunto novamente: Você acredita em coincidências?

Notas finais
E aí, o que achou? Gostou pra caramba? Então deixe o seu review maroto. Odiou eternamente? Então deixe seu review com sua opinião.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!