Um Dia Eu Tive

2 Capítulo 2


- Boa noite. – Ele falou sorrindo. Meu pai tem vinte e nove anos e trabalha no aeroporto, ele cuida dos passaportes, acho que é isto.

- Como foi no trabalho?

- Bem. – Ele caminhou até a única panela no fogão. – Yakissoba. – Tenho a mania de fazer as comidas favoritas dele nas terças-feiras, mania é mania, não consigo largar. – Adoro as terças. – Ele sorria, odeio este sorriso e me odeio por não poder odiá-lo também. Já disse que sou confusa?

- Deve estar cansado, vou preparar um banho para você. – Tentei sair da cozinha para não ficar muito tempo perto dele, mas é sempre inútil — Inutilidade me irrita, pois mesmo que você tente, não consegue realizar algo. Assim que passei por ele, meu braço foi agarrado por sua mão, ele não me olhou.

- Você sempre vai fugir Kill? – O odeio, ou melhor, quero odiá-lo.

- Me deixa Mark. – Puxei meu braço na tentativa de me soltar, mas foi em vão. O braço dele me puxou para perto, assim ele me abraçou, seus lábios ficaram próximos ao meu ouvido.

- Não sei por que foge tanto. – Tão quente... – Não escondo que te amo.

Entrei em meu quarto, estava corada, minhas bochechas estavam quentes, muito quentes. Mark é meu pai pela lei. Ele era meu irmão, mas agora é meu pai. A loucura é que nos amamos, e muito.

Em resumo, minha vida é uma bagunça. Eu tinha cerca de dezesseis anos quando conheci Mark, pelo menos é o que ele me conta. Lail, minha avó, era minha mãe adotiva. Ela é de outro planeta, mas isto não faz muita diferença, eu acho.Nas férias de verão do mesmo ano em que eu fui adotada, fui passar um tempo em uma cidade perto de um lago, lá minha memória foi liberada e um antigo inimigo meu apareceu. Lutamos e Mark tentou me salvar em certo momento – ele sempre me lembra que sou de outro mundo, literalmente – eu sabia que se eu ficasse viva ele morreria, não poderia deixar, então me matei. Ao cair, fui recebida por muita água, então soube que eu teria uma segunda chance, a chance de ser uma pessoa quase normal, pois normal eu nunca seria. Então Mark me encontrou, mas eu tinha apenas cinco anos e não o conhecia. Na verdade, eu só me lembro da água e de que sabia que eu tinha que morrer, o resto ele me contou mais tarde. Já disse que minha vida é uma loucura?

Ouvi duas batidas na porta do meu quarto, deixei que Mark entrasse, eu já estava deitada, mas não dormia. Sempre que Mark vai dormir, ele passa no meu quarto me deseja boa noite e me da um beijo na testa. Mania é mania, não da para largar tão facilmente.

Logo chega a manhã e eu vou à escola, lá eu estudo como um animal que precisa aprender a caçar, nada contra o método de ensino rude que o Brasil tem, só que acho que poderia melhorar, ter mais delicadeza e conteúdo, não sei nada e aprendo menos ainda.

Chega a tarde e a minha parte preferida do dia, vou ao psicólogo – que também é de outro mundo.