Um Conto de Páscoa - Gabriel precisa de heróis

3 Sábado de Aleluia: a joaninha e o reencontro com o passado


Notas iniciais
Bem, em primeiro lugar, obrigada, Bolachinha, pelo comentário. Usei como recurso para destacar as cenas do passado a centralização do texto em itálico. Achei que ficou bem visível assim. Ficarei muito agradecida se tiver um feedback sobre isso nos comentários. A quem ler, divirta-se.

Aquela foi a primeira noite em que Gabriel Agreste conseguiu dormir profundamente, sem outras perturbações, em anos. E ele acordou naquela manhã de Sábado de Aleluia sentindo-se revigorado. Assim que se levantou sentiu o cheiro do café. Seu desjejum estava sendo servido por Nathalie, na mesa em frente a sua cama. Desde a partida de Amélie, o estilista evitava tomar seu café-da-manhã à mesa de refeições, pois lembrava da esposa e de quando reuniam a família para planejar o dia. Gabriel não lidava bem com suas lembranças. Mas nessa manhã Gabriel acordou antes do relógio, enquanto sua assistente servia a mesa. E de bom humor!

− Nathalie, o que você faz aqui? – O homem esfregava os olhos antes de colocar os óculos.

− Vim acordá-lo, Sr. Agreste, como me pediu.

− Ah é. Esqueci – sorriu de lado. − Bom dia, Nathalie.

− Bom dia, Sr. Agreste.

Nathalie ouviu e respondeu automaticamente. Mas imediatamente percebeu: ele nunca desejava bom dia a ela. Normalmente suas primeiras palavras já eram instruções. O que teria acontecido durante a noite? O que ela sabia era da briga entre ele e Adrien, pois pôde ouvir os berros dele lá de sua mesa, no térreo. Foi tirada de seus pensamentos quando Gabriel a interpelou:

− Adrien já acordou?

− Ainda não.

− Ótimo. Não quero ouvir sobre aquele desfile tão cedo. Hoje vou ao encontro de alguns costureiros, passar instruções. Não volto até a noite.

E lá estava de volta o mal-humorado de sempre. Gabriel terminou seu desjejum, se arrumou e saiu em direção à garagem. Chegando lá, não viu o carro nem o motorista que o levaria ao atelier. Antes relaxado, Gabriel começou a ficar nervoso, olhando para o relógio que sacava do bolso. Foi quando ele foi chamado por uma voz feminina dócil:

− Psiu. Senhor Agreste? Estou aqui para levá-lo.

Gabriel virou-se para a porta e se espantou.

− Ladybug? Como assim, me levar? Preciso ir a um atelier, estou em horário de trabalho.

− E eu o levarei.

− Oras, se ainda fosse o Batman com batmóvel ou a Mulher Maravilha com o jato invisível. Mas, que eu me lembre, você voa por aí pendurada num ioiô.

− E vai ser assim mesmo que o levarei para passear.

Não houve tempo para sequer argumentar. Ladybug pegou Gabriel pela cintura, lançou seu ioiô pelo vão do portão da garagem e, com um forte puxão, subiu pelos ares. Ele agarrou-se à heroína e fechou os olhos. E enquanto subiam, ele se lembrou das palavras de Mestre Fu, no sonho daquela noite: “amanhã, quando acordar, terá um herói a sua espera”. Agora o repentino aparecimento de Ladybug em sua casa começou a parecer-lhe menos absurdo.

− Ladybug! Você é a visitante que o tal Mestre Fu falou?

− Sim, Sr. Agreste.

− Então não foi um sonho? Ou eu ainda não acordei?

− O senhor tem a liberdade de acreditar no que achar melhor. Mas garanto que essa viagem em nada parecerá com sonho.

− Para onde você está me levando?

− Não se preocupe. O senhor irá para sua reunião. Mas por um caminho um pouco mais longo e com algumas paradas.

A velocidade daquele voo aumentava à medida que a dupla conversava, e Gabriel notou que agora davam solavancos mais fortes quando desviavam dos prédios. Voavam muito rápido! De repente, Ladybug soltou o ioiô e lançou a eles contra a Torre Montparnasse – segundo maior arranha-céu da cidade. Só deu tempo de Gabriel gritar.

− Vamos bateeeeer!

− Yeah! U-hu!

− Sua loucaaaa!

Gabriel fechou os olhos com força e pôs o braço em frente ao rosto, para se proteger. Mas estranhamente não houve impacto. Sentiu a inércia sobre o corpo e abriu os olhos quando se percebeu parado. Estava em frente a uma casa bastante familiar.

− Sabe onde estamos? – indagou a heroína.

− Essa é a casa onde morei na infância.

− Sim! Siga, veja o interior pela janela.

Gabriel o fez, um pouco receoso, mas também curioso. E o que viu pela janela o fez cair para trás, de susto.

− Um menino! Aquele menino... sou eu!

− Emocionante, não?

− Só pode ser um sonho. Do contrário, como seria possível?

Ladybug segurou delicadamente as mãos de Gabriel entre as suas, o que o fez virar-se de frente para ela.

− Sr. Agreste, eu sou a heroína que irá salva-lo pelas lembranças de páscoa do seu passado. Graças aos poderes de meu Miraculous eu pude trazê-lo de volta no tempo. E é preciso que o senhor relembre sua infância e juventude.

− Confesso que prefiro uma “Heroína da Páscoa Passada” do que um fantasma do natal passado.

− Bem menos assustador, não é? Mas concentre-se, por favor. Porque veremos algo importante.

Gabriel voltou sua atenção a cena que via pela janela.

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Um menino naquela casa humilde brincava com uma amiga da vizinhança. Os dois trocavam roupas em duas bonecas e riam das combinações que formavam.

De repente, pela porta, entra o pai de Gabriel que, vendo a cena, avança sobre o filho, arrancando de suas mãos os brinquedos, aos berros. “Não criei você para ser um afeminado! Boneca é coisa de menina!”, o homem gritava enquanto batia sem piedade no menino. A menina, assustada, assistiu a tudo chorando.

Quando o menino finalmente parou de apanhar e seu pai saiu da sala, a amiguinha colocou a cabeça do menino sobre suas pernas e começou a alisar seu cabelo, em consolo.

~~~

Gabriel estava estarrecido com a cena. Não era criação de sua mente, mas uma lembrança, daquelas que as pessoas abafam no subconsciente. Ele viveu aquilo, mas ver de fora era menos dolorido, mas muito impactante. Deu alguns passos para trás e não conseguiu conter uma lágrima que teimou escorrer em sua face.

− Eu só gostava de criar e brincar com minha amiga. Gostava... de moda. Que pecado havia nisso?

− Nenhum, Sr. Agreste.

− Meu pai estragou minha páscoa. Passei o feriado de cama, com minha mãe tratando meus hematomas, para eu voltar para a escola sem marcas. – disse seco, enxugando o rosto. – Por que me trouxe aqui?

− Para que relembre que essa data lhe traz emoções negativas, que não são ligadas à sua esposa. Mas que, também, nesse momento de tristeza, pôde encontrar consolo, que é importante também. Essas emoções estavam escondidas aqui, ó...

Ladybug tocou o peito de Gabriel, que sentiu o corpo aquecer. Ficou tonto, com a vista turva, até que caiu como desmaiado nos braços de Ladybug. Mas logo despertou e notou que estava em outro local. Era o Arco do Triunfo.

− Uau, uma seção de fotos? Não poderia ter cenário melhor! – Ladybug conduziu Gabriel pela mão até o local.

Muitas pessoas passavam correndo e ele se esquivava, tentando não esbarrar.

− Sr. Agreste, nós não estamos aqui, em matéria. Eles atravessam a gente, como fantasmas. – Ladybug ria do óbvio.

Então Gabriel percebeu o que estava acontecendo. Era uma seção de fotos para o seu editorial de moda. O estilista pôde, então ver a si mesmo, supervisionando seu primeiro trabalho para a revista Vogue Paris. Diante de seus olhos uma cena que, desta vez, sua memória não tentou apagar.

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Ali estava Gabriel, mais jovem e ainda começando a firmar seu nome como ícone da moda. A postura ainda era altiva e elegante. Mas os gestos eram mais relaxados e o sorriso expansivo. Ele parecia muito mais satisfeito, apesar de estar nervoso. Ao seu lado um amigo fotógrafo que o próprio Gabriel indicou para o trabalho.

− Obrigada pela a oportunidade, Biel. Vamos lançar nossos nomes juntos na Vogue.

− E da Vogue Paris para o mundo, Armand! Não poderia querer fotógrafo melhor!

− E nem modelos melhores. Você viu quem está ali?

− Sim, eu vi. – os olhos de Gabriel brilharam. – Estava doido para trabalhar com Amélie.

− Trabalhar... sei... – ria Armand.

− Trabalhar, conhecer melhor, quem sabe convidá-la para um jantar...

Ao final da seção, quando as modelos seguiriam para o camarim improvisado, Gabriel encheu-se de coragem e foi atrás de Amélie:

− Olá, Amélie. Você está muito linda!

− Graças a sua linda criação, Gabriel. Você é um ótimo estilista!

− Minhas roupas são só um amontoado de tecidos no cabide. Quem faz a roupa brilhar é quem a veste.

− Um bom estilista não pode acreditar nisso.

− É... não mesmo – o homem riu sem graça, coçando a nuca. − Mas você fez minhas roupas ficarem ainda mais bonitas. Desenhei essa coleção pensando em você.

− Você deve dizer isso para todas as modelos.

− Não todas. Só aquelas com quem quero sair, que são loiras e se chamam Amélie. Conhece alguma?

A modelo riu tímida, mas gostou do atrevimento de Gabriel.

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Gabriel viu aquela cena com os olhos vidrados e sorriso nos lábios. Parecia em transe e foi despertado por Ladybug, lhe cutucando o ombro.

− Nossa, há quanto tempo eu não vejo Armand. Sinto saudades dele, mas perdemos o contato. Vou tentar contata-lo para voltarmos a trabalhar juntos.

− Essa é uma boa ideia! Resgatar amizades, se abrir para as pessoas. Viu, Sr. Agreste? Nem toda páscoa da sua vida foi ruim.

− Na verdade, depois dessa páscoa vieram muitas outras com Amélie. Pensei que fôssemos felizes.

− Mas o senhor realmente aproveitou essas páscoas com a esposa e filho?

−Eu sempre estive presente para minha família. Quer dizer... eu fiz o que pude... – Gabriel baixou o olhar, reflexivo.

− Acho que nossa próxima parada vai refrescar sua memória. Vamos!

Ladybug atirou o ioiô para o ar, mas dessa vez sua arma resvalou e voltou, acertando a cabeça de Gabriel violentamente. Ele sentiu uma dor aguda no local e sua voltou a escurecer. Antes de desmaiar só pôde ouvir a voz da heroína, longe.

− Ops! Me desculpe!

Dessa vez, Gabriel acordou dentro de seu antigo escritório, no atelier onde trabalhava. Assim que se situou, procurou por Ladybug, que provavelmente lhe daria alguma explicação. Não a viu, mas a sua frente encontrou um outro momento de seu passado.

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O relógio na parede apontava a hora: já eram nove da noite. À mesa, um Gabriel Agreste não muito mais velho do que na cena que se testemunhou há pouco. E na porta estava Amélie, com um pequeno menino no colo.

− Gabriel, você ainda está aqui? Venha conosco para casa.

− Já estou terminando. O que vocês fazem aqui?

− Viemos busca-lo. Gorila disse que você se nega a sair desse escritório!

− É porque ainda não terminei. Não posso interromper um momento de criatividade!

− Mas amor, amanhã é domingo de páscoa. Vamos sair cedo para a casa de meus pais.

− Voltem para casa e não me esperem. Aliás, acho que amanhã não poderei mesmo ir com vocês.

− Mas papai, o senhor prometeu... – o pequeno Adrien disse, choroso.

− Será que vocês não entendem? Eu estou no meio de um processo criativo. Não posso parar no meio!

− Quem não está entendendo é você, Gabriel. Já esteve viajando no Natal, agora não estará na páscoa também?

− São só feriados.

− Era pra serem momentos em família!

− Amélie, tudo o que faço é pela família. Para desfrutarmos uma vida de luxo, de fartura. Para dar a melhor educação a Adrien. Para fazê-los felizes.

− Sem você a felicidade nunca está completa, amor.

− Por favor, me deixem sozinho. Vocês estão atrapalhando meu momento criativo. Essa coleção irá revolucionar a moda. Nossa fortuna irá aumentar e aí irei compensá-los pela mina ausência. Tenho certeza que logo vocês nem se lembrarão desses dias.

− Não conte com isso, Gabriel. Um dia seu filho irá cobrar um pai presente.

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Ladybug apareceu ao lado de Gabriel e gentilmente tocou seu ombro.

− Acho que Amélie não entendeu. Todos os sacrifícios que fiz foram pelo conforto de minha família – o estilista parecia desolado com a cena que viu.

− Acho que ela esperava menos conforto e mais presença.

− Pensei que ela seria mais feliz...

Ladybug puxou o ioiô da cintura e o abriu:

− Acho melhor voltarmos. A ideia era mostrar ao senhor que a vida se constrói com bons e maus momentos. E que o senhor precisa administrar melhor as suas lembranças, para planejar melhor seu futuro.

A heroína lançou o ioiô ao alto, agarrou a cintura de Gabriel e o puxou em um voo rápido e turbulento. Os dois chacoalhavam muito e o homem mal conseguia abrir os olhos com tanto vento. O pouco que conseguiu ver foi um muro, com o qual iriam se chocar. Fechou os olhos, mas, dessa vez, sem medo. E, novamente, não houve impacto de seu corpo. Quando percebeu que não estava mais voando, abriu os olhos e percebeu que estava no atelier, entre vários costureiros que o olhavam, a espera de suas instruções.

− Como vim parar aqui? −

− O senhor entrou andando. E já está aí parado há cinco minutos, sem falar nada – respondeu uma costureira.

− Er... bem... então vamos ao trabalho.

Gabriel agora se concentrava em suas atividades, mas ainda sentia o vento no rosto e os pés fora do chão.

Notas finais
A quem leu, obrigada e até mais.