Um Conto de Natal
2 Capítulo 2
Dezembro, 1981
Harold Scheer fazia aniversário apenas 6 dias antes do Natal, o que, na sua opinião, era uma droga, porque a temática de seu aniversário era sempre natalina. Naquele ano em específico, nenhum de seus amigos se incomodara com ele nos dois dias festivos, sabendo que o veriam na Festa de Natal do Ministério (que se daria no dia 23) e poderiam desejar ambos um feliz aniversário atrasado e um feliz Natal adiantado. Devido ao recente fim da guerra e retomada do Ministério, tinha ficado ocupado com suas funções de legislador de aparatações durante a maior parte dos últimos dois meses, incluindo o turno de oito horas que fez no dia do seu aniversário. Isso não o impediu, é claro, de visitar seus pais, que lhe serviram gnocchi com carne, sua comida favorita e o presentearam com uma caneca automática que fazia cappuccino com apenas um feitiço rápido. Ao ir se deitar em seu pequeno apartamento depois das onze da noite, Harold desejou que uma vez, apenas uma vez, seus dias se passassem de forma um pouco menos tediosa.
Quatro dias depois, enquanto se dirigia para a Festa de Natal do Ministério com seu terno preto mais ajeitado, Harold pensou em seu desejo e se conformou com a ideia de que nada parecia menos tedioso desde então. Não que ele acreditasse em desejos, é claro, sempre fora um cético natural, mas um pouco de animação não poderia fazer mal para sua vida. Harold passou pela reforçada segurança dos aurores, que também contava com todo o tipo de profissionais mágicos para conter ameaças. Assim que entrou, avistou Lothmann, seu companheiro de cargo, que se dirigiu a ele pronto para lhe parabenizar e desejar um feliz natal. Serviu-se de um espumante que passava em bandejas flutuando no recinto e tomou meia taça de uma só vez, preparando-se para aguentar as mais de quatro horas de festa que viriam pela frente.
Todo o diálogo chato e incômodo que ele esperava, porém, foi substituído por uma só frase:
—Harold, preciso que você cheque algo para mim.
A preocupação era palpável no olhar do colega, com quem Harold trabalhava havia mais de dois anos. Sabia reconhecer a importância de uma informação quando esta lhe era dada, e parecia que algo havia de ser feito com relativa urgência.
—Olha, tivemos um alarme de aparatação ilegal na Travessa do Tranco e todos os aurores estão fazendo a segurança da festa… sei que você é mais do tipo trabalho de escritório, mas realmente precisamos que alguém cheque. Você sabe como as coisas estão, desde…
Ele não precisava terminar. Claramente se referia ao incidente com os Potter, ocorrido naquele mesmo ano, há apenas alguns meses, que em teoria destruíra Aquele Que Não Deve Ser Nomeado. Apesar disso, todo o Ministério se mantinha em alerta. Aquela grande festa havia sido montada para passar uma impressão de segurança à comunidade bruxa, mas Harold não era bobo e sabia que se fosse essa a situação, não teriam duzentos aurores na vigilância. Para não falar na possibilidade sempre iminente de que o inimigo simplesmente retornasse ou reaparecesse, o Ministério ainda segurava as pontas do caos causado pelos ex-seguidores. Os julgamentos mal haviam iniciado e por todos os lados havia gente ameaçada, fugitivos da justiça… nem todos os comensais da morte haviam sido identificados, e Harold sabia que uma grande parte deles simplesmente nunca seria, sendo o tipo de gente rica e influente que paga para não lidar com as consequências de seus atos.
—Tem que ser você, Harold… não tem mais ninguém que eu possa pedir, e não posso eu mesmo sair daqui e deixar os legisladores sem um chefe.
Harold suspirou. — Tudo bem, eu irei.
Ele seguiu em direção aos portões da festa, já se arrependendo do pedido. Isso era o tipo de coisa não-tediosa que acontecia na sua vida: perigosa e inconveniente. Passou pelo esquadrão de aurores e se afastou alguns passos da barreira anti-aparatação, projetada para evitar invasões, antes de sumir em um “pop” que nem foi ouvido, ante todo o barulho e música da maior festa que o Ministério organizara em dez anos.
X-X
Helena Mason segurava tão apertado o cabo de sua varinha que os nós de seus dedos estavam brancos. Ela olhava para trás a cada quinze segundos e não sabia se a rua vazia lhe dava segurança ou medo. Era verdade que qualquer pessoa presente podia ser uma ameaça pra ela, mas também é verdade que os seguidores de Você-Sabe-Quem atacavam como sombras, aparecendo e desaparecendo dos locais em nuvens escuras e deixando apenas as vítimas pra trás. O motivo pelo qual ela estava na rua, em um local perigoso do Beco Diagonal, depois das onze horas da noite, era que havia acabado de completar seu turno no Hospital St Mungus. Ainda não conseguia tirar da cabeça as imagens do Longbottom dando entrada ao hospital durante seu turno mais cedo naquele mês. Nem era a ala em que ela trabalhava, mas saber que alguém havia sido capaz de fazer aquilo por si só já era completamente aterrorizante.
Com esses pensamentos, não é de se admirar o terrível susto (o pior da sua vida, como ela definiria posteriormente) que Helena levou ao ouvir um alarme disparar. Ela virou-se bem a tempo de ver uma das lojas daquele quarteirão acender-se com os feitiços de proteção que claramente não haviam contido o invasor. Começou a correr imediatamente, e quando se virou e bateu os olhos na figura encapuzada que saía do prédio, não soube o que fazer.
Suas pernas paralisaram, como se tivessem virado gelatina, e ela não pôde mais correr. Suas mãos tremiam tanto que apenas por um milagre a varinha não caiu no chão, deixando-a completamente indefesa. Mas o estranho não parecia nem um pouco interessado nela, e sequer devia tê-la visto. Seu capuz e corpo se desfizeram em uma daquelas sombras que Helena havia cansado de ver no Profeta Diário, que marcava o modo de locomoção dos ex-seguidores Dele. A sombra voou bem em sua direção e por um momento, tudo o que Helena pode pensar foi: “estou morta”.
X-X
Quando Helena abriu os olhos, estava caída nos paralelepípedos da rua. Apertou a varinha que nunca soltara entre os dedos, tateando o chão para encontrar sua bolsa, caída bem ao seu lado. Olhou para trás, desesperada, mas estava completamente sozinha. Mal pôde acreditar que o adversário simplesmente a deixara ali, caída, ela que havia testemunhado um roubo na Travessa do Tranco — lugar onde os roubos sempre resultavam na morte de passantes azarados — e sobrevivido. Então, notou que bem ao lado de sua bolsa havia um pedaço de papel rasgado com rabiscos pouco legíveis, que ela podia jurar que não estava ali antes. Pegou, amassando e colocando no bolso.
Enquanto se levantava, a adrenalina impedindo-a de sentir qualquer dor da queda, percebeu que seu coração batia absurdamente rápido. Precisava sair dali, precisava sair dali o mais rápido possível.
—Ei moça, você está bem?
Helena estendeu sua varinha para o estranho que havia acabado de aparatar na frente da loja. Quase o enfeitiçou sem nem ver, mas seu cérebro foi capaz de processar a tempo as palavras do rapaz.
—Eu… eu… — infelizmente, não conseguia formular palavras ainda.
O estranho se aproximava dela, o cabelo loiro curto reluzindo com a luz do poste que havia estado apagada durante toda a situação, mas agora, misteriosamente, estava acesa.
—Helena, é você? Você é Helena Mason?
Tudo o que ela pode fazer foi acenar que sim com a cabeça, sem tirá-lo da mira de sua varinha.
—Sou Levy, lembro de você em Hogwarts… trabalho nessa loja e vim checar o alerta dos alarmes. Aconteceu algo com você?
Ela acenou que não com a cabeça e ele chegou até ela, apoiando uma mão em suas costas.
—Veja, entre aqui comigo. Preciso averiguar os danos e posso te pegar uma água enquanto você respira, okay?
—É seguro… entrarmos ai?
—Tudo bem, é seguro. Se não fosse, os feitiços-alarme ainda estariam disparando.
Ambos seguiram para dentro da loja, e Levy restaurou e fechou a porta atrás deles enquanto acendia as luzes e levitava um copo de água até Helena. Enquanto ela bebia, ele passou os olhos por cada prateleira, checando os produtos.
—Parece que nada faltando por aqui… nem aqui, nada aqui…
Foi seguindo até o fundo da loja, deixando Helena parada perto das portas de vidro, olhando o poste de luz do outro lado da rua e bebendo em goles pequenos a água que Levy havia lhe dado.
—Oh merda. Merda merda merda merda merda. — a voz de Levy ecoou pela loja, seguida pelo som de papéis sendo rasgados e coisas caindo no chão.
—Tudo bem? — perguntou, baixinho.
—Já sei o que sumiu… não é nada, nada bom…
—O que?
Levy chacoalhou a cabeça, como se notasse que aquela não era a prioridade:
—Helena, você está bem? Você estava passando quando isso aconteceu? Você precisa de algo?
—Eu… — a mulher suspirou, sem saber como explicar. — Só estava indo pra casa. Ouvi os sons e vi uma figura, que então… se tornou uma daquelas nuvens escuras que marcam os comensais e me derrubou…
Ela soluçou, sem conseguir se conter.
—Achei que me mataria, Levy. Achei de verdade.
Com o pânico e a adrenalina passando, ela começava a se dar conta da situação real e as emoções vinham à tona, lágrimas escorrendo por suas bochechas.
—Tudo bem, você está aqui agora, não está?
Ela concordou com a cabeça.
—Você está bem.
Ambos acompanharam com os olhos a figura que havia desaparatado bem em frente à loja, que agora Helena percebia ser a conhecida Borgin e Burkes. O homem se aproximou e bateu no vidro, mostrando em seguida um distintivo do Ministério.
Levy abriu a porta para que ele entrasse, trancando atrás dele. O que menos precisavam era outra ameaça em um momento de fragilidade.
—Harold? — Levy foi quem reconheceu o ex-colega de Hogwarts, que tinha ainda uma aparência muito semelhante à de Hogwarts, apenas o cabelo um pouco mais longo e ajeitado com gel.
Harold levou as mãos ao cabelo, mexendo nas pontas enquanto recordava o nome dos colegas.
—Helena. Levy. O que aconteceu aqui?
—Parece que a loja foi roubada.
—Dinheiro ou itens?
—Apenas dois itens… em uma sacola que estava pronta para outro cliente, suposto a vir buscá-los amanhã.
—Que itens? Que cliente? — Harold parecia impaciente e nervoso.
—Os itens foram o anel de Eliximar e um colar, cópia do colar de Slytherin.
—Algum desses é perigoso?
Helena interrompeu: — Como se eles comercializassem coisas não perigosas nesse tipo de loja.
—O anel de Eliximar faz algo bem simples… quando quem está com ele no dedo vira-o de ponta cabeça, inverte posições com a pessoa mais próxima. Por exemplo, se eu estivesse usando agora e girasse no dedo, eu e Helena trocaríamos fisicamente de lugar.
Harold mordeu o lábio inferior, cheio de preocupação.
—É o tipo de item que um fugitivo do Ministério teria interesse. Imagine quão mais fácil é fugir de uma captura ou um esquadrão de aurores com isso.
—Esse tipo de item tem sido muito cobiçado… — completou Levy. — Já vendemos quatro ou cinco itens modelados para fugas e escape, e a DM, a loja do outro lado da quadra, já foi assaltada duas vezes para roubo desses itens. Imagino que tenha sido por ele que nosso ladrão veio. Mas aconteceu de estar embalado junto com outro item, muito mais perigoso… um colar…
—Desembucha! — pediu Helena
—Uma cópia do colar de Salazar Slytherin, que empodera e fortalece o usuário. Mas essa cópia foi enfeitiçada para enfraquecer. Já fez três vítimas de que se tem conhecimento… suga a essência mágica da pessoa.
Helena colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, as sobrancelhas franzidas de um jeito característico seu.
—Isso é ruim… bem ruim… nenhum equipamento mágico pode simplesmente retirar a essência mágica de dentro de alguém, isso tem consequências para as pessoas que estão em volta também.
—Bom, pelo que você disse está agora nas mãos de um comensal da morte… tenho certeza que suas intenções não são puras. — comentou Levy.
—Um comensal da morte? Você é uma testemunha, Helena?
—Oh, sim. — quem respondeu foi Levy. — até achou que seria assassinada pelo homem, estava sozinha na rua quando aconteceu.
—Sim. Vi só uma figura… depois caí no chão, acho que perdi a consciência por alguns minutos... se foi mesmo um comensal, Harold, você tem que acionar os aurores.
Harold suspirou muito profundamente.
—Não posso.
—Como assim!? — exclamaram Levy e Helena, quase simultaneamente.
—Hoje é a festa de Natal do Ministério. Todos os aurores que não estão em missão estão lá, protegendo o Ministro e o evento. Meu chefe não conseguiu permissão nem para enviar um deles para averiguar. Parece que algum manda-chuva faz questão de tê-los todos no evento, para ter chances de evitar possíveis fiascos. É, afinal, o primeiro Natal desde que…
—Desde Harry Potter. — terminou Helena.
—Parece que temos um caso real aqui, Harold. Precisamos de um auror.
—Olha, sinto muito dizer, mas creio que não teremos nenhum auror até amanhã.
—Temos um objeto perigosíssimo em jogo e uma testemunha ocular, só por Merlin, chame a droga do auror. — insistiu Levy.
—Vou enviar um Patrono, mas… não tenho muitas esperanças de que enviarão um.
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