Um Conto de Nós Duas
15 Capitulo 14
Notas iniciais
Emma saiu da prefeitura e foi para delegacia, sua distração sempre fora o trabalho e ela precisava de uma distração hoje.
Entrou e não reparou seu pai sentando em uma mesa do lado direito da sala tomando algo quente. Andou em um mundo diferente, seguindo linhas que só ela via. Tentando desvendar os medos da mulher que dominava cada pensamento.
Pensou no café preto que ela não lembrava que bebeu. Apoiou suas botas desgastadas na mesa a fazendo ranger e olhou para o nada. David viu sua filha em sua caixa de confusão.
— Está tudo bem, Emma? – Diminuiu o tom para não assustar a filha.
Emma inclinou a cabeça para o lado e viu um par de olhos preocupados.
— Está tudo bem sim. – Mentiu.
David não continuou, achou melhor esperar um momento mais confortável. Sabia que quando Emma estivesse pronta, falaria o que a incomodava. Emma era assim.
A manhã transcorreu confusa e conflitante.
Emma chegou à lanchonete. Caminhou até à mesa preferida da rainha, no fundo da lanchonete e esperou. Se distraiu com o celular e com o movimentar de pernas das pessoas.
Viu sapatos vermelhos se aproximarem e soube que eram de Ruby. Sempre saltitante e alegre. Não queria “saltitante e alegre” hoje.
Não queria conversar.
Queria que sua amiga andasse em câmera lenta apenas para aproveitar mais alguns segundos da solidão. Mais alguns segundos dos pensamentos e planos absurdos. Mais alguns segundos para tentar uma forma da sua “necessidade” perder o medo.
Não queria conversar.
Desejava receber uma mensagem ou uma ligação, apenas um motivo para desmarcar e sair daquela confusão de passos.
Definitivamente não queria conversar.
Ruby chegou à mesa com um sorriso sincero e o sino tocou.
Saltos
Não precisava olhar para a porta, não precisava levantar a cabeça, não precisava desviar o olhar da mesa atrativa. Conhecia aqueles passos.
Regina caminhou sorrindo para a garçonete. Um sorriso de deboche. Implicar com as duas era um esporte que ela adorava praticar.
— Boa tarde, Vira-lata – Apelido super carinhoso. — Regina sorriu diferente e a loba percebeu. Ela sabia.
— Você saiu daqui e foi direto contar para ela, não é? – Ruby falou com uma falsa indignação para uma loira distraída.
— É a fada dela. Não existe ninguém melhor para te ajudar. – Emma tentou sorrir de uma forma sincera. Não conseguiu.
Ruby percebeu o esforço. Regina percebeu o esforço. As duas se entreolharam e tiveram um diálogo metal. A garçonete voltou para o balcão e Regina sentou.
Regina estava se comportando com uma naturalidade incomoda e Emma não conseguia esconder suas preocupações. Evitava olhar o par de olhos avelãs e tudo na lanchonete se tornou mais interessante.
Isso é impossível
A prefeita tentava ignorar os movimentos desconfortáveis da loira à sua frente. Srta. Mills sorria, gesticulava, zombava, tentava distrair Emma que não reagia.
A rainha sabia o motivo da distância da loira. Tentou bolar algo para aproximar as amigas e viu apenas uma salvadora concordante. Desistiu do tópico “Tinker e Ruby felizes para sempre”.
Almoçaram no meio de um monólogo de duas pessoas e isso estava aterrorizante. A prefeita não queria perguntar, não queria entrar nos vários motivos das suas recusas, mas ver a loira daquele jeito era pior que suas resistências.
— Por que está tão confusa?
Regina Mills sabia o motivo.
— Sua confusão me deixa confusa. Seu medo me deixa amedrontada e eu ainda não aprendi a lidar com isso. – Emma precisava desabafar. — Não estou confusa por você se afastar sempre que me aproximo mais se é isso que está pensando. Estou confusa por que sei que você ainda não está sendo você.
Emma estava sincera, sincera demais.
— Você não pode esperar que “eu” seja “eu” com cinco dias de aproximação. – Não estavam brigando, de forma alguma, estavam se abrindo.
— Não são cinco dias, são três anos – a resposta foi imediata.
— Você não está apaixonada por mim há três anos, não está tentando uma aproximação há três anos. Não estamos juntas há três anos.
— Eu não consigo ficar longe de você há três anos – novamente uma resposta imediata. Emma não estava nem pensando, estava apenas cuspindo palavras. Regina perdeu a fala e Emma continuou. – A única vez que fiquei longe foi quando fui para Nova York com Henry com memórias que você me deu, memórias que não eram minhas e eu podia sentir algo faltando todos dias o tempo todo. Quando me lembrei, eu sabia que teria que te trazer de volta por algum motivo. Ainda não entendia os motivos. Então não são cinco dias, Regina. São três anos.
Regina não achava palavras, não conseguia responder.
Regina Mills não sabia de nada.
Estavam ali, naquela lanchonete movimentada. Sempre estava movimentada. Na única lanchonete da cidade. Emma falando o que estava guardado a muito tempo. Falando dos seus três anos.
— Você me vê há cinco dias, mas eu te vejo há três anos — a loira terminou seu desabafo.
Emma se levantou e saiu. Apenas saiu. Regina não se moveu. Continuou a olhar o lugar onde a xerife estava, agora vazio. Ainda via os olhos verdes tristes a encarando e a implorando entendimento. No lugar onde Emma estava, Mary se sentou.
— Não é possível. Vocês já brigaram?
— Não. Eu apenas estou fazendo o que eu sempre faço. Afastando a possibilidade da felicidade apenas por medo de nunca alcança-la.
Regina fez o imaginável. Falou o que estava sentindo para o motivo da sua vingança.
O choque das palavras da Emma a deixaram fora do ar e quando percebeu, as palavras já haviam saído.
Branca não teria outra oportunidade.
— Pensei que tivesse perdido seus medos quando foi atrás dela na delegacia.
— Eu enxerguei que precisava passar por cima deles, mas não significa que os perdi.
— Quer que eu converse com ela?
— Não.
A onda de sinceridade passou.
Mary viu a morena se levantar, afastar e sair.
PAUSA
Vendo Branca de Neve sentada com a Rainha Má assim na lanchonete, me veio algo em mente. O diálogo.
A Rainha Má pergunta:
— “Espelho, espelho meu. Existe no mundo alguém mais bela do que eu?”.
E o espelho responde:
— “Sim, minha rainha. Branca de Neve é agora a mais bela”.
Se eu estive presente ia rolar, chorar e passar mal de tanto rir. Depois ia quebrar o espelho e pedir reembolso.
Depois de Regina Mills, esse diálogo perdeu completamente o sentindo.
Tadinha da Branca de Neve.
Nunca querida.
FIM DA PAUSA
Regina trabalhou, Emma trabalhou e as duas não se viram mais durante o dia. Não trocaram mensagens, não ligaram.
Regina voltou para casa e preparou o jantar. Sentou no sofá e viu seu príncipe jogando algo que só ele entendia.
Emma visitou seus pais e brincou com Neal. Mentiu sobre seu estado e mostrou uma alegria fingida. Depois voltou para o apartamento.
As duas tomaram banho, as duas foram para a cama. Regina pegou um livro e Emma olhou o teto.
As duas brigaram com a insônia e com a necessidade.
As duas sentiram medo e dormiram. Cada uma em sua cama.
O dia amanheceu e anoiteceu. Comeram, pensaram, se distraíram e dormiram. Cada uma em sua cama.
A semana amanheceu e anoiteceu. A rotina instalada. Dormiram. Cada uma em sua cama.
Uma semana inteira passou e em um dia que já não sabiam qual, pois não fazia diferença. A rotina fora quebrada. O celular vibrou.
Emma pegou o aparelho histérico em seu criado mudo e viu o nome.
Regina Mills
Respirou tentando controlar a saudade e atendeu.
— Oi.
— Você está no seu apartamento? – Regina não perguntou como ela estava, não deu boa noite, não disse ao menos “Oi”. Fez a pergunta direta.
— Estou. Aconteceu alguma coisa?
A prefeita desligou o telefone fazendo a xerife se confundir. Uma fumaça roxa se materializou em seu quarto e ela começou a entender.
Se levantou depressa com sua regata branca e sua calça azul xadrez. Regina apenas estendeu a mão, não falou nada. Emma a segurou e sumiram.
Agora estavam no quarto da prefeita. Quarto que Emma entrou uma vez. Uma única vez, com a rainha em seus braços. Regina apontou à cama e Emma sentou. A prefeita começou a andar pelo quarto com seu pijama cinza de seda e descalça.
— Você imagina como foi difícil para mim invadir a aquela delegacia e te beijar? – A morena falou sem olhar para a loira.
— Por que está me dizendo isso?
Regina parou, pegou uma cadeira e a posicionou em frente a Emma a encarando profundamente. O mar esmeraldo e a floresta de aveleiras.
— Por que eu sei o que você pensa, por que eu sei o que te confunde. Eu conheço o seu “Oi”, o seu “ Bom dia” e o seu "Tchau". Conheço cada sorriso sincero e cada sorriso falso. Porque eu sei que você olha para a esquerda quando quer esconder alguma coisa. Sei que seus olhos ficam mais claros quando quer chorar. Sei que respira forte uma vez quando me encontra. Sei que olha para cima quando está em dúvida achando que vai encontrar uma solução no teto. Sei quando se sente sozinha, quando está feliz, quando está impaciente. Porque eu conheço cada detalhe de você há três anos. Eu te vejo há três anos e sei que acha que eu estou em dúvida em relação a você. Sei que acha que eu não te via.
Morri.
Emma estava paralisada. Estava tentando absorver aquelas palavras escorrendo por sua pele. Seu coração estava disparado. Esqueceu de respirar, seus pulmões arderam a fazendo lembrar. Regina continuou.
— Eu não tenho dúvidas sobre o que eu sinto por você. Eu tenho dúvidas sobre quase tudo. Tenho dúvidas se vou acordar amanhã. Tenho dúvidas se vou ser a mesma Regina sempre. Tenho dúvidas sobre você querer estar comigo. A única certeza que eu tenho é o que eu sinto pelo Henry e por você. Eu sei exatamente o que eu sinto. Não duvide disso. Por favor.
A rainha não queria parar. Não podia interromper. Passou aqueles longos dias se preparando para aquela conversa. Se preparando para o dia que ela chamou de “Dia do Esclarecimento”. Pegou as mãos tremulas da uma loira muda.
— Passar por cima do meu medo e dar um passo em sua direção foi um ato de coragem para mim e eu não me considero corajosa. Eu preciso que você entenda que admitir o que eu sinto por alguém é minha maior fraqueza e eu fui forte por você. Não duvide dos meus sentimentos, apenas acredite no meu medo.
Esperou os segundos infinitos e continuou.
— Eu ouvi você. Eu entendi você. Eu vi você. Você quer me conhecer e eu vou começar a me mostrar. Preciso da sua paciência e preciso de você comigo. Então só se deite, me abrace e me faça dormir. Por que eu preciso saber que você está do meu lado. Preciso saber que não vai se afastar de mim.
Voltei dos mortos e morri de novo
Emma sentiu seus olhos marejarem e sorriu. Não falou absolutamente nada. Levantou, puxou o edredom da cama e se ajeitou sob ele do lado direto.
Regina respirou aliviada, deitou e sentiu a loira envolver seu ser. Sentiu o calor daqueles braços. Sentiu a muralha negra rachar. O incomodo da solidão, da cama vazia não a atormentou naquela noite. Estava segura.
— Boa noite, Emma.
— Boa noite, Rainha.
Naquela noite qualquer, de uma semana qualquer.
Elas dormiram. Na mesma Cama.
Nossa. Adoro essa parte da história.
Agora nós vamos parar. A próxima parte vai ser bem legal e eu preciso estar descansada para falar o que vou falar e concentrada para perder completamente a vergonha. Então....
Sua sem vergonha.......
Ninguém me respeita mais nessa sala. Vocês têm sorte por eu já estar apegada.
Espero vocês amanhã.
Durmam bem.
Boa noite.
Fale com o autor