Um Conto de Ônibus
1 Eu Não Esperava
Notas iniciais
Eu sempre fui zoado desde que me lembro. Era "bichinha" pra lá, "gay" pra lá, e eu não fazia ideia do que queriam dizer, mas me incomodava.
Fui crescendo, entendendo o significado daquilo, e temendo que fosse verdade. Eu sou um daqueles homens que gostam de outros homens? Eu estou no mesmo grupo daquelas pessoas que aparecem assassinadas diariamente nos noticiários de TV por simplesmente sentirem atração por gente do mesmo sexo?
Eu passei a me preocupar com inúmeras coisas, como, por exemplo, a minha mãe, divorciada. Não era a pessoa mais religiosa do mundo nem frequentava nenhuma casa religiosa, mas já tinha ouvido ela dizer frases como "gay não é normal, isso é anomalia e precisa de tratamento".
Nessa época pensei em morar com o meu pai, mas quando lembro da nossa relação desde sempre, mesmo sem saber a opinião dele sobre gays, desisti. Preferiria mil vezes penar nas mãos de dona Márcia a viver em um ambiente com ele.
Tinha também o caso de alguns amigos — que fui eliminando com o tempo — que demonstravam ser o menor motivo ódio por gays. Já que eu posso trocar de amigos, o fiz. De mãe não posso. Nem de pai.
É, eu tinha bons motivos pra ficar trancadinho no que chamam de armário. Mas acontece que uma hora sufoca, você se abre com alguns amigos nos quais confia, e resolve se libertar disso. Aos meus 17 anos contei para a minha mãe já esperando ser expulso de casa, mas amor de mãe é realmente uma coisa: dona Márcia me abraçou e disse "era isso que te preocupava ultimamente, meu filho? Eu sou sua mãe, sempre vou te apoiar".
E nunca mais a ouvi tecendo comentários homofóbicos.
O problema parecia resolvido. Deixava claro quando surgia alguma pergunta relacionada a isso sobre mim nos meus círculos sociais, mas então comecei a lembrar de todas as tragédias que assolam os homossexuais: assassinatos, poucos direitos (união estável que vive sendo revogada), o preconceito no mercado profissional e vários outros.
Eu comecei a ver novos problemas, e novos problemas que, logo quando me permiti viver do jeito que eu realmente era, me impediam de ficar com qualquer garoto disponível. Eu me peguei usando várias desculpas, me perguntava se valia o risco e sempre chegava a conclusão de que não, não valia.
Fiquei dos 17 aos 20 assim, complexado e sem aproveitar minha vida afetiva como eu deveria. Canalizei meus esforços nos estudos, ainda mais porque estava enfim começando minha faculdade de Direito que eu tanto sonhava. Com o ciclo de amizades renovado, uma vez que cada um foi pra habilitação que desejava, me peguei ocultando, mais uma vez, que era gay. Eu me esquivava das perguntas e usava como desculpa um "não posso confiar".
Eu estava acabando com a minha vida.
Passei as férias daquele primeiro semestre tentando superar sozinho isso. Eu entrava em chats, conversava com caras até muito legais, mas eu sumia. Não marcava de sair. Passei a ler livros sobre o assunto, os terminava aliviado. Mas nunca conseguia aplicar aquilo na minha vida.
Pois bem, as aulas retornaram no dia 5 de agosto, e eu botei na minha cabeça que ia começar tudo de novo. Ia responder com sinceridade quando o assunto surgisse no meu grupinho social, seria o primeiro passo. Peguei meu ônibus em direção à faculdade.
Sempre que, durante a viagem, o ônibus passa por um tradicional colégio de ensino médio da região, tem turmas em horário de saída. Eu meio que gosto de colegiais do médio. Talvez seja o uniforme, sempre um branco que valoriza o desenho do corpo, combinando com um jeans; talvez sejam alguns poucos anos a menos do que eu, não sei explicar. Mas são meus favoritos.
Alguns rostos já me eram até familiares. Eu encarava, sentado à janela, um desses quando escuto:
– Mas se é o sistema que está com problema, eu não tenho culpa. Você tem que me deixar entrar por trás. — Disse o rapaz de voz tão doce que parecia que cada palavra sua buscava a ajuda de alguém.
Eu então olho. Levemente moreno, magro, talvez 1,70. Corte de cabelo: tigela. Sabem aqueles cabelos lisos, que parece que as mães cortam em casa usando a tigela como molde? Pois é. Boca pequena, mas tão, tão desenhada... e olhos levemente fechados. Longe de ser um descendente de japonês, era uma característica parecida sim, mas soava tão único que...
Apaixonei
E eu nem sabia se ele era gay
Se já namorava
Se não era um daqueles homofóbicos que eu odiava
Ou se ao menos iria me querer
Qual o nome dele?
Onde mora?
Eu posso acabar nunca mais vendo ele!
E mesmo assim, me apaixonei.
Que droga.
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