Um Casamento Um Tanto Bagunçado
32 Surpresa
Poseidon segurava Atena firmemente pela cintura. Talvez ele estivesse sonhando, pois a sensação de beijar aqueles lábios tão macios, combinados com uma língua tão sincronizada com a sua, era, e não havia outra palavra, maravilhosa. Como se tivesse morrido e ido para o céu, mesmo que sua religião não acreditasse muito nisso.
Mas o seu paraíso não durou tanto tempo quanto ele desejava, ou precisava.
Atena afastou-se de repente, quase em um pulo, e então, ele pôde ver pelos olhos azuis cintilantes dela que seu mundo estava prestes a desmoronar.
–O que você está fazendo? -indagou, a expressão austera e raivosa.
–O que estou fazendo? -ele franziu as sobrancelhas- Quer dizer o que nós estamos fazen--
–Você, cale a boca -rugiu ela, e Poseidon estava realmente assustado- Como pode achar que pode chegar perto de mim?
Por um momento, ele não soube dizer nada, o rosto demonstrando toda a sua confusão e surpresa.
–Atena, o que deu em você? Por que... está assim do nada?
–"Por que estou assim do nada", ora, me poupe, Poseidon! Eu sou comprometida com Apolo, o amor da minha vida, por que acha que eu vou trocá-lo por alguém como você?
Poseidon sentiu como se alguém estivesse enfiando uma faca lentamente dentro do seu peito, atingindo propositalmente o coração dele, que perdia algumas batidas.
–Atena, eu juro que não... Não queria que você...
–Não queria me tirar de Apolo? É o que você quer desde o começo dessa semana! Eu sou apaixonada por ele, você ainda não entend--
–E você também não entendeu tudo que eu posso estar sentindo por você!
Ela calou-se. O brilho nos seus olhos diminuiu de repente, e sua expressão não era mais de raiva.
–O que está sentindo por mim?
Mas agora ele já tinha perdido o controle.
–Ah, voltou ao normal agora? Pare de brincar comigo, Atena!
–Não estou brincando com você! -exclamou, e havia algo muito confuso tanto nos olhos como em sua voz.
–Então o que significa tudo isso?
–Eu não faço ideia! -gritou, no mesmo tom que ele.
E então Poseidon pôde ver os olhos dela encherem-se de água.
–Atena...
Mas a porta abriu-se, e Mary entrou sorrindo e parecendo aliviada.
–Ah!, me desculpem, eu tive que resolver algumas coisas, mas já estou... -ela parou a frase, percebendo claramente o clima escuro que estendia-se por toda a sala.
–Me desculpem, eu... Acho que estou atrapalhando, eu vou sair e...
–Não! -interrompeu Atena, voltando-se para ela e contendo o máximo de lágrimas que conseguiu- Quero dizer, eu acho que... Eu posso vir aqui amanhã para acertar todos os detalhes?
Mary assentiu com a cabeça, confiante, mas sem entender o que estava acontecendo.
–Mas é claro que pode.
–Ela vai vir sozinha.
A voz dele ressoou alta e firme por toda a sala. E Atena sentiu algo muito ruim no estômago.
–Tudo bem -concordou Mary, o mais suave que pôde- Vou deixá-los a sós. E... se me permitem dizer, vocês formam o casal mais lindo que eu já conheci. Uma briga não vai separá-los, isso eu lhes asseguro.
Ela saiu dali, e um clima ruim passeou pelo cômodo.
Poseidon, porém, sem dizer nada, caminhou em direção à porta, pronto para ir embora.
Atena só o seguiu, a cabeça com um turbilhão de pensamentos e culpa, mas sem conseguir dizer nada pela boca.
O carro estava do outro lado da rua, e em um momento de indecisão, ela olhou para Poseidon, percebendo que ele fazia a mesma coisa.
Pelos deuses, seus olhos verdes estavam brilhantes. A deusa sentiu seu coração doer.
–Poseidon...
–Atena, posso te pedir uma coisa?
Ela afirmou com a cabeça sem hesitar, talvez um pouco rápido demais.
–Sim, claro.
–Não faça mais isso.
–Nunca mais -concordou ela, parecendo um pouco aflita.
Ele franziu os lábios e então suspirou.
–Já vou pra casa.
–Eu acho que eu também.
Poseidon olhou para ela por alguns segundos.
–Te vejo amanhã?
–Sim -ela hesitou- eu espero por você?
–Faça como você preferir.
Atena retribuiu o olhar dele, que assim como o seu parecia triste. Até ver Poseidon caminhar até o carro.
Ela guiou o próprio caminho até uma rua um pouco solitária. Ainda pensando e se perguntando sobre o que tinha feito, a deusa estalou os dedos e de repente estava no seu quarto.
Mas não importava para onde fosse, seus pensamentos continuariam castigando-a por tudo o que havia acontecido.
OoO
Poseidon apareceu no seu palácio, no hall de entrada. O carro já estava estacionado na garagem, e ele estava sem rumo. Já era final de tarde, e depois de alguns minutos o sol começaria a se pôr.
Pensando nisso, ele andou em passos não muito rápidos até o lado de fora, observando a movimentação tranquila que havia por ali. Mas, como sempre fazia quando ia para lá, o deus encaminhou-se até um banco que se balançava um pouco.
Tudo parecia tão calmo! Ele ali, sentado enquanto apreciava o pôr do sol que começava agora, retribuindo cumprimentos às pessoas que lhe cumprimentavam.
Mas era uma imagem realmente discrepante de todos os seus pensamentos.
Por que ela fez aquilo? Quer dizer, ela estava gostando do nosso beijo, dava pra sentir... Aliás, beijá-la foi definitivamente a melhor sensação da minha vida. Oh, Atena, imagine então quando nós...
E a mente dele se encheu de cenas maliciosas e fantasiosas.
O que está acontecendo, afinal?, perguntou-se, tentando afastar aquele tipo de pensamento. Não só com ela, mas comigo... Ódio definitivamente é a última palavra que eu usaria pra descrever o que sinto por ela. Mas amor? Eu não amo Atena.
Poseidon franziu a testa, confuso.
Isso está ridículo. Não sei se poderia amar ela, principalmente depois do que aconteceu hoje.
Os pensamentos dele pareceram se acender, e ele apoiou um braço no banco.
Aliás, o que diabos aconteceu hoje? Estava tudo bem e ela de repente... surtou. Sinceramente, duvido que seja pelo que ela falou sobre Apolo. Se bem que talvez isso seja alguma esperança da minha parte, mas, droga, Atena pode ser paranóica, mas não a esse ponto. Por que pararia aquele beijo pra dizer que ama Apolo e depois se arrepender disso? E por que ela fica dizendo repetidamente que ama Apolo? Merda, eu já entendi isso. Certo, isso não é hora pra raiva, repreendeu-se, deixando o olhar fixo por um instante.
O fato, é que tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Ártemis me disse que Atena desprezava Apolo (assim como me desprezava também, mas isso não vem ao caso), então por que ela resolveu se casar com ele, do nada? Não faz o menor sentido!
E então ele se lembrou de uma cena. Parecia há tanto tempo atrás! Estavam todos os deuses sentados na mesa de jantar, preparados para o café da manhã, quando Apolo e Atena anunciaram o seu casamento.
"–Mas Atena, quando isso aconteceu?!
–Ontem à tarde.
–Não, não estou falando sobre o pedido de casamento, estou perguntando desde quando você e Apolo tem um caso!
–Ora Perséfone... -Atena franziu as sobrancelhas, parecendo bastante confusa- Nós... -ela olhou para Apolo, como se fizesse a mesma pergunta a ele.
–Nós não sabemos exatamente, tudo bem? Só o que sabemos é que estamos completamente apaixonados um pelo outro!”
Ah!, exclamou ele, no próprio pensamento, Então nem eles sabem! Pelos deuses, o que...
E então Poseidon travou, enquanto algo lhe ocorria. Os seus pensamentos corriam a toda enquanto chegavam em uma resposta óbvia e ao mesmo tempo surpreendente.
Os deuses. A única que não estava presente naquele dia e que, estranhamente, não está aqui, dois dias antes do casamento.
Afrodite.
OoO
Ela rodopiava pelo quarto, sorrindo e dançando algo que parecia ballet. Adorava estar em Paris, principalmente em semanas de moda, e sua felicidade era visível a qualquer um. Fazia várias e várias piruetas, como se treinasse uma coreografia.
Um brilho diferente do que permanecia nos olhos dela iluminou um ponto da sua cama, deixando transparecer uma carta.
Afrodite parou de dançar, franzindo o cenho e se sentando de pernas cruzadas na cama.
O envelope branco trazia uma escrita forte, em letras de imprensa. Abrindo-o, ela encontrou uma mensagem curta, mas que despertou a sua curiosidade.
"Afrodite, não sei o que fez, mas preciso de você nesse exato momento.
Poseidon"
–Poseidon me mandando uma carta? O que será que aconte... -ela parou, abrindo a boca lentamente- Oh, deuses, será que... ? Não. Eu realmente espero que não.
Ela parou por alguns momentos, decidindo o que fazer.
Levantando-se quase no mesmo momento, foi até o banheiro, preparando sua toalha e roupão para quando saísse do banho. Geralmente, iria para a banheira e a encheria de espuma, mas preferiu tomar uma ducha. Estava ansiosa.
Enquanto ensaboava-se, foi pensando em voz alta, como sempre costumava fazer.
–Mas Poseidon não poderia ter nada a ver com isso, certo? Afinal, ele nasceu para Atena. O que me lembra que preciso arrumar algum plano para juntá-los. Hum, depois penso nisso. Preciso voltar para o Olimpo! Calma, Afrodite, faltam três dias.
E ela suspirou, mas ainda estava alarmada.
A Paris Fashion Week estava terminando enfim, e ela voltaria no domingo para Nova York. Era o combinado. Porém, algo muito importante estava acontecendo, e ela estava com medo de ter feito uma grande bobagem.
–Eu fiz uma grande bobagem. Oh, deuses! Que pessoa horrível sou eu!
Desligando o chuveiro, ela soltou os cabelos compridos presos antes em um coque.
–Pelo menos Apolo deve estar feliz. Aliás, por que será que Poseidon está preocupado?
Afrodite vestiu o roupão rosa e felpudo, analisando-se no espelho.
Como sempre, estava linda. Mas havia preocupação estampada em seu rosto.
Abriu a porta, e deu um gritinho quando viu outro papel em cima dos seus travesseiros.
Eufórica, a deusa andou até lá em passos rápidos, segurando a carta com os dedos finos de unhas pintadas.
Mas a caligrafia era diferente. Letras mais abertas e escritas em um tom escuro de amarelo.
–Não é Poseidon -murmurou ela, abrindo-a e descobrindo uma mensagem mais longa que a anterior.
"Afrodite, há quanto tempo!
Estou te mandando essa carta com certo desespero, porque você ainda não está no Olimpo, e meu casamento vai acontecer nesse sábado! ..."
A deusa parou de ler, arregalando os olhos.
–O quê?
Perdendo a fala e voltando ao seu jeito ansioso, Afrodite virou os olhos para o papel, erguendo as sobrancelhas cada vez mais.
"... Estou tão ansioso que mal posso segurar essa caneta! Isso vai ser maravilhoso! E, hum, sinto que tenho que te agradecer por alguma coisa, mas não sei exatamente pelo quê... Fica desse jeito mesmo :D
Volte logo!
Apolo”
Ela abriu a boca, mas como não conseguiu dizer nada, soltou um grito.
–Como assim “vou me casar sábado”?! Ele quer me matar? -ela olhou à sua volta, a respiração fora de controle- Eu preciso ir, nesse exato momento!
E ela começou a arrumar todas as suas malas e apetrechos, guardando as duas cartas na bolsa e, como nunca tinha feito antes, saindo sem pentear o cabelo com a primeira roupa que tinha achado, a cabeça rodando a mil por hora.
Quando passou pela recepção, percebeu olhares nela, que não deixava de ser bonita mesmo no meio de um surto, e que tinha uma combinação perfeita no vestuário que havia sido planejado em menos de trinta segundos.
–Por favor, -disse ela ao recepcionista- vou voltar domingo, no último dia, mas preciso partir agora.
–Oh, mademoiselle Blake! Mas por quê? A moda precisa de você!
–Awn, é muito gentil da sua parte, mas preciso ir para os Estados Unidos nesse exato momento. Minha sogra morreu. –mentiu ela, dizendo a primeira coisa que veio a sua cabeça.
–Compreendo, senhorita. Mas tem que estar aqui pontualmente no domingo, senão não poderá desfilar!
–Ah, não tem problema! E eu vou sentir sua falta -disse, com lágrimas nos olhos.
–E todos nós vamos sentir a sua! -e ele lhe entregou um papel para que assinasse, dizendo que “Blake estaria de volta em três dias”.
Ela rabiscou uma forma linda e desenhada, que levara dias para escolher entre tantas outras assinaturas.
–Pronto, e você poderia me fazer um favor?
–Oui!
–Mande um beijo grande para Gringer, e diga para ela não se preocupar, pois já estarei de volta.
Ele sorriu.
–Sempre será minha favorita, mademoiselle Blake. E pode deixar, eu direi a ela.
–Muito obrigada, beijinhos.
E sorrindo, ela saiu do hotel. Um brilho passou pelos seus olhos enquanto a sua expressão se tornava neutra.
-Apolo vai se casar, e eu sou a culpada. Ah! Que os deuses me ajudem, e se possível, não me matem!
E estalando os dedos, ela desapareceu, em meio a muito gliter rosa.
-------------------------------------------
N/A: Ok, agora isso vai começar a ficar bom. Pra mim, vai ser a parte mais difícil de escrever e mais legal também (estou esperando por ela desde o começo, uhuul :D), mas eu espero que vocês também achem isso /risos.
E acho que vocês já esperavam Afrodite por trás disso tudo, não é? Há, estou tão ansiosa!
Mil beijos ♥
Fale com o autor