Poseidon não estava exatamente bem disposto aquela manhã. Seus olhos, na sua opinião, davam a impressão de terem sido maquiados e lavados logo depois (o que já era uma coisa muito estranha levando em conta que ele estava cogitando de alguma forma a possibilidade de usar maquiagem). Tinha olheiras gigantes. Quer dizer, na verdade a região debaixo dos seus olhos só estava um pouco mais escura do que o normal, mas isso fazia somente a preocupação crescer ainda mais. Quando é que Poseidon criava defeitos que não existiam ao olhar para o próprio reflexo? Não que ele fosse um completo egocêntrico. É claro que não. Mas o seu ego não é bem o que podemos chamar de pequeno.
Ele havia se jogado na cama novamente, resmungando até não poder mais, os cabelos completamente bagunçados e a cueca cobrindo a única parte do seu corpo que não continuava nua. Ele tinha essa mania de dormir quase pelado.
Não sabia o quê, nesse mundo inteiro, conseguiria tirá-lo da cama hoje. Quer dizer, sua situação estava mesmo uma droga. Odiava Atena havia séculos, passara uma semana -não, nem uma semana!-, passara alguns quatro ou cinco dias com ela e agora alguma parte muito idiota do seu coração resolvera se apaixonar por ela. Assim, de repente! Noiva do infeliz do Apolo. Bem, pelo menos Poseidon tinha uma chance de fazê-la amá-lo enquanto o casamento não acontecia, certo? Não! Não, porque ela estava enfeitiçada! Ele poderia bater a cabeça em uma parede. Batê-la várias e várias vezes, repetidamente, até estar bastante machucado para que nem alguém como ele, um deus, pudesse se safar da morte.
Ok, talvez estivesse exagerando.
Você está exagerando, sussurrou uma vozinha inconsciente. Poseidon poderia pegar essa mesma voz irritante e tacá-la em uma parede também.
Sua situação era algo com o que se preocupar. Pelos Deuses, fazia muito tempo que não acordava desse jeito, se sentindo tão péssimo. E por mais que ele não quisesse admitir, não estava apenas mal humorado. Estava triste, com vontade de chorar e murrar a parede ao mesmo tempo.
Talvez fosse uma coincidência muito inoportuna, mas ele ouviu uma batida em sua porta.
–Quem é? -gritou com a cabeça enfiada no travesseiro.
–Se troque correndo, Poseidon, ou eu vou abrir a porta!
Era a voz de Lívia, que logo foi seguida por murmúrios mais baixos, mas que ele definitivamente soube identificar: Lara. Bem, era isso ou Lívia estava discutindo sozinha.
–Não vou abrir porra nenhuma -resmungou gritando, o som abafado.
–Então eu vou abrir agora mesmo!
–Se tiver um prazer muito grande em ver o seu tio pelado, pode abrir.
–Se vista logo, Poseidon, viemos com uma surpresa.
Odiando cada vez mais o fato de ficar ansioso pela possibilidade de aquilo ter algo remotamente a ver com Atena, ele se levantou contrariado, vestindo qualquer calça e abrindo a porta enquanto colocava uma blusa.
–Pelos Deuses, Poseidon, você sequer dormiu essa noite? -a voz de Lara ralhava com ele, mostrando grande preocupação ao mesmo tempo.
–É claro que sim.
Elas se entreolharam e pareceram entrar em um acordo, entrando no quarto dele sem aviso prévio (tirando as ameaças, que não contavam realmente) e sentando uma de cada lado da cama. Poseidon notou com interesse uma imensa bandeja de prata agora apoiada do lado do seu travesseiro, trazendo milhares e intermináveis rosquinhas, tortinhas, pãezinhos e mais "coisinhas" do estilo. O cheiro era maravilhoso, também.
–O que significa isso? -perguntou falsamente displicente, como se não quisesse mostrar interesse pelos macios biscoitinhos.
–Isso significa que estamos não só nos desculpando por te acordar nas outras manhãs com as nossas brigas, mas também mostrando o amor e apoio que queremos dar a você.
–Hum, eu agradeço, apesar de ainda não entender que tipo de apoio vocês querem me dar.
–Sente e aí nós conversamos.
Rolando os olhos, ele obedeceu o tom autoritário de Lívia, recebendo uma rosquinha em troca.
–Sabe que me senti como um cachorro agora?
–Queremos conversar com você sobre Atena. -ignorou-o Lara, direta e decidida.
Poseidon soltou um muxoxo e mordeu um pedaço do doce que segurava, estranhamente azedo em sua boca. No entanto, depois de pelo menos trinta segundos sendo encarado incansavelmente por quatro olhos verdes claros idênticos, ele resmungou algo como "Não tenho nada pra conversar sobre Atena".
–Ah, vai me dizer que ainda está em negação! Poseidon, por favor, não temos muito tempo, sabe, o casamento já é amanhã. Você poderia agilizar o processo das coisas.
–Não tenho o que agilizar.
–Sabemos que você ama Atena.
–Ah, sabem, é? -ele fez uma cara de deboche- E sabem mais do quê?
–Bem... Isso já é um pouco mais complicado, e, hum, é sobre isso que queremos falar com você.
Poseidon franziu as sobrancelhas.
–O que aconteceu?
–Pode ser um pouco... Chocante pra você. -disse Lara, cautelosa.
–E decepcionante -acrescentou Lívia, recebendo um olhar de censura da gêmea. -Ah, se vamos contar não podemos tentar amenizar as coisas, Lara, você sabe disso.
–Me contar o quê? Eu sinceramente duvido que alguma coisa possa me deixar chocado depois de ontem.
–Hum? O que aconteceu ontem?
–Descobri uma coisa que realmente não me fez bem -suspirou ele.
–O que foi que você descobriu?
–Se não fazem questão de eu falar primeiro... Bem, descobri que Atena está -ele se encabulou- ela está... Er, enfeitiçada.
E ele queria poder não soar tão triste quanto realmente estava.
A reação delas não foi, no entanto, completamente inesperada: arregalaram os olhos, se entreolhando. Mas o que elas falaram a seguir, isso sim o surpreendeu.
–Como você ficou sabendo?!
O choque deixou Poseidon sem saber o que falar por alguns instantes.
–Vocês... Vocês já sabiam?!
–Bem, nós tínhamos quase certeza e íamos te avisar, mas... Como você ficou sabendo?!
–Afrodite me contou o quanto tinha sido egoísta ao esquecer dos sentimentos de outras pessoas e só pensar na felicidade dela. Hum, desculpe -disse ele, percebendo que tinha se exaltado- Mas... Droga, não deixa de ser verdade. Se ela fosse um pouquinho mais paciente!
–Espere, nós só temos uma parte da história. -disse Lara, franzindo muito as sobrancelhas- O que foi que Afrodite fez?
–Ela enfeitiçou Atena.
–Foi Afrodite?!
–Sim! Do que vocês sabem, afinal? Me contem tudo e depois eu conto o que descobri.
–Certo. Bem, eu sou muito amiga de Apolo — Lívia começou, se ajeitando na cama — e acontece que faz pelo menos um mês que ele está martelando na minha cabeça sobre Ártemis. Não sei se você já sabe, mas ele é completamente apaixonado por ela, ou pelo menos... era. Se me dissessem há uma semana atrás que ele se casaria com Atena, eu não acreditaria. E, na verdade, não acreditei quando ele mesmo me contou, achei que fosse brincadeira, embora não entendesse porque ele brincaria com isso tendo todo aquele amor por Ártemis. O fato é que conforme ele foi conversando comigo, eu percebi que tinha alguma coisa muito errada acontecendo, porque ele realmente falava de Atena quase do jeito que suspirava por Ártemis antes. Então fui notando outras coisas estranhas: a forma como os olhos dele mudavam de cor, a voz mecânica e como o ambiente parecia ficar subitamente mais frio toda vez que ele dizia "Eu amo Atena" ou negava incansavelmente sua paixão pela deusa da caça. Não, "Atena é o amor da minha vida"... Oh, não faça essa cara, Poseidon -ela interrompeu a própria narrativa, soando carinhosa.
Porque ele realmente tinha o maxilar mais contraído do que o normal.
–Você agora já sabe porquê ele dizia e continua dizendo isso. Mas antes eu também não sabia, e fiquei completamente confusa com essas reações de Apolo. De repente, ele amava Atena. De repente, ele se casaria com ela. E aí eu já estava certa de que aquilo definitivamente não era uma brincadeira, porque mesmo com todas as gracinhas que Apolo faz, aquilo já seria de extremo mau gosto. Comecei então a pensar no que fazer para descobrir alguma coisa. Falei com Lara e ela me sugeriu tentar notar mais coisas estranhas afetando a personalidade dele, e era isso que estava fazendo até um ou dois dias atrás. Queria muito que Afrodite tivesse estado aqui mais cedo, mas ela estava em Paris e não iria poder me ajudar naquele momento. Já desconfiava de alguma poção do amor, mas lembrava vagamente do efeito que ela produzia e também não sabia porquê alguém gostaria de enfeitiçar os dois. Pensei em Afrodite de novo, mas como ela era amiga de Apolo também, deveria saber que ele gostava de Ártemis, então não teria motivos para fazer Atena se apaixonar por ele. No entanto, se tornou praticamente visível que eles haviam sido enfeitiçados quando Atena almoçou aqui, na quarta-feira.
"Eu sempre soube que você tinha uma queda por ela, Poseidon, mesmo quando dizia que a odiava para disfarçar isso, -ele tentou protestar, mas foi impedido, porque ela continuou falando sem lhe dar espaço.- mas naquele almoço, eu tive certeza. O jeito que você olha pra ela... -Lívia sorriu- Eu juro nunca vi os seus olhos brilharem tanto... Caso esteja se perguntando o que eu falei para ela naquele dia, quando nós conversamos, relaxe, eu não disse que você a amava. Mas disse que ela tinha que levar em conta essa possibilidade, e também tentei fazer com que ela me explicasse quando começara a amar Apolo. E aí recebi a resposta que eu queria: exatamente a mesma reação que Apolo tinha toda vez que nós tocávamos nesse assunto, "Eu amo Apolo", "Apolo é o amor da minha vida". Os mesmos olhos vidrados, a mesma voz automática. Então comecei a me desesperar. Não sabia o que fazer até falar com Lara sobre as minhas suspeitas de alguém ter usado uma poção do amor nos dois, e ela me disse que já tinha lido bastante a respeito e receava que eu estivesse certa. Então pesquisamos incansavelmente nesses últimos dois dias, até criarmos muita certeza sobre isso. Os dois estão enfeitiçados. E nós concordamos que era a nossa obrigação contar a você, afinal, depois que os dois se casarem você não vai ter como reverter o efeito. Mas você... já sabia de tudo"
Mas não foi o que pareceu depois daquelas duas últimas frases. Poseidon de repente arregalou muito os olhos verdes.
–O quê?
Lara franziu o cenho.
–O que foi?
Ele parecia desesperado.
–Depois que ela casar eu não posso reverter a poção?!
–Não sabia disso? Mas, ora!, é esse o verdadeiro problema! Se você pudesse, uma hora ou outra Afrodite ou outro deus que tivesse conhecimento suficiente conseguiria reverter o efeito. Mas pelo que pesquisamos um anti-feitiço demoraria semanas pra ser feito, e Atena vai se casar amanhã. Esse é o problema, nós precisamos achar uma solução rapidamente!
Poseidon estava decididamente desesperado. Sua boca abria e fechava, mas ele não sabia o que dizer.
–Afrodite... Ela me deu uma solução ontem. Disse que eu deveria conversar com Ártemis, porque ela seria a única que poderia me ajudar.
–E por quê?
–Pra isso tenho que contar a história inteira.
–Então fala logo, não temos muito tempo.
E Poseidon contou, pulando alguns detalhes não muito importantes e chegando aonde queria: a única forma de reverter aquela situação.
–Então por que você ainda não foi falar com Ártemis?! Você precisa da ajuda dela imediatamente!
Ele engoliu em seco, mas se levantou.
–Estou indo agora. Talvez eu volte pro almoço pra contar qualquer coisa que tenha acontecido.
–Sim, tudo bem, vá antes que seja tarde.
Poseidon se virou para a porta e abriu-a, mas duas vozes que chamaram o seu nome ao mesmo tempo o fizeram voltar o olhar para a cama.
Lara e Lívia tinham os olhares aflitos, mas sorriram.
–Boa sorte -disseram, em uníssono.
E Poseidon conseguiu abrir um sorriso também antes de ir embora, à procura de Ártemis, agora decididamente preocupado.

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N/A: Só um dia pra ele reverter tudo isso! Ah, é meio apavorante :S
Bem, queria dizer a todos vocês que estou entrando em férias daqui a pouquíssimos dias, então vou poder escrever praticamente todos os dias pra vocês. E também, a culpa não foi minha dessa vez. Argh, eu odeio quando o fanfiction entra em manutenção! Eu fico desesperada até tudo voltar ao normal /risos. E, ah, caso achem que eu estou esquecendo, vou responder os reviews todinhos amanhã, então peço desculpas de novo.
Mil beijos, espero que alguém ainda leia minha história >.

Notas finais
Argh, odeio quando o texto fica nesse formato esquisito, como se eu não tivesse dado parágrafo /bate o pé. Ok, me ignorem ahsahushaushausa