Um Casamento Um Tanto Bagunçado
39 Uma conversa nunca antes imaginada
Poseidon mal pôde pisar o pé no Olimpo e já tinha desatado a correr. Sentia o vento passar rapidamente na direção contrária à sua, e não percebia os olhares estranhos que ninfas ou deuses menores lançavam a ele sempre que o viam.
Quando chegou no lugar que queria, ele parou, ofegando e se apoiando em um grande pilar branco que mostrava a entrada do templo dedicado à deusa Ártemis. Era uma esperança desesperada esperar que ela estivesse ali já no meio da manhã, afinal ela sempre acordava cedo e saía por aí com suas caçadoras, mas Poseidon estava disposto a se arriscar, ou então teria que esperar para encontrá-la ainda mais tarde.
Respirou fundo mais duas vezes para se certificar que seu coração ainda conseguia bater em velocidade normal, e estava prestes a entrar em um grande aposento, com um arco em lugar de uma porta, quando viu alguém saindo dali com o cenho mais do que franzido. Mas não era Ártemis e muito menos uma de suas caçadoras. Apolo vinha andando e parou quando percebeu a presença de Poseidon, abrindo um sorriso.
–Heey!
Mas Poseidon não conseguiu retribuir qualquer forma de alegria.
–Apolo -murmurou, sua voz tremendo ligeiramente com algo que parecia raiva.
Apolo voltou a franzir o rosto.
–Hum, tudo bem, cara? Você parece meio desanimado.
–Ah, sim. Por que eu não estaria bem?
O deus do sol percebeu o rancor em cada uma de suas palavras. Mas por quê? Tinha ele feito alguma coisa?
–Você 'tá estranho. Tem certeza que não aconteceu nada? E o que você está fazendo aqui? -perguntou desconfiado, se dando conta do fato apenas naquele instante.
–Vim falar com Ártemis -Poseidon deu de ombros- Ela está aí?
–Sim... O que quer falar com ela exatamente?
–Ia pedir ela em casamento.
Não daria para dizer quem ficou mais surpreso: Apolo ou Poseidon, que percebeu então o que tinha falado.
–Ia... O quê? -suas sobrancelhas se juntaram, seu tom de voz quase ameaçador.
–Ia pedir ela em casamento.
Os dois ficaram em silêncio, se encarando enquanto seus olhares faiscavam.
–Poseidon?
Ele virou a cabeça, vendo de repente Ártemis à beira do arco de mármore com uma expressão confusa.
–O que está fazendo aqui? E achei que já tinha ido embora, Apolo.
Este então olhou para ela, e a deusa ficou ainda mais surpresa quando viu o olhar raivoso e magoado que ele lhe lançou.
–Não tem problema, vou deixar os dois à sós.
E saiu sem dar mais explicações.
Poseidon fechou os olhos a ponto de frisá-los, então suspirou.
–Sabe, Ártemis, não sei mais o que estou fazendo.
Ela ainda olhava-o com ar de interrogação.
–O que... O que disse pra ele?
–Disse que ia pedir você em casamento.
Ela fez uma careta de nojo e surpresa.
–O quê?
Poseidon estremeceu, e Ártemis se arrependeu da sua expressão anterior; teve pena da cara triste que ele fez.
–Me desculpe, de verdade. Eu... Eu não sei o que estou fazendo.
Tombando a cabeça para o lado, ela franziu os lábios e olhou para fora, para os caminhos que o Olimpo mostrava.
–Eu precisava encontrá-las -murmurou, mais para si mesma, e depois fixou o olhar nele- Pode entrar aqui, eu só preciso avisar minhas caçadoras que não vou poder ficar com elas essa manhã.
Poseidon se surpreendeu com o tom calmo dela.
–Não está brava comigo?
E então ela sorriu, minimamente.
–O ciúme pode ser uma coisa muito poderosa -disse, saindo logo depois sem deixar tempo para uma resposta.
Ele poderia ter protestado ou retrucado qualquer coisa, mas não sentiu vontade de mentir mais uma vez sobre o que sentia por Atena. Era muito óbvio que tinha feito aquilo por ciúmes. Sentia raiva de Apolo. Sentia raiva de ter raiva, porque sabia que a culpa não era realmente dele. Sentia raiva de si. E tudo isso o deixava ainda mais desesperado.
Ficou esperando o que pareceu uma eternidade até Ártemis voltar. Quando aconteceu, ela aproximou-se um pouco dele e ficou quieta analisando-o.
–Por que veio aqui? -perguntou finalmente.
Poseidon deu de ombros, mas percebendo que não poderia fingir que não era nada demais, ele desfez sua postura, e uma preocupação verdadeira surgiu em seu rosto.
–Preciso da sua ajuda, mais do que jamais precisei da ajuda de alguém.
–Você precisa da minha ajuda -ela repetiu- Por quê?
–É uma história longa.
–Você tem tempo pra contá-la.
–Acho que não tenho tempo suficiente.
–Eu acabei de dispensar minhas caçadoras, temos a manhã inteira.
Ele suspirou, balançando a cabeça lentamente. E então, como não acontecia há muito tempo, seus olhos se levantaram para ela trazendo mínimas lágrimas.
–Já sentiu como se tudo estivesse perdido?
Ela arregalou os olhos. Nunca tinha visto Poseidon chorar. Duvidava que qualquer um dos deuses já o tivesse visto chorando.
–P-Poseidon?
–Atena está enfeitiçada -disse ele, inundando o mar verde que eram os seus olhos- Afrodite enfeitiçou ela para gostar de Apolo e agora ela vai se casar e a não ser que você me ajude... Eu vou estar perdido. Talvez para o resto da minha vida, talvez até achar alguém que a substitua... Mas, sinceramente, eu não consigo ver como isso poderia acontecer.
Ártemis franziu os lábios.
–Você ama Atena -constatou, aparentemente e ironicamente dando mais atenção a esse fato do que à parte de Atena estar enfeitiçada. Mas não era surpresa para ela, afinal.
Algumas lágrimas se desprenderam dos olhos dele enquanto ele bagunçava o cabelo com uma mão.
–Eu amo ela mais do que já amei qualquer coisa na minha vida.
A deusa fungou.
–Como ficou sabendo?
–Que eu a amo?
–Que ela está enfeitiçada.
–Você... Já sabe -notou, um pouco surpreso.
Ela anuiu.
–Sim. Conversei com Atena ontem à noite, porque já não aguentava mais todas essas coisas estranhas que estavam acontecendo. Se lembra? Do acordo que fizemos alguns dias atrás, de contar tudo o que descobríssemos um para o outro?
–É... Eu lembro. Me desculpe não ter te procurado antes.
–Tudo bem. Nós dois já sabemos o que aconteceu agora.
Poseidon franziu o cenho, lhe ocorrendo algo.
–Mas, espera, Atena te contou que está enfeitiçada? Isso não é possível.
–Não, eu tirei minhas próprias conclusões pelo que ela foi me contando. No sábado, eu tinha conversado com ela poucos segundos antes de ela beber aquele suco que, eu presumo, continha a poção. E Afrodite tinha tentado me dar aquilo pouco tempo antes. Fazia sentido, depois que aquela desmiolada me contou que Apolo gostava de mim.
Ele assentiu, ligando os pontos e vendo que a história se encaixava com a que Afrodite lhe contara.
–Tadinha — murmurou Ártemis. — ela está tão confusa, Poseidon... — ela fez uma pausa, olhando por alguns instantes para ele e suspirando depois. — Você deve saber que eu não sou exatamente uma pessoa que apoia esse sentimento, mas se ela não estivesse enfeitiçada... Sabe, ela te ama muito. Ela não admite, mas o jeito que Atena fala de você... Eu não sei como a poção ainda não a impediu de dizer aquelas coisas.
Poseidon sentiu uma vontade imensa de lhe perguntar o que Atena tinha dito, mas não o fez. Por alguma razão, achou que aquilo só ia fazer com que ele se sentisse pior.
Um tempo relativamente curto se estendeu enquanto os dois faziam silêncio.
–Você é minha última esperança, Ártemis. -ele disse de repente, os olhos brilhando em um verde intenso.
Ela franziu o rosto.
–Eu?
–É, o problema é que... você não vai querer me ajudar.
–Não vou querer te ajudar? Mas é claro que eu vou. Eu acredito em você quando diz que a ama, e eu sei que ela te ama pelo jeito que fala de você. Droga, eu estou parecendo Afrodite, mas não quero que vocês sofram desse jeito.
Mas ele tornou a balançar a cabeça.
–Mesmo se eu disser que você teria que beijar Apolo?
Nada poderia tê-la deixado mais paralisada. Sua boca abriu e fechou, mas ela não pensou em nada coerente que poderia dizer.
–Ártemis, por favor -suplicou, vendo o espanto dela-, você não sabe o quanto isso significa pra mim.
Mas ela continuou de boca fechada por pelo menos um minuto.
–Poseidon... M-Mas por quê isso?
–Afrodite me contou que o único jeito de desfazer o efeito da poção é se uma pessoa, que no caso seria eu, despertasse o amor de Atena ao mesmo tempo que outra, que seria você, fizesse a mesma coisa com Apolo. O problema é que sempre que eles estão juntos Atena corre pra ele e ele pra ela, então nós teríamos que fazer isso em lugares diferentes. Você entende o que eu estou dizendo?
–Você quer que eu leve Apolo pra algum lugar e beije ele ao mesmo tempo que você faz isso com Atena. O que é, com certeza, uma brincadeira muito sem graça sua.
–Hum? -fez ele, momentaneamente confuso.
–Poseidon, eu não posso beijar Apolo!
–E por que não?
–Porque ele é meu irmão irritante e não o meu namorado! -e ela estremeceu só de pensar na ideia.
–Atena é minha sobrinha e eu sou apaixonado por ela.
–Mas é diferente -Ártemis franziu os lábios- Eu não conseguiria conviver do lado de um homem, dependendo dele pro resto da minha vida.
–Mas é só por alguns minutos, Ártemis! Eu nunca disse que você ia depender de alguém!
–E então eu desperto esse sentimento nele e depois vou embora? Magôo o coração dele? Eu odeio homens, mas não sou cruel. Não posso fazer isso.
–Mas pelo menos ninguém vai estar sob efeito de poção nenhuma! Ártemis, não estou te pedindo pra destruir o coração de alguém, mas deixar os dois do jeito que estão agora é muito pior!
Ela desviou os olhos.
–Eu não posso beijá-lo. Trairia o meu voto de não me envolver com homens. Posso tentar fazer ele gostar de mim de alguma forma, mas não posso beijá-lo.
Um certo pânico correu pelo rosto dele.
–Ártemis, ele... Eu não sei se é suficiente.
–Eu simplesmente não posso, Poseidon. Tenho minhas caçadoras, jamais largaria elas por um homem.
–Faça por Atena.
–Você não está entendendo. Se eu beijar Apolo, o meu voto de não me envolver com homens acaba. Eu não vou beijá-lo, eu não posso beijá-lo... Atena é uma das pessoas mais importantes na minha vida, mas... -os olhos dela marejaram levemente- Pelos Deuses, não sei o que faço. Não posso deixar Atena, não posso deixar as caçadoras... Nem... Nem Apolo eu posso deixar. Apesar de ele ser--
–Um homem, já sei.
Ártemis encarou-o, percebendo que ele estava começando a ficar ainda mais desesperado.
–Você disse que não era suficiente, -disse ela, baixinho- mas nós podemos tentar, não podemos?
–Hum? Fazer você gostar dele?
–Não, fazer ele gostar de mim. Oh, céus, que confusão!
Poseidon respirou fundo, assim como ela.
–Qual é a sua sugestão? -ele perguntou, tentando manter a calma.
–Eu posso chamar Apolo para vir ao meu templo, enquanto você visita Atena. Ela provavelmente está atrás dos deveres para o casamento, você sabe. Assim, você beija ela enquanto eu, hum, sei lá, digo alguma coisa pra ele. Talvez um "eu te amo", não sei -concluiu, fazendo uma careta.
Ele pareceu pensar, considerando a ideia.
–Eu já disse que não sei se isso é suficiente, porque sei que se você beijasse Apolo, o efeito acabaria de verdade. Ontem, quando eu beijei Atena, ela teve a maior crise da semana inteira, começou a gritar comigo de repente. Mas acho que sua ideia talvez possa dar certo também, embora não seja completamente garantida.
Ela fez menção de abrir um pequeno sorriso, parecendo mais aliviada. Então, franziu o cenho de novo.
–Mas como eu vou saber a hora que você vai beijar Atena? Afrodite disse que tem que ser exatamente no mesmo instante em que eu falo com Apolo?
O rosto de Poseidon se fechou novamente.
–Oh, merda, não tinha pensado nisso. Será que tem? Eu não sei, ela não disse que tinha que ser no mesmo segundo, mas se tiver não vai adiantar nada você se declarar para ele e eu beijar Atena e receber um tapa.
Ártemis ficou em silêncio, a testa franzida encarando o chão fixamente. Levantou o rosto depois de alguns instantes, com um ar renovado de esperança.
–A despedida de solteiro.
–O quê?
–A despedida de solteiro de hoje à noite -disse, se animando- Podemos fazer isso lá.
–Mas que despedida de solteiro?
–Foi uma ideia desprezível de Afrodite, achei que também tinha recebido o convite.
–Eu não sei, saí tão rápido de Atlântida que não tive tempo de ver se tinha correspondência.
–Seu convite deve estar lá então, Afrodite não se esqueceria de você. Pode ser a última oportunidade que vamos ter.
Poseidon concordou com a cabeça.
–Eu puxo ela para fora do salão de festas. Se eu conheço bem Atena, ela não vai gostar de ficar em uma festa rodeada por strippers -disse, abrindo um sorriso pela primeira vez desde que entrara naquele lugar.
–E quem gostaria? -perguntou Ártemis, com exasperado desgosto.
Poseidon sorriu.
–Acho que essa não é a nossa maior preocupação.
–Quem dera fosse -suspirou ela, olhando a esmo pelo próprio templo e depois levando os olhos a encontrarem os dele com determinação. — Eu espero que você entenda que eu não posso beijar Apolo, mas que estou tentando fazer tudo o que posso para ajudar você e Atena.
–Ah, eu imaginava que você não ia concordar em beijar ele -disse ele, dando de ombros- Mas eu tenho muito o que agradecer a você. Já é uma esperança, sabe.
Ártemis sorriu.
–Sei sim, Poseidon. Nós vamos conseguir sair dessa.
Ele olhou para ela, admirando a coragem com que disse aquilo. Ela de alguma forma inspirava uma confiança naquele momento que nem ele tinha certeza se ainda tinha. Um olhar digno de uma caçadora.
–Vamos. Pode apostar que vamos.
E sorrindo, ele saiu do templo dela, pensando que jamais imaginara ter uma conversa tão estranha com Ártemis. Mas também nunca poderia imaginar que chegaria a chorar na frente de uma deusa por causa de Atena.
Era uma semana realmente muito estranha.
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N/A: Muuuuito confuso? Me desculpem se estiver, mas espero que tenha dado pra entender ;)
E, ah, tenho boas notícias: assim que voltar de viagem, daqui uma semana, vou voltar àquele esquema de férias que fiz em julho, e vou escrever de três em três dias um capítulo novo :D
Espero que estejam gostando, de qualquer forma.
Mil beijos!
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