Um Casamento Um Tanto Bagunçado
35 Atena esquece de mais algumas coisas
Atena abriu a porta para o quarto, jogando-se na cama e nunca se sentindo tão mal antes.
Gotas escorriam por todo o seu cabelo, escorregando para os ombros e braços e sendo impedidas pela toalha que enrolava-se sobre o corpo. Outras gotas salgadas prendiam-se em seus olhos, enquanto ela fazia esforço para não chorar.
Não conseguia tirar da cabeça o que acontecera mais cedo. Era como se... outra pessoa tivesse tomado controle de seu cérebro e feito ela dizer aquelas coisas horríveis.
Será que foi realmente muito ruim?, perguntou-se mais uma vez, querendo mais do que tudo descobrir que não tinha dito nada muito grave e, principalmente, magoado ele. Por que eu não consigo parar de pensar em você, Poseidon?
E foi como se alguém tivesse enchido os seus olhos de água e ela não aguentasse mais carregar nem uma gota.
Sua dor de cabeça havia aumentado nos últimos dias, mas estava insuportável naquele momento. Pela milésima vez, o que estava acontecendo com ela?
Deitada ali chorando, Atena ouviu uma batida na porta.
–O que...? -murmurou ela com a voz fraquinha. Esperou quieta por outra batida, para garantir que não estava louca.
Ouviu quando bateram novamente, e ela saiu da cama no mesmo instante, enxugando com as mãos o rosto.
–Quem é? -perguntou, aflita e ao mesmo tempo esperançosa. Ah, sim, porque ela se viu desejando que ele estivesse ali. E tentou ocultar a si mesma a decepção quando ouviu uma voz feminina:
–Atena? É a Ártemis, você tem um tempo?
–Ah, sim, -disse, um pouco confusa- pode esperar eu me trocar? Não vou levar mais de um minuto.
–Claro, me desculpe por vir sem avisar, eu precisava conversar com você o quanto antes possível.
Atena franziu o cenho, preocupada, indoem direção ao guarda-roupa e escolhendo qualquer vestido. Trocou-se e foi para o banheiro o mais rápido que pôde.
Pelos Deuses, os seus olhos estavam vermelhos.
–E agora? -indagou-se, abrindo a torneira e jogando água no rosto.
Fechou os olhos e respirou fundo. Não queria que a vissem frágil daquele jeito. E chorando por um homem! Um homem que, além de tudo, não era o seu noivo. Ela estacou, lembrando-se de Apolo de repente. Ficou parada alguns segundos, ouvindo água escorrer pela pia. Seus pensamentos eram uma total confusão, sem ordem, cheios de lembranças de Apolo e borrões que ela não compreendia.
Percebeu a torneira aberta e desligou-a no mesmo momento. Olhando-se no espelho, viu sua pele voltando ao normal, ainda que os olhos não estivessem completamente disfarçados.
Foi em direção à porta e abriu-a, encontrando uma Ártemis que parecia aflita e agitada.
–Oi, Ártemis, me desculpe toda a demora, eu tinha acabado de sair do banho.
–Ah, pelos deuses, não peça desculpas! Eu apareci aqui de repente e já está tarde, eu é que peço pra você me desculpar. Eu preciso falar com você urgentemente.
–O que aconteceu? Pode entrar, e não ligue para a bagunça.
Mesmo com toda a sua tensão, Ártemis quase riu. O quarto dela era completamente limpo e organizado. A única "bagunça" era a sua cama, que tinha os lençóis um pouco desarrumados, como se alguém estivesse deitado ali alguns minutos antes.
–Está tudo muito arrumado, Atena, não se preocupe com isso.... Hum, você toca bateria? -perguntou de repente, franzindo o cenho para dois pratos metálicos esquecidos em cima de uma poltrona.
Atena arregalou os olhos, localizando-os, e um sorriso passeou pelo seu rosto corado.
–Ah, toco. Toco sim.
Ártemis sorriu, estreitando os olhos.
–Sabe que isso foi muito suspeito?
–Não vejo por quê.
–Certo, e onde está o resto da bateria?
–Na sala de música aqui do Olimpo, eu trouxe os pratos para, hum, praticar.
Mas ela riu.
–Atena, não se treina bateria apenas com isso. E eu não entendo o que poderia estar por trás desses dois pratos.
–Não tem nada por trás disso.
Ártemis analisou-a.
–Eu realmente gostaria de descobrir porquê está mentindo, mas receio que o que tenho pra falar com você seja mais importante que isso.
–Sente-se aqui -convidou Atena, assentindo esentando-se na beirada da cama.
Ártemis obedeceu, suspirando uma vez e olhando para o nada. Atena pensou se ela não estaria deduzindo que Poseidon estivera ali em uma manhã para acordá-la e deixara os dois pratos, mas quando virou-se novamente, a deusa da sabedoria percebeu que o seu problema era bem mais sério do que isso.
–Atena, por que está com Apolo?
A deusa fez uma expressão de dúvida, não entendendo o motivo da pergunta.
–Porque eu o amo.
–Não ama.
–Hum? -fez ela, surpresa pela resposta de sua amiga.
–Você não ama Apolo -disse Ártemis, segura.
–Sim, eu amo.
–Desde quando?
–Bem, desde... Desde que começamos a ficar juntos.
–Mas quando foi isso?
–Eu... -Atena tencionou sua expressão, parecendo pensar e não conseguir chegar a uma resposta- Ora, eu não sei exatamente.
–Uma estimativa, Atena, há quanto tempo você acha que vocês estão juntos?
–Eu não sei... Uma semana, um mês, eu não sei!
–Não faz um mês.
–Eu... Bem, acho que não mesmo.
–Não faria sentido se fizesse. Quer dizer, você me contaria caso tivesse começado a ter um caso com Apolo há tanto tempo, não é?
–Sim, claro.
E ela disse com tanta segurança, que Ártemis suspirou, sentido-se derrotada.
–Então... isso não faz sentido!
–Por que não?
–Porque você e Apolo anunciaram o casamento de vocês no domingo, mas no sábado à tarde eu conversei com você sobre ele e você não me contou sobre isso.
–Eu estava tentando fazer uma surpresa.
Ártemis poderia ter identificado de longe uma mudança em sua voz.
–Não, não estava. Essa simplesmente não é você, Atena.
–O que quer dizer com isso?
Ela suspirou.
–Sábado eu conversei com Afrodite e te contei sobre o que ela me falou. O que foi que eu te contei?
–Você... Você disse que... -Atena franziu fortemente o cenho, tentando se lembrar de alguma coisa daquele dia- Tinha um suco, em cima da mesa. De laranja. Sim, eu me lembro de beber aquele suco.
E ela sorriu, como se tivesse sido uma sensação maravilhosa.
–Estava muito bom.
–Atena, por favor, você está me desesperando, o que eu te contei? Sobre Apolo.
Os olhos da deusa se acenderam, e ela alargou o sorriso.
–Eu amo Apolo.
–Atena! Me escute!
–Você falava sobre Apolo.
–Não consegue... se lembrar?
Atena não respondeu, seus olhos vidrados.
Ártemis segurou seus ombros e a sacudiu.
–Atena! -gritou, desesperada.
A deusa deu um pulo, respirando ofegante e olhando para Ártemis de forma assustada.
–Ártemis?
–Atena, você lembra de me encontrar no sábado?
–Sim, na cozinha.
–E sobre o que conversamos quando estávamos lá?
–Sobre... Sobre...
–Você não se lembra.
Atena negou lentamente com a cabeça.
–Não faço ideia.
–Mas se lembra do suco que estava em cima da mesa. Por quê?
–Ele era bom. Muito bom.
–Tudo bem, esqueça o suco. Antes de conversar comigo lembra o que estava fazendo?
–Estava trabalhando em um projeto.
–E depois?
–Eu... -ela franziu o cenho por alguns segundos, mas depois sorriu- Me encontrei com Apolo. Foi quando ele me pediu em casamento.
–E como foi esse pedido?
–Nos beijamos assim que nos encontramos, e ele disse que precisava me pedir uma coisa fazia muito tempo -Atena sorriu, enevoada- E aí me pediu em casamento. Disse que não queria esperar muito tempo, então marcamos para uma semana depois.
–E você gostava dele.
–Sim.
Ártemis suspirou.
–Por que você não se lembra justamente da nossa conversa? -disse, mas parecia fazer a pergunta a si mesma.
–O suco era... Maravilhoso.
Ela fingiu não ouvir, tentando se concentrar em seus pensamentos.
–Alguma coisa aconteceu depois que você conversou comigo. Sim, você estava normal durante a nossa conversa. O que aconteceu depois que eu fui embora?
–Eu tomei o suco. Ele era... Perfeito.
–Sim, sim, e depois disso?
–Bem, eu encontrei Apolo.
–Antes de encontrar Apolo.
Ela franziu as sobrancelhas.
–Me lembro... Dor. Sim... senti muita dor de cabeça. Muita.
–E você tomou algum remédio?
–Não. Eu continuei andando e... acho até que caí da escada -ela riu- Mas depois vi Apolo.
Ártemis olhava para o nada, juntando as ideias na sua cabeça. E então arregalando os olhos, virou-se atentamente para Atena.
–Dizia sobre um suco?
–Ah! Muito bom. Nunca tinha experimentado uma sensação como aquela, sabe?
–Não, não sei. Sabe quem fez aquela droga de suco? Afrodite.
Ártemis se levantou, raivosa.
–Mas ele era tão bom, por que o chama de droga?
–Porque definitivamente tinha alguma droga nele. Atena, me escute, antes, naquele dia, Afrodite me convidou para conversar e disse que Apolo estava apaixonado por mim, e ela queria me fazer amá-lo de volta. Como eu disse que não faria isso, me deu aquele suco que você tomou, mas eu não bebi. Logo depois, você chegou na cozinha e conversou comigo sobre esse amor de Apolo por mim, mas quando eu estava indo embora você perguntou se podia beber aquilo. Eu disse que podia, porque achei que era simplesmente suco de laranja, e você bebeu. Depois, sentiu uma dor de cabeça terrível e se apaixonou por Apolo de repente, e ele fez o mesmo por você porque provavelmente também bebeu alguma coisa que Afrodite preparou. Desde então, você não se lembra de nada que mostre a você que não gosta de Apolo de verdade e está estranha, assim como ele. O que você consegue concluir disso, Atena?
Os olhos dela soltaram raios.
–Você está insinuando que Apolo a ama e não a mim -disse ela, a voz perigosamente baixa.
Ártemis ficou imóvel. Sentiu um estremecimento passear pelo próprio corpo, e ela não sabia o que fazer.
–Atena, me ouça. Afrodite te deu uma poção do amor. Eu tenho... Certeza. Ou pelo menos algo muito perto da certeza.
Atena se levantou, raivosa, do lado de Ártemis.
–Você está duvidando do meu amor por Apolo. Está duvidando do amor dele por mim. Quem você pensa que é? Está solitária com o seu grupinho de caçadoras e resolve estragar a minha vida amorosa?
–Atena, se acalme.
–Não me mande ficar calma!
–Não estou mandando -disse Ártemis, em voz baixa, segurando o braço de Atena- Só estou pedindo. Me desculpe. Eu não vou repetir nada do que eu acabei de dizer.
Os olhos dela perderam aquele brilho e tornaram-se cinza azulados, em uma confusão de sentimentos.
–Ai -fez Atena, fechando os olhos. Ela sentou-se na cama, apoiando uma mão na cabeça- Está doendo muito.
A deusa levantou os olhos para Ártemis, a expressão confusa e inocente.
–O que... O que você dizia? Me desculpe -ela abriu um sorriso leve-, eu não estou conseguindo pensar direito.
E então os olhos de Ártemis ameaçaram marejar.
–Oh, Atena.
–O que foi?
–Você... Se lembra do que acabamos de conversar, certo?
Atena balançou a cabeça lentamente, com o cenho franzido.
–Falávamos sobre os dois pratos de bateria, eu acho. Deuses, como ando esquecida esses últimos dias!
Ártemis sentiu vontade de chorar, mas decidiu ficar quieta. Depois do jeito que Atena gritara com ela, a deusa sabia que era melhor não dizer mais nada sobre a poção. Pelo menos até falar com Afrodite. E então notou pela primeira vez desde que entrara no quarto que os olhos de Atena estavam avermelhados.
–Você estava chorando? Antes de eu chegar?
Atena corou.
–Ah, não.
–Você... É realmente uma péssima mentirosa.
Atena sorriu, sem graça.
–Eu... Posso confiar em você, não é?
–É claro que sim.
–Certo... Eu estava chorando porque... Porque tive uma, hum, briga feia com Poseidon e acabei ofendendo-o de um jeito muito ruim, acho. Argh, quem sou eu, afinal? Desde quando choro porque ofendi Poseidon?
Ártemis quase abriu um sorriso, mas conteve-se.
–Por que vocês brigaram?
–Porque... Bem, acho que... Acho que não estou exatamente pronta pra te contar isso.
–Contar o quê?
–Eu... Eu... É que, você sabe, Poseidon... Me beijou -ela ficou vermelha- e eu disse que amava Apolo logo depois e que Poseidon nunca substituiria ele. Algo assim.
Ártemis boquiabriu-se e ficou um tempo sem dizer nada.
–Meus deuses, o quê? Você beijou Poseidon?
–Não! Ele me beijou!
O queixo dela continuou caído.
–Certo, eu esperava por tudo, menos essa. O que você quer dizer com isso? Vocês estão juntos? Mas você vai se casar com Apolo!
–Eu amo Apolo -repetiu ela, automaticamente, franzindo o cenho logo depois- Quer dizer... Droga, não estou entendendo nada! Foi exatamente isso que aconteceu, eu estava beijando-o e de repente parei para dizer que amava Apolo. Não que seja mentira, eu amo mesmo ele -Atena exasperou-se- Ártemis, pelo amor dos deuses, me ajude!
–Esqueça Apolo! Você falava sobre Poseidon. Desde quando vocês estão juntos?
–Eu não estou com ele.
–Mas vocês se beijaram.
–Eu... Eu estou tão confusa. Porque eu amo Apolo, mas meu coração... acelera quando vejo Poseidon. Eu estou traindo o amor da minha vida! Isso é completamente errado e irracional!
–Você gosta de Poseidon.
–Eu gosto de Apolo.
Ártemis respirou fundo.
–Tudo bem, você gosta de Apolo e de Poseidon.
–Não, só de Apolo.
–Então... Me conte como se sente quando está perto de Poseidon. Mesmo com todo o seu ódio por ele.
–Eu... Não sei. Me sinto normal.
–Mas mesmo assim o seu coração acelera.
Atena abaixou a cabeça.
–Ele é tão carinhoso comigo. Mesmo contando as vezes em que ele xinga Apolo -riu ela- É... Bom estar perto dele. Ele é engraçado e consegue te confortar quando você não está bem. Está sempre sorrindo de um jeito lindo e... Te beija e faz com que você se sinta especial. Como se ele realmente gostasse de você.
Ela ficou em silêncio e quando levantou a cabeça pôde ver o sorriso confuso de Ártemis.
–Sabe, não sei se fico triste porque você gosta de um homem, ou se fico feliz porque tenho certeza de que gosta de Poseidon.
–Eu não gosto de Poseid--
–Tudo bem... Esqueça.
E o que eu faço para te ajudar, hein Atena? Pensou ela, suspirando e começando a ficar realmente preocupada com tudo aquilo.
–Posso te dar um conselho?
Atena afirmou com a cabeça, os olhos atentos.
–Pare de ouvir o que a sua cabeça está mandando você fazer. Você e Poseidon poderiam estar muito bem juntos, mesmo que você não vá admitir isso agora. Ouça o seu coração.
Atena franziu o cenho, confusa.
–Achei que fosse contra o envolvimento com homens.
Ela sorriu e deu de ombros.
–Só acho que você ficaria feliz junto com ele.
–Eu... Não sei.
–Você ainda tem tempo pra pensar. E com calma, não precisa se desesperar.
–Hum... Meio difícil -riu Atena, fazendo Ártemis sorrir.
–Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço, Atena. Vai saber como sair dessa... E eugostaria de ficar aqui te ajudando, mas acho que agora preciso deixar você descansar.
Atena assentiu, abraçando Ártemis.
–Muito obrigada por tudo.
Elas se desvencilharam, e Ártemis sorriu.
–Eu vou estar sempre aqui. Espero que você saiba disso.
Atena assentiu, sentindo algumas lágrimas nos olhos.
–Eu sei de tudo.
Ártemis riu, mas seus olhos também marejaram quando a porta foi fechada atrás de si.
–Nem de tudo, Atena.
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N/A: Pobre Atena ),:
Eu realmente espero que me desculpem por toda a minha demora e drama durante esse capítulo. Sério, não sei como vocês ainda me aguentam.
E muito, muito obrigada pela recomendação, Kate Bosswel ♥ Eu fico sem palavras com esse tipo de coisa, ownnn *u*
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