Já era noite. O lago do Olimpo refletia como um espelho a lua, que brilhava redonda e branca lá no alto. A água se movia tranquilamente, e havia luzes douradas nas árvores, iluminando a natureza. Era lindo.

Poseidon estava ali, apoiado com as costas em um tronco grande que se erguia até que as folhas verdes e macias aparecessem.

Sentia vontade de ir até o quarto dela, mesmo que precisasse arrombar a porta para vê-la e... discutir um pouco. Até que ele não aguentasse e a beijasse. De novo, e de novo, só para sentir por um momento os lábios macios dela sobre os seus, junto com aquela sensação maravilhosa que nunca lhe sairia da cabeça.

Droga, a boca dele ficava seca só de pensar. No entanto, o último fora que havia levado tinha desencorajado-o de uma forma inimaginável.

Imerso em pensamentos (todos eles sobre Atena), ele não percebeu de imediato uma luz. Poderia ser qualquer uma, afinal. Mas era de uma cor diferente, e se acendeu de repente. Vermelho?

–Rosa -Poseidon franziu a testa, vendo-a agora e, estreitando os olhos, ficou analisando a forma que brilhava ao longe.

Mas logo surgiram as curvas de uma mulher muito bonita, que mesmo à distância parecia desesperada.

–Afrodite?

Ele se levantou.

–Afrodite! -gritou, para que ela pudesse ouvir.

A deusa se virou, identificando-o e abrindo um sorriso enquanto corria elegantemente em seu salto alto até onde ele estava.

–Poseidon! -exclamou, pulando nele e o abraçando.

–Olá, Afrodite -disse ele, correspondendo ao abraço e não podendo deixar de abrir um sorriso.

–Oh, meus deuses! Faz tanto tempo que não te vejo!

–Faz menos de uma semana, na verdade.

Ela deu de ombros graciosamente.

–Em pouco tempo muitas coisas podem acontecer.

–Ah, é, depois desses últimos dias eu nunca mais subestimo isso. Preciso conversar seriamente com você.

Afrodite franziu os lábios.

–Oh. Tem a ver com a carta, não tem?

–Sim. Acho que precisamos ir para outro lugar, aqui alguém pode ouvir.

–Hum... Não, vamos só um pouco mais pra lá -ela voltou os olhos para um ponto mais distante, caminhando alguns passos e ficando mais longe de onde passavam os deuses. Poseidon seguiu-a, e vendo que ela parara e olhava curiosamente para ele, esperando que falasse, ele suspirou.

–Afrodite, preciso te contar uma coisa.

Ela assentiu.

–Estou ouvindo.

–Certo, e você também não vai contar isso pra ninguém.

–Aham.

Poseidon soltou outro suspiro, bagunçando o cabelo e pensando por onde começar. Ela notou, curiosa, o quanto ele estava embaraçado, o que não era próprio dele.

–Eu... -o deus respirou fundo, olhando para os olhos dela- Eu acho que... Eu estou apaixonado por uma mulher.

Ela abriu a boca. E depois de um ou dois segundos, sua reação veio, e ela sorriu de orelha a orelha.

–Você está apaixonado? Oh, meus deuses! Por quem?!

–É, esse é o problema.

–Problema? Por quê?

–Porque ela vai se casar daqui a dois dias.

Afrodite parou de dar pulinhos, franzindo a testa.

–Espere, ela vai se casar daqui a dois dias?

–Foi o que eu disse.

–Mas... eu jurava que era Atena.

–Sim, é Atena -Poseidon franziu a testa- como você sabe?

–Atena? Não é Ártemis?

–Ártemis? Mas você acabou de... O que Ártemis tem a ver com isso, afinal?

–Ela vai se casar.

–Ártemis vai se casar?

–Sim, daqui a dois dias.

–O quê?

–Eu não estou entendendo. Você não sabe do casamento?

–Desse com certeza não. Com quem Ártemis se casaria?

–Com Apolo.

–Mas Atena vai se casar com Apolo.

–Atena vai se casar com Apolo? -Afrodite arregalou os olhos- Mas... Como assim?!

–É, eu também não entendi direito essa parte.

–Pelos deuses, o que está acontecendo?

–Eu é que pergunto!

Ela calou-se, os olhos arregalados e a expressão de completa surpresa.

–Vamos... organizar o que está acontecendo.

–É, seria muito bom.

–Certo, você está dizendo que... Atena vai se casar com Apolo.

Havia medo em sua voz, e Poseidon franziu as sobrancelhas.

–Sim, ela vai. Por que achava que era Ártemis?

–Porque... Porque eu... Poseidon, eu cometi um erro.

–Afrodite, o que você fez? É por isso que Atena está estranha?

–Atena está estranha -repetiu ela, e parecia que ia chorar.

–Você está me assustando. O que você fez, Afrodite?

Ela franziu os lábios, e relançou o olhar para baixo.

–Antes de tudo, me desculpe.

Ele fez um sinal com a cabeça para que ela continuasse, e Afrodite suspirou.

–Eu estava cansada. -começou- Apolo tinha ficado no meu pé por sete dias, me pedindo ajuda porque estava apaixonado, e Ártemis, sendo aquela que rejeita os homens acima de tudo, nunca o amaria de volta. No entanto, eu não sabia o que fazer. Pedi para que ele conversasse com ela e tentasse explicar o amor que sentia e, quem sabe, ela pelo menos tentaria ser menos dura com ele. Mas Apolo não me ouvia. Passava horas e horas falando e elogiando-a no meu ouvido, e não me deixava em paz. Até que ele teve uma ideia: enfeitiçar Ártemis. Eu nunca havia nem pensado nessa possibilidade e a achei completamente absurda. Disse a ele que o amor estava cegando-o, mas ele não estava exatamente me ouvindo, e continuou testando a minha paciência. E então, chegou ao ponto que eu não aguentava mais. Talvez, se tivesse ficado quieta, Apolo pararia de me perturbar alguma hora. Mas eu estava muito irritada, e concordei em fazer o que ele me pedia, mesmo sabendo os riscos que corria.

–Assim que me vi livre dele naquele dia, nesse último sábado, pensei no que poderia fazer para manipular a poção que daria para Ártemis. E então me veio uma solução: a rejeição natural por homens que ela sentia. Se o que eu desse para ela não fosse algo muito forte, logo o efeito iria acabar, porque a cabeça dela está programada para ignorar Apolo. Então, eu passei o resto da manhã preparando a poção fraca que daria para ela. Sinceramente, não sei onde estava com a cabeça, mas sob o pensamento que o efeito só duraria por poucos dias, eu acho que não me importei, lembrando ao mesmo tempo de como Apolo não saía do meu pé havia dias.

Ela fez uma pausa, franzindo os lábios e observando Poseidon olhá-la atentamente.

–Eu então... Precisava pôr o meu plano em ação. Eu... Bem, vou te contar até onde eu sei.

Pov. Afrodite.

Uma semana atrás.

A luz do sol iluminava a cozinha, mas ela nunca parecera tão escura para mim. Estava em pé, refletindo sobre o que teria que fazer. A poção já estava misturada com um suco que eu fizera às pressas, mas ainda tinha esperanças de não usá-la, caso Ártemis fosse compreensiva. Tinha chamado-a, e queria conversar com ela, antes de qualquer coisa.

E não demorou muito para que chegasse.

–Boa tarde -desejei, sorrindo e cumprimentando-a.

–Boa tarde.

Ela seguiu meu movimento, tentando abrir um sorriso para parecer gentil. Mas dava para perceber de longe que não estava à vontade.

–Er... Você quer conversar comigo?

–Sim, é muito importante. Hum, acho melhor sentarmos.

Ártemis assentiu, e logo nós duas estávamos de frente uma para a outra, com uma mesa separando-nos.

–Quero perguntar uma coisa a você.

–Pode falar.

–Como se sente em relação a Apolo?

Talvez a pergunta a tenha pego de surpresa, porque pude perceber um estremecimento no seu rosto.

–Como assim "como me sinto em relação a Apolo"? Ele é meu irmão irritante. E homem.

–Aham -eu fiz, sorrindo- Mas quero que me fale a verdade.

Ela me olhou por alguns segundos.

–Afrodite, realmente, se está aqui para tentar me convencer que amo Apolo, ou me irritar por causa disso, eu vou embora.

–Mas nós mal começamos a conversar! Eu não quero que se irrite, por favor. Só quero saber se você pode assumir que gosta dele, mesmo que seja como irmão.

Ártemis suspirou.

–Ele é homem -disse, pausadamente.

–Ártemis, estou falando sério.

–E por que quer saber disso?

–Porque... Apolo gosta de você. Muito, e não é bom quando uma pessoa que amamos nos ignora como se não significássemos nada.

Os olhos dela brilharam e por um instante achei que fosse brigar comigo. Mas então abaixou o olhar.

–Não estou dizendo que gosto dele, mas quero saber o que você quis dizer com isso.

–Sobre ele amar você?

–Sim.

–Não sei como posso te explicar, e acho que ele faria isso melhor do que eu, mas Apolo simplesmente sabe que você daria um fora nele.

–Está dizendo que ele me ama.

–É, exatamente.

Ela ficou quieta por alguns momentos.

–Eu não sei o que dizer. Apolo ainda é um homem.

–Você tem que parar com isso.

–Não vou parar com isso.

–O que significa que você nunca vai dar uma chance a ele.

–Eu sabia que você tinha vindo aqui para isso.

–Eu só queria te pedir para ser mais sensível com ele.

Ela franziu o cenho.

–Mas é um instinto natural, certo?

–Que você pode controlar para não magoá-lo.

–Você não está entendendo. Eu odeio homens, não posso "controlar" a repulsa que sinto por eles.

Eu observei-a por alguns segundos, até me levantar e seguir até a geladeira, me sentindo péssima.

Peguei uma jarra de vidro, onde um líquido laranja fazia sua função ao disfarçar a poção que ali dentro estava.

–Estava com sede e fiz antes de você chegar. Tinha que ir agora, mas acho que posso esperar um pouco até terminarmos de beber.

–Ah, obrigada -ela disse, aceitando o copo que eu lhe estendia.

Pensei ter visto insegurança em seus olhos, mas então observei quando ela virou-o um pouco, bebendo o suco e a poção.

Sem saber como sair dali sem que ela percebesse que eu não tinha bebido o que estava no meu copo, resolvi dizer que precisava ir ao banheiro.

Ela assentiu educadamente.

–Certo, eu... Obrigada pela conversa e pela bebida.

–Não precisa me agradecer. Eu... Preciso ir. Até logo.

–Até.

E então, eu fui embora para o meu quarto, arrumando minhas malas para partir para Paris.

–E depois disso, não fiquei sabendo de mais nada até hoje, quando Apolo me mandou uma carta dizendo que ia se casar neste sábado.

Poseidon estava travado, como se tivesse esquecido de como se dizia alguma coisa.

–Afrodite... Você... O que foi que você fez?

E a voz dela era tão incrédula, que ela enfim não tentou mais impedir os olhos de marejaram.

–Poseidon, me desculpe. Me desculpe.

Ela sufocou a voz, deixando lágrimas caírem.

–Eu não sabia o que estava fazendo. Estava tão irritada com Apolo! E.. -ela fungou- a poção não ia durar mais que alguns dias, eu juro, mas de alguma forma Atena deve ter bebido o suco e... e...

–Mas como você deixa uma jarra de suco enfeitiçado em cima de uma mesa?

–Eu tinha visto Ártemis beber, e a partir do momento que ela recebe a poção dentro do próprio corpo, é como se o resto que estava no suco não fizesse mais efeito em ninguém.

–Mas... Atena...

–Eu não sei, -chorou ela- talvez Ártemis não tenha realmente bebido e depois dado para Atena por algum motivo. Eu... Eu não... Oh, meus deuses.

Ela sufocou um soluço, começando a chorar de verdade.

–Não chore -pediu ele, ainda chocado- Eu mal sei o que falar.

–Oh, me desculpe!

Ela se sentou no chão, agarrando os próprios joelhos e derramando lágrimas.

–E agora eu estraguei o seu amor com Atena! Eu sou horrível!

–Não tem nada que eu possa fazer pra reverter o efeito?

Afrodite fungou e levantou a cabeça.

–Tem um jeito, mas seria praticamente impossível.

–Não importa, me diga o que eu tenho que fazer.

Ela se levantou, enxugando o rosto com um lencinho que trazia na bolsa.

–Se... Se você despertar o amor de Atena ao mesmo tempo que Apolo tenha o seu amor despertado por outra pessoa por quem é apaixonado, o efeito da poção acaba. O problema, é que a única pessoa que pode fazer isso por Apolo é Ártemis, porque ele era apaixonado por ela antes de estar sob o efeito da poção. E você sabe pela conversa que eu acabei de relatar, que Ártemis não aceitaria fazer qualquer coisa para que Apolo voltasse a amá-la.

–Então eu converso com Ártemis e eu peço para ela me ajudar. Eu imploro, se for preciso. Eu... Preciso de Atena.

Afrodite tombou a cabeça para o lado, soluçando mais um pouco.

–Ownnn, está vendo? Olhe o que eu fiz! Vocês poderiam ser perfeitos juntos, mas nããão, eu tinha que fazer alguma coisa estúpida só por causa da minha raiva descontrolada!

–Afrodite, por mais que eu esteja bravo com você, não quero que fique assim. Ainda temos uma esperança, certo?

Ela enxugou mais uma vez os olhos com os dedos delicados.

–Acho que sim. E eu vou planejar tudo o que conseguir para que nós possamos reverter isso.

Poseidon assentiu.

–Só que você não vai usar nunca mais uma poção do amor. Isso foi completamente absurdo -bronqueou, e depois suspirou, passando a mão por todo o rosto. Ficou alguns segundos em silêncio, pensando.

–Afrodite?

–Sim?

–Se eu disser para Atena que ela está enfeitiçada, o que vai acontecer?

–Oh, não faça isso. O feitiço provavelmente vai remexer os sentidos dela, e ela vai brigar com você, mas é como se a poção estivesse tentando convencer a própria Atena de que ela não está enfeitiçada. Entende?

–É, acho que sim. E o que eu faço?

–Converse com Ártemis. Eu faria isso, mas ela ficará brava porque vai saber que eu tentei dar uma poção a ela, então duvido que me ajudaria. Mas quem sabe se você pedir... -ela suspirou- Eu não sei, Poseidon. Temos que tentar.

Ele assentiu.

–Certo, sem Atena por hoje.

E Afrodite sorriu tristemente.

–E tomara que seja só por hoje mesmo.

Olhando para a deusa, Poseidon enfim percebeu a encrenca em que tinha se metido.

N/A: Só pra deixar claro, eu amo Afrodite. Muito. Não a vejam como uma vilã, por favor.

E muuuuuito obrigada pelos reviews e principalmente pela recomendação, Bruna Jackson ♥ Sério, vocês são simplesmente pessoas muito amáveis comigo, mesmo que eu não mereça isso. E eu vou responder todos eles em breve, prometo.

P.S. Eu simplesmente estou implicada com esse capítulo, mas resolvi postá-lo de uma vez, porque faz uns dois dias que ele já está pronto e eu fico revisando-o milhões de vezes. Estou ficando maluca, sério. Se estiver realmente ruim, peço minhas sinceras desculpas :/