Um Casamento Um Tanto Bagunçado
16 Ártemis desconfia de Atena
Apolo estava sorrindo de forma radiante quando chegou à cozinha do Olimpo. Um grande banquete se estendia pela mesa e o lugar estava bastante movimentado. Não eram todos os deuses que se encontravam lá, mas estava estranhamente mais cheio do que nos outros dias.
Ainda assim, vários lugares na mesa estavam desocupados, fazendo-o passar por um momento de dúvida sobre que lugar ocupar. Até ver sua irmãzinha e abrir um sorriso caminhando até lá.
–Boa noite, Ártemis!
–Boa noite, Apolo.
Ela fez uma careta, como se não lhe agradasse o fato de ter um homem a menos de um metro de distância.
–E como vão minhas doçuras?
–Suas doçuras?
–Caçadoras, eu quis dizer.
–Elas não suas e eu já te falei milhões de vezes pra não chamá-las desse jeito.
-Hum, e você eu posso chamar assim? -perguntou, sorrindo maliciosamente.
Com um suspiro exasperado e as bochechas coradas, ela voltou a jantar, tentando não ligar para ele.
Passado um tempo, porém, Apolo já voltara a falar com ela.
–Hoje foi um dos melhores dias da minha vida. O tanto de vinho que eu tomei faria Dionisio ficar de boca aberta! -contou, divertido.
–E por que exatamente você estava tomando vinho? -havia desprezo em sua voz.
–Ah -sorriu ele- Estava degustando para o casamento.
Ela franziu a testa. Tinha até esquecido que ele iria se casar com Atena.
–Por que mesmo Atena, uma das minhas melhores amigas e a mais inteligente delas vai se casar com você e abandonar nosso voto de castidade? Isso não faz nem sentido.
–O amor nunca faz sentido.
Ela franziu os lábios.
-Isso é tão estranho -murmurou, voltando o olhar para o próprio prato que outrora estava cheio.
–Por que estranho?
Ártemis olhou pra ele, e Apolo sentiu uma faísca atravessar seu olhar.
-Apolo, você... Argh, deixe pra lá.
O deus deu de ombros.
-Bem, você vai no casamento, não é?
Ela suspirou, parecendo um pouco irritada.
-Não sei se quero ver minha melhor amiga abandonando a nossa causa pra ficar com você. O que fez com ela, afinal?
–Eu não fiz nada com ela! Aliás... -ele franziu muito as sobrancelhas, tentando lembrar algo -Eu precisava dizer alguma coisa pra você. No sábado eu precisava, na verdade, mas não consigo me recordar o que era...
–Sábado? Por que sábado?
–Hum.... Não lembro, quando lembrar te direi -ele disse, abrindo um sorriso branco logo depois.
Ártemis analisou-o por alguns poucos segundos e depois deu de ombros, soltando um grande suspiro e se levantando para ir embora.
–Já vai? -perguntou, um desapontamento transparecendo em sua voz sem ele ao menos se preocupar com esse fato.
–Hã, sim, eu terminei de comer.
–Bem, então boa noite, Ártemis! -ele abriu um outro sorriso.
–Boa noite -murmurou, e se virou, trombando com Atena.
–Me desculpe! -disse ela. -Oh, Atena! Precisava mesmo falar com você.
Mas então a deusa da sabedoria olhou por cima de Ártemis e viu Apolo.
Seus olhos mudaram de cor, do cinza para um azul claro enquanto ela abria um sorriso alegre e automático.
–Amor!!
Ele se levantou da cadeira em um pulo, como se tivesse recebido uma ordem para que ficasse de pé. Olhando para ela agora e com os olhos azuis mudando para o tom claro em que os olhos dela se encontravam, Apolo abriu um sorriso gigante e caminhou até Atena lhe dando um abraço forte.
–Oi, minha linda! -ele abriu os olhos enquanto a abraçava e observou Ártemis os observando um tanto constrangida. Imediatamente, ele se afastou um pouco de Atena.
–Oh, me desculpe, as duas queriam conversar?
Seus olhos haviam voltado ao tom normal.
–Ah, na verdade eu queria sim. -respondeu ela.
–Oh Ártemis, por favor, posso conversar com você amanhã?
A deusa franziu o cenho, mas assentiu.
–Claro. Assim que eu te encontrar nós conversamos.
-Muito obrigada! -disse Atena, abrindo um sorriso e pulando em cima de Apolo de novo.
Ártemis ergueu um pouco a sobrancelha, com a boca repuxada, e decidiu ir embora.
Enquanto caminhava pelos jardins, avistou um pequeno pedaço de terra coberto pela grama mais verde em todo o Olimpo. Alguém estava ali deitado, provavelmente observando as estrelas. Não que ela quisesse vê-las também, mas andou até ali, descobrindo Poseidon com um sorrisinho no rosto enquanto olhava para a imensidão do céu.
–Hã, costuma vir aqui? Nunca te vi antes nesse lugar e eu venho aqui quase toda noite -disse ela, enquanto ele se virava com um susto para onde ela vinha.
–Ártemis?
–Não quero atrapalhar nada. Mas soube que tem andado por aí com Atena.
Ele passou a mão pelo cabelo.
–Na verdade hoje nem me lembro se cheguei a encontrá-la.
–Mas passou ontem o dia inteiro com ela, certo?
–Hã, é, sim.
Ela mudou o peso de uma perna para a outra.
–Por que ela vai se casar?
Ele deu de ombros, tentando mostrar que não se importava, mas Ártemis pôde perceber um certo estremecimento pelo seu corpo.
–Porque ela... Ama Apolo.
A deusa franziu o cenho.
–Mas... Arght, eu não entendo!
–Bem... Você é uma deusa castra e tem uma rejeição por homens e etc -disse ele, sem saber ao certo o que falar.
–Não, não é isso! Poseidon, Atena não tinha um caso com Apolo. Por que do nada eles resolvem se casar?
Ele pareceu pensar.
–Isso te incomoda?
–Mas é claro! Atena é minha amiga mais sensata! Não pode estragar a vida dela com homens inúteis! Principalmente... com o irresponsável do meu irmão.
–Ei! Nem todos os homens são inúteis.
Ela o olhou por alguns instantes, mas depois suspirou.
–Deixe pra lá. Eu só queria... entender o que está acontecendo.
-Eu também -disse ele, com os olhos brilhando por um momento.
-Se você puder me ajudar a entender Atena, eu adoraria que o fizesse. Mas... se ela realmente o ama... -ela fez uma careta, como se a ideia fosse absurdamente desagradável.
Ele balançou a cabeça positivamente, concordando.
–Eu... Prometo que falo com você se descobrir alguma coisa.
Ela assentiu e depois pareceu lembrar que estava falando com um homem sozinha por mais minutos do que seu voto e castidade permitiam.
–Preciso ir, e por favor não se esqueça de falar comigo. Atena está parecendo Afrodite.
–Claro. Boa noite, Ártemis.
Ela acenou com a cabeça e foi embora.
Poseidon deitou de novo a cabeça na grama verde. Adorava aquele lugar, e as estrelas pareciam ainda mais bonitas dali. Em suma, era ótimo para pensar e se distrair pelo tempo que precisasse.
No seu palácio as gêmeas ainda brigavam. Pelo máximo que sua mente foi capaz de compreender, Lívia estava tentando jogar Sam (um amigo de Poseidon que morava quase ao lado do castelo) para cima da Lara. O dia inteiro fora isso, e as duas discutindo. Quando chegasse em casa iria dar uma bronca para que parassem, mas sabia que isso nunca adiantava.
Mas, bem, isso não era sua maior preocupação.
Ele sabia que Ártemis estava certa. E amou ouvir de mais uma pessoa que Atena não tinha... uma relação com Apolo. Talvez isso lhe tivesse dado... Esperanças? Talvez, pensou ele, ao mesmo tempo que tentava afastar essa ideia de sua cabeça. Mas ele não podia negar que se pudesse e se não fosse tão orgulhoso quanto era, estaria caído aos pés de Atena naquele exato momento lhe pedindo que ao menos explicasse o por que desse casamento. Não podia ser porque ela amava Apolo. Simplesmente... não podia. Ah!, e ele usaria a ajuda de Ártemis... Tinha a impressão de que ela poderia ser extremamente útil quando chegasse a hora.
Poseidon suspirou, analisando o céu com os olhos voando sem ter uma direção certa.
–Vai dar tudo certo. -murmurou, sem saber ao certo o que dizia.
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