Um Caminho Diferente para a Vingança
15 Lembranças
Notas iniciais
Mais um gole penetrou sua garganta. O embate com a sogra não poderia tê-lo machucado mais. Ele recordava o passado. Ah se pudesse voltar no tempo. Ah se todos soubessem...
Ele e Cora haviam crescido juntos. Apesar de ele ser o príncipe herdeiro, o rei Richard, seu pai, sempre o incentivara a conhecer seu povo. Não há como administrar algo que se desconhece. E foi por isso que ele e Cora se conheceram, ainda crianças enquanto ele e seu pai exploravam, disfarçados, a vila.
A empatia foi imediata e logo os dois se tronaram melhores amigos. Estavam sempre juntos todas as vezes que ele ia a vila. Mas ele não lhe contara que era o príncipe herdeiro. Para ela ele era o filho de um nobre que por acaso era seu melhor amigo, um irmão que ela nunca tivera.
Quando chegaram na adolescência, ele resolveu lhe contar a verdade: era o príncipe herdeiro. Para ela foi difícil no começo vê-lo como seu soberano. Ele sabia que poderia perder a amizade, afinal mentira durante anos. Mas Cora entendeu. Sabia que primeiro ele teria que confiar nela. Ela não era nobre, não seria uma companhia aprovada para o futuro rei. Entendeu que, se não tivesse mentido, eles jamais seriam amigos. “Tudo bem” ela disse após ele lhe contar. E ele achou que nada mudara.
Então ela tivera acesso ao palácio e conhecera Stuart, o irmão de Eva. Eles estavam noivos até que um dia Leopold a surpreendeu enfeitiçado Eva. Ele se sentiu traído... Uma bruxa? Ela tinha desculpas na ponta da língua, mas não o convenceu. Ele a denunciou e ela aceitou ser banida ao invés de ser morta. E ele não a vira mais... Não até pedir Regina em casamento e ver Cora. Eles mal se falaram desde então... Mas o tom da conversa mostrava a magoa que ainda existia entre eles.
Leopold balançou a cabeça afastando as lembranças. “É passado” pensou. Será que era... Será que ele e Cora precisavam por uma pedra naquilo? E tinha Regina... Sua amada Regina. Ah ele se apaixonara perdidamente por ela... Não suportava a ideia de perde-la. E se Regina descobrisse? Não seria melhor, talvez, contar a verdade? Não! Ela o odiaria... Ele não suportaria...
— Léo?
A voz dela interrompeu seus pensamentos. Ele ergueu os olhos e viu aquele monumento na sua frente
— Oi amor. Falou com as crianças?
Ela deu de ombros e sentou-se na poltrona oposta a dele. Aquilo o machucou... Detestava magoa-la. Mas não suportava a ideia de vê-la em perigo
— Foi o jeito... – a resposta veio seca
Ela o encarava cética. Ele não entendia o olhar dela
— Sabe que faço para o bem de vocês
— Para o nosso ou para o seu? – ela retrucou
— Você está gravida!
— E você sabe o quanto o conselho vai te manipular!
Ele levantou a sobrancelha
— Regina eu sou o rei!
— E o conselho não se convence disso!
Ele fez que ia falar, mas ela continuou
— Não vê a forma como Severo fala? Eles acham que tem mais autoridade que você! – ela agora alterava o tom de voz
— E acham que você tem autoridade? – o tom dele era irônico
Ela entendeu, mas não se entregou
— Também – ela o olhava nos olhos – Mas não é essa a questão
— E a questão é?
O clima era de embate
— Que eles te respeitam mais quando eu estou por perto
Leopold ponderou aquelas palavras tentando decifrar o que a esposa queria dizer
— Continue – ele queria ver ate onde ela ia
— Nunca notou – ela continuou – que eles temem a sua reação se alguém falar algo que possa me desagradar?
Ele parecia confuso
—Ah, céus! Os homens são muito lentos... – ela disse com ironia
—As mulheres é que são complicadas – ele retrucou e ela riu
— A reunião hoje, por exemplo. Você não percebeu a cara do Severo quando falava comigo? Ela claramente olhava pra você com medo da sua reação... E no final foi a SUA decisão, claro com a minha concordância, que prevaleceu. – Ele agora começava a entender – E se você fosse um pouquinho mais esperto, iria me usar ao invés de me afastar
— Ta querendo dizer que o instrumento que eu tenho para controlar o conselho...
— Exato. – ela completou – É uma guerra e cada um vai querer livrar sua província. Cabe a você liderar e tomar as decisões... E você não pode dobra-los sem ter como respaldo o medo deles da sua, digamos, possessividade por mim...
Leopold ponderou mais um pouco. Por fim falou
— Sabe qual a verdade Regina? – ele a encarava nos olhos enquanto se levantava para ir para perto dela – É que você sempre consegue o que quer – ele agora estava sentado ao lado dela
—Isso quer dizer? – ela o olhou como uma criança que espera a confirmação de que tem o que quer
—Você fica – ele disse por fim – Só as crianças vão para a casa dos seus pais
Ela sorriu triunfante. Ela tinha que ficar, ele sabia que ela tinha razão. Ainda assim, ganhar uma discussão era sem dúvida uma excelente sensação. Ele a encarou profundamente
— Eu te amo Regina! – ele disse inclinando-se para beija-la.
Ela retribuiu. O agarrou com força para que ele não quisesse uma resposta. Ela não podia dizer o mesmo. E isso doía profundamente.
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Cora bateu a porta atrás de si ao entrar no quarto. Ainda se lembrava a expressão de Leopold quando a entregara, mais de viste anos antes. Ela se sentira traída pelo seu melhor amigo. Andando pelo quarto, ela se recordava da amizade que haviam construído através dos anos. Se lembrava da surpresa que tivera ao descobrir que ele era o príncipe herdeiro. Mas não fora apenas Leopold que escondera segredos. Ela lhe escondera seu, como ela gostava de chamar, dom.
Na época bruxaria era punível com a morte. E ela era bruxa. Nascera assim... Podia fazer coisas acontecerem. E gostava da sensação.
Quando Léo lhe revelou a verdade – ela lhe revelara anos mais tarde — pensou em contar. Mas temeu por sua vida. Não que ele fosse lhe entregar, não era isso, ela confiava nele. Mas temia que por um descuido ele desse com a língua nos dentes.
Conforme foram crescendo, Cora passou a ter acesso ao palácio. Entrou como empregada para ter uma desculpa para entrar no palácio. Em pouco tempo já era criada de sua mãe e passara a ter acesso ao salão e, consequentemente, aos nobres. Foi em um dos sarais que participara que conheceu Stuart.
Futuro duque de Habisburgo e primo distante de Léo. Foi paixão à primeira vista. Ela não escondeu sua origem, mas omitiu que era bruxa. Em pouco tempo começaram a namorar.
Nesse meio tempo, a irmã de Stuart, Eva, se aproximou de Leopold.
Eva era arrogante e prepotente. Se sentia o ultimo biscoito do pacote e achava que todos sempre deveriam mima-la. Cora jamais gostara dela. Achava-a falsa. Não surpreendentemente Eva também não a suportava. As duas se aturavam pois amavam Leopold e Stuart.
Mas numa tarde, as duas haviam discutido, por um motivo que ela não se lembrava mais. Cora soltou, sem querer um feitiço em cima de Eva, revelando sua verdadeira condição. Eva não disse nada. Apenas saiu correndo. Durante um mês ela não se manifestou e Cora achou que ela a havia esquecido.
Doce engano. Numa tarde ela praticava um pouco, tentando canalizar sua magia, quando Leopold e Eva o surpreenderam. Ele não quis escuta-la. Apenas entregou-a. Não se falaram mais ate ela ser banida.
Ela reprimiu uma lágrima. Stuart... Seu Stuart. Eles se amavam, mas tal qual Leopold ele não quis ouvi-la, nem quando ela tentava dizer-lhe que estava gravida. Ela entrou em pânico... O que faria sozinha... Rejeitada e com um bebê?
Novamente as lembranças brotavam
— Sozinha dear? – uma risadinha se seguiu ao som da estranha voz
—Quem é você? – ela perguntou com desdém
— A questão é... Quem é você? – risadinha novamente
— Apenas uma banida – Cora respondeu seca
— Sure... Deixe-me advinhar: acusação de bruxaria... acertei?
Ela o encarou
— E você é?
— Oh... Perdoe minha falta de educação... Rumplestilskin... As suas ordens – ele fez uma profunda reverencia
— Legal... Agora sai do meu caminho...
— Tem certeza? – ele a deteve – Eu poderia te ajudar...
— Não, obrigada – ela respondeu – eu trabalho sozinha
As lembranças mudaram. Agora ela estava segurando uma linda garotinha. Sua garotinha. Fruto do seu amor e de Stuart. Ela chorava sem parar
— Shi! Quietinha – a voz era extremamente doce – Eu queria muito ficar com você pequenina – ela agora chorava – mas eu não posso... Sinto muito... – ela colocou-a num cestinho no chão – Só espero estar fazendo o que é certo
E dizendo isso um vendaval começou... Levando para longe o cestinho com a menina enquanto desolada a mãe apenas chorava
De volta ao presente Cora estava em prantos. Geralmente não se permitia chorar, ou ter emoções... Não... Ter de abandonar sua filha recém-nascida tinha sido a pior coisa que teve que fazer e desde então decidiu ser implacável. Ela encontrara Rumplestilskin após abandonar a filha. E ele se tornara seu mentor. Mas ela não era do tipo que se deixava controlar e logo o abandonou e foi viver. Casou-se com Henry e conseguiu estar onde estava. Nunca mais ouvira falar de Eva ou Léo.
Pelo menos não ate cinco anos antes.
Ela estava voltando de uma viagem muito agradável a um campo distante. So ela. Sem Henry ou Regina... Podia estar com ela mesma. Se lamentar e pensar na filha que abandonara. Não passara um dia sequer sem pensar nela... No que estava fazendo... Em como vivia. Mas tentara em vão encontrá-la.
Ao passar pela estrada, avistou o castelo de Leopold. Há quanto tempo não o via... Desviando olhar viu algo conhecido
— Pare! – ela ordenou e o cocheiro parou
Ela desceu e observou um vulto levitando. “Magia aqui?” Pensou
— Espere aqui – ela disse ao cocheiro e seguiu em direção ao vulto
Aproximando-se sorrateiramente ela conseguiu distinguir palavras conhecidas
— Wingardim Leviossa! – Uma menininha de uns 5 ou 6 anos agitava as mãozinhas e era acompanhada de perto por uma mulher
Cora espiou sem ser notada
— Muito bem Snow!
— Gostou mamãe? – a menina sorria
— Perfeito filha! – a mulher sorria de orgulho
—Podemos mostrar ao papai?
A expressão da mulher congelou
—Não meu amor... Isso é um segredo nosso... Você sabe guardar um segredo?
Ela acordou de seus pensamentos quando um lampejo verde passou pela janela
—What a he...
Ela olhou aterrorizada. Gigantes e um exército se aproximava do castelo. Alguém soou o alarme e de repente uma correria sem fim começou no pátio
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