Um Círculo de Flores
12 Que vista legal.
Acordar antes de todos era sempre uma experiência extracorpórea: a luminosidade rasteira, o silêncio, o ar suspenso antes da rotina atribulada. E, de novo, a sensação de existir em um plano além da existência das outras pessoas, que em breve retomariam as preocupações do ontem, do sempre. Clarice pensou um pouco na própria casa, seguindo a moda daquela viagem: pensou na adolescência, na casa dos pais e seu irmão adulto, quando ainda morava lá. A insônia não era algo novo para a fotógrafa e ela lembrava-se de estar de pé antes mesmo do seu irmão sair para trabalhar. O café da manhã entre os dois, pão na chapa e café com leite, era sua refeição mais rica.
Por isso, se sentiu miserável quando ele partiu. Foi melhor para ele, é claro. Mas ela se sentia ainda tão criança, ao mesmo tempo considerada tão adulta por ele e, independente disso, era impossível negar que sentia-se abandonada junto a pessoas piores. Seu irmão era para si o que Ofélia Rios tinha sido para o irmão menor, Laerte. A diferença é que Ofélia nunca partiu; a diferença é que Laerte, o caçula, foi quem abriu essa rusga jamais remendada.
Mas não importava agora para ela ou para a escritora.
Clarice vagou pelo casarão, curtindo as janelas altas e os vitrais coloridos. Faltava um pouco mais de vida ali, como plantas ou um animal de estimação, embora ela soubesse que não haveria ninguém para cuidar deles na ausência de alguém que, de fato, morasse ali.
Ao descer as escadarias, outra epifania: Ninguém mais havia morado na Casa Rios depois da autora, não de verdade. Apesar da manutenção feita pelo irmão, não demorou tantos anos assim desde o sumiço de Ofélia para que os sobrinhos dela tornassem aquela moradia em apenas… estadia.
"Que vista legal, amor."
Era a voz de Leda, um pouco baixa. Vinha de onde? Da sala? Não, da cozinha. Talvez tivesse sentido fome. Talvez ela não conseguisse mais pegar no sono. Pela pausa na voz, falava ao celular.
"É, isso. Aqui é legal também. Bonito. Mas queria que a gente pudesse ter viajado junto. Você sabe que eu amo praia."
Era melhor não interrompê-la. Ainda escutando-a, Clarice foi até a sala de estar para ver os vinis e prestar mais atenção nos títulos.
"Eu sei. Só é... difícil, sabe? Essa casa. Tem algo de estranho. Ontem teve o maior bate e boca entre a Judith e a Elaine. Não dormi direito. Não, não é assim. É diferente. Tipo, ela... tá, tá. Tá bom. Outra hora te ligo. Beijo. Te amo.”
Deveria consolá-la? A madrugada já tinha sido horrível. Mesmo que Judith e Elaine não tenham chegado a trocar tapas depois que a camisola cara de Elaine foi arruinada pelo vinho, a discussão não foi muito melhor. Clarice mal conseguiu acompanhar. Nem foi capaz de ajudar Liana levar Judith até o banheiro para uma ducha fria.
Mas ouvir Leda desabafar sobre namorados era algo familiar. Sentada na poltrona, viu a amiga chegar com os olhos marejados e a expressão torcida entre a tristeza e a raiva. Jogou o celular no sofá.
"Porra, nem pra me escutar."
Já sabendo que se tratava do namorado dela, a fotógrafa achou mais cortês ainda confirmar:
"É o Alfredo, amiga?"
"Deve tá com uma piranha do lado. Porra, eu até respeitei o fuso horário dessa caralha de viagem."
Apesar de achar impossível duas mulheres ao mesmo tempo se interessarem por um traste chamado Alfredo, Clarice tentou ser amável. Parte de si já compreendia o fato de que Leda não era muito sábia em escolher suas próprias companhias e, sem dúvidas, mais sábio ainda era entender que ela mesma não poderia julgá-la nesse aspecto. Não estava rodeada de amizades questionáveis?
"Eu queria te ouvir, Clarice.” Uma pausa. “Aposto que a Ofélia Rios não tinha que lidar com essas merdas, né?"
O riso dela foi fraco e obrigou-a a sorrir também. Não eram tantas as oportunidades que alguém perguntava sobre suas obsessões, então imaginava que era mesmo um tanto chato ouvi-la falar num geral, especialmente sobre uma autora considerada superestimada por tantos. Clarice, aguentando chatices e sentindo falta até de algumas delas, cogitou que era um dos momentos em que Leda sentiu falta de algo enfadonho, mas confiável.
"Ela não dava muita atenção pra romance. Primeiro porque virou mãe do irmão. Depois, porque... Ah, porque um cara basicamente quis que ela parasse de escrever. Falou que ela sempre estava em algum outro lugar, não aqui. E não teve tanto tempo assim, acho. Para ela."
Leda fungou mais um pouco e não disse mais nada.
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