Um Breve Suspiro de Felicidade
21 Flor do Inferno
Notas iniciais
O ambiente todo era cinza e turvo, difícil de identificar como um lugar ou outro. Sob seu corpo, sentia as pedrinhas do concreto arranhando de leve sua pele do rosto. Não sabia onde estava, mal se lembrava quem era ou como tinha ido parar ali. Após longos minutos observando o tempo passar misterioso, uma mancha mais escura tampou boa parte da visão do ambiente cinza. Conseguindo finalmente focar, viu uma bota.
— Você, de todos eles, sempre foi quem mais me deu trabalho. — uma voz conhecida, quase macia, se fez presente.
Tentou se mexer, mas suas mãos estavam presas por algo gelado. Algemas de metal barulhentas. Tudo começava a se encaixar.
— Toris... — era seu nome, dito pela voz. — Você tem uma sorte... Não consegue se matar, e eu não consigo matar você...
Tudo finalmente começou a voltar. As memórias, o revólver, as lágrimas, Feliks...
Tentou falar seu nome, mas sua voz ainda não saia. Não sabia quanto tempo tinha passado lá. Sua última lembrança era estar com uma arma apontada para a própria cabeça, quando viu seu amado ser esfaqueado. Então puxou o gatilho, ouviu a explosão e... Nada aconteceu. A arma estava descarregada. Nem a morte seria sua escapatória. Ivan então caminhou até ele, lhe deu um soco na cabeça e tudo ficou preto. Agora estava algemado no porão, com Ivan o observando, ainda tentando se situar.
— Feliks... — conseguiu finalmente dizer, com a força aos poucos voltando ao seu corpo. — Ele está...
— Morto, sim. — Ivan anunciou, sem sorrir. — Espero que assim você aprenda uma lição.
Não era possível. Na verdade, era tão possível que só doía mais. Ivan tinha matado alguém para ensinar uma lição, e não qualquer pessoa, Feliks. Seu Feliks. Seu lindo e precioso, feliz Feliks. Com uma facada na barriga. Toris simplesmente não pôde fazer nada para impedi-lo, pelo contrário, o foi ele que causou aquela discórdia. Agora Feliks estava morto.
— Você... É mesmo um... — não teve coragem de terminar a frase. Foi só questão de segundos depois da notícia até que os soluços dominassem completamente seu ser. — Não precisava ter feito isso, era só deixar ele ir...
Ivan se aproximou e, com a ponta da bota, levantou o queixo de Toris para que olhasse para ele.
— Eu deixei ele ir. Pro inferno. Quem eu não vou deixar ir é você. Nunca mais vai sair do meu lado.
Toris sentiu o sangue congelar. As algemas, o porão, o casarão vazio. Sim, estava condenado a ficar preso para sempre, logo depois de passar tantas semanas sonhando com a liberdade e sentindo-a em seus cabelos. Morreria entre as paredes de concreto, apodrecendo.
— Meu único arrependimento... — Ivan prosseguiu. — É ter te deixado inconsciente antes que você pudesse me ver por um fim em seu namorado, depois de ele passar horas e horas agonizando.
Agonizando. Uma imagem terrível dominou a mente de Toris: seu Feliks, coberto de sangue e choro, tremendo, aberto todo por facas, sem morrer. Desejando a morte por horas e horas, sofrendo toda aquela dor lentamente, até que por misericórdia Ivan desse um tiro em sua cabeça, e por fim toda a vida fosse arrancada de seus olhos. Então, seu sorriso brilhante de adolescente voltou à sua memória, aquele sorriso que nunca mais viria. Seu amor, seu noivo... Já não era mais nada.
...
— Ele acha que você morreu.
O anúncio foi a primeira coisa que Feliks ouviu quando conseguiu se situar no espaço. Estava vivo, mas não sabia como. Jurava que tinha sido esfaqueado, e quando tudo se perdeu, seria pela última vez. Ou estava errado ou estava no inferno. Talvez os dois.
Tentou mover as pontas dos dedos, sentindo embaixo de si um lençol macio e limpo. Mas não estava em sua casinha cor-de-rosa, e sim num quarto todo embolorado. Sentada na beirada da cama estava Natália, o esperando.
— Como assim? — conseguiu murmurar quando entendeu a frase.
— Meu irmão disse a ele que você está morto. Foi parte do nosso acordo. De nada.
Feliks conseguiu se apoiar nos cotovelos, sentindo a energia voltar. Ao sentar-se na cama, o lenço, que o cobria escorregou, permitindo que observasse o próprio corpo. Viu que a barriga estava enfaixada e doía um pouco, mas estava limpo.
— Por que eu te agradeceria? — fez careta, lembrando-se claramente da traição de Natália. — Você tentou me matar. Você é doida mesmo.
— Não, eu salvei a sua vida. — ela sorriu, se levantando para caminhar pelo quarto. — Se eu não tivesse cuidado de você, teria morrido de infecção ou hemorragia. Por isso, seja um bom garoto e me agradeça.
— Eu não teria se você não tivesse me esfaqueado. Ou pisado em mim. — começou a ficar cada vez mais indignado. — Tudo isso pra que? Pra impressionar o monstro do seu irmão? Achei que tinha passado dessa fase, loirinha.
Tinha um quê de provocação e escárnio muito maior no apelido que costumava ser carinhoso. Feliks não era do tipo que perdoava fácil, e ficara realmente decepcionado quando viu sua amiga querendo matar os dois.
Ela, por sua vez, revirou os olhos e fez careta.
— Mas vocês viados são muito burros mesmo. — pôs as mãos na cintura. — Será que eu preciso te explicar tudo? Se eu tivesse ficado do seu lado, nós três estaríamos mortos. Eu salvei a sua vida e a do seu namorado. Feliz agora?
— Me explica como pisar em mim poderia possivelmente salvar minha vida!
— Não sei, talvez porque assim Ivan voltou a confiar em mim. — explicar seu plano fazia seu sorriso aumentar. Sentia falta de saber que estava tudo em suas mãos de novo.
Em Moscou, era tudo muito grande, tudo muito novo, era mais manipulada do que manipulava. Ali, no casarão, ela estava no controle, e via todo o seu plano se concretizar aos poucos. Faltavam apenas poucas peças. Prosseguiu a explicação:
— Assim, quando eu pedi para matar você, ele deixou. E por isso você está vivo.
Feliks lembrou-se do desespero que tomou seu corpo quando Natália sussurrou para Ivan, que o segurava sem ar com os braços. “Faça o que quiser com o Laurainaitis, mas o loirinho quem mata sou eu.”. Tudo foi voltando aos poucos, mas ainda em sua cabeça era muito mais dúvida do que certeza.
— Mas você me esfaqueou...
— Sim. Num lugar onde não seria letal. Não atingi nenhuma veia importante nem órgão vital, sem falar que foi um corte consideravelmente superficial. Você desmaiou por falta de ar.
Feliks tocou o ferimento em sua barriga. Não era nenhum perito em biologia, mas conseguia concluir que por ali não haveria realmente nenhum órgão. Já seu pescoço estava cheio de marcas de estrangulamento. Talvez ela realmente tivesse razão
— Agora, se fosse meu irmão... — prosseguiu. —Você estaria sendo torturado no porão agora mesmo, junto com seu namoradinho. E garanto que seriam dias e dias de uma dor que você não consegue nem imaginar.
Então, Toris voltou a sua mente com tudo. Teve um sobressalto. Ele achava que Feliks estava morto.
— Onde ele está?! — exclamou, sentindo suas mãos tremerem.
— No porão, com meu irmão. Não se preocupe, ele ainda não fez nada com ele. Você teria ouvido se fizesse.
Aquilo só encheu ainda mais Feliks de preocupação
— Ele acha que eu estou morto?
— Eu te salvei, mas Ivan quer que ele fique aqui com ele. E o único jeito é se você sair de cena. — explicou, meio pra baixo. — Por ele, vocês nunca mais vão se ver.
— Isso não pode acontecer! — exclamou, mas foi parado por uma forte dor na barriga que tirou dele um chiado.
— É melhor se acalmar. Eu também não quero que isso aconteça. — cruzou os braços. — Escuta, eu odeio seu namorado por um milhão de motivos. Para mim, seria melhor que aquela arma estivesse carregada e ele se matasse de vez.
Feliks abriu a boca para protestar, mas a voz dela cobriu a dele.
— Ele sempre fica entre mim e meu irmão, eu já cansei disso. Então, é melhor pra todo mundo que vocês dois fujam juntos. Com minha irmã morta também, Ivan só terá a mim.
Embora fugir com Toris fosse muito tentador, não conseguia deixar de se preocupar com um discurso desse vindo de Natália.
— Mas... E Moscou?
Voltou a sentar-se na cama.
— Não está dando certo, Feliks. Você sabe disso. É frustrante e está tudo errado. — cerrou os punhos no lençol. — Prefiro ficar aqui, com meu irmão. Eu sei o meu lugar. Posso não ser a rainha do mundo, mas, se ele me amar...
— Nat, deixa disso... — sentiu-se amuado também.
— Você quer fugir com seu namorado ou não? — o tom dela tornou-se agressivo. — Então é melhor não ficar questionando o que eu quero fazer.
Feliks não conseguia concordar, mas calou-se. Precisava pensar nele e em Toris primeiro. Natália era emocionalmente instável, mas era forte e não seria torturada. Não podia salvar todos.
Katyusha, por exemplo, ele não pôde salvar. Não mantinha muito contato com ela desde que voltou da Suécia, mas era triste saber que ela provavelmente estava morta.
Afastou esse pensamento e tentou se concentrar no objetivo: Tirar Toris de lá. Como, não fazia a menor ideia. E por mais que Natália odiasse admitir, essa parte do plano ainda estava faltando.
Para piorar, recebeu a notícia de que Ivan queria conversar com Feliks. Em seu escritório. Sabiam que era uma má ideia, se eles ficassem sozinhos num mesmo cômodo, Natália não poderia salvar ninguém.
Porém, Feliks foi. Se fosse para morrer ali, que fosse depois de falar umas poucas e boas para aquele desgraçado que tinha passado anos torturando seu namorado – e que tinha o tirado dele, para começo de conversa.
Natália o acompanhou até o escritório, talvez o cômodo mais destruído casa. As grandes estantes de livros estavam quebradas no chão, todas as decorações da mesa estavam em pedaços. As gavetas estavam escancaradas, reviradas e muitas vazias. Os papéis que sobraram tinham suas pontas queimadas. Após conseguirem as armas que estavam lá, os rebeldes viraram o cômodo abaixo de raiva.
Apenas uma cadeira continuava inteira. Feliks se sentou ali, sentindo o corte na barriga o castigar. Tentou repassar seu discurso na cabeça. Poucas e boas. Não morreria com nada preso na garganta. Cinco minutos depois, Ivan entrou.
— Sem gracinhas, maninho. — Natália avisou, na porta.
— Escolhendo o lado mais fraco, Natália? — ele a provocou. — Isso não é do seu feitio. Se nos der licença...
Ela saiu e fechou a porta, deixando os dois sozinhos. O ar parecia mais chumbo, de tanto ódio que havia nos olhares. Ivan acendeu um charuto e começou a caminhar ao redor do escritório.
— O que você quer? — Feliks começou, nada convencido por aquele teatrinho de poder.
— De você? Nada. — ele tinha seu famoso sorriso sádico no rosto. — Tem sorte de ser amiguinho da minha irmã, ou estaria com um buraco de bala na testa há muito tempo.
— Mas você é mesmo um idiota. — para sua surpresa, Feliks riu.
Ivan fechou a cara. Aquela insolência. Aquela rebeldia. Sempre adorou quebrá-la. Porém, era aquela rebeldia que tinha esvaziado sua casa.
— Para falar assim comigo, você só pode ser pior.
Feliks se apoio na mesa e tornou seu sorriso ainda mais cínico.
— Acontece, Ivan Braginski, que eu sei como tudo isso vai acabar. Você é o vilão da história.
— E vilões se dão mal? Acha que isso aqui é um conto de fadas?
— Não. — se afastou novamente, fazendo a cadeira girar de leve. — Mas eu sei que se você me matar, Toris nunca vai te perdoar. E você sabe disso também.
Àquele ponto, a competição era não só de olhares odiosos, mas de quem tinha o sorriso mais cínico, mais cruel. Estava incrivelmente equilibrada.
— Eu não quero o perdão dele.
— Ah, quer sim. — provocou. — E o pior é que seria extremamente fácil ele ficar aqui por conta própria, mas você insiste em ser o vilão.
Os olhos violeta de Ivan imediatamente se arregalaram. A vida toda Toris dizia que queria sair dali, não conseguia imagina-lo escolhendo ficar.
— Não tem nenhuma maneira... Dele me escolher sem ser pela força. — murmurou, mais para si mesmo que para Feliks.
— Ele se importa com você. — Feliks rosnou, desviando o olhar. — Mais do que eu gosto de admitir. Ele tem pena de você, ele realmente acredita que você não tem culpa de nada. E eu sei que se você pedisse pra ele escolher entre mim e você... Ele ia escolher você.
Sua voz saiu comprimida pelo nó que tinha na garganta. Odiava pensar nisso, mas sabia que era verdade. Todos os meses que tinha passado com Toris tinham sido assim. Quis chorar, mas estava cansado de parecer fraco para aquele cara.
— Mas agora que ele acha que eu estou morto, ele sabe que você é o vilão! — concluir, voltando a encará-lo nos olhos.
Ivan não respondeu. Passou um bom momento fumando seu charuto e silêncio, digerindo suas palavras. Lembrou-se de quando, mais cedo, Toris quase tinha dito que era mesmo um monstro, com lágrimas no rosto. Embora ele não tivesse dito a palavra, já tinha ouvido essa frase de tantas, tantas pessoas, que sabia o final. Mas nunca de Toris. Toris era um dos poucos que o faziam acreditar em sua própria humanidade. De fato, tinha destruído isso, e pagaria o preço se fosse necessário.
Por fim, quebrou a ansiedade:
— Se ele realmente se importasse comigo, não trairia minha confiança dessa forma. — fitou Feliks com desprezo, de cima a baixo. — Se engraçando com um tipinho desses.
— Por que me chamou aqui? — Feliks cansou-se, ofendido. — O que quer saber? Quer que eu te conte por que ele ia me visitar? Como? — a raiva foi tomando seu corpo. Decidiu provocar. — Quer que eu te conte o que a gente fazia quase toda noite? Como ele implorava todo dia por mim? Como ele gemia meu nome sem parar? Como eu o jogava na minha cama e o fazia todo meu? Por horas e horas e horas... Que enquanto você estava aqui na sua casa torturando sabe-se lá quanta gente, ele estava na minha casa, feliz como nunca... É isso que você quer saber?!
O sorrisinho sádico de Ivan cresceu, tornando sua expressão ainda mais assustadora. Aquele insolente realmente gostava de brincar com a morte. Se aproximou da cadeira. Estava cansado de brincar. Deveria ter feito isso logo quando teve chance, o destruído na frente de Toris ele mesmo. Não ligava de ser o vilão. Segurou seu pescoço com as duas mãos e assistiu a cor sumir de seu rosto junto com o ar em seus pulmões. Feliks começou a tossir, tentando se livrar desesperadamente do estrangulamento, mas sua força era pífia comparada a dele.
— Ivan, o que está fazendo?! — uma voz feminina entrou pela porta e o interrompeu.
— Fique fora disso, Natália... — se virou para ela, irado.
Porém, sua feição contraída se relaxou em surpresa, seus olhos marejaram. Não era Natália. Era Katyusha.
Viva.
Soltou Feliks imediatamente e correu para abraçá-la. Ela não retribuiu, apenas deixou.
— Eu achei que eles tinham me matado... Não tive coragem de conferir...
Do Ivan monstruoso prestes a matar um rapaz, não havia mais nada. Era uma criança no colo da mãe. Abraçou-a tão forte que quase se sentiu feliz. Não aguentava mais vê-la sair de sua vida.
— Eu levei um soco e desmaiei. — explicou, séria. — Me solte. Eu quero saber por que estava estrangulando esse rapaz.
— Katyusha... — Feliks se levantou, rezando para que ela o reconhecesse.
— Feliks... O que está fazendo aqui? — virou-se para o irmão, ainda mais confusa com a situação toda. — Ivan, por que você estava fazendo isso com ele?
Essa era uma situação a qual ele simplesmente não sabia reagir. A pessoa que mais amava no mundo, o condenando por machucar uma que ele odiava. Claro que Katyusha sabia os horrores que sempre aconteceram no casarão, mas nunca tinha presenciado um com os próprios olhos. Não sabia ao certo o quão longe poderiam ir ou com qual frequência. Ivan sempre tinha conseguido deixá-la o mais distante possível.
— E-eu... — tentava achar uma desculpa em sua cabeça de criança.
— Ele estava tentando me matar. — Feliks tomou a frente, com a maior naturalidade possível. — Junto com o Toris, que está lá no porão. Aliás, ele acha que eu já estou morto.
— O Toris? — Katysha arqueou as sobrancelhas. — Ele ainda está aqui?
— Acho que está sendo torturado... Só porque me conhecia.
Ivan foi obrigado a assistir àquele diálogo todo sem reação. Katyusha não conhecia muito de Toris, mas tinha confiado nele para cuidar de Ivan quando foi embora. Saber que ele estava sendo torturado era um tanto perturbador para ela. Virou-se pra o irmão, mais decepcionada que qualquer outra coisa.
— Até quando, Ivan? — sua expressão era muito triste. A única outra pessoa que acreditava em sua humanidade era Katyusha. — Até quando você vai ficar vivendo no meio... No meio dessa violência e dessa dor...?
— Mas, mana... — tentou defender-se, mas a verdade é que nem sabia como. A surpresa dela havia destruído toda a sua guarda.
— Por favor, você precisa parar... Eu digo isso porque te amo... Essa violência tem que parar.
Ivan abaixou a cabeça. Tudo que acreditava já estava fraquejado quando percebeu que era o vilão da história, mas ouvir aquele pedido da sua irmã era simplesmente muito difícil. Ela era tudo pra ele. E nos últimos dias, jurava que ela estava morta. Tudo que fizera foi, pensando no fundo do seu coração, era que o mundo era cruel e tinha tirado ela dele.
Sem dizer uma palavra, ele deixou o escritório e fez sinal para que o seguissem. Natália se juntou a eles na descida até o porão. O clima nas escadas era pura insegurança. Ivan não sabia o que deveria fazer. Katyusha não sabia o que deveria sentir. Natália não sabia como ter controle. Feliks... Feliks só estava feliz por ainda estar vivo. Não tinha muito que pudesse fazer, sabia que estava totalmente dominado. Não tinha poder para tirar Toris de lá e correr de mãos dadas com ele para o pôr-do-sol. Nunca poderiam ser felizes assim. Ele só estava vivo por ser amigo das duas irmãs de Ivan, e se elas decidissem que não valia a pena protegê-lo mais, estava morto. Toris só estava vivo por pura sorte, se a arma estivesse carregada, não estaria mais.
Tentou não pensar em quantas vezes Toris tivera que descer aquelas escadas para ser torturado como um animal. Seu Liet. Não queria nem saber em que estado o encontraria quando a porta se abrisse. Por isso fechou os olhos.
Quando tomou coragem de abri-los, ele estava com o rosto no chão, com as mãos amarradas nas costas, soluçando. Sua roupa e seus cabelos estavam sujos, sua pele estava coberta de hematomas. Ele já parecia ter desistido, até levantar o rosto. No primeiro instante, seu olhar estava cheio de ódio, que o próprio Feliks nunca tinha visto, mas se desfizeram num olhar incrédulo e lágrimas que não pararam de rolar.
Não era nada diferente de Ivan quando viu sua irmã.
— Você está... — tentou falar, com a voz fraca e rouca, mas transbordando felicidade sem nenhum sorriso.
Feliks pensou que seria mais seguro apenas assentir e ficar no lugar, mas não se aguentou. Correu até ele e o abraçou, enterrando seu rosto em seus cabelos, quase chorando também. Estavam juntos. Nem que fosse pela última vez.
O aconchegou em seu colo e fez carinho em sua cabeça. Não conseguiam parar de rir como dois idiotas.
— Meu amor... — Féliks soltou, passando as mãos de leve por seu rosto. — Meu.
Toris olhou no fundo do seus olhos e, por um instante, esqueceu do resto do mundo. Mas o momento só pôde durar alguns segundos, até Ivan interromper.
— Vocês são dois vermes sortudos. — sua expressão e voz eram calmas, mas guardavam uma gigantesca frustração. — Não vou separá-los.
Os olhos de Toris brilharam, imediatamente se arrependendo de ter realmente achado que Ivan era um monstro, apesar de tudo. Katyusha também sorriu orgulhosa. Mas Natália e Feliks se entreolharam ao ver que Ivan não tinha acabado.
— O casarão está com muitos quartos vazios. Os dois irão morar aqui. — era uma ordem. — Não gosto desse rapaz, mas chega de ficarem se escondendo debaixo do meu nariz.
Feliks abraçou Toris com mais força e abriu a boca para protestar, mas quem primeiro se pronunciou foi Natália. De alerta e em expectativa ela se transformou em uma grande bagunça de tristeza e raiva. Sua boca tremia. Seus punhos estavam tão fechados que suas unhas quase perfuravam sua pele. Estava vermelha.
— N-não. — rosnou, entre os dentes. — Não é assim que vai ser... Não pode simplesmente colocar todos nós debaixo do mesmo teto só porque você quer... — as palavras mal saiam, de tanta raiva que carregavam. — Aqui só tem espaço para nós dois.
Ela parecia prestes a explodir em mil pedacinhos. Os outros quatro não conseguiam nem se mover. Era como se ela estivesse possuída. Em tom muito baixo, ela sibilou, olhando para o nada.
— Feliks, se afasta.
Antes que pudessem sequer compreender as palavras, ela sacou a faca e voou para cima de Toris. Sabia que tinha que ter matado quando teve a chance ao invés de tentar ser a heroína. Mas antes que a lâmina pudesse alcançar sua jugular, algo segurou seus dois pulsos com força e ela foi jogada contra a parede. Sua cabeça bateu com tanta violência no concreto que quase desmaiou. Porém, antes mesmo que tudo parasse de girar, ela já estava aos berros.
— Eu cansei desse viadinho destruindo a minha vida! Até quando você vai ficar insistindo nele?! — seus gritos vinham do fundo da garganta, a única coisa que a segurava eram os braços de Ivan. — Mais cedo você queria matar os dois, por que de repente tá tentando protegê-lo?! Se concerta! Eu vou matar esse moleque, eu vou matar esse viadi-
Antes que ela pudesse sequer terminar um xingamento, foi interrompida. O som de um estalo tomou o porão. O tempo pareceu congelar. Num movimento rápido e imprevisto, Ivan calou a própria irmã com um tapa no rosto. Ela não recuperou a postura de imediato. Ficou lá, parada, com a bochecha vermelha e os cabelos bagunçados. Todos ao redor estavam encabulados. Não que não haviam visto tanta coisa pior, mas ninguém poderia esperar por aquilo. Suas irmãs sempre pareceram tão... intocáveis.
Toris percebeu inclusive que nunca tinha visto Ivan machucar uma mulher.
— Morram!
Essa foi a última coisa que Natália gritou antes de sair correndo.
O porão ficou em um silêncio pesado por um momento longo demais. Ivan estava tremendo, como se o próprio não acreditasse na própria ação. Quando levantou o rosto, encontrou o olhar mais decepcionado que veria em sua vida. Assim, sem nenhuma palavra, nenhum gesto, apenas naquele olhar, ele soube que Katyusha tinha desistido dele.
O olhar dela foi então para Feliks, mas não era de decepção, era de medo. Logo em seguida, ela saiu correndo atrás da irmã. Feliks quis ir junto, mas não sabia se poderia deixar Toris sozinho com Ivan. Mas Natália e Katyusha precisavam dele, as duas haviam salvado sua vida. E Natália quase tirado a vida do seu namorado, mas era sua amiga. Olhou para Toris. Ele fez sinal de negativo com a cabeça. Ivan mantinha os olhos no concreto do chão.
— Eu te amo. Desculpa. — foi tudo que conseguiu dizer. Hesitante, correu para fora também.
Sentiu um nó se formar na garganta. Tinha mesmo deixado Toris para trás pro outra pessoa, ele poderia inclusive morrer, mas... Sentia que precisava fazer aquilo, ajudar as duas. Se Ivan os quisesse mortos, já estariam de qualquer jeito. Não era seu corpo fraco que poderia impedir qualquer coisa.
Subindo as escadas, encontrou Katyusha na frente da porta de Natália, chamando seu nome e se juntou a ela.
— Natchenka... Natchenka, abre a porta por favor... — sua voz estava desesperada para ser uma boa irmã. — Vamos conversar...
Sem resposta. Feliks tentou bater também.
— Nat... Abre a porta...
Ainda nada. Era óbvio que ela não estava disposta a abrir. Katyusha suspirou, pesadamente, e virou-se para Feliks sem saber o que fazer.
— Não adianta. Ela adora Ivan, deve estar em choque até agora... — encostou a testa na porta. — Por que você não está com seu amigo?
Feliks apertou os dentes. Porque não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo.
— Eu to preocupado com ela...
— Vocês se conhecem?
Ele sorriu e assentiu.
— Bastante. Eu não tenho muitos amigos então... Acho que depois do Toris, ela é a pessoa mais importante na minha vida.
Katyusha sorriu de volta. Ao menos, se algo poderia consolá-la, era que Natália conseguia ainda fazer amizade e ter pessoas que se importavam com ela. Segurou a mão dele e tentou deixá-lo seguro.
— Vá lá com ele então. Ele precisa de você. Eu cuido dela.
— Tem certeza?
— Ela é minha irmãzinha. — fungou. — Eu sei lidar com ela.
Ele assentiu e voltou correndo. Esperava não encontrar nada que pudesse fazê-lo se arrepender pelo resto da vida. Para seu alivio, Toris estava subindo as escadas para fora do porão, desamarrado. Pensou em correr até ele e garantir que estava realmente inteiro, mas Ivan aparecendo logo por trás o fez hesitar. Porém seu rosto não tinha nada de ameaçador ou sádico, era realmente triste. Não tirava os olhos do chão.
Pensou que Toris também não escolheria abraçar Feliks ao invés de cuidar de Ivan, até porque ele não tinha o escolhido na hora de ir atrás de Natália. Mas, pelo contrário, logo que o viu, Toris correu até ele o abraçou tão forte que quase o esmagou. Enterrou seu rosto eu seu ombro e começou a soluçar. Feliks ficou sem reação.
— Liet... O que foi...? — sussurrou, retribuindo de leve o abraço.
— Eu... — fungou. Sua voz estava grave de choro. — Eu to tão feliz que você esteja vivo... Eu achei... Eu pensei...
No final, os soluços interromperam suas palavras. As horas que passou no porão acreditando que ele estava morto tinham sido tão piores que qualquer tortura, que vê-lo vivo ali ainda parecia bom demais pra ser verdade. Quando o viu, mal teve tempo de digerir a informação, antes de ser atacado por Natália e Féliks sair correndo. Agora sentia que simplesmente não conseguiria mais soltá-lo.
— Nunca mais me assuste assim... — intimou, quando se separaram, mesmo sabendo que não era culpa dele.
Feliks sorriu. Quis que Toris tivesse certeza que, no final das contas, estava tudo bem. Ambos ainda estavam ali, inteiros. Segurou seu rosto machucado com as duas mãos, nas quais Toris esfregou a bochecha e o nariz, absorveu de leve o cheiro daquele rapaz que era seu. Feliks o beijou em seguida, tão suave e tão terno, antes de abraçá-lo mais uma vez. Por mais um longo momento, deixaram os problemas de lado. Não sabiam quanto tempo ainda tinham juntos até que o destino ousasse os separar mais uma vez, por isso não queriam se desgrudar. Fizeram daquele instante eterno.
— Vamos embora... — sussurrou no ouvido de Toris, baixo o bastante para que só ele ouvisse. — Por favor...
Toris não respondeu, só o encarou com os olhos arregalados. Depois encarou a porta. Se simplesmente saíssem correndo, tinham mais chance de escapar. Ivan estava tão triste que era bem possível que não encontrasse forças para ir atrás, mas... Ivan estava tão triste. Não dava. Simplesmente não conseguia ignorá-lo assim. Ele tinha sido injustiçado a vida toda.
Sabia cada vez mais que estava sendo cegado por seu apego. Ivan parecia às vezes fazer questão de se provar um monstro. Nem suas irmãs tinha poupado. Como poderia colocar o bem-estar dele na frente de sua vida com Feliks? Seu Feliks, justo aquele que tinha sido seu porto seguro por tantos meses. Se odiava por realmente ter feito aquilo tantas vezes.
— Vá logo...! — Ivan tossiu, depois de assistir em silêncio a toda aquela cena. — Se for para fugir com esse cara... Então por que não foge logo?
Toris virou-se para ele e sentiu Feliks o apertar mais forte. Ivan estava a vários metros dele, sem representar perigo imediato para qualquer um além de si mesmo. Sequer os olhava. Os cabelos bagunçados cobriam seus olhos. Seus dentes estavam trincados e seus punhos cerrados. Ele parecia mal se aguentar em pé de tanta angústia que o tomava.
Toris infelizmente ainda sentia aquela maldita vontade de se aproximar, mas sabia que nada que dissesse poderia resolver. No final, queria fugir mesmo, não seria hipócrita a ponto de diminuir essa vontade para fazê-lo se sentir melhor, só para se depois conseguisse fugir deixá-lo mal outra vez. Ou pior, arruinar as poucas chances que tinha de ainda sumir com Feliks.
Olhou mais uma vez para a porta e decidiu levar Feliks consigo. Não imaginou que seria fácil assim, mas o próprio Ivan tinha o mandado ir embora. Não desperdiçaria aquela chance outra vez, mesmo que parte do seu coração desejasse ficar. Essa parte nem se comparava com aquela que só queria garantir a segurança de Feliks, longe dali. Não fazia sentido ficar.
— Me desculpa, Ivan.
E com isso, atravessou a sala. Estava a pouquíssimos passos da porta, da liberdade, podia ver o tamanho do sorriso de Feliks por estar mesmo tomando aquela decisão. Quando um grito agudo congelou tudo.
Katyusha desceu correndo as escadas até Ivan. Ela estava chorando como nunca, seu rosto estava vermelho e uma bagunça. Ivan imaginou que ela o abraçaria, mas na verdade o que recebeu foi uma série de socos fracos e trêmulos.
— É culpa sua! — berrou, tentando extravasar a agonia nele. — É sua! Toda sua! Por que você tem que ser assim?!
Ivan não estava entendendo, sequer tentava se defender, só recebia com um olhar perdido. Feliks deu um passo novamente para dentro do cômodo, sobrancelhas franzidas ao ver a situação da amiga.
— Katyusha, o que houve?
Ela se virou, parecendo de repente muito firme, porém seu choro não parava.
— Ela morreu, Feliks.
Feliks soltou a mão de Toris. O ar fugiu de seu pulmão, assim como o de Ivan. Em ambos, as lágrimas vieram, calmas, curtas.
— Não...
— Natchenka... — Ivan sussurrou, incrédulo.
Katyusha apertou os punhos de tal forma que sua mão quase sangrava. Rosnou para Ivan, antes de suas pernas cederem e seu corpo cair no chão:
— E é culpa sua!
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