Um Beijo Ao Azul Escuro

11 Era só um pouco demais suportar


O barulho da porta sendo trucidada pelo chute de um dos agentes só não foi mais estrondoso que o grito de Brass. “Mãos ao alto!”. Aquela típica cena de filme, com uma frase clichê e uma entrada padrão.

O salão estava vazio, de fato mais limpo do que eu me lembrava, as cadeiras estavam viradas em cima da mesa e o atendente mal encarando de mais cedo passava um pano em cima do balcão. Ele largou o tecido úmido, levantando as mãos, aparentemente para as pessoas que eu havia conhecido naquele dia era normal ser detido por policiais.

-Eu não tenho nada haver com eles! – Ele disse em um rosnado contrariado.

-Não lhe perguntei nada. – Brass disse se aproximando.

Todos nós entramos e o lugar pareceu encolher, me perguntei em pensamento como tantas pessoas conseguiram ficar naquela espelunca, sendo iluminado por luzes incandescentes com mau-contato, aquele lugar parecia um tipo de barraco, a margem das condições de habitação e, ainda mais claro, sem vistoria sanitária.

-Ei, você era a garota de mais cedo!

Eu assenti.

-Eles estavam bebendo, onde estão os copos?

-Lá dentro, os infelizes tomaram todo o meu estoque e não me pagaram, disseram que vão passar aqui na volta.

-Volta? – Grissom perguntou baixo entrando no balcão.

-Sim. Eles foram para algum lugar e disseram que vão voltar, eles iam encontrar seu namorado, tira.

-Você é um charme, vamos. – Brass desceu a mão em seu ombro o puxando para fora de lá.

-Você pode fazer isso? – Ele perguntou contorcendo o rosto de dor pelo puxão no braço ao ser algemado

-Existem poucas coisas que um distintivo não podem fazer... Esse está mandando você sair daqui para que os CSI’s trabalhem, algum problema?

Não escutei a resposta, eles já estavam fora. Catherine olhou de relance para mim, e depois de um tempo virou completamente a cabeça me encarando nos olhos.

-Todas as pessoas que você conhece são encantadoras como essa?

“Diga por si mesma quando perceber que trabalha comigo”, sim, essa era a frase que estava entalada em minha garganta, mas não respondi, não daria o gosto de outra briga, não naquele momento.

-Certo, Sara, acho que você já pode sair.

Eu olhei indignada para Grissom, ele não podia estar falando sério. Mas olhei para todos a minha volta, Catherine, Greg e Nick, sim, ele estava falando sério, eles não iriam começar nada se eu continuasse ali. Balancei a cabeça, concordando, pela primeira vez com qualquer decisão dele.

Patience

Paciência

Took you for everything

Tomou-te por tudo

Looked like a diamond ring

Olhou como um anel de diamante

You are so much longer

Que você tanto deseja

That made sense

Isso fez sentido

Apathy in disguise

Apatia no disfarce

Crept on you like a spy

Rastejado em você como um espião

Hurt you in ways

Te fere nas maneiras

You can't describe

Você não pode descrever

Someone to save you – One Republic

Do lado de fora estava frio e as viaturas desapareciam além da estrada na curvatura do horizonte.

Longe das luzes neons espalhafatosas dos cassinos, as estrelas brilhavam deslumbrantes, o deserto era um bom lugar para ver o céu, sem dúvidas, o azul escuro intenso, limpo, servindo de palco para aquele brilho elegante.

-Inferno...- Praguejei baixo envolvendo o corpo com meus braços, caminhei em passadas lentas até meu carro, ainda estava aberto e tudo intocado, tomei o cento do motorista e fiquei lá, esparramada no estafado de couro, apreciando o tempo passar.

Tinha sido dois dias atrás, tudo tinha começado naquela tarde nublada, o céu da manhã havia perdido o sol logo nas primeiras horas do dia, grandes e pesadas nuvens o haviam sequestrado sem retorno, as gotas da chuva eram pesadas e caiam como se o céu chorasse com saudade do calor.

Estávamos eu e ele encarando um ao outro, fingindo que tudo estava bem, diante da sacada de seu apartamento Las Vegas, suas ruas turvas e todo o frenesi que ela transmite, nos inspiravam a continuar. Eu havia ido para lá entregar-lhe o suéter que havia me emprestado naquela manhã quando saíamos de uma cena de crime qualquer, eu ficara toda molhada em meio ao caminho para o carro.

Ele gentilmente havia pegado um dos seus reservas no banco de trás e envolvera meu corpo com quando finalmente nos sentamos na sala de descanso, isso depois de ter molhado metade do seu carro. Ele relevou cada erro meu, ele fingiu que aquilo não era importante, acobertou aquilo com o cheiro de sua roupa que ficou entranhado em minha memória.

Sorri lhe agradecendo pela gentileza, não tendo certeza por qual delas, talvez até todas, não fazia ideia que aquilo seria minha condenação.

Então fui lhe devolver mais tarde naquele dia, ficamos parados, nos olhando mutuamente, eu no vão na porta, ele hesitante a respeito se deveria me deixar entrar ou não, tínhamos tanto a falar e conseguíamos dizer tão pouco. Ele não me convidou para entrar, e isso não me impediu de fazê-lo, fechei a porta atrás de mim, e a cada passo que eu dava, ele retraia dois.

Eu parei com aquilo quando ele esbarrou no sofá, e soltamos risinhos tensos, finalmente lhe estendi o suéter, sem realmente querer lhe entregar. Ele segurou, e quando puxou eu não soltei. Não soltei na primeira nem na segunda puxada, lhe encarava nos indecifráveis olhos azuis, impassíveis de reação ou leitura clara do que abrigavam nos pensamentos.

-Sara? – Sua voz foi baixa, simplesmente sublime, soou como algum tipo de chocolate para meus ouvidos, ou algo até mais doce. Eu não conseguia recobrar a razão, noção ou algo do tipo, apenas sorri, ainda mais tensa, soltando o cinzento tecido macio.

-Desculpa. – Balbuciei em meio ao constrangimento. –Grissom...

Ele assentiu com a cabeça, esperando me pronunciar, um homem de poucas palavras, de palavras definitivas e finais, suspirei procurando um pouco de inspiração em sua conduta defensiva para começar a falar.

-Vamos jantar?

-Não acho que seja uma boa ideia. – Ele foi enfático, engoliu a seco. Eu apenas assenti com a cabeça.

-O que é uma boa ideia para você?

Seus olhos perscrutaram alguma dualidade em minhas palavras, fixaram-se novamente nos meus, a intensidade completamente sufocante do seu azul refletida naquele momento, capitada naquele gesto.

-Você não voltar a faze isso ou pensar assim.

Voltei a balançar a cabeça, a única coisa que aparentemente conseguia fazer.

-Por que você não quer?

-Porque não deve ser assim.

-Dá no mesmo. –Esbocei um pequeno riso sem graça e saí de lá, indo para o primeiro bar que encontrei.

Aquela lembrança viva em minha mente depois de quase dois dias de altos e baixos tentando apagá-la.

Quando dei por mim estava acompanhando com os olhos eles saindo da espelunca com algumas sacolas, pulei fora do carro no mesmo momento.

-Então, encontraram alguma coisa útil? – Perguntei gritando por cima da distância.

Greg sorriu para mim, assentindo.

-Tudo! – Ele gritou de volta, e no mesmo instante seguindo o caminho para o seu carro. Nick também sorriu para mim quando passou, Catherine agiu como sempre, me tratando como um zero a esquerda e finalmente ele saiu, o único que não carregava nada, as mãos nos bolsos do casaco e um andar vago em direção contrária dos outros, a minha direção.

Ele se aproximou e vimos calados todos os carros partirem, só restando nós dois.

-O que houve? – Perguntei.

-Passei quase uma hora escutando perguntas e comentários desagradáveis a respeito de você, um hora com todo mundo da minha equipe querendo saber qual atitude eu tomaria e como seria quando sua folga acabasse e você voltasse a trabalhar.

-Parece-me justo saber o que você respondeu.

Ele mantinha os olhos longe de mim, encarando o nada.

-Eu disse que não sabia se voltaria. – O silêncio se instalou e senti meu cenho franzir.

-Como?

-Eu não sabia o que responder por tudo que você disse antes... Não sabia se você continuaria aqui. – Sua voz estava vaga, as palavras eram cuspidas sem algum tipo de emoção. –Então eu disse que não sabia.

-Certo, e qual é o mesmo o porquê deu saber disso? – Ele deu de ombros.

-Porque eu quero saber se você vai continuar.

Aquilo estava sendo tão redundante, tão imbecil da parte dele. Não tinha sido nem de longe uma pergunta, foi um tipo de indagação camuflada.

Virei frente a frente a ele, meus dedos foram até seu rosto, a ponta deles tocou sua face, tomando sua atenção para mim, os seus agarraram minha mão com força, afastando-a, mas insisti e avancei para seu rosto, me desprendendo dos seus dedos, e finalmente pousando toda minha mão dos contornos do seu rosto, ele inclinou a cabeça ao meu toque, desfalecendo suas defesas em minha mão.

-Seja só um pouco mais sincero, por favor.

-Você vai ficar comigo?

Pisquei furtivamente tendo certeza que escutei aquilo.

-Como sempre estive.