Um Beijo Ao Azul Escuro
23 Epílogo
Notas iniciais
Mas aqui está, o final derradeiro.
Tomei outro gole do vinho tinto, ele amargava quando escorria por minha garganta seca. De todos os gostos rançosos, aquele parecia ter sido escolhido a dedo para combinar com o sabor desgostoso da noite, o cheiro de nostalgia e de fracasso, claramente acompanhado com decepção.
Estava debruçada sobre a varando do minúsculo apartamento de Grissom, contemplando as luzes ofuscante de Las Vegas que se projetava para além do horizonte. Eu sabia que depois delas só haveria o deserto, e mesmo assim, olhando daquela altura média de um segundo andar em um prédio qualquer, eu podia sentir deprimidamente que as luzes eram o maior limite que eu poderia alcançar.
E talvez aquela percepção sempre estivesse certa. Por algum motivo inexplicável, com forças altamente mais fortes que eu mesma, ficar ligada com Vegas era minha sina, uma maldição irrevogável, aquela cidade tóxica à minha sanidade sempre seria meu ponto de partida e chegada, minha demarcação de metas, em um todo, tudo de ruim aconteceria lá e mesmo assim eu continuaria indo lá.
Tomei mais outro gole, tentando emburrar para dentro o desastre que fora aquela Ação de Graças, tentando empacotar junto com todas as minhas falhas e desilusões aquela a mais, arrumar algum espaço dentro da minha lixeira mental para sacudir aquela lembrança tão desagradável.
Senti os braços enlaçando minha cintura e sua boca em na curva de meus pescoço, o bafo quente de sua respiração lá, eriçando os pelos de minha nuca. Ele sabia me desestabiliza por inteira — inclusive minha raiva.
-Eu sinto muito. — Ele disse entre os lábios contra minha pele.
-Eu tenho certeza que não sente. — Retruquei me permitindo mais um gole generoso.
-Não foi tão desastroso assim.
-Não, foi pior. — Revirei os olhos. -Quando sua mãe se acostuma com a neta bastarda, ela tem que encarar a minha culinária.
Ele me largou sacudindo a cabeça olhando feio com a careta que sempre fazia quando eu usava a palavra proibida, "bastarda". Sempre a mesma cara, as sobrancelhas franzidas, a cavidade do queixo ainda mais funda e os lábios curvados para baixo, desaprovadores.
-Existe uma diferença simples entre o que aconteceu e o que você está querendo transformar, — ele começou com um tom grave, intransigente, me instigando a deixar de lado a indiferença e encará-lo — e sabe qual é ela? A realidade. Você quer tornar isso um desastre, e com certeza vai conseguir. Estava com as três mulheres que mais ano na vida e meus amigos... E celebrando, agora... Agora, você precisa entender que eu não me importo o que minha mãe pensa, nunca me importei e nem irei. É a minha vida, Sara... Minha vida, e ninguém excerto eu mesmo pode controlá-la... É a minha vida e eu escolhi te amar, dividi-la com você.
Minhas mãos foram parar em sua barba mal-feita, que arranhavam a ponta dos meus dedos, eu acariciei a pele áspera gostando da sensação na minha mão, olhei em seus olhos, deixando a taça no para-peito da varanda, levei a mão até seu pescoço envolvendo-a em sua nuca, nosso beijo foi lento, seu gosto reverberando que cada parte da minha língua.
Deixei minha cabeça se unir a sua, testa com testa, respirações próximas.
Me lembrei o cheiro das batatas doces fritas quase queimadas; de quando eu estava tomando banho e eles inventaram de chegar logo que eu vestia a roupa com Larissa trancada me seu quarto sem me escutar gritar e pedir para ir atendê-la, eu indo de toalha para abrir a porta com todos os nosso convidados me vendo seminua; me lembrei da cena desagradável do vinho onde puxei a rolha da garrafa e ela escorregou das engrenagens acabando na boca de Beth, que 'gentilmente' tinha aberto mão de se sentar perto do filho para se sentar ao lado da nora; a inconveniente pergunta para mim e Grissom sobre pretendermos ter outro filho, como eu fulminei Catherine com o olhar — e Beth certamente perguntaria isso, quando nós teríamos filhos, claro, filhos com o sangue do pai e sem "adoráveis" olhos verdes, elogiados com tamanho desprezo que preferiria que jamais nem os tivesse conhecido — e como senti Greg, Nick e Warrick encolherem-se na cadeira quando perguntei ocasionalmente sobre o que estavam trabalhando e eles tiveram que responder a respeito de uma apreensão de motos e prisão de motoqueiros em um zona de desmanche de carros e tráfico de drogas. Eu me obriguei a reviver mentalmente nos braços de Grissom todas as esdrúxulas situação que me fui colocada ao longo daquela Ação de Graças, no final só podendo agradecer por aquele inferno ter acabado.
Seus braços estavam em minha cintura e seu lábios voltavam para os meus, ele me ergueu me colocando contra a grade da varanda e quando comecei a tocar nos botões de minha calça jeans o estalo de cacos de vidro soaram mais alto que o momento, acompanhados pelos gritos esganiçados de Larissa me chamando. Nos fastamos, relutantes, comigo balançando a cabeça.
-Pensei que a tinha colocado para dormir. — Resmunguei descendo da grade afastando-o do meu caminho.
-E coloquei, ela deve ter acordado e quebrado o copo de água que deixei ao lado da cama.
-De novo? Eu não já pedi para colocar em cima do criado mudo. Ela precisa ir ao banheiro a noite e não vai ficar se lembrando que tem um copo no caminho dela, ela pode cortar o pé com isso.
-Eu sei, eu sinto muito. — Assenti com cabeça, enquanto andava em direção ao quarto, me virei para olhá-lo
-Nosso assunto não terminou.
-Claro que não.
E pela primeira vez no dia sorri. O céu azul escuro de Las Vegas em suas costas me lembrando de duas coisas que eu jamais deveria esquecer: as coisas sempre poderiam ficar piores e a vida seguiria, porque não importa quão escuro seja o azul da noite, nem quão longa seja a estrada, sempre haverá um novo dia para iluminá-la.
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