Um Amor Definitivamente Inumano
22 Por favor, Sra. Sky
Notas iniciais
Bastou que eu abraçasse Scott para que gotas ternas de água fria começassem a cair do céu, bem em direção a minha pele. Eu me lembro daquela memoria de meus pais, os dois se beijando na chuva. Água... Beijos molhados, lembranças não esquecidas, conforto macio...
Scott me puxa em direção a casa, onde todos já estão, mas eu retraio meu braço. Ele ergue as sobrancelhas quando eu entro debaixo do lençol cristalino, e começo a pular nas poças, como uma garotinha. Minha alma está dançando. Meu corpo é apenas um fantoche que obedece aos meus sentimentos. Ergo meus braços acima da cabeça e rodopio, uma, duas, na terceira vez, ele se junta a mim. Fecho meus olhos e deixo ele guiar meus passos na dança caótica. Ele coloca as mãos em minha cintura e me ergue além das nuvens. Outros braços não conseguiriam me levar tão longe. Outros lábios não fariam meu coração se acelerar com o simples contato. Outros olhos não adentrariam a minha alma da maneira como os deles fazem.
Nunca fui boa em matemática, mas que um mais um é igual a dois é uma questão de logica. Com ele chego a outra conclusão, uma conclusão louca e coerente ao mesmo tempo. Um mais um é igual a um. Eu e Scott somos um. Nosso coração bate como um só. Nossas almas se completam, nossos...
Ele está me beijando. Eu seguro sua nuca molhada com firmeza, meus dedos nem um pouco m escorregadios. Estou encharcada até os ossos e permaneço aquecida. É um calor que vem de dentro, mas quente que o sol. Eu poderia estar no Alasca, mas se eu estivesse com ele, eu me sentiria aquecida. Sua boca se encaixa a minha, como se ambas tivessem sido planejadas uma para a outra. Eu sinto a presença dos outros nos observando, mas não solto meus braços de seu pescoço. Na verdade, apenas intensifico o beijo, apertando a língua dele com a minha, de uma maneira que nunca fiz antes. Quero transmitir a ele, sem palavras, o quanto ele significa para mim. Quero...
–Hum-hum... – Minha mãe pigarreia. Eu não me apresso em terminar o beijo. Prenso os lábios dele delicadamente com os meus e deslizo minhas mãos pelas suas costas úmidas. Então, encaro a mulher de braços cruzados a minha frente, meus dedos bem entrelaçados ao de Scott.
–É melhor vocês entrarem. – ela olha para o céu repreensivamente, seus cabelos loiros se amoldando a seu rosto magro devido a chuva. – Tenho certeza que terão muito tempo para isso lá dentro.
Com mais um ultimo pulo de despedida nas poças, eu entro.
Uma hora depois ...
O que o detetive Basso ainda fazendo aqui? A chuva já passou faz meia hora, mas ele permanece envolvido em uma conversa animada com a minha mãe , ambos sentados nos pufes confortáveis ao lado da lareira. Eu resolvo perguntar algo que está me atormentando há tempos.
–Hum-hum. – minha vez de interromper. – Detetive?
Ele me encara com seus olhos escuros profundos. Minha mãe torce as mãos sobre o colo, um gesto que ela costuma fazer quando está nervosa. Ignorando a desconfiança a respeito dos dois que começa a surgir, eu pergunto:
–Meu pai... – minha mãe para de embolar seus dedos. – Ele não poderia voltar, não é?
Um misto de pena e constrangimento se passa em seus olhos, confirmando minhas suspeitas.
–Não, Vee... – ele sorri gentilmente. – Sinto muito...
–Tudo bem... – eu também sorrio levemente e me afasto. Dói, mas é uma dor suportável. Meu pai pagou pelos seus atos, um deles, o amor. Mas quem sou eu para questionar a lei celeste, não é?
Volto a me sentar no sofá em frente a televisão, onde me aguardam Patch, Nora e Scott. Eu me ajeito ao lado dele.
–Vocês acham... – eu abaixo a voz. Estamos do outro lado da sala, mas mesmo assim tenho certeza que Basso pode nos ouvir. – que tem algo rolando entre esses dois? – meneio com a cabeça em direção a minha mãe e ele quase imperceptivelmente.
Patch lança um olhar avaliador sobre eles, Nora faz o mesmo.
–Bem... – Patch nos dá o diagnóstico. – Eu acho, que o velho Bass está caído por ela...
Eu quase rio com o duplo sentido. Quase. Apesar de tudo, lembro-me, Basso é um arcanjo. Envolver-se com uma humana só iria lhe causar desconfortos. Sinto um pouco de medo por minha mãe... E se ela se apaixonar, e Basso voltar para as alturas sem satisfações?
Scott parece perceber minha preocupação como se estivesse escrito em minha testa.
Não se preocupe, Sky. – ele sussurra em minha mente, sua voz me acalentando como um copo de chocolate quente. – Ela é grandinha, sabe se cuidar...
Eu sorrio para ele, e volto a me concentrar em meus amigos. Patch e Nora parecem estar em uma conversa mental, porque encaram os olhos um do outro com intensidade. Então subitamente, Patch anuncia:
–Acho que já está tarde... – ele sorri para Nora de uma maneira que me faz imaginar o porque de eles estarem indo embora. – Vamos, Anjo? Acho que já abusamos demais da hospitalidade da Sra.Sky...
–Tchau! – eu sorrio maliciosamente. – Quero ser a madrinha quando...
–Vee! – Nora me repreende, mas ela está rindo.
–Como se você e o Scott fossem inocentes... – Patch complementa, e meu sorriso morre. Ele disse que não iria sair espalhando... – Eu vi coisas, que não podem ser desvistas...
–Do que você está falando? – Nora fica extremamente interessada .
–Patch! – eu o repreendo. – Você disse que não iria...
–Já lhe dei um pedido! – ele ergue as mãos, como se dissesse que é inocente. – Não lhe devo mais nada...
E com isso, os dois atravessam a soleira da porta. Eu encaro Scott com um pouco de vergonha, mas não ouso desviar meus olhos da imensidão cor de caramelo. Ele sorri.
O que ele viu foi só o trailer... – ele dá aquele sorriso malicioso que eu amo. – O filme inteiro é restringido a certos horários...
Eu ruborizo e dou um tapinha leve em seu ombro. Porém analiso a questão com cuidado. O que fizemos hoje foi perigoso. Minha mãe não toleraria que eu e Scott dividíssemos uma cama sob seu teto. E concluo que se quisermos fazer isso de novo, precisamos de outro lugar, um lugar privativo... Um lugar só nosso...
Scott... – parece-me mais fácil fazer o pedido mentalmente. – O que acha de...
Sim? – ele ergue uma sobrancelha grossa.
Você acha que tem problema eu morar com você? Digo... No seu apartamento.
Ele não responde nada e eu mordo o lábio. Que pergunta idiota. Nem dois meses de namoro e já querendo ir para a casa dele...
É que... – eu torço as mãos como minha mãe. – Eu pensei...
Mas ele não está mas me ouvindo. Na verdade ele está atravessando a sala, em direção a minha mãe. Eu o sigo até a metade do caminho... O que ele...
–Sra. Sky? – sua voz está um pouco trêmula .
–Sim? Oh... – ele percebe que Patch e Nora se foram. – Nora e Jev já foram?
É estranho ouvir Patch sendo chamado pelo seu verdadeiro nome, tão estranho que por um momento não sei de quem ela está falando. Scott acena positivamente com a cabeça uma vez.
–Bem... – ela sorri cautelosa para Scott. – Prossiga...
–A senhora sabe que eu amo sua filha mais que a mim mesmo...
–U-hum...
–E que eu daria minha vida para protege-la...
–Sei...
–Então acho que não se importaria se nós dividíssemos um apartamento...
–O que? – minha mãe olha de mim para Scott, e para mim novamente.
–Bem, eu...
–Mas Vee ainda não fez dezoito! – minha mãe exclama. – Quando ela fizer dezoito, aí poderá fazer o que bem entender...
–Eu faço dezoito daqui a duas semanas mãe... – eu replico, cruzando meus braços sobre o peito.
–É verdade, é verdade... –ela fica um pouco atônita. – Dois dias depois da Nora, não é?
–Sim... Dia 16 de dezembro, mãe...
–Oh! – ela coloca as mãos sobre o rosto. – Como eu pude esquecer...
–Está tudo bem... Tivemos muito com o que se preocupar nestes últimos dias...
–Não, não! Ainda tenho que comprar seu presente... Dezoito... É uma idade muito especial...
–Mãe, você sabe que assim que eu completar dezoito anos humanos eu vou parar de envelhecer, não sabe?
–Sim... – ela suspira. – Sei, sim...
–Não fique triste, mãe... – pela primeira vez me ocorreu a ideia de que minha mãe é humana, então um dia, ela irá me deixar. Percebo como fui egoísta... Como pude deixar este detalhe escapar?
–Não estou, meu bem... – ela sorri, mas seus olhos estão claramente menos brilhantes. – E quanto a morar junto com Scott... – ela sorri para nós. – Se é isso que você quer... Considere como um presente...
–Obrigada! – eu beijo suas bochechas. – Obrigada, mãe! Você é a melhor!
Scott faz uma reverencia, e beija as mãos da minha mãe.
– Sra. Sky... – ele graceja. – Tenho certeza de que seus netos irão compensar a falta da Vee...
Todos nós rimos, inclusive o detetive Basso, que parecia um pouco aéreo durante a conversa.
–Mas... – minha mãe interrompe nossas risadas. – Só daqui a uma semana...
Eu ainda assim sorrio. O que é uma semana de espera comparada a eternidade?
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