Um Amor Definitivamente Inumano
27 Bilhete
Notas iniciais
Scott e eu passamos a tarde caminhando pelo centro antigo da cidade. Sempre gostei dessa região, onde predominam as casas no estilo colonial e vendedores ambulantes das mais diversas porcarias inúteis aos turistas. Eu decido comprar um algodão velho que um deles diz ter sido usado por George Washington. Apesar de a cera de ouvido estar fresca demais, eu me contento com o souvenir. Scott apenas ergue as sobrancelhas para mim e esboça um sorriso.
Quando o relógio anuncia seis horas da noite, ele me leva na sorveteria Maureen’s. Dividimos uma banana split e entre uma e outra colherada, acabamos nos beijando loucamente, de modo que o gerente nos expulsa do local. Eu mostro o dedo médio para ele e começo a correr, puxando Scott comigo. Nós caímos em um banco da praça rindo como crianças, e de repente, sinto um floquinho gelado roçar a ponta do meu nariz. Encaro o céu e abro um sorriso amplo.
–Neve! – eu grito. Me levanto e começo a dançar na calçada, ciente dos olhares perturbadores dos mendigos e das pessoas que transitam pela rua, possivelmente considerando a possibilidade de minha insanidade mental. Dane-se.
Scott puxa minha cintura e logo estamos dançando como em seu apartamento, a neve cobrindo nossos cabelos e roupas como gotas de orvalho sobre uma flor. Sorrio contra o peito dele, coberto por um casaco de lã. Ficamos assim por alguns momentos, até que o crepúsculo engole as luzes do por do sol e a nevasca fica mais forte. Meus dedos começam a congelar.
–Vamos, Vee. Vou te levar para casa. – ele diz, passando um braço ao redor dos meus ombros e me conduzindo até o carro. Me sinto tão segura em seus braços...
Seguimos para minha casa, na parte norte de Coldwater. Não pensei em minha mãe o dia inteiro, e me sinto egoísta por isso. Começo a me preocupar. Ela não retornou nenhuma das minhas ligações. E isso não é costume dela. Tudo bem se o detetive Basso é muito bom de cama e tal, mas uma mãe responsável iria informar sua filha de seu paradeiro, não é?
Scott sente minha tensão, mas não diz nada. Apenas liga o aquecedor do carro e o rádio, onde Bill Barnabes , o meteorologista local, alerta sobre a grande probabilidade uma tempestade de neve nos próximos dois dias com sua voz anazalada.
Até a musica coopera com o clima de suspense. Está tocando uma musica antiga de rock da banda Buffalo, que se chama Freedom. Reconheço-a de um Cd sinistro que Patch gravou para Nora.
A letra diz algo sobre um homem que acabou morto por seus sonhos, pois abriu demais sua mente para as coisas que não deveria. O solo de guitarra envia calafrios pelo meu corpo. Scott parece inabalável, mexendo a cabeça no ritmo.
Enfim paramos em frente da minha casa. Mas eu não quero descer. O buquê de flores não está mais lá, apenas algumas pétalas espalhadas pelo chão, junto com a neve. Scott abaixa o radio e eu agarro seu braço. Estou com um mal pressentimento.
–Espere aqui. – ele diz enquanto desce do carro. Eu o observo, mordendo meu lábio inferior quando ele abre a porta. Vejo as costas dele se arquearem em tensão. Ele entra e fecha porta, e eu desço do carro. Estou prestes a pisar na entrada quando as luzes se acendem e ele aparece no batente, o rosto preocupado a centímetros do meu.
–Venha, Vee. Você precisa ver isso.
Eu o sigo para dentro, trancando a porta atrás de mim. Aparentemente, o hall parece intocado, exceto pelo buquê branco manchado de vermelho perto do sofá. Vermelho... O que...
–Veja isto. – Scott puxa algo de cima do sofá, que eu reconheço como um bilhete. Mas as letras não parecem ter sido feitas com tinta de caneta, e sim com o mesmo pigmento escarlate que cobre o buquê .
Nunca brinque com os céus sem esperar as conseqüências.
Eu arfo. Não apenas pelas palavras, ou pelo fato de a tinta escarlate ser sangue, mas pela conclusão de que estas palavras foram escritas com a delicada letra de minha própria mãe...
(...)
–Não, não, já disse que apenas isto. – Scott ergue as mãos com impaciência enquanto fala ao telefone. Nós passamos uma hora vasculhando a casa e não encontramos mais nada suspeito. Tentamos ligar para a delegacia de Basso, mas ninguém atende, como o esperado. Então recorremos a Patch. – Está bem. Tome cuidado com a neve.
Ele desliga e se senta junto a mim no sofá. Eu estou segurando o bilhete com força extrema em meus dedos, como se apertá-lo fosse me dar pistas sobre o paradeiro de minha mãe. Mas no fundo, sei que isso não vai acontecer.
–Não faz nenhum sentido... – ele diz, mas é interrompido por uma batida na porta. Meu coração se acelera, mas logo as batidas se tranqüilizam ao ver o rosto ansioso de Nora no batente. Ela ignora Scott e vem me abraçar.
–Você está bem? – ela sussurra em sua voz carinhosa, quase maternal, e finalmente deixo minhas lagrimas culpadas escaparem.
–É minha culpa... – eu soluço, cobrindo os olhos com as mãos. – Se eu... Se eu tivesse ligado antes...
Scott se senta do meu outro lado e me puxa contra seu peito. Eu me encolho como uma bola e soluço ali, o cheiro forte de canela encoberto pelo meu sofrimento, mas não completamente ausente.
–Vamos encontrá-la, Sky...- ele murmura contra meu ouvido, mas percebo que não há muita convicção em sua voz.
–Vee... – eu olho para cima ao ouvir a voz de Patch. – Vee, preste atenção em mim. Precisamos de fatos, e chorar não irá ajudar nem um pouco a encontrá-la, está entendendo?
Eu concordo lentamente com a cabeça, assustada por quão rude Patch soou. Seco minha s lagrimas e me desprendo de Scott.
–Certo. – Patch suspira, e volta a andar em círculos pelo sofá, as mãos cruzadas atrás das costas como Sherlock Holmes. – Ela disse que almoçaria com Basso, correto?
Concordo com a cabeça novamente, um pouco mais forte dessa vez.
–E ela não lhe avisou quando retornaria, correto?
–Bem, ela não me deu palavras exatas sobre o horário de retorno, mas supus que não passaria de hoje a tarde, caso as coisas dessem certo...
–E ela não te ligou nenhuma vez? – Nora interrompe a investigação.
–Nenhuma... E eu achei isto completamente normal... Que ótima filha eu sou...
–Mas não faz sentido! – Scott repete. – Não entendo porque Basso faria uma coisa dessas...
–Talvez... – Patch para de andar em círculos e nos encara sombriamente. – Não tenha sido Basso...
Todos nós o encaramos com convicção, esperando o veredicto. Ele encara um ponto fixo na parede ao fundo.
– Acho que vou rever velhos amigos esta noite...
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