Um Amor De Natal
4 Thaluke - Como Thalia salvou o (próprio) Natal
Notas iniciais
Thalia Grace não queria estar passando o Natal com a sua família, mas infelizmente não teve muita alternativa. Bem, ela estava encarando isso como uma espécie de boa ação. Afinal, ela havia ido para lá por causa de Jason, seu irmão mais novo.
Por mais que Jason já tenha namorado outras garotas antes, Piper era a primeira namorada que irmão levava em casa para conhecer a família, então era algo para celebrar. Seus outros namoros não duraram muito, porque as garotas não gostavam que o seu namorado preferisse passar o fim de semana com a cara enfiada dos livros em vez de sair.
Thalia gostava de Piper, achava que ela era uma pessoa legal e que combinava bem com o irmão. Se Piper fosse uma daquelas patricinhas mimadas que só soubessem falar de roupas, maquiagem e tirar selfie, ela nem fingiria ser agradável com a garota. Mas Piper não era assim, pelo contrário: era vegetariana, não ligava para moda e nem usava maquiagem, falava sobre assuntos relevantes e, o mais importante, não olhava torto para Thalia devido ao seu estilo de se vestir.
— Piper, é uma honra finalmente te conhecer! — Zeus, o pai de Thalia e Jason, disse.
Eles haviam acabado de chegar em casa. Zeus e Hera, a madrasta deles, haviam ido buscá-los no aeroporto. Agora eles estavam na sala, conversando.
É óbvio que Thalia preferia estar confinada no seu antigo quarto em vez de socializar com outras pessoas, mas ela queria mostrar que, aos 26 anos, era uma adulta que podia lidar com algo, mesmo que não gostasse. Além disso, ela sabia que Piper seria o grande alvo das perguntas durante o fim de semana por ser carne fresca na área.
— Imagina, Sr. Grace. Eu que me sinto honrada por ter sido convidada para passar o Natal com vocês. — Piper sorriu — Muito obrigada!
Thalia conhecia a garota há apenas uns 5 meses, mas ela sabia que Piper estava sendo verdadeira em suas palavras, porque ela sempre era boazinha demais com todo mundo. E esse era o único ponto negativo que Thalia havia achado nela até agora.
Então o interrogatório começou: falar sobre a família, a faculdade, como ela e Jason haviam se conhecido. Tudo que Thalia já sabia. Então ela apenas fingiu prestar atenção, mexendo a cabeça nos momentos certos.
—... A casa ficou muito solitária depois que Thalia e Jason foram para a faculdade. — Hera disse. Thalia voltou a prestar atenção quando ouviu o seu nome. — Sabe, sinto falta de ter crianças correndo pela casa.
— E te deixando louca com medo de algum vaso caro ser quebrado? — Zeus completou.
— Oh, disso eu definitivamente não sinto falta! — Sua madrasta deu uma risadinha com a mão tapando a boca, daquele jeito que só madames ricas faziam. — O que vocês acham?
— Bem, acho ainda está um pouco cedo... — Piper passou a mão pela nuca, visivelmente constrangida com o assunto.
— Oh, querida! Claro! Vocês ainda estão no começo do namoro, isso não foi uma indireta. — Hera lhe assegurou. Ela se inclinou levemente para frente no sofá, fingindo ser a adorável madrasta que se importava verdadeiramente com os seus enteados. Aham... claro. — E quanto a você, Thalia?
Todos os olhares se voltaram para ela. Thalia odiava ser o centro das atenções.
Céus, estava demorando mesmo para Hera começar a implicar com ela! Tinha certeza que esse era o passatempo favorito da sua madrasta. Nada deveria dar mais prazer a ela do que fazer perguntas constrangedoras sobre a vida amorosa da enteada na frente dos outros.
— O que foi? — Thalia revirou os olhos. — Vocês já sabem o que eu penso sobre esse assunto.
Thalia nunca pensou em ter filhos ou em se casar. Se o seu pai e Hera queria tanto ter pirralhos gritando pela casa e quebrando tudo que tocassem, teriam que esperar Jason providenciar isso. O que provavelmente não seria tão cedo também, já que ele queria dar prioridade para a sua carreira. E Piper parecia pensar igual.
— Querida. — Hera disse. Dava para sentir a falsidade no seu tom de voz. — Um dia, você vai mudar de ideia sobre isso. Afinal, não quer ficar igual a sua tia Héstia, não é?
Héstia era a irmã mais nova de seu pai. Ela nunca se casou e nem mesmo teve namorados na juventude. Certa vez, ainda criança, Thalia perguntou o motivo disso, ela simplesmente disse “Os homens não prestam, tome cuidado com eles, sobrinha”. Quando cresceu, Thalia percebeu que Héstia estava certíssima. Não era à toa que era sua tia favorita.
Hera trabalhava como organizadora de casamentos, então parecia que todo mundo que não queria se casar, era algum tipo de aberração para ela.
— Sinceramente? Eu quero ser igualzinha a ela. — Thalia sorriu com desdém.
Hera cerrou a mão em punho, se controlando. Mas logo depois voltou para o seu papel de “madrasta boazinha” ao mudar de assunto:
— Nossa, estou com vontade tomar um chá bem quentinho! Vocês querem? Eu vou preparar um pouco, já volto — ela foi em direção à cozinha rapidamente.
Thalia poderia ter ido passar o Natal com a família, mas isso não significava que ficaria presa dentro de casa durante 4 dias aturando Hera, isso já era demais. Então ela resolveu aproveitar a oportunidade para escapar, mas Jason foi mais rápido e segurou a manga do seu casaco.
— Aonde você vai? — ele murmurou baixinho. — Você prometeu que ia se comportar.
— Primeiramente: ela começou e você sabe muito bem disso. Em segundo lugar: você não manda em mim. — Ela revirou os olhos, puxando o braço para se soltar. Jason adorava bancar “o irmão mais velho”, mesmo sendo mais novo, apenas por sempre ter sido o mais responsável dos dois. Tinha momentos, como este, que Thalia precisava lembrar o irmão que era quatro anos mais velha do que ele e sabia se cuidar sozinha.
Thalia inclinou-se no sofá para olhar Piper, sentada do outro lado de Jason.
— Boa sorte, cunhadinha. Você vai precisar. — ela então se levantou e anunciou em voz alta: — Vou dar uma volta pela cidade.
— Hm, certo... — Seu pai estava distraído olhando algo no celular e nem levantou a cabeça. Na verdade, nem deve ter prestado atenção no que ela disse.
— Se agasalhe bem. Está muito frio lá fora — Jason avisou, tentando mais uma vez bancar o irmão mais velho que ele não era.
— Claro. — Thalia forçou um sorriso, se controlando para não mostrar o dedo do meio para o irmão. — Até mais, pessoal.
Ela foi para o hall de entrada, vestiu seu casaco grosso, colocou o gorro na cabeça, o cachecol, as luvas e saiu antes que Hera voltasse.
***
Thalia saiu sem rumo pela cidade. Ela nem se lembrava qual foi a última vez que havia andado por aquelas ruas. Normalmente, ela ficava trancada dentro do quarto quando vinha visitar a família, isso quando ela vinha visitá-los.
Desde que havia se mudado por causa da faculdade, 8 anos atrás, ela voltou para a sua cidade natal o mínimo possível. Mesmo pertencendo ao estado de Nova York, a região era um lugar pacato e tranquilo demais, onde todo mundo conhecia todo mundo. Isso a irritava muito, pois todo mundo sabia quem ela era e, principalmente, quem o seu pai era. Não havia muitas famílias de classe alta na região, então os Graces se destacavam. As pessoas podiam não lembrar-se do seu nome, mas certamente sabiam que ela era filha de Zeus. Não que isso tenha impedido Thalia de aprontar tudo o que quisesse quando era nova, claro.
Por isso, Thalia preferia morar em lugares mais populosos, onde ela podia passar despercebida por onde fosse. E Chicago era perfeita.
De repente, ela passou em frente à uma lanchonete. Daquelas bem antigas, com as paredes de alumínio, igual um trailer. O letreiro estava aceso, indicando que o estabelecimento estava aberto.
“Não acredito que ainda funciona”, Thalia pensou, andando pelo estacionamento de cascalhos que agora estava coberto de neve.
Assim que ela entrou, o sino da porta fez “plim”, indicando que havia um novo cliente. O lugar ainda era exatamente como ela lembrava : os bancos com o estofamento vermelho, as pequenas jukeboxes em cima das mesas, o piso preto e branco, a máquina de fliperama nos fundos. Quando mais nova, Thalia adorava ir ali, sempre se sentia como se tivesse entrado em uma máquina do tempo e parado nos anos 60.
Ela custou para achar uma mesa disponível, pois a lanchonete estava praticamente lotada. Antigamente, o local vivia vazio por ser “antigo demais” e era justamente por isso que Thalia amava tanto ir lá. Mas agora parecia que as pessoas gostavam dela pela vibe retrô.
Um cardápio pousou na mesa e Thalia olhou para cima. Uma garçonete nos seus 40 e tantos anos, usando um uniforme vermelho da lanchonete e um gorro de Natal estava lhe encarando com uma expressão entediada no rosto. Bem, ela não podia culpar a mulher, afinal, quem ia querer trabalhar parecendo a Mamãe Noel, não é mesmo?
— Oi. O que você vai querer? — ela perguntou, fazendo um barulho irritante por causa do chiclete que mascava. Seu crachá dizia “Sophie”. Thalia não a conhecia da época que costumava vir aqui, mas já fazia mais de 8 anos, então era normal ter funcionários novos.
— Batata rosti recheada com bacon e ovos — ela olhou rapidamente o cardápio, mas a maioria das coisas do menu não havia mudado. — E uma Coca.
— Ok. — Sophie rabiscou algo no seu bloquinho. — Volto logo com o seu pedido.
Thalia assentiu, vendo a mulher se afastar. Ela vasculhou os bolsos do casaco, encontrou algumas moedas e colocou uma na jukebox, escolhendo Rolling Stones para tocar.
— Thalia?! — uma voz masculina a chamou. E parecia muito familiar.
Ela levantou a cabeça e encarou o cara parado na sua frente: cabelo cor de areia cortado bem curto, a barba estava por fazer, dava para ver que o seu corpo era musculoso mesmo por baixo da jaqueta térmica que usava. Ele estava um pouco diferente do que Thalia se lembrava, mas definitivamente era ele. Aqueles lindos olhos azuis, a cicatriz no rosto — que o deixava com cara de badboy — e aquele sorriso torto ainda eram os mesmos.
O pesadelo loiro da vida dela: Luke Castellan.
— Ah. Oi, Luke. — Thalia tentou manter sua expressão neutra enquanto sentia um nó se formando na garganta.
Por que Thalia tinha que encontrar justamente com ele aqui? Por quê?!
— Caramba, é mesmo você! — Luke abriu um sorriso enorme, daqueles que derretiam corações, e Thalia sentiu-se levemente enjoada. Ele deu um passo na sua direção com os braços erguidos, como se quisesse abraçá-la, mas mudou de ideia no último segundo. Por fim, pigarreou. — Hm... Eu posso sentar com você? Não tem mais mesas vazias.
Thalia olhou em volta, mas todas as outras mesas estavam realmente ocupadas. Então ela deu de ombros como se não se importasse. Mas ela se importava. Muito.
Eles se encararam por um longo tempo, mas ninguém ousou iniciar uma conversa. Essa era a primeira vez em que eles iam naquela lanchonete, sentavam em uma daquelas mesas e não conversavam. Pareciam que estavam enferrujados e não sabiam mais como fazer isso.
Então Thalia ficou feliz ao ver Sophie indo na direção da mesa deles com uma bandeja na mão.
— Seu pedido — ela colocou as coisas na frente de Thalia. Então olhou para Luke e deu um grande sorriso, parecendo 100 vezes mais simpática agora. — Olá, Luke. O que você vai querer, querido?
— Hm... — ele olhou para o prato de Thalia. — Pode ser o mesmo que ela. Obrigado, Sophie.
— Ok, querido — Sophie endireitou as costas, deixando os seus peitos ainda mais empinados e saiu rebolando.
“Parece que nada mudou por aqui, Luke continua bem popular entre as mulheres”, Thalia pensou, resistindo a vontade de revirar os olhos. Pegou um pedaço de batata e colocou na boca, estava quente, mas incrivelmente deliciosa como ela se lembrava.
— O que foi que aconteceu com a gente? — Luke disse de repente.
Ela engoliu a comida e tomou um gole da sua Coca antes de responder:
— Você sabe muito bem o que aconteceu, Castellan.
Thalia e Luke costumavam ser melhores amigos quando novos. Se conheceram porque os pais deles também eram amigos, então acabaram se aproximando. Mas quando Luke entrou no High School, as coisas mudaram entre eles. Ele entrou no time de futebol americano, começou a andar com os populares e os dois se afastaram gradativamente. Luke tentou se explicar, se aproximar novamente dela, mas ela não deixou, fingiu que estava brava com ele... Quando, na verdade, ela estava brava consigo mesma.
Porque ela estava apaixonada por Luke naquela época e se odiava por isso. Ela se sentia ridícula por ter caído em um dos maiores clichês de todos: “a garota que se apaixona pelo melhor amigo”. Justo ela que criticava tanto os clichês! Carma é mesmo uma vadia.
Então quando Luke entrou no time, ela usou isso como a desculpa perfeita para ficar longe dele, para que os seus sentimentos não crescessem ainda mais.
— Eu… — Luke começou a falar, mas foi interrompido quando a garçonete voltou com o pedido dele. — Obrigado.
— Disponha, querido. — Sophie sorriu para ele, mas Luke não percebeu, pois estava encarando Thalia. Ela franziu o cenho, parecendo não entender o que estava rolando ali, estava pronta para dizer mais alguma coisa quando alguém em outra mesa a chamou. — Com licença.
Luke enfim saiu do seu transe e desviou o olhar, começando a comer como se estivesse morrendo de fome. Ele comeu mais um pedaço generoso da sua batata rosti antes de continuar:
— Nós nunca estudamos juntos, mas você sabe como as minhas notas eram péssimas. Você acha que eu teria conseguido entrar na faculdade com aquele histórico? Além disso, eu nunca tive um pai rico, como o seu, para bancar a minha mensalidade... Sem ofensas. Eu entrei no time porque precisei, você não sabe o quanto eu treinei e me dediquei, tudo para virar um dos melhores jogadores e conseguir ser notado por um olheiro de alguma faculdade boa! Eu ganhei bolsa integral por isso, você sabia? Caso contrário, eu estaria até hoje neste lugarzinho, trabalhando na loja do meu pai e me sentindo infeliz.
Thalia não sabia dessa parte. Ela sempre achou que ele havia entrado no time porque queria ser popular.
— Você nunca me falou sobre isso...
— Claro que não, você não me deu oportunidade. — Ele suspirou. — Eu não queria te deixar de lado, eu apenas estava ocupado demais treinando e tentando me enturmar com os outros jogadores. Não bastava eu estar no time se eles não gostassem de mim, nunca me passariam a bola. Eu sinto muito que as coisas tenham acontecido assim entre a gente, Thalia. Você ainda está brava comigo?
— Não estou. — Ela revirou os olhos, como se aquilo fosse uma pergunta idiota. — Já faz muito tempo.
Afinal, ela nunca esteve realmente brava com ele, só para começar.
— Que bom. — Luke sorriu e então resolveu mudar drasticamente de assunto: — Então, como estão as coisas? Você e Hera ainda não se mataram?
Thalia deixou escapar uma risada.
— Não, mas ainda tenho mais 3 dias aqui...
Ele sabia de tudo que rolava naquela casa e como a relação de Thalia como a madrasta era complicada. Thalia contou para ele como estavam as coisas com Hera e que Jason havia trazido a namorada para conhecer a família. Luke falou sobre os irmãos e que o pai havia reformado a loja da família. Falaram também sobre a faculdade, suas carreiras e outras coisas. Estar ali novamente com o Luke era como voltar no tempo, como se eles ainda fossem 2 adolescentes.
— Eu já volto — Luke disse assim que eles terminaram de comer. Ela assentiu e o viu saindo da mesa, indo em direção aos banheiros.
Thalia pegou outra moeda e colocou na jukebox, escolhendo uma canção aleatória. Ela se distraiu olhando para a neve do lado de fora que nem percebeu quando Luke voltou.
— Para você. — Ele colocou um cupcake, com uma velinha acesa em cima, na frente dela.
— O que… o que é isso? — ela perguntou, mesmo sabendo exatamente do que se tratava.
— Sei que você não é muito fã de aniversários, mas eu queria compensar os anos que perdi os seus. — Ele se sentou, dando de ombros como se não fosse nada demais. — Então… Parabéns atrasado, Grace.
O aniversário de Thalia era no dia 22 de dezembro, ou seja, ontem.
— Você ainda lembra o dia? — ela não conseguiu disfarçar a surpresa na voz.
— Claro. Afinal, eu sou o seu melhor amigo — ele deu uma piscadinha.
Ele disse “sou”, e não “era”. Como se o tempo não tivesse passado, como se eles não tivessem se afastado. E era exatamente assim que Thalia estava se sentindo também. Parecia que eles tinham pausado a amizade deles naquela época e então deram play novamente agora.
— Eles não tinham mais cupcakes de red velvet, então peguei um de chocolate mesmo. — Luke disse. Ele até mesmo se lembrava o cupcake favorito dela! — Espero que você não se importe.
— Tudo bem.
— O que você está esperando? Faça um pedido.
Ela assentiu e fechou os olhos. Pensou em algo aleatório e apagou a pequena vela.
Após Thalia comer o seu cupcake, eles se levantaram e foram até ao caixa. Luke estava atrás dela na fila, esperando a vez deles para pagar, quando sussurrou em seu ouvido:
— Ei. O que você pediu?
O hálito quente dele fez os pelos da nuca de Thalia se arrepiarem.
— Hm... — ela engoliu em seco. — Segredo.
— Qual é, Grace. Me diga! — Luke a chacoalhou pelos ombros, igual uma criança pequena pedindo algo aos pais.
— Se eu contar, não vai se realizar — Thalia respondeu, mexendo os ombros para se soltar e deu um passo para a frente.
— Ok, ok — ele se deu por vencido.
Finalmente chegou a vez deles. Luke não se ofereceu para pagar a parte dela, ele a conhecia bem o suficiente para saber que ela negaria. Quando eles estavam deixando o caixa, Sophie apareceu com uma bandeja vazia debaixo do braço esquerdo.
— Luke, você já está indo? — Ignorando totalmente a presença de Thalia, ela passou a mão no braço dele. — Fique mais um pouco, querido.
Thalia reprimiu a vontade de vomitar com a cena.
— Desculpe, eu realmente preciso ir. — Ele deu um sorriso gentil para ela e se afastou. — Eu passo aqui outra hora antes de voltar para Miami.
Sophie assentiu, parecendo um pouco chateada e foi atender uma mesa que a chamava.
— Uau! Ela não é nada sútil — Thalia deixou escapar quando eles estavam indo em direção à saída.
— O quê?! — Luke parou, parecendo confuso.
— Sophie. Você nunca percebeu que ela está sempre flertando com você?
— Você está imaginando coisas. Ela tem idade para ser a minha mãe!
— Ah, aposto que ela ia adorar se você a chamasse de “mommy”. Então ela te chamaria de “sugar baby”.
— Céus, Thalia! — Luke fez uma careta, como se ele achasse aquilo nojento.
— Ei, pombinhos! — um cliente passou por eles e apontou para algo em cima da cabeça deles. — Vocês sabem o que isso significa!
Thalia olhou para cima. Havia um ramo de visco exatamente em cima da cabeça deles. Quem diabos coloca um visco no meio de uma lanchonete?!
— Hm... Nós não... — Luke balançou as mãos para o cara, parecendo meio constrangido.
Thalia sabia que eles não eram obrigados a fazer isso, afinal, muita gente ignorava. Mas ela queria provar para si mesma que não sentia mais nada por Luke. Então, nada melhor do que um beijo para isso, certo?
— Tudo bem — ela disse por fim.
— Sério? — Ele parecia surpreso. Muito surpreso. — Bem, então voc…
Thalia nem esperou Luke terminar a frase. Ficou na ponta dos pés, segurou o rosto dele entre as mãos e o beijou. Ele ficou tão surpreso que nem fechou os olhos, quando pensou em fazer isso, Thalia já estava se afastando.
— Te vejo por aí. Tchau. — Ela disse, como se nada tivesse acontecido, e se apressou em sair da lanchonete.
Droga! Droga!
Como ela pôde achar que isso seria uma boa ideia? Tudo que Thalia havia feito para esquecê-lo havia sido em vão! Bastou um beijo rápido, praticamente um selinho, para que o seu coração batesse como antigamente.
Que merda você acabou de fazer, Thalia Grace? Sua consciência ralhou com ela.
Definitivamente, uma merda enorme.
***
Quando ela já estava na metade do estacionamento, sentiu uma mão em seu braço, o que a fez parar de andar.
— Ei. — Luke disse. — Por que você está andando tão rápido?
— Está frio — mentiu, se soltando dele e andando a passos largos.
Eles andaram alguns metros sem falar nada até Luke cortar o silêncio:
— Para onde estamos indo?
— Você, eu não sei… Mas eu estou indo para casa — ela respondeu. No momento, enfrentar a madrasta realmente parecia muito melhor do que ficar na companhia de Luke.
— Sua casa fica para a outra direção.
Ops! Ela nem havia percebido isso, estava apenas andando rápido e tentando se livrar dele.
— Eu vou passar em outro lugar antes — ela disfarçou.
— Que lugar?
Ela parou tão brutalmente que Luke quase trombou nela.
— Não é da sua conta! E por que você está me seguindo?
— Eu não estou te seguindo. Minha casa fica nessa direção, lembra?
— Que seja — ela deu de ombros e voltou a andar.
Eles entraram em um parquinho. Thalia só percebeu isso porque viu os brinquedos cobertos de neve.
— Vá com calma. Tem um lago aqui, em algum lugar. — Luke avisou em algum ponto logo atrás dela.
— Eu sei — Thalia respondeu sem diminuir o passo. Na verdade, ela nem se lembrava mais que havia um lago por ali, mas não queria dar o braço a torcer.
— Você está assim por causa do que aconteceu na lanchonete?
Droga! Thalia estava torcendo para ele não tocar no assunto.
— Não aconteceu nada — foi a resposta dela.
— Ah, então o beijo foi apenas um delírio meu?
Thalia odiava esse tom de voz que ele estava usando agora. Meio zombeteiro, meio provocador.
— Eu só fiz isso porque é uma tradição.
— E desde quando você liga para essas coisas? Sempre dizia que tradições eram bobagens.
— Desde agora! As pessoas mudam de opinião, ok?
— Concordo, mas isso não se aplica a você. Você ainda é a mesma de 10 anos atrás.
— Eu não sou! — ela se virou e olhou furiosamente para ele. — Pare de falar como se você ainda soubesse tudo sobre mim! Eu não sou mais aquela garota idiota de 16 anos que você conhecia quando foi para a faculdade! Eu mudei!
— Eu nunca disse que você era uma “garota idiota”, Thalia… — a expressão de Luke era de choque. — De onde você tirou isso?
— Não importa! — ela exclamou. — Quer saber? Eu não sou obrigada a lidar com isso. Adeus!
Ela deu meio volta, passando pelo caminho que eles haviam vindo, dando passos fortes.
— Thalia, espere! — Luke correu para alcançá-la. — Não pise tão forte assim!
— Não diga como eu deva pisar! — ela gritou! — Eu...
De repente, houve um ruído. Os dois pararam imediatamente.
— Você ouviu isso? — Thalia perguntou, temendo que fosse o que ela pensava.
— Sim... O gelo está muito fino, devemos estar em cima do lago.
— Como vamos sair daqui? — ela queria gritar, mas se controlou.
— Vamos devagar, ok? — ele ergueu a mão, em um sinal para ela ficar calma. — Vai dar tudo certo.
Eles voltaram a andar, mas agora com passos mais leves. Houve outro ruído, como algo se estivesse se partindo.
— Merda! Precisamos nos apressar, ou senão... — Mas Luke nem conseguiu terminar a frase, pois a superfície debaixo de onde eles estavam, simplesmente desabou.
***
Cair em um lago congelante não estava na lista de “Coisas que Thalia gostaria de fazer antes de morrer”.
Felizmente, o cérebro de Luke não parecia ter congelado, pois ele rapidamente teve a ideia de quebrar o gelo fino até eles chegarem na borda do lago. Mas a pior parte ainda era sair da água, afinal, parecia que todos os músculos de Thalia haviam congelado. Após algum esforço, Luke conseguiu puxá-la para fora.
Por sorte, a casa dele não era muito longe dali. Ela avistou um letreiro luminoso escrito “M&G Store”: a loja de artigos para festas de Hermes. Fazia muito tempo que Thalia não ia lá. A loja costumava ser bem pequena, mas agora havia sido reformada e ampliada. A fachada do prédio de 2 andares estava um pouco diferente, a cor também não era mais a mesma.
— Luke! — um garoto que estava prestes a subir numa moto de entregas exclamou ao vê-los. — O que raios aconteceu?
— Ah, nada de mais. A gente só caiu no lago. — Ele quis usar um tom de brincadeira, mas a sua voz estava tremendo demais.
Thalia olhou para o garoto. Alto, magro, cabelos crespos e meio rebeldes, olhos azuis do mesmo tom de Luke. Era um dos irmãos mais novos dele. Connor, ela supôs. Era difícil ter certeza, já que eles eram muito parecidos fisicamente e todo mundo os confundia.
— Cara, isso não é bom! Vamos subir!
Eles subiram as escadas em direção ao segundo andar, onde ficava a casa deles.
— Hm, quem é essa garota? — o irmão dele perguntou baixinho, mas Thalia ouviu.
— Você não está a reconhecendo? É a Thalia!
— Thalia Grace? — ele quis ter certeza. Ela ergueu levemente o braço e tentou sorrir, mas sentia que até seus músculos faciais estavam congelados. — Uau, seu cabelo! Eu nem te reconheci!
Quando criança, Thalia tinha o cabelo bem curtinho, o que fazia ela ser constantemente confundida com um garoto. Certa vez, ela pediu a Hera para ir ao salão e cortar curto, mas como a madrasta negou, dizendo que o cabelo dela era bonito demais para se estragado assim, ela simplesmente pegou uma tesoura, se trancou no banheiro e cortou o cabelo por conta própria. É claro que Hera surtou. E é claro que Thalia se sentiu vitoriosa por isso.
— Você está muito diferente! — o garoto prosseguiu. — Está mais…
— Bonita? — Thalia conseguiu dizer.
Era o que costumavam falar depois que ela deixou o cabelo crescer novamente. Não que ela concordasse, afinal, nunca se achou bonita mesmo. A autoestima dela sempre fora uma droga.
— Eu ia dizer gostosa, mas bonita serve.
— Connor! — Luke exclamou, parecendo bravo.
Ah, realmente era Connor! Thalia ainda sabia diferenciá-los, afinal de contas.
— O quê? Foi um elogio! — Connor se defendeu.
Luke pigarreou.
— Que tal você fazer algo útil e arrumar algumas roupas e toalhas para nós?
— Certo. Mas acho que as roupas vão ficar grandes nela — Connor analisou Thalia de cima a baixo.
— Pegue algo seu, você é o mais baixo da casa. — Luke respondeu, tirando o casaco pesado e molhado.
Connor revirou os olhos, mas não disse nada a respeito disso.
— Pode tomar seu banho, Thalia. Eu vou deixar as coisas para você lá depois, prometo que não vou olhar. — Ele deu um sorriso travesso.
Thalia ignorou isso e foi para o banheiro.
Ela se despiu e entrou debaixo da água fervendo, então sentiu-se viva novamente. Ouviu a porta abrir e ficou parada, olhando para a cortina, pronta para dar um soco em quer que tentasse puxá-la. Mas Connor apenas gritou que estava deixando as coisas para ela na bancada e saiu. Ela ficou ali até que os seus dedos começassem a enrugar. Vestiu a calça de moletom, o suéter natalino — brega! —, as meias grossas e as botas. As roupas ficaram um pouco largas nela, mas davam para o gasto.
Quando ela saiu, Luke estava sentado na frente da lareira, enrolado em um cobertor grosso.
— Você já tomou banho? — ela perguntou, estranhando.
— Sim. Meu pai fez uma suíte no quarto dele quando reformou o prédio. — Luke explicou e ela apenas assentiu. — Venha se esquentar. — E abriu o cobertor, a convidando para entrar ali debaixo com ele.
— Hm, você não tem outro cobertor?
— Não. — Ele disse simplesmente.
Thalia trincou os dentes e sentou-se ao lado dele, mantendo certa distância. Ele bufou e a puxou para perto, enrolando o cobertor em volta deles. Céus, ela queria tanto matá-lo agora por fazer seu coração disparar!
— Preciso voltar para a loja... — Connor deu uma xícara de chocolate quente para cada um. — Vocês vão ficar bem sozinhos?
“Não”, Thalia pensou.
— Sim — Luke sorriu para o irmão.
Connor assentiu e saiu. Eles ficaram em silêncio por um tempo, olhando para a lenha sendo consumida pelas chamas.
Thalia olhou em volta, percebendo que a casa não estava assim tão diferente do que ela se lembrava. Estar ali causava uma sensação de nostalgia nela. Como se o tempo não tivesse passado.
— Posso te perguntar algo? — Luke disse, quebrando o silêncio. Thalia tomou um longo gole do seu chocolate quente para ganhar tempo e então balançou a cabeça. — Você não sentiu nada quando nos beijamos?
— Não. — Ela respondeu imediatamente.
— Tem certeza?
— Absoluta. — confirmou. Mentirosa. — Nadinha.
— Então por que você fugiu daquele jeito?
— Eu não fugi. Eu estava apenas com muito frio e queria passar em um lugar antes e…
— Você diz que mudou, mas isso não é verdade. — Luke a interrompeu. — Ainda sei dizer quando você está mentindo. Tipo agora.
Droga! Luke a conhecia tão bem!
Ela deu um suspiro longo, mas não disse nada.
— Thalia. Você já sentiu algo, além de amizade, por mim?
Thalia fechou os olhos por um instante. Ele estava tão perto de descobrir tudo. Toda a barreira que ela criou a sua volta estava prestes a desmoronar.
— Ok, você não precisa responder agora... — Ele disse por fim. — Mas eu já senti algo por você.
— Você está blefando — ela disparou.
— Não estou. Férias de verão, eu tinha 13; você, 11. Você finalmente havia deixado o cabelo crescer, lembra? Estava na altura dos ombros. Havia parado de agir como um moleque travesso e começou a agir como uma garota rebelde que não tinha medo de ninguém. Eu te achava incrível naquela época. E pensei seriamente em te beijar em diversos momentos naquelas férias, mas provavelmente você me daria um soco.
— Eu teria te dado um soco mesmo. — Thalia confirmou. Afinal, ela ainda achava garotos meio nojentos naquela época.
Luke riu e Thalia não pôde evitar esboçar um sorriso ao pensar na cena.
— A questão é… Eu gostei de você por um tempo. Mas em algum momento, sei lá, eu acho que simplesmente desisti. Eu não queria estragar a nossa amizade.
— Você fez bem — ela respondeu, colocando a xícara vazia no chão. Luke também já havia terminado o dele.
Sim, foi melhor assim. Eles gostaram um do outro em momento diferentes, não era mesmo para ser. Thalia e Luke nunca seriam “nós”.
— Fiz mesmo? — Ele perguntou. Quando Thalia percebeu, Luke estava inclinado na direção dela e olhava para os seus lábios. — Eu sempre imaginei como seria te beijar… Hoje eu finalmente tive uma pequena amostra disso.
— E...? — ela perguntou, com receio.
— … E eu ainda não cheguei numa conclusão. Acho que preciso provar de novo.
Então ele a beijou.
Thalia podia afastá-lo se quisesse, mas não fez isso. Ela não queria fazer isso. E foi então que percebeu que não podia fugir mais do seu próprio clichê.
Ela sentiu as mãos dele na sua cintura, a puxando para mais perto. Thalia agarrou o suéter dele e retribuiu o beijo.
Eles só se afastaram quando ambos perderam o fôlego.
— Você não me bateu. — Luke constatou, com um sorriso idiota no rosto.
— Não. — Ela afirmou.
Eles estavam se encarando quando uma voz disse:
— Opa! Estou atrapalhando algo?
Eles olharam para trás ao mesmo tempo. Era Travis, o outro irmão de Luke.
— Oi. O que você quer? — Luke perguntou, se afastando sutilmente de Thalia.
— Nada, eu só vim ver se vocês precisavam de algo e vou me arrumar para sair. — Ele explicou. — Olá, Thalia.
— Oi, Travis. — ela acenou, meio sem jeito.
Ele havia visto o beijo, certo?
— Ah, verdade. Seu encontro é hoje. — Luke lembrou.
— Encontro? Com quem? — Thalia perguntou.
Era estranho ver os irmãos de Luke falando sobre essas coisas, eles eram dois pirralhos na época em que ela vinha aqui.
— Katie Gardner! — Luke anunciou.
— Filha da Sra. Gardner, a louca por plantas? — perguntou. Se Thalia não estivesse enganada, Katie era a filha mais velha dela.
— Ela não é louca, só ama muito jardinagem! — Travis exclamou.
— Veja só, ele já está defendendo a futura sogrinha! — Luke debochou.
— Cala a boca, Luke! — ele lançou um olhar mortal para o irmão e andou em direção ao quarto. — Vou me arrumar.
Travis fechou a porta com força. Eles estavam sozinhos novamente.
De repente, Thalia caiu em si. Como ela poderia tentar ignorar seus sentimentos, quando Luke parecia fazer de tudo para ganhar um espaço novamente em seu coração?
— Melhor eu ir embora... — ela tirou o cobertor e se levantou.
— Tem certeza? — Luke se levantou também. — Coloquei suas roupas na secadora, ainda não devem estar secas.
— Eu pego outra hora.
— Vou te levar em casa.
— Não precisa. — Thalia disse. Ela não sabia se aguentaria uma caminhada na companhia dele sem beijá-lo novamente. — Fique aqui e se aqueça.
— Ok. Então espere o Travis sair e pegue uma carona com ele.
— Ele provavelmente vai demorar. Minha casa nem é tão longe assim, relaxa.
— Hm, se você prefere assim… — Luke coçou a nuca.
Thalia apreciou que ele não tenha insistido muito. Certamente sabia que a situação entre eles poderia ficar ainda mais desconfortável.
— Tchau, Luke.
— Tchau, Thalia.
Eles se olharam por um instante, como se pensassem se deveriam se abraçar, dar um aperto de mão ou se beijarem. Por fim, não fizeram nada e Thalia simplesmente desceu as escadas.
Ela sentiu o vento frio chicoteando o seu rosto, mas nem se importou. Tinha coisas mais importantes para pensar agora.
***
Thalia não saiu de casa no dia seguinte, pois ela temia acabar se encontrando com Luke pela região novamente. Ela não conseguia parar de pensar em tudo no que havia acontecido no dia anterior. Luke provavelmente a beijou apenas por curiosidade, para saber como seria, sem sentimentos envolvidos. Infelizmente, Thalia não podia dizer o mesmo.
Se apenas um selinho embaixo do visco já havia despertado algo nela, imagina então um beijo daqueles de tirar o fôlego!
Thalia estava olhando para o teto, ouvindo música no volume máximo em seus headphones, deitada na cama do seu antigo quarto, quando a porta foi aberta um pouco e uma cabeleira loira surgiu. Ela afastou o fone de um lado para ouvi-lo.
— Você tem visita. — Jason disse.
— Seja quem for, mande embora. — ela respondeu, ajeitando os fones de novo e fechou os olhos. Alguns segundos depois, seu fones foram retirados. — Ei!
— Você não quer saber quem é?
— Não.
Ignorado a irmã, ele disse mesmo assim:
— Luke Castellan Também conhecido como o cara que quase te fez pegar uma pneumonia ontem.
Thalia sentou-se na cama. Como Jason sabia disso? Ela apenas havia dito que algo aconteceu. Não falou que caiu no lago, nem mesmo mencionou o nome de Luke.
— Ah, provavelmente você está pensando como eu sei disso. — ele pareceu ler os pensamentos dela. — Bem, ele mesmo me contou o que aconteceu ontem e pediu desculpas pelo ocorrido. Enfim, você não vai descer?
Thalia não sabia se estava preparada para vê-lo agora.
— Hm, ele provavelmente veio por causa das roupas. Entregue para ele, estão ali — ela apontou para uma sacola perto do guarda-roupa.
Dito isso, ela deitou novamente na cama. O que significava que a conversa estava encerrada.
— Tenho certeza que isso era só uma desculpa. Ele veio aqui para te ver. — Jason ainda estava no mesmo lugar de antes.
Thalia bufou, tentando manter a paciência para não expulsar o irmão do quarto.
— Eu não tenho nada para falar com ele.
— Até quando você vai bancar “a megera sem sentimentos”? No fundo, eu sei que você não é assim.
— O quê?!
— Qual é! Você achou mesmo que eu nunca percebi que você gostava dele quando vocês eram adolescentes? Eu nunca disse nada, mas eu sempre soube. E parece que ele ainda mexe com você.
Às vezes, ela odiava como Jason conseguia lê-la tão bem. Nada conseguia passar despercebido pelos olhos de águia dele.
— Jay, é complicado… — ela deu um suspiro longo.
— Só é complicado, porque você quer que seja. Desça e fale com ele. Ou eu vou pedir para ele entrar.
Luke e Hera no mesmo cômodo? Nem pensar!
— Ok, ok! — ela levantou-se num salto e pegou a sacola. — Já estou indo!
Ela desceu as escadas rapidamente, querendo dar um fim nisso de uma vez. Havia um carro meio antigo estacionado na frente da casa deles. Ela bateu no vidro e a porta foi aberta.
— Oi. — Luke disse. — Entre.
Thalia não queria dividir outro espaço pequeno com ele, mas estava frio na rua. Então ela entrou.
— Oi. Suas roupas — ela ergueu a sacola. — Valeu mesmo por ontem.
— Imagina — ele respondeu, pegando a sacola e lhe dando a outra. — Suas roupas! Estão lavadas, secas e passadas.
— Você não precisava ter feito tudo isso.
— Eu sei.
Eles ficaram em silêncio por um tempo.
— Melhor eu entrar… — ela colocou a mão na maçaneta.
— Thalia, acho que nós precisamos conversar. — Luke disse. Normalmente, nunca vinha algo bom quando essa frase era proferida. — Sobre ontem.
— Vamos esquecer tudo, ok? — ela disse, porque esse era o certo a dizer.
— Como eu posso fazer isso? Eu não paro de pensar naquele beijo.
Mesmo que Luke não tenha especificado qual dos 2 beijos, Thalia sabia exatamente que ele estava se referindo ao segundo.
— Eu também — ela deixou escapar, fechando os olhos e se xingando mentalmente por isso.
— Sério? — Luke estava sorrindo.
— Hm, sério. E sobre o que você me perguntou ontem... — Thalia aproveitou a deixa para já esclarecer tudo. — Sim, eu já gostei de você. Quando eu tinha 14.
— Isso foi quando eu entrei no time... — A ficha dele pareceu ter caído. — Ah!
— Sim. E... acho que estou gostando de você de novo. — Ela desviou o olhar, incapaz de olhá-lo nos olhos.
— Thalia... — ele murmurou o nome dele de um jeito sexy e colocou a mão no seu queixo, depositando um leve beijo em seus lábios. — Eu também. Na verdade, acho que nunca deixei de gostar de você.
Ela abriu a boca, mas não sabia ao certo o que dizer após essa confissão.
— Estou feliz em te encontrado ontem. — Luke disse.
— Mesmo que você tenha caído no lago por minha causa? — questionou.
— Sim — ele riu. — Ainda assim valeu a pena.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, até Luke falar:
— Você acha que nós devemos tentar?
Thalia nunca pensou que ouviria Luke se referindo a eles como “nós” de um jeito romântico.
— E como isso daria certo? Acho que já estamos muito velhos para um relacionamento à distância.
— Eu estou disposto a ir para Chicago, ou qualquer outro lugar que você queira. Apenas diga “sim”.
— E sua vida em Miami? E o seu trabalho?
— Miami que se foda! — ele exclamou — E não tenho mais um emprego. A empresa está quase falindo, eles demitiram metade dos funcionários. Estou desempregado há dois meses, nem estou conseguindo pagar o aluguel direito. Só vim para cá no Natal porque meu pai pagou a passagem.
— Luke, você não está sendo impulsivo demais? Quer dizer, e se não dermos certo?
— Por que você sempre é tão pessimista?
— Porque a vida nunca me fez pensar o contrário!
— Você não acha que já perdemos tempo demais? — Luke a questionou. — Nunca saberemos se vai dar certo a não ser que tentemos.
Thalia estava cansada em pensar demais e as coisas nunca darem certo. Talvez, ela devesse ser impulsiva só desta vez.
— Ok! Sim! — Thalia finalmente deu o braço a torcer. — Você pode ir comig...
Luke a interrompeu, a beijando.
Naquele momento, Thalia não ficou ponderando se aquilo daria certo ou não. Ela não pensou no que aconteceria no outro dia, nem na semana seguinte. Ela apenas aproveitou o momento. Se tivesse que ser, seria.
Thalia Grace nunca imaginou que, ao sair de casa ontem para não aturar a madrasta, não salvaria apenas seu dia, mas o seu Natal inteiro ao reencontrar Luke.
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