Um Amor De Infância
1 Prólogo
Notas iniciais
Espero que gostem (:
Highla
Highlands, Escócia, 1192
A menina prendeu o pônei em uma árvore e seguiu a pé pela floresta. Escondida pelas sombras, teve uma impressão sinistra. Aquilo era muito diferente do agradável lugar onde ela e Inu Yasha passaram tantas tardes, deitados à beira do riacho, deliciando-se com os raios de sol.
Caminhava com cautela por entre os galhos caídos e as folhas secas, dissimulando sua aproximação. Um certo temor apossou-se de seu corpo assim que se abaixou para afastar os arbustos, que pareciam sentinelas na entrada do matagal.
Ele estava lá! E a salvo!
Avistou Inu Yasha estendido na beirada da água, quieto, com sua manta xadrez envolvendo-o de maneira displicente. Sentindo um misto de medo e alívio, a garota se ajoelhou ao lado dele. O belo rosto, tão sereno durante o sono, aparentava cansaço, mostrando manchas de sujeira e sangue.
Os horrores da véspera voltaram-lhe à memória, e seu coração disparou. Lutando contra as lágrimas, ela fixou o olhar na imagem cinzelada no broche de prata com o brasão do clã: um gato apoiado nas patas traseiras, com dentes e garras prontos para o ataque.
O animal era como aquele menino, destemido e corajoso, porém com um comportamento bem diferente. Inu Yasha era gentil, o oposto de todos os rapazinhos que conhecia. Seguindo seus instintos, alisou-lhe as sobrancelhas com a ponta dos dedos.
— Taisho! Às armas!
Com a agilidade de um felino, Inu Yasha se levantou depressa, quase a derrubando. Só relaxou quando seus olhos selvagens encontraram os dela.
— Você se machucou? — A garota apontou para a manta manchada.
— Não! Não deveria estar aqui, ouviu?! — gritou ele, magoando-a com sua reprimenda.
Ela queria confortá-lo, mas não sabia como.
— Eu vim assim que soube.
— Meu pai está morto — declarou Inu Yasha, com o rosto marcado pela dor. — Foi assassinado pelos Grant. Não fui capaz de salvá-lo. Tentei, mas não adiantou.
O pranto escorria pelo rosto sujo, e ele cerrou os punhos.
A amiga tomou-lhe as mãos entre as suas. Surpreendendo-a, Inu Yasha não fez nada para evitar. Abriu as palmas e a encarou.
A garota se emocionou com a demonstração de confiança, da pequena aceitação de seu amor, embora achasse que seu coração se despedaçaria a qualquer momento, em virtude do sofrimento de seu amado.
— Inu… — começou ela, sabendo que precisaria ter muita cautela naquele momento. — Seu pai matou o filho de Grant, Souta. Muitos testemunharam a tragédia.
— Não! — Ele se ajoelhou, abraçando-a. — É mentira! Deve ser algum tipo de armação! John Grant era amigo de meu pai. Jamais faria alguma coisa contra o filho de um amigo. Jamais!
Durante um instante, Inu Yasha a abraçou com tanta força que a pequena achou que teria alguma costela trincada. Respirou fundo e ordenou suas emoções, sabendo que não tinha tempo a perder. Dentro em breve, o dia nasceria sua ausência seria notada. Era muito perigoso estar ali com Inu Yasha. Se alguém os encontrasse juntos…
Iain enfiou a mão debaixo da manta presa à cintura e tirou um objeto que atraiu a atenção dela devido ao intenso brilho.
— O que é isso?
Para seu espanto, Inu Yasha mostrou-lhe uma espetacular adaga toda cravejada de esmeraldas.
— Meu Deus! — A pequena ficou maravilhada com o cabo da arma, de ouro e prata, com várias esmeraldas verdes entalhadas no complexo desenho. Ao avistar a crosta de sangue seco na lâmina, entanto, um arrepio percorreu-lhe a coluna. — Onde conseguiu essa arma?
Inu Yasha colocou-a no chão, aos pés dela.
— Precisa escondê-la para mim até que eu possa voltar.
— Voltar? Onde está indo?
— Não sei. Vou embora. Precisamos partir do Castelo Findhorn. Não é seguro permanecer aqui. Sobraram muito poucos para defendê-lo do inimigo.
— Não! Você não pode ir embora! — Ela segurou-lhe a gola da camisa cheia de barro. — E seu clã? E a aliança?
No dia anterior, Inu Yasha lhe contara sobre o sonho de paz de seu pai: unir quatro clãs das montanhas, o dele, os Taishos, o da esposa, os Davidson, os Macgillivray e os MacBain. O clã Chattan, dizia ele, o clã dos gatos.
O clã dela não estava entre eles. Nunca estaria. Muito menos naquele momento.
— Não haverá aliança. O clã Chattan não existe mais.
Inu Yasha segurou os delicados e pequenos dedos, revelando uma força silenciosa que era quase assustadora. O menino arrogante que ela conhecera não existia mais.
— Agora sou chefe do clã Taisho. Preciso proteger minha mãe e meus irmãos.
— E quem se atreveria a machucá-los?
— Grant — respondeu Inu Yasha, sem esconder a raiva.
— De jeito nenhum! O chefe é um homem bom. Ele…
Inu Yasha franziu a testa, e a menina engoliu as palavras.
— Pode ser. Talvez não ele, mas outros membros do clã.
Ela sabia de quem Inu Yasha falava. Na noite anterior, vira as armas sujas de sangue, o pânico de vários cavalos, cujo acanhamento evidenciava as conseqüências de uma terrível carnificina.
Sem pedir licença, um vento frio soprou no bosque. Centenas de folhas secas caíram em cima dos dois, em uma chuva dourada e vermelha. Inu Yasha tirou uma folha dos cabelos emaranhados dela.
A neblina começava a desaparecer. A menina uniu a capa no peito, olhando para cima, tentando imaginar o horário através da claridade do céu matinal.
— Quando partirá?
— Logo. — Inu Yasha também olhou para cima, tentando calcular o tempo que ainda lhes restava. — Hoje.
— Não!
Havia meses que se encontravam todas as semanas naquele esconderijo, um clarão no meio do bosque. Nenhuma das famílias sabia. O pai dela ficaria furioso se descobrisse que a filha cavalgava para tão longe, sozinha. Ainda assim, e não era a primeira vez, tinha a nítida impressão de que não estavam sozinhos.
— Quando tornaremos a nos ver?
— Não sei — respondeu ele, em um fio de voz.
A garotinha, então, se lembrou da adaga que jazia sobre as folhas secas. Era pesada, e parecia mais uma espada perto de sua compleição infantil. Inu Yasha observou-a pegar uma mecha de cabelos e cortá-la com a lâmina brilhante. Em seguida, fez o mesmo um os cabelos dele. Trabalhando depressa, trançou-os, castanhos e negros, e os prendeu em um círculo com uma tira da manta xadrez. Depois o passou às mãos de Inu Yasha.
— O que é isto?
— Um laço de amantes. — Enrubesceu ao proferir aquelas palavras. — Minha mãe fez um para meu pai usar e mantê-la ao lado dele enquanto estavam distantes. Ela é francesa, sabia?
Não, não sabia. Na verdade, Inu Yasha não sabia nada a respeito da família daquela menina. Ela nunca falava nada pessoal, nem mesmo seu próprio nome. Era uma brincadeira que sempre faziam. Um jogo. Que o irritava demais. Sempre que se encontravam, a garota fingia ser alguém diferente. Só que agora não existiria mais nada de todo aquele encanto. Inu Yasha fechou a mão sobre o mimo e segurou-o por alguns instantes antes de colocá-lo no bolso. Depois pegou sua adaga e enfiou-a na terra.
— Não demorarei — disse ele. — Eu vou voltar. Por você e pela adaga.
Por ela! Ele voltaria por ela.
— Jura?
— Sim, eu juro. — Iain fitou os olhos verdes. — Os Grant pagarão pelo que fizeram. Não descansarei enquanto não vingar a morte de meu pai. Até que cada um deles esteja morto.
— Todos?
Antes que Inu Yasha pudesse responder, o som de patas se aproximando acabou com o silêncio reinante.
— Cavalos! — exclamou ele, colocando-se em pé.
Inu Yasha se virou na direção do som, tentando enxergar algo.
— Eles estão vindo.
— Preciso ir. — Ela não poderia ser encontrada ali.
— Espere! — Inu Yasha tirou a adaga da terra, cortou um pedaço de seu manto e embrulhou-a. — Leve-a com você. Esconda-a, por favor. Eu voltarei.
A menina apertou o embrulho contra o peito, na esperança de acalmar seu coração disparado. Ficou imóvel por alguns instantes, memorizando aquele rosto tão bonito: os olhos, a boca, a robustez suave de seu semblante.
E então saiu correndo.
— Não vá! Diga-me pelo menos seu nome! — gritava Inu Yasha. — Não sei como você se chama!
Tarde demais. A neblina a envolveu como uma nuvem branca, levando-a embora para sempre.
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