Notas iniciais
Deessa vez eu não demorei, eu acho x.x'

Kagome estava parada à janela, olhando a chuva torrencial que caía e transformara o pátio do estábulo em um grande lago de lama marrom. O céu, repleto de nuvens escuras, se iluminava vez ou outra pelos relâmpagos, que deixavam o ar carregado.

Inu Yasha partira de Braedün Lodge naquela manhã, enquanto Kagome ainda dormia. Por que não se preocupara em se despedir? Quem sabia dizer por quanto tempo ficaria fora? Poderiam ser semanas… Pelo menos fora o que Miroku lhe dissera.

Um trovão ecoou ao longe. A chuva continuava a cair sem piedade. Kagome se alegrou por Inu Yasha se encontrar do lado de fora, cavalgando por estradas cheias de barro. Ele merecia sentir-se miserável, tanto quanto ela.

Fazia quase quinze dias que chegara a Braedün Lodge. O dia do solstício se aproximava mais e mais, e ela não conseguira achar nenhuma saída viável para seu casamento com Reynold Grant.

Por que o chefe de um clã estaria interessado na filha do dono do estábulo? Poderia ter a mulher que quisesse uma nobre, ou no mínimo a filha de um potencial aliado. Kagome não conseguia compreender o que o motivara a tomar aquela decisão.

Seus pais já tinham certa idade, e não sobreviveriam sem a proteção do clã. Ela até pensara em levá-los para Braedün Lodge e pedir a proteção de Inu Yasha, mas essa hipótese estava fora de cogitação.

O que aconteceria se Reynold descobrisse onde Kagome se escondia? No mínimo, o clã dos Taisho, bem como o dos Davidson, correria um grande risco. Sim, porque Reynold Grant não era um homem fácil. Além disso, seu exército contava com quase mil homens, mais do que o triplo do que os Taisho e Davidson juntos.

Não, tinha de ir embora e enfrentar a situação. Por pior que fosse. Era sua única escolha. E, para dificultar tudo ainda mais, Inu Yasha partira, tirando-lhe a opção de partilhar seus problemas, mesmo se tivesse imaginado essa eventualidade.

A lembrança dos beijos ardentes surgiu-lhe sem pedir licença. Sentiu um aperto no peito ao imaginar que nunca mais o veria. "Meu amor." Fora assim que ele a chamara na noite anterior. Ah, como seria bom se a realidade fosse assim…

A porta de seu quarto se abriu, sem nenhum aviso, interrompendo-lhe os devaneios dolorosos.

— Senhora, saia da janela — advertiu Sango, trazendo uma bandeja com comida. — Quer ficar doente?

Kagome sorriu para a jovem e soltou a cortina. O delicioso aroma de carne assada e pão fresco aguçaram-lhe os sentidos.

— Venha se alimentar. Você perdeu o desjejum e também o almoço. Precisa recuperar as forças depois de tudo o que enfrentou.

— Muito obrigada pela gentileza, Sango. O cheiro está fantástico, mas não tenho o menor apetite.

— Ora, ora! Não vai querer estar magra e abatida para quando ele a encontrar de novo.

— O que está querendo dizer? Quem é "ele"?

Sango sorriu e serviu-lhe um pouco de cerveja.

— Milady, todo o clã já notou a afeição que o chefe sente por você, bem como os sentimentos que nutre por ele.

— Mas não é…

— Não se preocupe. Será uma excelente união, até Kaede concordou.

— Kaede?! O que ela ou alguém saberia sobre… Não há nada para saber!

Sango foi até a lareira e ajeitou as brasas.

— Qualquer tolo percebe que vocês formam um lindo casal. Inu Yasha também nega qualquer laço mais estreito entre os dois. Foi o que meu Miroku me contou.

Kagome sentiu as faces esquentarem, e sabia que não se tratava do fogo. Bebeu toda a cerveja e bateu o copo na mesa.

— É mesmo? Vejamos o que vai acontecer. — Kagome se levantou, foi até o baú ao pé da cama e pegou uma manta lã.

Envolvendo os ombros com o tecido, saiu de seus aposentos. As objeções de Sango desapareceram quando Kagome seguiu pelo longo corredor.

O grande salão se achava em plena atividade. A pesada chuva atraíra os membros do clã para trabalhar dentro da casa. Sesshoumaru conversava à mesa principal com Miroku e mais dois guerreiros Davidson.

Quando Kagome se aproximou deles, Sesshoumaru se levantou e sorriu.

— Lady Kagome, vejo que se recuperou muito bem do parto da égua. Você está linda.

— Foi a égua quem deu à luz, não eu.

Sesshoumaru franziu as sobrancelhas, espantado com a rispidez da hóspede.

Kagome não tivera a menor intenção de ser tão grosseira, porém, não conseguira se controlar.

— Chefe, peço desculpas pela indelicadeza. Será que podemos conversar?

Os olhos azuis do guerreiro brilharam com o lindo sorriso que ele lhe deu.

— Ora, milady… O chefe deste clã é meu irmão, e ele faz jus ao título.

Miroku e os outros homens riram.

— Pode me chamar de Sesshoumaru.

Aquele jovem era um verdadeiro charme. Um perigo. Mesmo assim, Kagome gostava dele.

— Está bem, Sesshoumaru. Podemos nos falar?

— Claro. Será um prazer. Sente-se.

Kagome tinha a intenção de conversar a sós com ele. Olhando ao redor, percebeu que não seria possível, devido à tempestade. Resignada, aceitou a cadeira que Sesshoumaru lhe ofereceu.

— Em que posso lhe ajudar bela Kagome?

Os quatro homens a encararam, aguardando, ansiosos, pela resposta.

—Eu… gostaria de ir embora e, para tanto, preciso de um cavalo. Poderia me emprestar um?

Todos a fitaram em silêncio. Kagome achou que eles não a tinham compreendido, então decidiu reformular sua pergunta. Foi quando deparou com outro sorriso maravilhoso de Sesshoumaru.

— Você quer partir?

— Sim.

— Ela quer partir — repetiu Sesshoumaru, fitando seus companheiros.

Todos sorriam.

— E quer um cavalo emprestado?

— Prometo devolvê-lo o mais depressa possível, assim que chegar a meu destino.

— Cara Kagome, depois de tudo de precioso que você nos deu, como ter salvado a vida de meu irmão Conall e ajudado no parto do potro, qualquer cavalo que desejar, seja dos Taisho ou dos Davidson, será seu. E só escolher.

— Então, eu…

— Mas não poderá sair daqui.

— Como assim?

— Meu irmão mandaria me matar se chegasse e não a encontrasse.

— Seu irmão? Inu Yasha lhe pediu para…

— Não pediu milady. Foi uma ordem direta, e não me atreverei a desobedecê-la.

— Mas…

— Não se preocupe querida. Inu Yasha voltará dentro de um ou dois dias. Conheço meu irmão muito bem. Nunca o vi desse jeito. Marque minhas palavras, Inu Yasha voltará com a chegada da lua cheia.

— Ainda faltam dois dias!

Miroku interveio:

— Além do mais, estamos pensando em fazer uma grande festa, com comida, música e dança na noite da lua cheia. Uma homenagem ao nascimento do potro. Portanto, precisa estar aqui, milady.

— Miroku tem razão. — Sesshoumaru tomou um gole de vinho. — Miouga e os outros ficarão decepcionadíssimos se você não comparecer.

Todos tornaram a sorrir. Kagome teve vontade de estapeá-los.

— Está bem… Não desapontarei Miouga. — Ela se ergueu para ir embora.

Sesshoumaru também se levantou.

— Sobre o cavalo… Tem preferência por algum?

— O garanhão preto.

— Perdeu o juízo? Inu Yasha não…

— O garanhão preto — repetiu irredutível.

Em seguida, deu as costas a todos e deixou o salão, triunfante. Inu Yasha teria uma síncope quando soubesse da novidade.

Cobriu a cabeça com a manta, abriu a porta de entrada e saiu. A chuva tinha parado e trouxera uma agradável brisa. Kagome respirou fundo, precisando de um pouco de ar fresco para acalmar o misto de emoções que a consumia.

Miroku apareceu logo em seguida.

— É sua vez de ficar de guarda?

— Sim. — O rapaz enrubesceu.

O fato de ser vigiada dia e noite a incomodava. Kagome apertou a manta contra o peito e seguiu, com passos firmes, na direção do estábulo.

— Está bem, então fique de guarda.

— O tempo está péssimo. Pode se resfriar, milady.

— Está um excelente dia escocês.

Levantando a barra da saia, Kagome entrou no estábulo, ignorando o barro. Foi sorte ter calçado suas botas de montaria, e não aqueles sapatos ridículos que Kaede lhe emprestara.

Miroku a segurou pelo braço.

— Não está pensando em sair a cavalo, não é, milady?

O olhar assustado de Miroku foi o suficiente para amolecer o coração de Kagome.

— Hoje, não. Mas tenho muito que fazer aqui, e não ficarei parada lá dentro enquanto os outros trabalham.

— Foi o que imaginei — comentou Miouga, saindo de uma das baias e passando um saco de feno para as mãos de Miroku. — Achei mesmo que você quisesse ver o potro. Os dois estão ótimos.

— Estou ansiosa para vê-los.

— Vamos lá, então. Tenho vários afazeres para lhe dar.

— Excelente! Miouga, eu nunca lhe agradeci por ter enviado aquela mensagem para mim.

Miroku franziu a sobrancelha, e Kagome percebeu que cometera um erro. Era quase impossível manter segredos em um lugar como aquele. Precisava tomar mais cuidado.

— Não foi nada. — E Miouga se voltou logo para seu trabalho.

Kagome e Miroku seguiram para a baia onde se realizara o parto. Acharam a égua em pé, alimentando-se em uma gamela na parede. O potro mamava sossegado em uma das tetas da mãe. Os dois pareciam muito bem de saúde.

— A que você estava se referindo? — Miroku quis saber, observando-a limpar o lombo da égua com um punhado de palha. — Qual foi a mensagem?

Apesar da aparente indiferença, Miroku não perdia nada. Inu Yasha escolhera seus companheiros a dedo. Kagome fingiu não tê-lo ouvido.

— Onde está seu chefe?

— Viajou para tratar de negócios.

— É o que todos dizem. Aonde foi? Com quem?

— Não se preocupe. Bankoutsu o acompanha, além de outros guerreiros. E, conhecendo-o bem, imagino que tenha levado parte do arsenal de armas dos Davidson consigo.

Era novidade. Kagome concentrou-se no serviço.

— E para que Inu Yasha precisaria de tais armas?

— Como não precisaria? Se bem que os Grant não são páreo para os Taisho.

— Grant? — Kagome se assustou.

— É os cavalos deles parecem tartarugas, portanto, dificilmente alcançarão nossas montarias.

— Como assim tartarugas? Fui eu mesma que… "Ah, meu Deus, o que estou fazendo?!"

De braços cruzados e mordiscando um pedaço de palha, Miroku se balançava para frente e para trás no toco de árvore onde se acomodara. Sua expressão demonstrara que não compreendera aquele ímpeto de indignação.

— Quero dizer que, quando fui perseguida por eles, tive de dar duro para não ser capturada. — Kagome se repreendeu por ter respondido à provocação óbvia do guerreiro. Voltou à atenção para a égua. — Os cavalos me pareceram bem rápidos.

Como Miroku não respondeu, Kagome continuou:

— Mas por que o chefe quer se encontrar com os Grant?

— Na realidade, não quer encontrá-los. Pelo menos ainda não. É que soubemos que havia guerreiros deles na fronteira das terras dos Davidson.

Kagome sabia que a grande propriedade que pertencia ao clã dos Grant se estendia de Inverness para o norte, das montanhas Grampian para o sul e fazia fronteira com os quatro clãs Chattan: Taisho, Davidson, Macgillivray e MacBain. Também entendia que não era costume dos guerreiros de Reynold patrulhar a floresta tão ao sul.

— E que motivo levaria os Grant para tão longe de casa?

— Achei que você talvez pudesse me dizer.

O sangue gelou-lhe nas veias.

— E por que eu deveria saber algo sobre os Grant, Miroku?

— Não sei.

Escutaram o som de vozes e risadas se aproximando e, momentos depois, Conall e Jamie entraram na baia. Os dois quase caíram quando avistaram Miroku com a mão no punho da espada.

— Por que estão fazendo correndo pelo estábulo como um bando de cães selvagens? — A voz dele era severa, porém Kagome viu um calor nos olhos castanhos. — Jamie, não tem o que fazer?

— Sim — respondeu ele, cabisbaixo.

— E você, jovem Conall, olhe só seu estado. Imagine o que o chefe diria se o visse assim.

A camisa do garoto se encontrava toda molhada e tinha soltado da calça. O manto, todo sujo de barro.

— Mas…

— Filho, um dia você será chefe de clã. Portanto, é melhor que comece a agir como um.

Conall desviou o olhar e se calou. Miroku apertou-lhe o ombro com verdadeira afeição.

— Muito bem, filho. Vá cuidar de seus cavalos. Lady Kagome não deve fazer o trabalho em seu lugar.

A expressão de Conall se alegrou, e ele abriu um belo sorriso ao fitar Kagome.

— Como vai, milady? — E o garoto se ajoelhou ao lado do potro, que mamava.

Kagome lhe entregou um punhado de palha, e Miroku relaxou contra uma coluna.

— Não tive a oportunidade de lhe agradecer por ter salvado a vida de minha égua. E também do potro. Muito obrigado, lady Kagome.

— Foi um prazer.

Ela analisava a beleza do menino. Conall se parecia muito com Inu Yasha. Seus cabelos eram um pouco avermelhados, com o mesmo corte que todos os guerreiros Taisho pareciam usar.

Conall já era bem mais alto que Kagome. Logo estaria do tamanho de Inu Yasha, ou até maior. Os olhos eram iguais aos do irmão mais velho. Além de verdes, possuíam a mesma qualidade incompreensível. O rosto, porém, era o que mais o deixava parecido com o irmão mais velho: forte, anguloso, maxilares proeminentes e nariz reto. Era um garoto muito bonito, que se tornaria um lindo homem.

De repente, Kagome se lembrou das palavras de Miroku. Inu Yasha saíra em busca dos Grant. Deus do céu, o que estaria pensando?

Inu Yasha Taisho era um hábil guerreiro que passara grande parte da existência se preparando para encarar o inimigo. Não era, portanto, pessoa de tomar decisões impensadas. Qualquer atitude seria bem estudada, cada movimento analisado com minúcia. Precisava confiar no julgamento de Inu Yasha, mas poderia lhe confiar a verdade sobre sua identidade?

Não, não podia. De jeito nenhum. Seria um risco muito grande.

E dentro em breve não faria a menor diferença. Kagome voltaria para seu clã na manhã seguinte à celebração que os Taisho e os Davidson organizavam. Seu futuro já fora traçado, e ela não via uma única saída para mudar seu amargo destino.



Escondido na floresta, Inu Yasha olhava para os cavaleiros, sem acreditar no que via. Três dos melhores guerreiros dos Grant comandavam uma patrulha quatro vezes maior que a sua preparada para enfrentar qualquer inimigo.

Fazia dois dias que chovia sem parar. Inu Yasha e seus homens estavam molhados, e as mantas dos clãs grudavam em seus corpos como velhos farrapos. O cheiro de suor, lã molhada e o pêlo molhado dos cavalos lhe embrulhava o estômago. Ignorou um arrepio e olhou para cima. Pedaços de céu azul tentavam aparecer entre as nuvens escuras. Logo o sol raiaria.

Voltou à atenção para os guerreiros. Desde a ocasião do assassinato de seu pai não via tantos Grant reunidos. O desfiladeiro que os separava seguia de norte a sul por quase uma légua, e dividia as terras dos Grant das dos Davidson pela borda sudeste da propriedade de seu tio.

Algo de estranho acontecia, mas Inu Yasha não saberia explicar o que era. Temendo ser pego desprevenido, conferiu se todas as armas estavam no devido lugar.

Bankoutsu também observava para o inimigo, tentando encontrar uma justificativa para aquele agrupamento de homens do clã dos Grant.

— São muitos, não?

— Um para quatro, Inu Yasha. Nossa desvantagem é grande.

Inu Yasha percorreu os dedos pelo arco que segurava. Era o único arqueiro do grupo.

—Sim. — Achava que poderia acertar uns trinta guerreiros antes que eles alcançassem o pequeno riacho na base do desfiladeiro. — Impossível não é, mas vale à pena?

— O chefe é você, não eu. A decisão é toda sua.

Um sorriso amargo formou-se nos lábios de Inu Yasha. Sim, teria de tomar a decisão sozinho. E não queria começar algo que ainda não estava preparado para terminar.

Quando virou seu cavalo, notou algo. Um brilho de aço moveu-se furtivo ao longo da linha da serrania. O que era aquilo? Puxou as rédeas, fazendo o garanhão parar.

A luz não era das mais fortes, o que impediu Inu Yasha de enxergar o rosto do cavaleiro que seguia com cuidado por entre as árvores do lado oposto do riacho. Os guerreiros Grant abriram caminho, dando-lhe passagem.

O cavaleiro era grande e imponente em cima da sela, e sua manta cobria-lhe o rosto. Outro homem, bem menor, vestido todo de preto, vinha atrás. Uma dupla estranha, no mínimo. Inu Yasha teve um mau pressentimento.

Sem avisar, o mais alto esporeou seu cavalo, acelerando o passo em direção à clareira. Um raio de sol saiu das nuvens, iluminando-o.

Não, não era ser possível. Todos os pêlos de Inu Yasha se eriçaram. O guerreiro jogou a manta para trás e sacudiu a cabeça, tirando o excesso de água dos cabelos negros. Ao deparar com o olhar gélido e familiar, Inu Yasha sentiu um gosto de bile.

De imediato, tornou-se de novo aquele garoto indefeso de doze anos. Visões da noite mais terrível de sua vida lhe ocorreram, ameaçando a confiança e força que passara tantos anos afiando. Cerrou as pálpebras e deixou as lembranças tomarem conta do presente…



O ar estava frio e espesso, com o aroma de carvalho e bebida. Com passos lentos e cuidadosos, Inu Yasha seguia pela adega escura, apoiando-se na parede.

Seu pai lhe pedira para ficar no grande salão com seu tio Alistair e os chefes dos outros clãs, quando se reuniu com Reynold e Souta Grant. Entretanto, Inu Yasha teve uma intuição. Algo o incitava a ir atrás dos homens e testemunhar aquela conversa.

O fraco brilho se transformou em uma forte luz amarela assim que Colum Taisho acendeu um candelabro com a vela que carregava. Inu Yasha escondeu-se atrás da última fileira de tonéis de vinho e ficou quieto, pronto para ouvir o que os três tinham a dizer um para o outro.

A voz de Colum se elevou em um grito. Sem temer ser descoberto, Inu Yasha saiu correndo de seu esconderijo. Ao chegar ao final do corredor, parou estupefato.

Souta Grant estava deitado de bruços no chão, e o sangue escorria por um ferimento em suas costas. O guerreiro tinha os olhos azuis arregalados e imóveis. Ajoelhado ao lado do morto, Colum segurava um punhal incrustado de pedras preciosas, do qual escorria sangue.

Não! Não podia ser possível. Inu Yasha se recusava a acreditar no que via.

O metal brilhava contra a suave luz quando Reynold Grant saiu de trás de uma fila de barris, empunhando uma espada, Inu Yasha apenas observou incapaz de se mexer, Reynold olhando do corpo de seu primo Souta para o do homem ajoelhado, Colum Taisho.

Um sorriso se formou no rosto dele.

— Grant! Venham a mim! — O berro ecoou pelas paredes de pedra.

A expressão de Colum passou do espanto à compreensão.

Inu Yasha continuou parado, atônito, com as costas pressionadas contra a parede úmida. Reynold não o vira. Colum se levantou, mas logo voltou a se ajoelhar, movido pela ponta da espada em seu pescoço.

Por Deus, precisava fazer algo! Não podia ficar ali parado assistindo seu pai morrer. Inu Yasha procurou uma arma em seu corpo, algo que pudesse usar para defender o pai. Nada! E começou a se desesperar.

De repente, todo o aposento se iluminou. Soldados Grant empunhando tochas entraram na adega, com suas espadas e adagas Inu Yasha sabia que procuravam o filho do chefe de seu clã entre os tonéis de vinho.

Reynold não se mexeu, apenas esperou. Depois de verificarem a última fila de barris, todos se colocaram atrás dele e, calados, avaliaram o que viram: Souta Grant morto, Colum Taisho ajoelhado ao lado com o punhal ensangüentado na mão.

Por um instante, Inu Yasha escutou apenas a água escorrendo pelas pedras a suas costas e as batidas desenfreadas de seu coração. Então algo o fez virar-se para a escada.

John Grant estava parado no último degrau, em silêncio e muito sério, fitando seu filho assassinado, seu sobrinho e também o homem que sempre chamara de amigo: Colum Taisho.

A voz de Reynold era quase um sussurro:

— O maldito Taisho matou meu primo.

Horrorizado, Inu Yasha assistiu o jovem enfiar a espada no pescoço de seu pai.

A adega virou uma verdadeira anarquia. Soldados desceram correndo pelas escadarias, e o cheiro de vinho e carvalho cedeu lugar ao odor de sangue.

— Não existirá mais paz. Nem hoje, nem nunca mais. — A voz de MacBain se destacava das outras, mais uma profecia do que uma declaração.



Bankoutsu deu uma cotovelada em Inu Yasha trazendo-o de volta à realidade

— É o próprio Grant — sussurrou ele.

Pondo de lado o estupor Inu Yasha olhou para o guerreiro de cabelos negros e apertou o arco com mais força.

— Sim, sem dúvida. — Inu Yasha o reconheceria em qualquer lugar.

Nunca se esqueceria daqueles olhos cruéis.

Analisou a distância entre ambos, pouco mais de dois quilômetros, e imaginou a ponta de sua flecha acertando o tórax do inimigo.

Mesmo sem fitá-los, Inu Yasha sabia que seus homens aguardavam seu sinal para atacar. Um simples movimento seria suficiente. Todavia, preferiu permanecer quieto, aguardando para ver o que Grant faria.

O ar escondia uma grande avidez por sangue.

Por fim, o pequeno guerreiro vestido de preto aproximou-se de seu chefe. Reynold Grant se inclinou e sussurrou-lhe algo. Chegara a hora. Inu Yasha tirou o arco do ombro.

— Taisho! — chamou o guerreiro. — Estamos à procura de um dos nossos.

Como assim? Inu Yasha encarou Bankoutsu, depois voltou a fitar Grant.

— E quem seria? — perguntou Bankoutsu.

— Uma mulher.

Todos os músculos de Inu Yasha se retesaram.

— Quem é ela?

O homenzinho hesitou, consultando seu senhor.

— Trata-se de uma das mulheres com quem meu chefe se diverte. Não é ninguém importante, mas dona de uma beleza fabulosa. O chefe gostaria muito de tê-la de volta.

Inu Yasha cerrou os dentes, controlando a raiva que corria em seu sangue. Segurou a flecha com tanta força que quase a partiu no meio.

— Tenha calma — advertiu-o Bankoutsu.

— Reynold Grant está disposto a barganhar por ela. Gado, ou quem sabe até um pouco de ouro.

— O que o leva a crer que essa mulher esteja aqui, tão longe do Castelo Glenmore?

— A moça fugiu, sabe? Briga de amantes…

Um breve sorriso formou-se nos lábios de Grant. O sangue de Inu Yasha estava prestes a ferver.

— É melhor não lhe dar as costas, caso a encontre— sugeriu o guerreiro. — Ela é bastante hábil com a adaga.

O sorriso de Grant explodiu em uma sonora gargalhada. Inu Yasha notou a cicatriz em seu rosto, do olho até o queixo. A imagem de Kagome com as mãos cheias se sangue e vestido rasgado no peito quase o enlouqueceu. Se aquele maldito ousasse encostar um só dedo…

Inu Yasha nunca teve tanta vontade de matar um homem quanto naquele momento.

— Vá com calma, chefe — interveio Bankoutsu.

— E então, quer fazer negócio?

— Não! — gritou Inu Yasha. — Nós não encontramos nenhuma mulher com tais características.

Todos os Grant, a não ser Reynold, levaram as mãos às espadas. Em um piscar de olhos, os homens de Inu Yasha fizeram o mesmo.

Quatro para um.

Inu Yasha blasfemou. Não era o momento nem o lugar para acabar com seu inimigo. Se matasse Reynold naquele instante, todo o exército dos Grant os atacaria, com uma vingança que ele não queria testemunhar.

Não. Só quando estivesse tudo organizado, quando tivesse plena certeza de que venceria. Só assim ergueria a mão contra seu inimigo mortal e mandaria sua alma cruel para o inferno.

Os guerreiros ficaram imóveis, aguardando os comandos de seus chefes. Para total surpresa de Inu Yasha, Reynold ergueu a mão e sorriu ainda mais. Então, tocou a testa com o dedo em sinal de despedida e se virou, seguindo na direção oposta.

Inu Yasha soltou a respiração. Aliás, nem percebera que a prendera. Os soldados dos Grant esperaram até que seu chefe estivesse a salvo para seguirem-no colina acima.

— Droga! — resmungou Bankoutsu.

— Vamos embora daqui. — Inu Yasha recolocou o arco no ombro. — Não gostei nem um pouco deste lugar.


O firmamento ficou limpo outra vez. Inu Yasha foi duro com seus homens, cavalgando dia e noite, no intuito de alcançar Braedün Lodge o mais breve possível.

Houve pouca conversa durante a viagem, e Inu Yasha aproveitou para ordenar os mistérios que o importunavam.

Grant. O fato de o poderoso chefe não tê-lo atacado o confundiu. Estivera em evidente vantagem, porém, não pressionara uma batalha. Por quê? E o que um exército de guerra, comandado pelo próprio chefe do clã, fazia tão ao sul, tão longe da sede de sua propriedade? Reynold não teria como saber que Inu Yasha e seus homens estariam lá. Fora um encontro do acaso, nada mais.

"Pense homem!" A única rota pela qual costumavam passar guerreiros naquela parte remota das terras dos dois clãs era a passagem que unia a propriedade dos Davidson à dos Macgillivray. Seu tio Alistair usava aquele caminho de vez em quando, quando saía em suas viagens diplomáticas.

Era isso!

Inu Yasha estacou. Alistair, Margareth e seu pequeno grupo passariam por aquele local dentro de alguns dias, quando estivessem retornando a Braedün Lodge. Eles viajavam com um grupo de cerca de vinte guerreiros. A pergunta era: como Grant sabia de tudo aquilo?

Bankoutsu parou ao lado do chefe.

— O que foi?

— Nada. — E esporeou seu cavalo para casa.

Pouco depois do pôr-do-sol, o céu se transformou em um lindo azul-escuro, ponteado pelas primeiras estrelas.

Braedün Lodge estava a um quilômetro de distância. Inu Yasha guiou seu garanhão pela floresta, e o animal acelerou o passo, sentindo a proximidade de seu lar.

— Acho que vou nadar um pouco. — E Inu Yasha saiu da estrada principal. — Estou imundo e preciso relaxar. Bankoutsu, vá na frente com os outros.

A risada de Bankoutsu o incomodou. Quando se banhara antes de chegar em casa? Seus guerreiros seguiram avante, deixando-o a sós com suas conjecturas.

Kagome não lhe saía da cabeça. Por Deus, o que faria com aquela jovem? Não havia a menor sombra de dúvida de que ela era a pessoa por quem Grant procurava. Mas por quê? O que era dele?

Ao se despir e entrar na água gelada, a imagem dela nos braços de Reynold Grant o espicaçava.

Não, não acreditara em uma única palavra do que o pequeno guereiro dissera. Kagome era virgem, uma moça inocente, pura. Inu Yasha, entretanto, tinha uma certeza: Grant tentara violentá-la, mas ela conseguira escapar.

Quem era aquela jovem? Por que não queria revelar sua identidade, confiar nele?

A água esfriou-lhe o corpo e a mente. Poucos segundos depois, saiu do lago, secou-se e colocou a roupa de volta.

Montou seu cavalo e subiu a colina em direção à residência principal. Havia apenas alguns guerreiros guardando a propriedade. Eles ergueram as armas, cumprimentando-o em silêncio.

Algo estava errado.

O pátio principal se achava deserto. Música e risadas ecoavam das proximidades do estábulo. Avistou até uma fogueira no meio. Vários casais dançavam, divertindo-se, bebendo e rindo.

— O que… — Naquele momento, Inu Yasha viu a bela Kagome.

Ela se virou, e os cabelos negros a envolveram como um manto escuro. Usava um vestido de lã verde. Inu Yasha reconheceu a roupa da mãe, cujo corpete apertado delineava as curvas perfeitas do corpo juvenil.

— Santo Deus… — murmurou, parando a montaria.

Depois de desmontar, Inu Yasha tirou as armas e prendeu-as na sela. Jamie apareceu e levou o garanhão embora.

Com passos firmes, Inu Yasha entrou no pátio do estábulo, quase em estado de transe. Tinha olhos apenas para Kagome, como se nada mais existisse sobre a terra.

A música terminou, e ela parou, sem fôlego. Seus olhos verdes demonstraram surpresa quando o avistou. Um sorriso radiante se formou nos belos lábios, e Inu Yasha se deu conta de que jamais poderia viver sem aquela mulher. Jamais.


Notas finais
gostaram ? çç