Notas iniciais
Voooooooltei *----*
Eu não demorei dessa vez, né ? AHUA

Kagome estava atrasada. Inu Yasha tentou controlar a impaciência batendo os dedos no tampo da grande mesa de carvalho. O salão estava repleto de guerreiros que bebiam cerveja e contavam os acontecimentos das últimas semanas.

Alistair se acomodara em seu lugar, à cabeceira sobre o tablado ao lado da lareira. O fogo brilhava e estalava atrás dele, cintilando em todos os presentes naquele ambiente festivo. Kikyo se sentara ao lado esquerdo do marido, e Inu Yasha à direita do tio, contente por ter plena visão da escadaria e da entrada.

Para seu desprazer, Elizabeth Macgillivray, vestida em um sensual vestido escarlate, fora colocada a seu lado e passara a última meia hora tentando entrosá-lo em sua conversa fútil e infantil. Por sorte, Sesshoumaru, do lado oposto de ambos, mostrava-se mais do que contente por ter as atenções da bela jovem.

Entre Miroku e Bankoutsu, o padre Ambrose tentava se esquivar das piadas de mau gosto dos dois. Inu Yasha achou graça da situação, depois voltou sua atenção para seu copo, intocado.

Durante toda a tarde tentara ver Kagome, sem sucesso. Quisera entrar no quarto dela três vezes e, sua impaciência era tanta na última, que quase derrubara a porta. Estava desesperado para falar com ela e fazê-la compreender que a história de seu noivado não era verídica.

Inu Yasha lançou um olhar de soslaio para Elizabeth. Sim, estava mesmo muito bonita naquele vestido, mas não o interessava nem um pouco. Se fosse em outra ocasião, ele não se importaria em ter alguns momentos de prazer com uma moça disposta a proporcionar-lhe prazer. Mas havia algo de errado. Os cabelos dela eram escuros, bem como seus olhos.

Inu Yasha cerrou as pálpebras e imaginou os cabelos negros, e os olhos verdes como a grama de verão. A pele branca, cheia de sardas, com um quê de dourado. Não era um bibelô, mas sim uma jovem valente e destemida, cuja paixão se equiparava a dele. Uma mulher que não temia correr riscos. Uma mulher como Kagome.

Que Deus o ajudasse, pois se ela não fosse sua, nenhuma outra seria.

Inu Yasha respirou fundo e focalizou a escada. Onde Kagome teria se enfiado? Estava prestes a mandar Kaede ir buscá-la quando um brilho amarelo chamou-lhe a atenção. Kagome flutuou degraus abaixo como uma aparição resplandecente, e Inu Yasha não foi o único ali a notar.

Com a cabeleira solta, Kagome se aproximou e olhou para todos os presentes, exceto para Inu Yasha. O vestido amarelo era o mesmo que ela usara no dia em que ele a encontrara na floresta. Simples e elegante, um contraste com a roupa chamativa de Elizabeth Macgillivray.

O vestido estava limpo e arrumado, e todos os traços de violência de Reynold Grant haviam sumido. Todo o corpo de Inu Yasha se enrijeceu ao lembrar-se das manchas de sangue em Kagome. Ah, quando tivesse a chance seria capaz de matar o miserável!

Inúmeros guerreiros se calaram, olhando, imóveis, para ela. Ao se levantar para lhe oferecer um lugar, Inu Yasha foi ignorado, uma vez que Kagome caminhou para o outro lado da mesa.

Sesshoumaru se ergueu.

— Lady Kagome? — E apontou um lugar entre sua cadeira e a de Kikyo.

Kagome hesitou, estudando o sorriso irresistível do rapaz, então se acomodou, ficando bem na frente de Inu Yasha e Elizabeth. Kagome baixou os olhos para esconder o rubor e também para evitar o exame atento e nada discreto de Elizabeth.

— Estamos muito felizes por você estar aqui conosco, minha querida. — Kikyo acariciou-lhe o braço.

Kagome sorriu com ternura.

— Obrigada, milady.

Alistair a observava com interesse. Em seguida, desviou-se para o sobrinho e franziu as sobrancelhas.

Inu Yasha encontrou o olhar do tio e, logo depois, esvaziou o copo de cerveja em um único movimento.

— Kagome — disse Sesshoumaru —, você já foi apresentada a Elizabeth Macgillivray?

Ah, se encontrasse o irmão sozinho… Inu Yasha guardaria uma bela surpresa para o descarado.

— É um prazer conhecê-la, lady Elizabeth.

Ignorando o cumprimento de Kagome, a outra jovem chegou mais perto de Inu Yasha.

— Então é essa a mulher que cuida dos cavalos. Todos em Braedün Lodge falam dela.

Inu Yasha manteve os olhos voltados para Kagome.

— Sim, ela é uma moça de muita habilidade e sabedoria quando o assunto são bestas.

Contendo o riso, Kagome virou de leve o rosto.

— Bestas… — repetiu Elizabeth, quase encostando os lábios na orelha de Inu Yasha. — E quais são as habilidades dessa jovem com os homens?

Para seu completo espanto, Inu Yasha sentiu a perna de Elizabeth em sua bota. Como ousava ser tão atrevida? Estava desesperado para falar a sós com Kagome, mas esperaria paciente, até que a refeição terminasse.

— Kagome… — Elizabeth a encarava com desdém. — É um nome estranho para uma escocesa. Qual é seu clã?

Com o copo de vinho próximo à boca, Kagome quase derrubou a bebida. Como todos os outros, Inu Yasha se inclinou para tentar escutar a resposta dela em meio à conversa e às risadas.

— Venho de muito longe — respondeu, tomando um gole.

— Bem, isso então explica tudo, inclusive seus trajes. — Elizabeth esboçou um sorriso malicioso e olhou para seu suposto noivo. — Faz tempo que não vejo uma roupa dessas. É uma verdadeira relíquia.

Kagome colocou o copo no tampo, e sua expressão tornou-se séria. Seus olhos verdes cintilavam de raiva. Como aquela desconhecida ousava lhe falar daquela maneira?

— Você tem razão, lady Elizabeth. Ganhei esse vestido de uma pessoa que estimo muito.

— Um amante? — Elizabeth deu uma risadinha.

Sesshoumaru olhou para o irmão. A conversa parou e, mais uma vez, todos esperaram pela resposta de Kagome.

— Não. O vestido foi presente de minha mãe.

Inu Yasha respirou aliviado, relaxando os músculos tensos do rosto. Com o coração disparado, flagrou-se rindo como um adolescente do que disse Kagome. Pela segunda vez no dia, Inu Yasha viu o tio e a tia trocarem olhares surpresos. Os dois a viam agora sob nova óptica, quando ela começou a comer o assado.

— É o mais bonito que já vi — elogiou Inu Yasha, querendo que Kagome o olhasse.

Por fim, Kagome cedeu e voltou-lhe seus olhos verdes. E ela pôde ver que Inu Yasha projetava sua admiração pela perfeição, força e inocência dela, bem como seu desejo intenso, seu amor e sua angústia, torcendo para que ela enxergasse.

E Kagome enxergou.

Além disso, Inu Yasha leu algo nos íris magníficas que fez com que seu coração batesse ainda mais forte. Ela o amava!

Os dois ficaram se olhando por um longo momento, ignorando os demais, que os observavam com atenção e curiosidade.

Instantes depois, Kagome passou a atentar para a conversa entre Miroku, Bankoutsu e o padre Ambrose. Os dois guerreiros comiam feitos trogloditas, enquanto o padre a encarava.

Inu Yasha encontrara o padre Ambrose apenas algumas vezes. Era um homem jovem que se mostrava um pouco nervoso e costumava viajar pelos clãs para realizar casamentos, batizados, honras fúnebres, além de ouvir o que os fiéis tinham a lhe confessar. Decerto passara perto do Castelo Glenmore, e talvez pudesse fornecer alguma informação. Inu Yasha não podia se esquecer de lhe perguntar.

— Bankoutsu — disse o padre, de repente —, ouvi dizer que Reynold Grant quis negociar uma mulher desconhecida com seu chefe. Suponho que seja amante dele.

Inu Yasha engasgou com o vinho. Kagome encarou o padre.

— Ele chegou até a oferecer ouro se conseguisse recuperá-la.

Bankoutsu notou a expressão irritada de Inu Yasha e decidiu interferir:

— Inu Yasha falou para Reynold Grant que não tínhamos encontrado essa mulher.

Kagome não se mexeu, e sabia que toda a cor sumira de seu rosto. Inu Yasha queria abraçá-la, acalmar-lhe os temores. E descobrir toda a verdade, todo o mistério sobre a vida daquela moça tão encantadora.

— E se estivesse com ela, você acha que nosso chefe a entregaria para o inimigo como um troféu?

Ambrose olhou para Inu Yasha Taisho.

— Não creio. Isso significa que haverá guerra?

Todo o salão se calou. E todos os olhos se voltaram para o padre.

— Onde escutou isso, padre?

Ambrose enrubesceu, percebendo que tinha ido longe demais.

— É o que todos comentam nas montanhas, Taisho. E também no Castelo Glenmore.

— Quero ter uma conversa muito séria com você, Ambrose. — Alistair estava mais sério do que nunca. — Mais tarde.

— Padre, por mais que seja uma honra ter um homem de Deus entre nós, acho melhor você ir embora. Tenho certeza de que há muitos clãs precisando de seus serviços.

O padre olhou para Alistair e Kikyo, depois de novo para Inu Yasha.

— Mas…

— Amanhã será um bom dia para viajar. Meu irmão Sesshoumaru e alguns guerreiros o acompanharão até a fronteira.

Elizabeth fez um biquinho magoado com seus lábios pintados de vermelho.

— E…

— Amanhã — insistiu Inu Yasha, encerrando o assunto.

Então, levantou o copo e esperou que um dos criados o servisse.

Dentro de pouco tempo a lua se esconderia. Estava quase na hora.

Kagome inclinou-se na janela de seu quarto e olhou para a grande circunferência que brilhara com tanta glória na noite anterior, tanto quanto seu coração.

As palavras amorosas de Inu Yasha, os beijos apaixonados, os corpos se colando no intuito de saciar um intenso desejo… Tudo aquilo parecia ter acontecido anos atrás, vencido pelos acontecimentos do dia.

Sentiu um súbito arrepio e alisou os braços. Sango a ajudara a se despir e insistira para que colocasse a camisola de seda que ganhara de lady Kikyo naquela tarde. A princípio, Kagome resistiu, mas lembrou-se de que talvez fosse a única vez que a usaria. Alisou o tecido delicado e notou seus mamilos intumescerem.

— Deus, dê-me forças para deixá-lo…

Como o comportamento de Inu Yasha fora estranho durante o jantar! Ele nem prestara atenção a Elizabeth. E todas as vezes que erguia os olhos, Kagome deparava com os dele. Era para ela que Inu Yasha olhava, e não para a linda jovem que dentro em breve seria sua esposa.

Lady Elizabeth Macgillivray. Bonita e rica, mas também esnobe e cruel. Kagome se irritou com a lembrança dos comentários rudes sobre seu vestido. Não importava, porém. Afinal de contas, logo estaria bem longe de Braedün Lodge, e Inu Yasha poderia se casar e fazer sua tão sonhada aliança.

Mais uma vez as lágrimas vieram atormentá-la, e Kagome deixou que escorressem por seu rosto. Não podia mais pensar no futuro. Um futuro sem Inu Yasha, sem o homem de seus sonhos. Tinha de se concentrar em sua fuga. Seria perigoso, lógico, mas conseguiria.

A propriedade era bem vigiada, porém Kagome acreditava que poderia sair pelo pequeno buraco nos fundos do pátio do estábulo sem ser vista.

— Eu saberei chegar em casa — murmurou.

Tremendo de frio, foi até a cama. Tentaria dormir um pouco, em vão. Não, não haveria um único minuto de sono. Não até chegar à propriedade dos Grant, à casa de seus pais.

Pela décima vez, inspecionou o que levaria consigo. Vestiria calça, um par de botas e uma malha que emprestara do jovem Jamie, além de uma manta para se manter aquecida. Seria arriscado demais viajar pelas terras dos Grant usando as cores dos Taisho. Um dos membros do clã sem dúvida a mataria antes de a reconhecerem. Por isso, escolhera uma manta dos Davidson.

Enrolou o vestido amarelo e deixou-o ao lado da manta.

— Agora só preciso de um pouco de comida e um cantil de cerveja.

Um pouco mais cedo, Kagome separara um pedaço de queijo e pão na cozinha, e trouxera para o quarto. Também pegara um cantil no estábulo e o enchera de cerveja. Para sua infelicidade, Sango encontrara seu esconderijo e levara tudo embora, resmungando algo sobre pragas.

Bem, teria de ir até a cozinha apanhar algo para levar, pois não viajaria sem mantimentos. Pensou em esperar até o momento da partida, mas logo descartou a hipótese.

Se alguém a visse, seria difícil explicar sua presença na cozinha, àquele horário e vestida para montar. Não, era melhor ir já, de camisola. Se encontrasse alguém, diria apenas que estava com fome.

A noite fora longa, pois todos quiseram celebrar o retorno do chefe e de sua esposa. A maioria dos homens não dormira na véspera, também em virtude das comemorações. Portanto, deveriam estar em seus leitos, dormindo somo anjos.

Em vez de ir pela escadaria principal, ela resolveu usar a pequena escada à direita do corredor, a que os serventes usavam para levar alimento para os patrões.

Quando passou na frente do quarto de Inu Yasha, Kagome parou e tentou escutar algum ruído. Apertou a manta com firmeza e fechou os olhos, lutando contra a urgência de entrar e jogar-se nos braços de seu amado.

Decidida, seguiu seu caminho até a cozinha, onde um agradável calor a recebeu.

Não havia ninguém.

Uma brisa repentina balançou a barra de sua camisola. A caminho da despensa, parou para ver de onde vinha. Não viu nada, então se virou. Antes que pudesse dar um passo, sentiu a brisa outra vez.

Caminhou pela cozinha em busca da passagem de ar. Ah, lá estava! Alguém esquecera aberta a porta que dava para o jardim. Era melhor fechá-la.

Quando tocou na maçaneta, Kagome estacou.

Inu Yasha estava sentado em um banco, descansando apoiado contra a parede. Flores selvagens e ervas aromáticas o rodeavam. Sob o luar, ele parecia mais um espírito do que um guerreiro.

Nas mãos, segurava o laço que Kagome lhe dera fazia tantos anos. Foi o suficiente para que o pranto voltasse a cair de seus olhos.

Inu Yasha alisava o pedaço de cabelo com reverência, e Kagome achou que seu coração fosse explodir tamanha a magnitude da ternura daquele homem tão valente.

"Meu Deus, dê-me forças para seguir em frente."

Então Inu Yasha olhou para cima com olhos vidrados, sua expressão uma máscara de desespero. O rosto de um garoto que chorou a morte do pai, o rosto de um guerreiro que não conhecia paz para seus tormentos internos.

Kagome se deu conta de que estava perdida em um amor arrebatador e imutável que transformou sua difícil decisão em cinzas em questão de segundos.

Notas finais
Goostaram ? çç