Ultraviolence
14 Shades Of Cool.
Notas iniciais
But you are unfixable.
I can't break through your world
'Cause you live in shades of cool
Your heart is unbreakable
Uma chuva forte irrompeu toda Manhattan durante aquela noite, alastrando-se por ruas e avenidas incomodando a todos que por azar do destino estavam expostos. O tempo fechara de repente, do nada e em um simples piscar de olhos, um raio cortou o céu e as nuvens descarregaram, castigando a terra com os pingos de água forte.
Um frio invadia as janelas do meu apartamento enquanto os pingos d’água molhava a pequena varanda da sala. Todo céu se tornara negro e as nuvens cinzas, postes de luzes que iluminavam as ruas e avenidas emitiam uma luz tão forte em meu a tanto negro.
Meu coração batia de ódio tão rápido quando os pingos de chuvas caiam no céu. Sentia todas as entranhas do meu corpo se enrolarem em um nó sem fim e meu cérebro, ou ao menos a parte sã dele, me atolar de perguntas que eu não sabia a resposta enquanto o lado insano do meu cérebro sentia uma dor ofuscante e indigna de qualquer alivio.
Era como se tudo tivesse sido programado para hoje: Bianca DiAngelo, a dor, visita de Percy,a chuva forte e a discursão que estava por vim.
Enquanto eu encarava estática a figura de Perseu Jackson apenas de toalha na minha frente, tínhamos a mesma expressão de puro ódio polido em nossos rostos. Estávamos a alguns metros de distância, mas eu conseguia ouvir a respiração pesada e fria dele, assim como as linhas da sua testa que pareciam se cruzar e a ponta se suas sobrancelhas negras que se uniam. A boca se contraia apertando um lábio no outro e ele apertava a mão direita no pulso esquerdo.
–Não irá me dizer nada? –Soltei. Minha voz era carregada de raiva, mas era sussurrada. Bianca DiAngelo, a francesa falsificada e irmã de Nico, havia acabado de sair do apartamento com seus passos firmes e rebolado exagerado. –Sua ‘‘noiva’’ acabou de sair daqui, falando aquilo tudo e você irá ficar aí olhando para mim com essa cara?
Ele bufou para mim e se virou, caminhou por sete passos e foi até a varanda ficando alguns instantes ali, observando a chuva caindo.
–Bianca é um problema na minha vida, sempre foi. Mas sem ela... –Ele pausou a fala e saiu da varanda, fechando a porta de vidro em seguida. –Eu teria uma desvantagem na Europa.
Eu o encarei novamente como se aquela fosse mais uma das suas desculpas esfarrapadas, meus olhos cinza ardiam de raiva por ter sido humilhada por uma morena descarada.
Não há como negar de que ele praticamente expulsou-me da casa dele e proibiu de me aproximar fora por culpa da chegada dela. Fora por culpa dela que ele tem se mantido afastado durante esse tempo, afinal ela haviam tomado todo o tempo dele. Deixando-me com o resto. Apenas o resto.
– Existe uma máfia que comanda toda a Europa, Annabeth. Os Shax mandam na Europa e na África, e eu não posso bater de frente com uma máfia dessas, Chase. Os Shaxes como são chamados e conhecidos coordenam cada venda e exportação de dois continente. Se eu quiser vende uma pedra sequer de crack ou um carregamento de cocaína, eu tenho que pedir permissão. Eu mando na América, mas é complicado ter minha vida e tudo o que eu construí ameaçado constantemente por esses Shaxes. Bianca é uma assassina de aluguel independente, não trabalha para mim, nem para o Shax, mas por morar na Europa e ter a fama que ela tem, eu tenho uma pequena vantagem com ela lá dentro.
Olhei Percy atentamente, ele não aparentava mentir, mas seu rosto tinha um desgosto profundo. Eu não era nenhum pouco inteirada sobre o assunto Máfias e companhias, então era complicado saber se era verdade ou mentira.
–Então. E o lance do casamento? Vai dizer que não tinha conhecimento de uma francesa com um rebolado que quer casar-se contigo? –Perguntei matando minha curiosidade, olhei para o chão e voltei a encarar.
–Eu já tive uma vida, Annabeth. E já realizei várias coisas durante meus anos de existência, mas uma boa parte não importa. Não mais. –Ele concluiu.
Vasculhei todo o cômodo e achei um pequeno e delicado quadro de flores e foquei minha visão ali, continha um fundo branco com três flores coloridas e um vaso preto. Era um pouco brega, mas era belo.
–Existe uma máfia que controla cada continente? -Soltei de repente, e Percy riu. Seu sorriso de divertimento, me deixou irritada e bufei.
Odiava parecer burra na frente dos outros, estupida o suficiente para isso e isso fazia meus nervos ferver. Burra suficiente para ter me metido nessa furada, burra suficiente por não passar na melhor faculdade de Arquitetura do país. Burra, estúpida. Inútil...
–É um pouco complicado. Olhando o quadro geral, Quinta Coorte é a máfia mais recente e a que mais conquistou poder nos últimos anos no quadro americano, mas é complicado bater de frente com o Shax que está há centenas de anos. Olhe... Reis bélicos, ingleses, franceses subiram ao poder com auxílio dos Shax. Hoje, eles são mais implícitos, mas seus atos são conhecidos e ninguém ousa tocar neles por causa da formação e da fragmentação. –Explicou Percy. Aparentemente, Shax eram uma máfia poderosíssima e complexa. E bem antiga.
Era bonito ver Percy falando desse jeito.
–O que você quer dizer?
–Quero dizer que eles funcionam como um governo, Annabeth. Eles tem dois conselhos, o conselho majoritário, que organizam tudo e, deixe me ver, existem dez opções para tal assunto, tudo bem? –Ele falou tentando fazer com que eu pudesse compreender. Fazendo-me bufar. –O conselho majoritário diminui essas opções e a repassar para o pequeno conselho, que por sua voz opina entre as opções nos prós e contras, e no final passa para o Inquisidor.
–Então, ele manda nos Shax?
–Sim, a família do Inquisidor geralmente é uma das famílias fundadoras; mesmo que os conselhos decidam mudar de Inquisidor tem que ser na mesma família, compreende?
Balancei a cabeça assentindo. Era de um complexidade enorme.
–Isso os torna totalmente fortalecidos, homens lá dentro morreria em prol da máfia. E isso é o oposto da Quinta Coorte, confesso. Eu e Nico temos um poder mais controlador, Nico nem tanto já que a questão administrativa nunca foi sua preferida, o que acaba deixando o peso pra cima de mim. Mesmo com Silena, não posso confiar algo que construi na mão de um conselho de traficantes. Imagine quem seria: Aphodite, a dona dos bordéis; Ares, o projetor de armas junto com Hefesto; Hermes, o hacker do governo. São pessoas que trabalham para mim, mas não são de minha confiança.
–Como você conhece tanto os tais Shax? –Questionei e ele suspirou.
–Quando eu morava na Europa com meu pai, ‘‘alistei-me’’ para trabalhar para eles. Mas, voltei para cá, mudei minha vida para melhor e de repente, retornei para o crime, dessa vez fundando a minha própria máfia com Nico e Silena.
–Quem comanda os Shaw?
–Voce está me perguntando quem é o Inquisidor, na verdade. Eu não me recordo do sobrenome, mas o nome é Frederick.
–O que você quer fazer com os Shaw? –Perguntei, aquilo era muito mais complicado do que eu pensei. Era uma roubada, isso sim!
–Eu quero derrubar, Frederick e os Shaw e tomar o poder para mim, simples. –Ele respondeu com convicção, em seguida saiu da sala em passos largos.
***
Aquilo era muito complicado e eu não estava preparada para lidar com isso. Eu não vou conseguir lidar com isso. Eu não posso ser esposa de um cara que, aparentemente, não medirá esforços para derrubar uma máfia.
Deus sabe o que Perseu já fez para obter poder. Na busca por algo grandioso. Eu estremeci. Iria dividir a cama e compartilhar segredos e planos com um homem desses? É inegável sua beleza, assim como deve ser inegável sua crueldade e frieza, apesar de nunca sequer ter vistos seus atos, mas acho complicado ele ter subido ao poder com algo legalizado!
Bordeis, assassinatos, narcotráfico. Era a base da máfia dele, tudo que qualquer ser humano sente repulsa. Quem quer se casar com um traficante? Levando a vida implorando para que nada de ruim aconteça, para que a polícia não bata na sua porta ou para que nunca chegue nos seus ouvidos a notícia que ele está morto. Quem quer a filha como mulher de dono de bordeis, ou assassino psicótico?
Ninguém em sã consciência.
Eu sou apenas uma adolescente se achando uma adulta. Tenho apenas dezessete anos. Eu não vou conseguir lidar com tudo isso. Tanto roubo, sangue e morte.
É inegável as perguntas, assim como as respostas são claras. Pelo tom, Perseu não irá retroceder, e eu posso ter tantas coisas, como disse Bianca.
Eu poderia me formar, voltar para a Califórnia, ter uma vida medíocre e casual. Eu não preciso arriscar tudo por uma aventura que, provavelmente, acabará em morte.
–Não me diga que você está chateada por causa da louca da Bianca e sua abobrinha? Eu não irei me casar com ela, eu não irei me casar com ninguém a não ser que eu queira. Então, entenda isso e supere! –Ele falou retornando para a sala, dessa vez de terno. Os cabelos negros estavam bagunçados e ele parecia não perceber. Seus olhos brilhavam em uma intensidade que mais parecia duas esmeraldas azuis.
–Eu tenho que superar? Você praticamente me expulsou da sua casa porque sua noiva estava chegando, me trancafiou aqui dentro, prometeu a mim mares e rios e olhe só... Estou trancada em um apartamento, minha empregada é uma ex-prostituta, o cara que eu transo é um mafioso que não me diz uma coisa clara.
–E me diga: O que você quer? Você não é nenhuma Michelle Obama da máfia. Silena até pode ser, mas você não. –Ele rebateu e eu fechei meus pulsos, ah como que queria ter uma armas nas minhas mãos para dá um tiro na cabeça desse filho da puta. -Você está aqui a nem sequer meses e quer o quê? –Ele gritou irritado em uma expressão furiosa. –Eu não irei me abrir com uma garota de dezessete anos que não sabe nada sobre o mundo. Tenha piedade!
–Agora sou uma garota de dezessete anos?! Tenha piedade você. –Esbravejei gesticulando com as mãos. Ele se aproximou de mim, deixando nossos corpos bem próximos. –Eu não irei ser alguém que irá ficar te esperando todas as noites para transar, Perseu! Eu não quero ser esse tipo de pessoa. –Sussurrei a última parte, e me encostei na parede.
Ele sorriu de um modo perturbador e eu engoli seco, a mão dele voou para meu pescoço apertando-o com força. Trancando minha respiração.
–Voce será o que eu quiser, ou ainda não aprendeu isso? –Ele sussurrou enquanto eu sentia a dor que a escassez do oxigênio causava em meu corpo. Tossia desesperadamente. -Se você não aprendeu, acho que já sabe... –Ele completou, soltando meu pescoço. Respirei o ar, trazendo para meus pulmões o oxigênio que entrou rasgando no meu corpo. Sentir uma imensa vontade de chorar, e meus olhos ardiam como se tivesse jogando pimenta neles. Mas, eu não iria chorar na frente dele.
–Eu... Não quero mais isso. Eu quero... Ir para casa. –Soltei com palavras tão baixas, praticamente sussurradas.
–Voce não irá para nenhum canto. –Ele respondeu no meu ouvido. –Irá continuar aqui até segunda ordem. E não tente me desobedecer, Annabeth... Afinal, você sempre soube quem eu era e onde estava se metendo. Boa noite, Annabeth Chase.
–Por favor, deixe-me ir para casa. –Implorei.
Ele sorriu de um jeito sádico para mim, um gesto perturbador e malicioso.
–Ainda não.
Eu guardei o ar dentro de mim, e suspirei evitando o choro. Ele deu um sorriso torto, o típico sorriso de Perseu Jackson, e saiu da sala.
Aonde eu tinha me metido? Eu tinha colocado minha vida nisso, acreditado na ‘‘bondade’’ dele e em uma ambição do tamanho estrondoso e agora... Isso.
Ele saiu batendo a porta com brutalidade, esperei até ouvir o barulho do elevador fechando, então chorei.
Chorei por Deus sabe lá quanto tempo, sentada no canto da porta implorando para ter uma segunda chance. Sentia ainda o toque das mãos do Percy no meu pescoço, no momento não sentia nenhuma fome, nem sede, nada que pude enganar a dor. Não sei o que o destino reserva a mim, mas pela dor que sinto ao redor da garganta não deve ser coisa boa. Segurei minhas mãos uma na outra enquanto lágrimas quentes desciam dos meus olhos. O que me faz pensar que Percy só estava me iludindo nas últimas semanas no momento em que eu me entregava para ele.
Eu, que tolamente acreditei que o homem que me salvara das garras do urubu do Luke, seria melhor para mim com seu caráter e então isso. Sai das garras de um urubu e fui para um falcão sanguinário.
A luminária piscava lentamente e eu chorava cada vez mais, arrependida mortalmente de tudo que havia me acontecido. Por fim, depois de horas ou minutos de agonia interna, eu cedi ao pedido das minha pálpebras e o cansaço de meu corpo, dormindo ali no chão frio da sala, a três passos da porta da frente.
Fale com o autor