Ukiyo-e

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Essa fic é o meu presente do amigo secreto da comunidade TMJ - FanWorks para a Gloss.
Espero que goste, boa leitura!

Era mais um daqueles domingos tediosos onde, não importa o que você faça, o dia parece simplesmente não passar. Marina estava entediada, jogada no sofá, assistindo pela milésima vez aos DVDs de um de seus seriados favoritos. Havia telefonado para todas as suas amigas... Nenhuma delas podia sair — já que, aparentemente, estavam trabalhando num projeto de grupo enorme, que valia ponto em todas as matérias. Franja estava viajando. Os meninos da turma estavam no jogo de futebol de domingo. Não havia saída para aquele tédio descomunal.

Repetia para si mesma todas as falas da série. Já sabia de cor todos os episódios. Suspirou, desligou o DVD e foi para a cozinha fazer mais pipoca. Pegava o pacote de milho quando ouviu o chamado de sua mãe.

— Marina!? Vem me ajudar a limpar a garagem!

E agora mais essa!

— Que domingo perfeito — resmungou enquanto saía para o jardim.

O portão da garagem estava aberto, com caixas e mais caixas espalhadas; sua mãe as abria, dava uma olhada em seu conteúdo e partia para a caixa seguinte. Parecia que ela queria bagunçar mais a garagem ao invés de arrumá-la. Deixar aquilo tudo em ordem daria um trabalhão.

Marina voltou-se para as caixas do lado de fora, pegou umas três das mais leves e as trouxe para dentro. Eram brinquedos de quando era pequena, roupas velhas, coisas antigas que estavam na família por muitas gerações... Folheava alguns cadernos antigos quando sua mãe, mais uma vez, a chamou.

— Olha que interessante, Má!

Dona Alice abria um rolo feito de papel fino, muito antigo. A folha de papel não era muito grande, e havia nela dois furos pelos quais passava um barbante vermelho. Alice espanou a poeira que cobria a imagem.

— É uma pintura!

— Nossa, que bonito... — Marina murmurou.

A imagem era delicada e, ao mesmo tempo, bastante sólida. Uma mulher desenhada de modo a encarar o observador dançava com dois leques, seu quimono e seus cabelos soltos formando padrões curvos de estranha beleza. Os olhos da mulher eram um espetáculo à parte; apesar de parecerem apenas dois pequenos riscos, tinham um brilho estranho e incrivelmente atraente.

— É uma pintura Ukiyo-e. — explicou a mãe de Marina — Antigamente eram muito comuns na região de Edo, eram feitas através de xilogravura. Deve ter sido trazida quando nossos ancestrais vieram do Japão.

— Ela é... Impressionante...

Marina passava os dedos delicadamente pela pintura. Toda a imagem irradiava movimento e poder.

— Tem alguma coisa escrita aqui, Má. Tira a mão pra eu poder ler...

No canto da imagem haviam alguns kanjis. Dona Alice tentou ler, sem sucesso.

— A caligrafia está estilizada demais. Só deu pra eu entender esse kanji aqui — ela apontou — \"Desejo\".

— Desejo...

Seguiram-se minutos de silêncio. Alice voltou-se para outras caixas, enquanto Marina continuava a contemplar o papel.

— Marina, minha filha. Marina. Marina!

— Ah, oi, mãe...

— Nossa, você realmente gostou dessa pintura, não é?

— Sim — Marina sorriu levemente — Ela tem uma emoção... Uma energia... Que eu não sei explicar.

— Se gostou tanto, leva pra você. Pode por no seu quarto.

Marina sorriu largamente, deu um beijo na mãe e voltou para dentro. Subiu a escada de dois em dois degraus, ansiosa por chegar ao seu quarto; abriu a porta com força e pendurou a pintura Ukiyo-e num pequeno prego que havia afixado há um tempo atrás, para um quadro que não deu muito certo.

Olhou nos olhos da mulher mais uma vez. Ela parecia imponente, perigosa em sua elegância. A capacidade das pinturas de incutir nas pessoas os mais diversos sentimentos era algo que jamais iria deixar de causar em Marina uma profunda admiração. Era aquele tipo de efeito que ela sempre buscava alcançar em suas imagens, aprimorando-se cada vez mais, para que seus desenhos e suas pinturas causassem uma gama de reflexões através dos sentidos dos seus observadores.

— Desejo...

Seus pensamentos voltaram-se para o kanji escrito no papel antigo. Ela sabia que existiam várias coisas que ela desejava. Queria que suas amigas e seus amigos tivessem mais tempo para ela. Queria que Franja lhe desse mais atenção. Queria que seus trabalhos fossem mais reconhecidos e admirados. Queria também não ter que ajudar a mãe naquela droga de faxina da garagem.

Suspirou. Tantas coisas que queria e que, provavelmente, não poderia ter...

Subitamente ouviu um estrondo vindo do lado de fora, seguido de um grito da mãe.

— Mãe! — Marina chamou, descendo as escadas.

Chegando à garagem, encontrou Dona Alice meio encoberta por algumas caixas. Correu a tirá-la dali, antes que perdesse o fôlego devido ao peso dos conteúdos empacotados; na perna de sua mãe, havia um corte profundo.

— Está tudo bem, querida — Alice arfou — Perdi o equilíbrio quando fui puxar aquela caixa ali de cima. Estava mais pesada do que eu imaginei...

As duas foram até a sala, com Marina ajudando a mãe a andar. Após Alice fazer um curativo, as duas sentaram-se no sofá.

— É, acho que a faxina da garagem vai ficar pra outro dia — Dona Alice riu. — Não deve ser nada de mais esse corte, mas é melhor eu não me esforçar tanto hoje. Bom, as caixas podem aguentar mais uns dias...

As duas ligaram a TV, zapeando pela tediosa programação de domingo. Era realmente uma pena suas amigas estarem ocupadas...

O telefone tocou. Marina prontamente inclinou-se para atender.

— Alô?

— Má? Aqui é a Mônica!

— Mô? Tudo bom contigo? Aconteceu alguma coisa?

— Não — Mônica riu — A gente só queria saber se você queria sair com a gente!

— Claro que quero! Mas... vocês não tinham um trabalho em grupo pra fazer?

— Tínhamos, mas sabe o que é...? De repente bateu um cansaço tão grande. A gente conversou e decidiu que era melhor sair um pouquinho pra espairecer e depois voltar pra fazer.

— Mas Mô, — Marina ainda tentou argumentar — O prazo não é amanhã? Vocês já estão adiantadas no trabalho?

— Na verdade a gente não começou ainda — Mônica riu mais uma vez — Mas não tem importância, tenho certeza de que conseguimos terminar a tempo! Vamos no cinema, vamos?

— Bom, se você diz...

Marina subiu para seu quarto, arrumou-se e se despediu da mãe. Parecia muita irresponsabilidade das meninas, mas ainda assim... Se elas diziam que estava tudo bem... As quatro — ela própria, Mônica, Magali e Denise — se divertiram a valer. O filme era ótimo, o lanche estava delicioso, as quatro haviam seguido para a casa de Marina, onde sua mãe estranhamente não havia surtado por ela ter trazido convidadas sem aviso prévio. No entanto, uma sensação de que algo estava errado não abandonava Marina. Não conseguia rir das fofocas de Magali como as outras duas; torcia nervosamente cachos volumosos de seu cabelo. — Aí eu disse pro Quim: \"De jeito nenhum!\" e ele ficou me olhando com aquela cara de-- — Magá, meninas, a conversa está ótima, mas... Já são dez da noite! Não é melhor vocês irem terminar o seu trabalho? Magali, Denise e Mônica se entreolharam. — Bom, fófis, se é isso que você quer... — Denise replicou. As três despediram-se e foram embora. Marina arrumou a sala para sua mãe, que foi deitar-se mais cedo por causa da dor na perna, e logo depois foi dormir também. Lançou uma última olhada para a nova pintura em sua parede e virou-se, tentando distrair-se de alguns pensamentos muito estranhos. Não, aquelas coisas não seriam nem possíveis. No entanto, ela mergulhou em um sono inquieto, com a sensação de que algo muito errado estava acontecendo. Ao chegar no Colégio do Limoeiro, no dia seguinte, surpreendeu-se ao ver Magali, aos prantos, sendo consolada por Mônica e Denise, que também pareciam abatidas. — Meninas! O que aconteceu!? — Bom dia, Marina... — suspirou Denise — Ou não tão bom assim, sei lá, fófis. — Oi, Má — Mônica a cumprimentou, também um pouco chorosa — A Magá tá chorando por causa do projeto. \"Ai, caramba\", Marina pensou. — Foi tão ruim assim? Mas vocês não saíram direto da minha casa pra fazer? — Saímos, amiga. Mas sabe como é, né. Quando deu meia-noite, a gente já tava no pó da rabiola. Não deu pra fazer muita coisa, a gente não conseguiu dar o virote... Acordamos cedinho pra ver se dava pra adiantar mais uma parte, só que ficou tudo armengado. O prófi de Ciências deu o maior piti e é por isso que a Magá tá assim. — Denise explicou. — Ai, que ódio! — Magali choramingou — Eu nunca tiro nota baixa, ainda tirar por causa de uma besteira, uma irresponsabilidade dessas! Marina, por que você não mandou a gente embora mais cedo!? — Magá, fofa, não faz a louca. Não tem nem porque jogar a culpa pra cima da pobre da Mamá, né? A coitada é quem tem menos culpa nesse babado todo. Mamá, não liga pra Magá não, tá? — Denise voltou-se para Marina, diplomática — A Magá tá toda estressada, mas já-já passa. Vou levar ela e a Mô no banheiro pra lavar o rosto, garanto que elas melhoram rapidinho. Denise saiu, puxando Magali e Mônica, que a essa altura estava aos prantos também, em direção ao banheiro feminino. — Caramba... Marina decidiu seguir para a sua sala. Afinal, nada daquilo tinha sido culpa dela, não? As meninas que tinham sido irresponsáveis. Sentou-se em sua carteira de sempre, preparando-se para mais uma aula chatíssima de Química... E hoje sem Franja para lhe mandar mensagens ou esperá-la na saída, já que ele ainda devia estar na viagem do Clube de Robótica. Qual não foi sua surpresa quando seu namorado em pessoa apareceu na porta da sala? — Franja! — ela levantou-se, rezando para o professor chegar — O que você está fazendo aqui!? Você não tem faculdade hoje? Espere aí... E o Clube de Robótica? — Perdemos nas eliminatórias da competição — ele sorriu com tristeza — Matei a primeira aula porque precisava te ver, amor. Vou te esperar na hora da saída, tá? Ele a beijou de leve nos lábios e saiu. Marina foi sentar-se novamente, ainda espantada e emudecida, agradecendo a todos os santos por seu professor não ter aparecido ainda. No horário da saída, Franja realmente estava lá. Recostado no portão, sorrindo para ela. Ela caminhou em sua direção quando foi parada por um menino de sua turma. — Oi, Marina! — Oi, Caio... — Marina, tem como me emprestar o seu caderno de História? Eu faltei aula passada e perdi matéria que vai cair na prova... — Claro, Caio — ela sorriu e lhe entregou o caderno — Pode copiar a matéria e me entregar amanhã, tá? — Valeuzão, Marina! Ela voltou-se novamente para Franja, mas ele não estava mais sorrindo. — Quem era esse cara, Marina? — Um colega, amor — ela respondeu, inclinando-se para beijá-lo, mas ele a segurou, impedindo-a. — Não gostei da resposta. Quem era esse cara, Marina? O rosto de Franja parecia vagamente ameaçador. Marina espantou-se; Franja não era nem um pouco ciumento, de fato, na maioria das vezes, ela gostaria que ele se importasse um pouco mais com ela. — Era o Caio, ele é um cara da minha sala. Não converso muito com ele, ele só queria meu caderno de História emprestado pra copiar a matéria. — Não gostei nada disso — Franja replicou, com a testa franzida — Marina, me escuta. Eu te amo muito. Muito mesmo. Você é minha, tá? Você é minha vida. Não quero nenhum desses carinhas se engraçando pra cima de você. — Calma, Franja! Eu sei que um pouquinho de ciúmes é fofo, mas não precisa exagerar... — Tá bom. Eu já disse o que eu queria, morreu o assunto agora. Vamos? Geralmente os dois passavam a tarde estudando juntos, ou na casa de Franja ou na de Marina. Eles terminavam suas tarefas e depois alugavam um filme, jogavam videogame ou simplesmente conversavam. O encontro do dia seria na casa de Marina. Os dois almoçaram em silêncio, com Franja a observando fixamente, estudando cada um de seus movimentos. Isso era estranho. Geralmente eles conversavam sobre tudo e sobre todos enquanto comiam. Aquele comportamento pouco usual do seu namorado a estava incomodando. O soar da campainha foi providencial, ao menos na opinião de Marina. Ela pulou da cadeira para atender, ávida por escapar da atmosfera sufocante da mesa. — Marina! — Ah, oi, Caio! — Desculpa te incomodar no meio do almoço, mas você me deu o caderno de Matemática por engano e... — Não tem problema — ela sorriu — Aqui, toma o caderno de História. — Valeuzão, Marina! Até amanhã na aula! Marina ainda acenava para o colega, fechando a porta, quando sentiu a mão pesada em seu ombro. — Aquele cara tava fazendo o que aqui!? — Eu entreguei a ele o caderno errado, Fran — Marina replicou rapidamente, suando frio. As reações exageradas do namorado estavam começando a assustá-la. — Ele veio aqui pegar o caderno com a matéria cert-- — Fica quieta! — gritou Franja, empurrando-a contra a porta e segurando firme — É mentira sua, não é? Não tem caderno errado nenhum! — Franja, eu juro, eu juro que tinha entregado o caderno de Matemática por engano! Tá aqui, ó, na minha mão! — ela estendeu a mão para mostrar o grosso caderno, tremendo violentamente — Pior ainda! — ele a segurou pelos ombros, sacudindo-a. — Você entregou errado de propósito, só pra ter um motivo pra falar com ele de novo, não é!? Confessa! CONFESSA! — Franja, você tá maluco! Sai daqui! Me dá um tempo! — ela o empurrou com toda a força que tinha, lutando para libertar-se da pressão que ele estava exercendo sobre seu corpo. — Se você vai me desafiar — ele sussurrou, ameaçador — vou lhe fazer pagar caro por isso. Tudo aconteceu muito rápido. Marina mal conseguiu ver o clarão da luz se refletindo na grande faca da sua mãe. Instintivamente desviou-se e a facada, que seria fatal, atingiu o seu ombro. A ferida ardia e Franja continuava a investir com a faca; Marina chorava de medo. Franja pulou sobre ela, prensando-a no chão e prendendo seu torso. Ele mirava em seu pescoço, os olhos vidrados e sem expressão. — Franja — as lágrimas escorriam livremente pelo seu rosto — isso vai doer mais em mim do que em você. Marina reuniu todas as suas forças e chutou-lhe no estômago. Ele contorceu-se de dor e ela aproveitou-se da distração momentânea para golpeá-lo na nuca com o cotovelo do braço bom. Todos aqueles anos de artes marciais finalmente pareciam valer a pena. Ela correu escada acima, trancando-se em seu quarto, arfando. Seu coração batia forte em seu peito. Ela tentou desesperadamente concentrar-se e pensar claramente no que fazer. Sentou-se em sua cama, apertando a ferida em seu braço, que ainda sangrava. Ergueu os olhos. A pintura ukiyo-e a encarava. — Desejo... Batidas fortes e altas vieram da porta. — Abre a porta, Marina. ABRE. — Não... — ela soluçou — O que está acontecendo...? Ele não é assim... Os olhos da pintura pareceram lampejar por alguns segundos. — ...O quê? A pintura parecia divertir-se, até mesmo rir com escárnio. \"O que foi, Marina?\", era o que ela lia na expressão da mulher no quadro, \"Não era isso que você queria?\" — É claro que não era o que eu queria! É claro que... — ela parou, subitamente compreendendo. — Foi você, não foi? Você fez minha mãe se machucar pra parar com a faxina da garagem! Você fez minhas amigas perderem o juízo e largarem o trabalho sem nem começar pra saírem comigo! Você fez o meu namorado enlouquecer pra me dar mais atenção! A CULPA É SUA! As batidas na porta tornavam-se mais fortes e insistentes, com um quê de impaciência. — ABRE, MARINA. ABRE AGORA! — Mas saiba que não é isso que eu quero! Não quer ter as coisas que desejo se isso significar que as pessoas que eu amo vão se machucar ou se prejudicar! Não vou permitir isso... NÃO VOU PERMITIR! — MARINA! Um forte rangido e barulho de madeira quebrada alertaram-na de que Franja provavelmente estava tendo sucesso nas tentativas de quebrar a porta. Ela vasculhou as gavetas de sua escrivaninha freneticamente; não tinha tempo a perder. — Achei... Puxou um vidro de nanquim e um grosso pincel oriental de caligrafia. Os rangidos e barulhos da porta sendo destruída continuavam, compassados. Ela puxou o papel da parede e o apoiou no chão. Freneticamente molhou o pincel e, com um risco certeiro, cobriu os olhos da pintura. Continuou riscando a mulher, cobrindo o seu rosto, manchando o seu kimono e transformando os leques em poças de nanquim. Escorregou, ainda arfando, para o chão. Ajoelhou-se, as lágrimas ainda escorrendo. O barulho havia cessado. Estava acabado. Mas ela, pelo resto da vida, teria um cuidado redobrado com o que desejasse.
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