Uivar
1 Prólogo - Uivar
Notas iniciais
➸ Ouviu-se um uivo.
Seguido-se de outro, e mais outro, e mais outro.
Todos os caninos da simples residência uivavam ou ensaiavam latir.
Os livres cabelos cor de cobre sacudiam, no mesmo compasso que o vestido, e as duas mãos que seguravam a barra do mesmo perto do peito. Pés ligeiros corriam para saber. Afinal, oque estava acontecendo com os afoitos animais?
Quando finalmente saiu pela porta pesada de madeira e entrou no jardim, esbaforida, eles já haviam todos se calado completamente. Verificou Faora, Idia, Ysma… Nenhum dos seis cachorros apresentava quaisquer problema.
Mesmo assim, talvez pela corrida despreparada e de supetão, sentia alguma coisa em seu peito, algo como ansiedade. Optou por ignorar e voltar aos afazeres do final da tarde, Dona chegaria em breve, junto com sua tempestade de reclamações acumuladas no dia-a-dia frustrante.
Suspirou cansada pelo pensamento.
Assim, a pequena deixou os cachorros de diversos tamanhos e raças para trás, junto com a garota de olhar feroz cor do céu que se escondera entre as uvas a poucos metros da porta.
➸ O sol se escondeu, se despedindo com uma pequena obra de arte deixada em tons de laranja no céu. Parecia um pedido de desculpas para a pequena, pois tanto ela quanto a estrela sabiam que os dias de paz estavam a se esgotar segundo por segundo, sabiam que Dona estava chegando.
As pedras rolando anunciavam a carruagem chegando. Uma senhora com rosto cansado, cabelo cor de ouro envelhecido com o tempo, e vestido cor de terra saltou para o chão, já resmungando.
Mesmo se Dona voltasse muda para casa qualquer semana dessas, Sara ouviria a voz estridente reclamando mais e mais. Saiu da janela da cozinha e atravessou os cômodos o mais animada que podia.
–Finalmente apareceu, Sophy. Minhas malas estão lá fora, não fique me encarando com essa expressão irritante, vamos! — E se foi para dentro do quarto, onde provavelmente dormiria ruidosamente a noite inteira.
A pequena permaneceu em silêncio e obedeceu sua Dona, como sempre.
Mas a sensação pulsava ainda dentro de seu corpo, enquanto fitava o teto acima da cama onde ensaiava dormir.
Os cães voltaram a uivar.
Pouco antes do sol, a jovem cabelos acobreados se levantou, como de costume. Reclamou algo sobre o cansaço pela noite barulhenta; Suas pernas pálidas, cobertas pelo pijama branco levaram o restante do corpo, ainda sonolento, para fazer sua higiene e começar as tarefas diárias.
Já devidamente vestida, foi até o jardim que rondava a casa de madeira e procurou o regador na parede. Encheu-o, ali perto. Se dirigiu até as Damas-da-Noite, com seu vestido de nuvens de tempestade dançando com o vento matinal, e constatou alegre que estavam prestes a abrir, finalmente. Porém, não teve tempo de derramar água sobre as plantas.
Ouviu um alarmante barulho de um galho se partindo, seguindo de algo como um insulto reprimido.
Antes de qualquer reação — Que de forma alguma seria outra se não fugir — a jovem foi girada por um algo que puxou um dos braços bruptamente, sendo seguido pelo outro, mas ainda sim não conseguia ver que a segurava com tanta força. Antes de suas mão serem atadas completamente, lembrou-se que poderia reagir, e usou toda sua força para girar e tentar correr. Serviu apenas para tropeçar e cair, e então olhar diretamente para aqueles olhos que imitavam céu acima dos seus, e ter seu grito abafado.
– Vamos, sereia, temos uma longa jornada.
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